sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

O NASCIMENTO DE JESUS EM VERSOS - POR VIANNEY MESQUITA

O NASCIMENTO DE JESUS*
(Lucas, 2, 1-14)

Jovem Chronos (Vianney Mesquita)

Factum est autem in diebus illis exiit edictum a Caesare Augusto, ut describeretur universus orbis.

O arauto do Imperador/O pergaminho descerra,/Com o fim de anunciar/A ordem que o edito encerra,/Mandando recensear/Os habitantes da Terra.

Naqueles dias saiu um edito por parte de Cesar Augusto, para ser recenseada toda a Terra.

De muito recenseamento/Foi Augusto ordenador./E do Lácio império imenso,/Sendo da Síria o gestor,/Quirino geriu o censo/Como seu governador.

Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino Governador da Síria.

Era costume do povo/Apresentar-se à contagem/Cada qual em sua cidade,/ Sem problema de estalagem,/Com pouca dificuldade,/ Evitando-se viagem.

E iam todos recensear-se, cada qual à sua própria cidade.

Nessa primeira estatística,/ Com José foi diferente:/ Tinha que, de Nazaré - / Pois de David procedente - / Ir até Belém, que é /Onde o Rei se faz semente.

Ora, José subiu também da Galileia, de Nazaré, até a Judeia, a cidade de David chamada Belém, 
por ser da casa e linhagem de David,...

Sendo cepa de David,/ José empregou a ideia/ De, com a esposa Maria,/Ir a Belém da Judeia,/ Onde se recensearia/ Cidadão da Galileia.

...a fim de recensear-se com Maria, sua esposa, que se achava grávida.

Nessa vilegiatura,/ Em dias de descansar,/ Quando em Belém se encontrava/ E estando o prazo a findar,/ Eis que a Virgem delivrava,/ Vendo o Pequeno aflorar.

E quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de Ela dar à luz, 
e teve o seu Filho primogênito,...

Envolveu o Nato em pano/ E não achando hospedagem,/ Recostou-se à manjedoura,/ De animais a albergagem/ Que a Humanidade entesoura/ Em tão ditosa passagem. 

...que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, 
por não haver para eles lugar na hospedaria.

Havia na região/ Alguns apascentadores,/ Os quais no chão pernoitavam,/ Como é mister dos pastores,/ Que depois se transformavam/ Em fiéis adoradores.

Na mesma região, havia uns pastores, que pernoitavam nos campos 
e faziam a guarda noturna do seu rebanho.

Porque o Anjo do Senhor,/ Juntamente à sua glória,/ Cercou-os de muita luz,/ Diz São Lucas na História/ Da Bíblia, que nos conduz/ E não nos sai da memória.

Apareceu-lhes então o Anjo do Senhor e a glória do Senhor cercou-os de luz,...

Temerosos de início,/ Mas a seguir se acalmaram./ Disse o Anjo: – não temais – / E, atentos, escutaram/ Uma narração veraz/ Que nunca mais deslembraram.

...e eles tiveram muito medo. Disse-lhes o Anjo: Não temais, pois vos anuncio 
uma grande alegria para todo o povo:

Falou ele: - nasceu hoje/ O Messias, Salvador,/ Em Belém lá na Judeia,/ Dos homens o Redentor,/ Cuja obra giganteia/ Enche a Terra de louvor.

Nasceu-vos hoje na cidade de David um Salvador que é o Messias Senhor!

Servir-vos-á de sinal/ Um sucesso inusitado:/ Em panos encontrareis/ Um Menino circundado,/ A quem vós adorareis,/ Pois traz o Verbo Encarnado.

Isto vos servirá de sinal: encontrareis o Menino envolto em panos 
e deitado numa manjedoura.

Louvando a Deus, num repente,/ Os contingentes sagrados,/ Anjos como iluminuras,/ Em telas ricas ornados,/ Deram glórias nas alturas/ E paz aos homens amados. 

De súbito, juntou-se ao Anjo uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo: 
Glória a Deus nas alturas e paz na Terra entre os homens do seu agrado.

Após esse Nascimento,/ Mudou o placard da partida,/ Transformou-se o coração,/ Transmudou-se a nossa lida,/ Que agora tem por missão/ As glórias da outra vida.

Não há nada nesta estrofe, a não ser ilações lógicas de qualquer crente 
acerca do nascimento, vida, paixão e morte de Jesus Cristo, 
que esteja explícito na Sagrada Escritura.


* Extraído de ... E o Verbo se Fez Carne – textos bíblicos em versos (Sobral: Edições UVA, 2004), com Nihil Obstat de Dom José Antônio Aparecido Tosi Marques, arcebispo metropolitano de Fortaleza, datado de 27 de setembro de 2003.  Os escritos em corpo menor e recuados representam a letra exata do Evangelho de São Lucas, de 2, 1-14, que o poeta transferiu com fidelidade verbal para a grade métrica das sextilhas com versos de sete sílabas – seis estrofes isossilábicas e heterorrímicas no sistema de rimas ABCBCB.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

UM POEMA DE NATAL QUE CARREGA UMA REALIDADE GRITANTE



EU NÃO GOSTO DE VOCÊ, PAPAI NOEL!...

ALDEMAR PAIVA

 Eu não gosto de você, Papai Noel! 
Também não gosto desse seu papel
de vender ilusões à burguesia.
Se os garotos humildes da cidade
soubessem do seu ódio à humildade,
jogavam pedra nessa fantasia.

Você talvez nem se recorde mais.
Cresci depressa, me tornei rapaz,
sem esquecer, no entanto, o que passou.
Fiz-lhe um bilhete, pedindo um presente
e a noite inteira eu esperei, contente.
Chegou o sol e você não chegou.

Dias depois, meu pobre pai, cansado,
trouxe um trenzinho feio, empoeirado,
que me entregou com certa excitação.
Fechou os olhos e balbuciou:
“É pra você, Papai Noel mandou”.
E se esquivou, contendo a emoção.

Alegre e inocente nesse caso,
eu pensei que meu bilhete com atraso,
chegara às suas mãos, no fim do mês.
Limpei o trem, dei corda,
ele partiu dando muitas voltas,
meu pai me sorriu e me abraçou pela última vez.

O resto eu só pude compreender quando cresci
e comecei a ver todas as coisas com realidade.
Meu pai chegou um dia e disse, a seco:
“Onde é que está aquele seu brinquedo?
Eu vou trocar por outro, na cidade”.

Dei-lhe o trenzinho, quase a soluçar
e como quem não quer abandonar
um mimo que nos deu, quem nos quer bem,
disse medroso: “O senhor vai trocar ele?
Eu não quero outro brinquedo, eu quero aquele.
E por favor, não vá levar meu trem”.

Meu pai calou-se e pelo rosto veio
descendo um pranto que, eu ainda creio,
tanto e tão santo, só Jesus chorou!
Bateu a porta com muito ruído,
mamãe gritou ele não deu ouvidos,
saiu correndo e nunca mais voltou.

Você, Papai Noel, me transformou num homem
que a infância arruinou, sem pai e sem brinquedos.
Afinal, dos seus presentes, não há um que sobre
para a riqueza do menino pobre
que sonha o ano inteiro com o Natal.

Meu pobre pai doente, mal vestido,
para não me ver assim desiludido,
comprou por qualquer preço uma ilusão,
e num gesto nobre, humano e decisivo,
foi longe pra trazer-me um lenitivo,
roubando o trem do filho do patrão.

Pensei que viajara,
no entanto depois de grande,
minha mãe, em prantos,
contou-me que fôra preso
e como réu, ninguém a absolvê-lo se atrevia.
Foi definhando, até que Deus, um dia,
entrou na cela e o libertou pro céu.

sábado, 14 de dezembro de 2019

É NATAL! RELEMBREMOS ESSE POEMA DE COELHO NETO.

FELIZ NATAL PARA VOCÊ, MEU CARO LEITOR!





OS TRÊS REIS MAGOS
Coelho Neto

Diz a Sagrada Escritura que, quando Jesus nasceu,
No céu fulgurante e pura uma estrela apareceu.
Estrela nova, brilhava mais que as outras... porém,
Caminhava, caminhava, para os lados de Belém.

Avistando-a os Três Reis Magos disseram: "Nasceu Jesus!"
Olharam-na com afagos, e seguiram a sua luz...
E foram andando, andando, dia e noite a caminhar...
E viam a estrela brilhando, sempre o caminho a indicar.

Ora, dos três caminhantes, dois eram brancos...
O sol não lhes tisnara os semblantes, tão claros como o arrebol...
Era o terceiro somente escuro de fazer dó,
Os dois seguiam adiante, e ele afastado e só...

Nascera assim negro e tinha a a cor da noite na tez...
Por isso tão triste vinha... era o mais feio dos três!
Andaram até que um dia, da jornada o fim chegou.
E sobre uma estrebaria a estrela errante parou...

E os Magos viram que, ao fundo, do presépio, vindo-os vir,
O Salvador desse mundo estava lindo a sorrir...
Ajoelharam-se, rezaram, contritos postos no chão,
E ao Deus-Menino beijaram a alva e pequenina mão...
E Jesus os contemplava, a todos com o mesmo amor,
Porque olhando-os não notava, a diferença da cor!