
segunda-feira, 22 de março de 2010
SEM TI - Giselda Medeiros
e fincaste estacas
em minhas profundidades.
Dançaste para mim a valsa
sob o pálio do arco-íris
na tarde que crescia.
Mordi o pêssego que me ofereceste
e, desde então,
fiz-me de ti peregrina,
fiz-me teu afoito bergantim,
tua nave viageira,
no luminoso azul que te dei.
Hoje, desfeito o azul,
tenho apenas sombras
e distâncias.
(Tempo das Esperas)
sexta-feira, 19 de março de 2010
E TU VIRÁS - Giselda Medeiros

noite de silêncios e tristezas
a pervagar nas canções dos andarilhos
que não têm para quem voltar.
É noite nas tímidas paisagens do luar,
no ciciar da brisa outonal
e na grande solidão das pedras.
E cresce a noite em mim,
em tudo,
como crescem os ais apaixonados
em seus lençóis de linho
tão branquinhos!
Ou os ais dos que se deram adeus
na tarde que se foi.
Mas não faz mal que a noite cresça...
Acenderei em mim
a branca luz do castiçal do amor,
e tu virás por ela,
entre ofuscado e amante,
beber da minha luz
e ouvir-me os versos que fiz.
Aí, então, cuidemos, meu amado,
que a noite será breve,
muito breve.
TROVAS - GISELDA MEDEIROS
É teu sorriso, querido,
ao se abrir com harmonia,
um sol maior sustenido,
na pauta azul da poesia.
Mentiras... Dize-as, não calas,
pois gosto delas. Deveras,
verdades de amor propalas
nessas mentiras sinceras.
O trovador vai, risonho,
a empinar, com arte nova,
pelos céus azuis do sonho,
as leves pipas da Trova.
Amei-te, amor, tanto e tanto...
Amei-te mais do que pude!
Tanto, tanto, que, hoje, o pranto
é a minha maior virtude...
] Da pátria do amor distante,
sem o brasão dos teus braços,
sou bandeira tremulante
no vazio dos espaços.
Meu amor, quando sorris
e quando me beijam, sábios,
teus lábios são colibris,
sugando o mel dos meus lábios.
Ser mulher é, com certeza,
trazer consigo os poderes
de, na aparente fraqueza,
ser o mais forte dos seres!
Talvez esses ais tristonhos
das ondas, sempre a chorar,
sejam lamentos de sonhos,
presos nas conchas do mar...
(Des)Espera - Giselda Medeiros
DEPOIS DE TI - Giselda Medeiros
depois que conheci o afago de teus dedos;
depois que revelei-te os íntimos segredos,
eu ando pela vida estranhamente louca.
Depois de ti, senti que a luz do sol épouca,
que os sonhos não são mais do que longos degredos,
que sou um oceano indômito, sem medos,
que vem beijar a areia em mansitude rouca.
Depois que desvendei o teu mundo submerso;
depois que descobri ser curta esta existência,
eu pus a eternidade em rimas no meu verso.
E quis te dar o tudo, além da brevidade
da vida, que é nada, do amor, que é essência,
para entregar-te, amado, intacta, esta saudade...
quinta-feira, 11 de março de 2010
O ENCONTRO DAS MÃOS - Giselda Medeiros

nossas mãos são como pássaros
querendo bicar o azul de um sonho adormecido.
A melodia do ar açoita-lhes as plumas,
macios desejos de voar.
Qual pássaro, tua mão pousa sobre a minha
e grita o silêncio que há em mim.
E eu querendo dizer-te da beleza das auroras...
Mas meu lábio mudo geme fagulhas de palavras,
para a lavratura do incêndio iminente.
De súbito, elas se erguem imantadas
e, atraídas, nossas mãos se juntam,
ajustam-se entrelaçadas.
Como pálpebras, vão-se fechando, lentamente,
conchas silentes,
na agonia do instante entre o gesto e o olhar
suspensos na palavra que não é dita,
mas sentida,
nos fragmentos dos espelhos
de nossa memória.
Então, trêmulas, uma na outra,
atiçam-nos as vértebras, músculos e nervos,
e sangram desejos
na geometria de nossos dedos unidos.
quarta-feira, 10 de março de 2010
CHAMAS - Giselda Medeiros

Derrama-se em brasas o sol morrente...
Há gritos de silêncio sobre a terra,
e a alma dos rios, silente, chora a vida
que morre entre as pedras submersas.
Pesado é o céu... E as aves agoureiras
descem as asas sobre a torre da matriz,
o rude bico, as penas eriçadas,
o canto mudo sofrendo na garganta.
No manto aflito do horizonte surgem
assustadas estrelas solitárias,
de brilho morno e, com olhos de surpresa,
espreitam tímidas a timidez da luz.
A noite segue em sua nave de mistério,
a negra mão a controlar as sombras,
a cabeleira densa sobre os montes
e o olhar a derramar-se nos caminhos
CANÇÃO DA ESPERA - Giselda Medeiros

Passas.
Teu vulto é um oásis
onde quero aprender
o ofício das areias
nas longas noites
em que as estrelas
fiam fios finos
de fluida luz.
Teus passos na tarde
ecoam ainda
em minhas manhãs,
alvacentas e lânguidas,
como o marulho das vagas
que ficaram para trás.
Mas passas,
indiferente e lento,
sobre meus anseios
com mãos enfeitadas de adeuses
a romper em flores
de esquecimento.
E passas tão perto de mim
e tão distante!
Não conheces o mapa
de meus arquipélagos
nem sabes da beleza
de meus profundos mares
onde há conchas e corais
em êxtase.
Talvez um dia
- um dia desses -
quando pisares as névoas
do meu tempo
e sentires pesar o teu tempo,
talvez, tu resolvas ficar
no tempo dos meus domínios...
domingo, 7 de março de 2010
A TI, MULHER! - Giselda Medeiros

O dom de excluir o estéril da vida,
de quebrar geleiras, lavrar sementes,
sofrer e amar em simbiose constante.
Sei que és capaz de abrir leiras de jardins
com tuas mãos de flores e de mármore.
Tornar o abstrato em concreto
no descanso de teus olhos de mulher.
Por trás do granito existe um rio de canções
que ensinas a teus filhos.
E eles cantam porque aprenderam de ti
que ao entardecer também há luz
nos olhos das estrelas.
E sei mais: que por amor
tornas gostoso o amargo do jiló
e que fazes nascer um sol indefinido
na escuridão dos eclipses da vida.
ANTIGÊNESE - Giselda Medeiros

E disse o homem:
Faça-se a minha vontade!
E poluiu as águas dos rios
e pôs veneno no caule das árvores
e pôs espelhos negros no fundo da alma
e pôs travancas no peito com chaves
e pôs muralhas no olhar das crianças
e pôs cimento no ventre da abelha
e pôs espadas na toca do amor
e pôs cortinas no altar da esperança
e pôs barragem na ilha da fé.
Depois de tudo isso
descansou nos braços da Morte.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
O TEMPO E SEUS MISTÉRIOS - Giselda Medeiros

O tempo, amado, é uma fina espada,
é um fluir constante de ilusão;
é um fremir de asas em revoada,
por sobre o pó do nosso coração.
O tempo, amado, é um carrossel de sonhos
desmantelados, rotos pelo chão;
é um galope de dragões medonhos
a vomitarem cinza em nossa mão.
O tempo, amado, é um rio caudaloso
a tremer silencioso em sua foz
para soltar seu grito ruidoso
sobre o oceano de nossa dor atroz.
O tempo, amado, é uma roda-gigante
que nos leva, em frêmito, abaixo e acima,
acima e abaixo, em volta circundante
sobre o estertor da dor que nos calcina.
Por isso, amado, é urgente que vivamos
este momento pleno de lirismo
antes que o pó a que nos destinamos
venha ceifar o nosso romantismo.
E vivamos como aquelas velhas árvores
altivas a exibir os frutos que gerarem...
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
BUSCA - Giselda Medeiros

Hoje quero tocar-te,
alcançar as dunas que circundam
a alvura de tuas praias.
Hoje queria ter
dedos insubmissos,
sentinelas destas mãos
que comandam a feroz audácia
de gestos indormidos.
Queria alongar-te pelo dorso manso
a inquietude de desejos secretos
até sentires a quentura gritante
da minha insaciável busca.
Sinto o tempo de amar,
o tempo de entrega.
Entanto, os meus olhos já se enublam
como um sol poente
nas águas sofridas de um rio.
E minha alma, cisne arisco,
já se inclina ante a miragem
do fogo de teus olhos.
Hoje queria tocar-te a superfície,
cadeia enervada de emoções.
Mas, que adianta!
Hoje é apenas um momento...
E o momento é breve como o canto
que te canto.
Depois... Somente a praia submersa
que se inclina
e o sol, pedaços de ânsias afogadas
na mansitude negra das águas.
TREVO- Giselda Medeiros
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Tua ausência
é como este exílio
que me detém
feito pássaro sem asas
feito rio sem a foz
feito árvore sem frutos.
Tua ausência
é como este verão
que me calcina
que me alucina
que matou a menina
que deixaste
perdida na mina
do abandono.
Tua ausência
é toda esta saudade
que me invade
que me alaga as margens
soletrando adeus
taciturna
muda
no silêncio desta noite
cartilha em que aprendi
que o amor é coisa que não passa
é o túmulo onde jaz
o travo do trevo
plantado em tua boca
de adeus.
ACRÓSTICO PARA MÁRIO BARBOSA - Giselda Medeiros

Ativo de uma vida abençoada
Ritual que Deus promove e nos concede
Irmos também em sua caminhada
Onde só vemos bênçãos e ternura.
Beijamos, Mário, tua fronte altiva
Agradecendo a Deus por nos ter posto
Risonhamente no teu mar da vida
Barco a buscar as praias mais amenas
Onde águas claras de sabedoria
São os faróis que há noventa anos vemos
A irradiar-se de tua fronte altiva!
Giselda Medeiros
23/7/2009
domingo, 21 de fevereiro de 2010
INTERAÇÃO - Giselda Medeiros

Buscas, além, no infindo espaço, aquela
que, em luz, te banhe a fronte esmaecida,
a fronte que se alteia e chora e vela
a amada estrela, a luz da tua vida.
Persegue-a com a exaustão que te esfacela
a rima, o canto, o choro, o verso, a lida,
até o vazio imenso – a sentinela
do sonho que, em teu peito, se lapida.
Assim, também, sigo buscando o amor,
aquele que à minha alma, alegre, cante
uma canção que transfigure a dor.
Não vês? Iguais, então, são nossas dores,
igual, nossa paixão eletrizante
em procurar a luz desses amores...
A CANÇÃO DOS ESPELHOS - Giselda Medeiros

Na lâmina dos espelhos
o teu olhar de beduíno
crestou-me os caminhos.
Os olhos vermelharam espigas
e espigas pariram grãos.
Na noite vigiei-te os passos
que iam e vinham
no doce mistério de secar os grãos
nesse intróito dos rituais
(lira incendiada de sol)
que a noite sonha conquistar.
Na lâmina dos espelhos
o meu olhar (harpa desafinada)
dilacerava-se em notas
para alimentar a canção andarilha
de tuas carnes
- ofertório, loucura, tempestade -
na noite do meu silêncio
posto na alvura das dunas
a refletir-se na lâmina dos espelhos...
Meus olhos ficaram cegos,
ficaram cegos os teus,
cúmplices da geometria
ambígua daquele adeus
A TRAVESSIA - Giselda Medeiros

Não sei onde deixei meu barco.
Na linha do horizonte, há teias que me confundem,
E há fuligem e pátina no cais onde me encontro.
Miro o oceano. Azul... Esmeralda...
Confundem-se em mim mar e firmamento,
Dor e alegria,
Melancolia e excitação,
Vontade de partir, desejos de ficar...
Mas, ir para onde?
Ficar, para quê?
De repente, o vento tange uma ária de Bach...
E, dispersas pelo espaço azul,
As nuvens dançam seu balé aéreo.
O passado distingue Isolda, O Lago dos Cisnes...
Principio a esvoaçar com as etéreas bailarinas,
Tão brancas e tão leves,
Tão únicas e múltiplas... sem começo, meio e fim.
Ah, saudades dos sonhos
Enfiados nas sapatilhas róseas!
Do brilho das finas saias,
Rodopiando, rodopiando...
E a bailarina, então, se alçava,
Quase levitando, livre, lépida, linda...
O vento. O vento me sacode...
A Realidade. A Travessia. La Traviata!
Meus Deus, a Travessia!
Ao longe, um barco...
Só de espumas é seu rastro.
Imóvel, o vejo sumir.
Não há mais rastro nem espuma.
Um ponto flutuante, apenas,
Longe, longe...
O Príncipe e sua Palavra - Giselda Medeiros

A ti, ó Príncipe da Poesia,
meu louvor, feito prece,
feito estrela, e arco-íris
no céu de nossa amizade.
Glória a ti, ó deus sagrado da palavra,
essa força dionisíaca,
que em ti habita e rumoreja,
para resplandecer bela
no coração de teus súditos.
Abençoado sejas, ó Príncipe
Divino da Poesia,
em todos os séculos dos séculos,
por saberes espalhar sementes da palavra
grávida de Poesia!
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
ESPAÇO VERMELHO - Giselda Medeiros

DA ROSA - Giselda Medeiros

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
ENTRE ANSEIOS E DESVELOS - Giselda Medeiros

E o tempo, que não pára, move os dedos
Lânguidos da palavra adormecida
Ao fremir silencioso do poema.
Somente para ti são meus desvelos...
E a folha branca que arde à minha escrita
Só fala desse mel posto em teus lábios,
O pasto onde se deitam meus anseios.
Somente para ti são meus desvelos...
E a poesia que escorre como sândalo
É a unção deste amor que me sustém.
Somente para ti são meus desvelos...
E tu, que és mar, jangada, onda e leme,
És âncora, também, dos meus segredos.
CANÇÃO EXTRAVIADA - Giselda Medeiros

Sou um rio que se vai
nas sombras – alimento – da paisagem
que escorre de meus dedos.
Minha voz é este verso
que carrego nas entranhas.
Com ele, expulso meus medos
construo sílabas na cartilha do Amor
ou rezo salmos à passagem dos mortos.
Com meu verso
velo o sono dos que se entregam a Eros
no desespero dos espelhos narcísicos
ou na obstinada esperança de Orfeu.
Com ele, coso a túnica dos sonhos
que resta, alva, entre solitários lençóis.
Meu verso é vento que se derrama
nos pórticos dos oráculos
e sabe o martírio dos surdos,
o desespero de Tântalo,
a perplexidade dos andarilhos
que não têm aonde ir.
Por isso, meu verso
é este tempo que não quer ruir
é esta linha que não se espanta
ante o martírio da pauta extraviada
pelo incêndio das horas metálicas
que interceptaram o som da nossa canção.
domingo, 14 de fevereiro de 2010
O QUE HÁ DE VIR - Giselda Medeiros

Aquele que há de vir ao meu encontro
deve trazer nas mãos o orvalho da manhã
para untar meus olhos de neblina.
Aquele que há de vir ao meu encontro
não há de ser nenhum deus e nenhum santo;
não será nem sol nem rei nem anjo.
Aquele que há de vir que seja apenas
um homem, simplesmente um homem pleno
de auroras, e de noites, e de céu,
de um céu azul, sem nuvens e tão limpo
que nele tatuemos nossos rastros.
Ó tempo, tu que vais indiferente
a tudo que meu peito cala e sente,
dize-me onde está aquele que há
de vir a mim cantando, simplesmente,
simples cantigas de embalar o amor,
simples cantigas de espantar a dor,
simples cantigas para eu sonhar
MINIPOEMA - GISELDA MEDEIROS
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
O BRINDE - GISELDA MEDEIROS

O sol esfrega os olhos
ainda úmidos de trevas
e desce para beber o vinho
na taça dos amores matinais
que sobreviveram ao espantoso combate
da noite em sua lascívia.
Amanhece...
Em agonia,
ergo a taça sonolenta do dia
e brindo ao vento,
esse dragão solitário,
que vem deitar em mim
suas promessas de cinza e pó.
Só.
O CORTEJO DO AMOR - GISELDA MEDEIROS
.jpg)
o amor passa por mim
com seu cortejo
de espantos.
Valsas pálidas
choram o Chopin
adormecido
em minhas pupilas
queimadas.
Passa por mim
com seu cortejo
de ausências.
Lento me acena
e passa
sem saber
que, em minhas margens,
deixou tatuada
a forma amorfa
do seu nome
feito punhal
a me cortar
o vazio da máscara.
POEMA DA RENASCENÇA - GISELDA MEDEIROS

Não quero a ilusória cor dos efêmeros prazeres
nem o indecifrável tom das ilusões de ontem
que fizeram adormecer-me a alma há tanto insone.
Não quero saber da lista imensa de deveres,
das apólices do tempo que ruiu sobre nossos desvelos
nem da mineração dos sonhos bons
muito menos da escuridão dos pesadelos.
Não quero provar o doce enjoento dos bombons da infância
tampouco da aflição da estrela azul em sua metamorfose.
Não quero saber do brinde nem da taça
esquecidos sobre a varanda do passado
nem do bulício do vento nas noites baças,
bordando mitos em nossas faces.
Não quero minerar no vácuo de um olhar esquecido
para a recuperação de estátuas mutiladas.
Mas quero, no veneno de um azul, envenenar-me,
injetar-me poesia na pupila adormecida
e renascer, à hora derradeira e múltipla, sem alarme,
de tuas mãos de artista, de anjo e de homem,
como o mais belo poema, que os tempos não consomem.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
POSSESSÃO - GISELDA MEDEIROS
Vejo-te no arátomos de fantasia
da distante ausência invisível.
Vejo-te na névoa
cambraia cinza
tecida pelas mãos de solidões gritantes.
Vejo-te latejante
no coração do mundo,
este armarinho de vivências incontidas
vermelho-sangue de ilusões e de ânsias.
Vejo-te no borbulhar da vida,
cadeia de pálidas emoções,
onde a tudo fere a lâmina do tempo.
E por ver-te assim
em tudo o que me cerca
é que te sinto estranha possessão:
o mito, o deus, o homem, o santo,
o espaço e a estrela
onde me perco
no imensurável caos de sonhos perdidos.
(Cantos Circunstanciais)
sábado, 6 de fevereiro de 2010
ONICANTO - GISELDA MEDEIROS

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
O POEMA - GISELDA MEDEIROS

RECOMEÇO - GISELDA MEDEIROS

Desfaço velhas bagagens.
Rasgo meus sonhos antigos...
Só para recomeçar...
Arrumo em novas malas
auroras e rosas brancas.
Fio um colar de poemas...
Só para recomeçar.
Depois de tudo refeito
a sal, suor, muitas lágrimas,
estando eu já pelo avesso,
não queres recomeçar...
(Tempo das Esperas)
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
VISÕES - GISELDA MEDEIROS
A manhã dorme em minhas pupilas.Ainda não me fiz sol para o teu encanto.
Ainda não me fiz asas nem vento
para impulsionar-te.
Surges de um modo tão teu: esquivo e tímido.
Nem trazes uma rosa para meu deleite
nem dizes palavra alguma
nem me acenas com a esperança de ficares.
Tudo em ti é mito;
tudo em mim é poesia.
Tuas mãos derramam brindes;
minhas mãos derramam estrelas.
Há pássaros engaiolados em teus olhos;
nos meus há liberdade de nuvens em travessia.
Trazes uma dor que brinca de esconde-esconde;
trago uma alegria insone que brinca de ciranda.
Somos cara e coroa de uma ilusão a dois:
quando sou, não és;
quando estás, não estou.
Mesmo assim, de quando em quando,
surges, meu cometa!
E o meu céu inunda-se de tua luz
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
TÃO JUNTOS

CANÇÃO AZUL

Quero esse azul, desnudo, orvalhado.
Com esse azul
farei uma canção tão bela
que até Orfeu a tomará
e seguirá pelos campos de Prosérpina
tangendo-a em sua lira
para encantar Eurídice.
Giselda Medeiros
(Cantos Circunstanciais)
RITUAL
SE TU ME QUERES

SONATA AO LUAR

domingo, 24 de janeiro de 2010

Giselda Medeiros
Estou atada à âncora do sonho.
Sonhar é meu ofício,
mesmo sobre abismos.
Eu sonharei
entre as frias espadas do sofrimento
e o voo do pássaro do amor.
Sonhar é meu ofício.
Mesmo no silêncio das tocaias,
na estreiteza das veredas,
entre o uivar dos cães da ignorância
e o leve palpitar da rosa entreaberta,
eu sonharei.
Sonhar é meu ofício.
Mesmo que as lâmpadas da fé se apaguem
e gritos firam minha alma
na dança macabra da dor com suas mãos de antílope,
eu sonharei um sonho tão grande e belo
como o mar sob o farol das estrelas.
Sonhar é meu ofício.
Sempre. E depois,
quando etérea substância me envolver,
eu sonharei, ainda assim,
nos versos que compus.
E quando os leres, cheios de mim,
eu estarei sonhando
na voz silenciosa dos poemas
que estarão cheios de ti.
(Tempo das Esperas)

Giselda Medeiros
Quando chegares
cansado das noites de vigília,
vem bater-me à porta.
Nesta soleira empoeirada,
encontrarás em pálido espanto
um coração tresloucado
sazonando de indormidas ilusões.
Um coração que não se mostra,
acorrentado qual Prometeu.
Vem. liberta-o da horrível solidão
(abutre que lhe carcome o sonho)
pois livre
há de tecer a lira
e reacender a pira
para a consagração, enfim, do amor.
(Cantos Circunstanciais)
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010


O Tempo varre o sótão do meu sonho,
limpa o telhado do meu pensamento,
refaz o alpendre branco, onde me ponho
a conversar, à noite, com o vento.
Não ouço nada, além do que deponho,
em voz sofrida, em lúgubre lamento
ao Tempo que, veloz, segue e, medonho,
vai dissipando os sonhos que acalento.
E fico, horas a fio, indiferente
a esse mister de desapropriação
que o Tempo em nossa vida, mudo, faz.
Depois... depois, o que resta na gente
é este vazio - a flor da solidão -
que se abre e não fenece nunca mais...
Giselda Medeiros
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
TOTAL PRESENÇAGiselda Medeiros
Ouves, acaso, no tanger do vento,
doce murmúrio que, em silêncio, tece?
Escuta, amor, pois é meu pensamento
que te procura, fértil, como a prece.
Sentes, acaso, naquele momento,
em que a manhã de luz se resplandece,
cair sobre teu peito um novo alento?
Sou eu, do amor, a te trazer a messe...
Pois nesse instante, amor, minha presença,
faz-se sentir em todos os lugares,
como teu sol, teu lar e tua crença.
Desperta, abre a janela e o espaço fita,
que eu estarei em tudo o que tocares
em tudo o que pensares, me acredita!
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Ah, como queria ter
no teu esplêndido corpo
um lugar só para mim
onde a música que ouvisse
Onde, em tardes sonolentas,
sibilos de amor houvesse.
Onde a ternura varresse
esses estúpidos tédios.
Depois um incêndio sonoro
de beijos, abraços mil
carbonizasse nossa alma.
Nossas cinzas voariam
pela amplidão deste mundo,
pelos espaços ao léu.
E lá, entre astros luzentes,
da lua roubando o mel,
seríamos mais do que amantes,
seríamos mais do que amados...
... seríamos o próprio céu.
Giselda Medeiros







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