quarta-feira, 27 de novembro de 2013

REMEMORANDO LUSTOSA DA COSTA



Lustosa da Costa – muito mais que Jornalista
 Giselda Medeiros


              Stendhal, mestre do romance psicológico, diz-nos que “um romance é como um arco de violino. E o corpo do violino, que ressoa, é a alma do leitor”. Efetivamente, um não se completa sem o outro e, por isso, é que dizemos, após concluída a leitura de Vida, Paixão e Morte de Etelvino Soares (São Paulo: Editora Maltese, 1996), sentirmo-nos, assim, vibrando, os que perlustramos as páginas plenas de inquietação e serenidade, de realismo e ficção, de amor e ódio, páginas inesquecíveis desse romance, cujo título traz o cinzel da inteligência do jornalista Lustosa da Costa; título dado, não “pomposamente”, mas  guardando-lhe a sugestiva dimensão emocional.
              A matéria-prima de que se serviu o obreiro foi (re)buscada nos corredores tortuosos da provinciana Sobral do início do século XX. Com ela em mão, procurou (re)compor o cenário, que retratasse a sociedade  daquela época, em sua evolução dialética, a caminho da transformação. Caracterizou suas personagens, dando-lhes ações tão reais que nos é possível senti-las saltar da imobilidade do papel para a representação concreta. Assim é que no capítulo introdutório “A Execução”, mesmo ainda sem termos tomado conhecimento de seus protagonistas, eles surgem, inesperadamente, da obscuridade do passado para o palco do presente, a encenarem o ato final, diante de nossa perplexidade. Aí dá-se o choque emocional, e o leitor, ávido pelo esclarecimento do fato,  vai, página por página, inteirando-se dos conflitos e das necessidades das personagens vistas em seus desequilíbrios sociais e ontológicos.
              Na verdade, o capítulo inicial, apresentando alto teor fotográfico e documental, é a síntese reveladora do drama vivenciado pelo protagonista, verdadeira saga humana, na qual a personagem Etelvino Soares demonstra o caráter desafiador e intimorato de um homem apaixonado pelo jornalismo construtivo e justo. Em nenhum momento, sob as mais diversas pressões político-sócio-eclesiásticas, deixou-se corromper. Antes, procurou denunciar o convencionalismo da sociedade, enfatizando o contraste entre o “ser” e o “aparentar ser”, mesmo correndo riscos inevitáveis.
              Ditas estas considerações, faz-se necessário, agora, que teçamos alguns comentários (despretensiosos, é claro), com relação a alguns pontos que nos chamaram à atenção. Em primeiro lugar, o foco narrativo em terceira pessoa mostra um narrador onisciente que, no entanto, inclui-se como personagem – e isto apenas no capítulo inicial – embora disfarçadamente entre parênteses. Entendemos ser tal procedimento um recurso técnico usado pelo Autor, ou seja, o de intuir no leitor a veracidade do fato. O narrador acompanhou toda a vida e paixão de Etelvino, como mero espectador, mas não pôde calar-se diante de sua morte trágica, que é desfecho do romance. Por essa razão, o caráter documental a que nos referimos antes. Vejamos: (Enquanto vida tiver, jamais se apagará da memória dos meus tímpanos fatigados o som daquele urro feroz do moribundo que depois se vai esvaindo, esvaindo, esvaindo até se converter no doído ganir dum cachorro atropelado.). Atente-se para a construção do tempo verbal “se vai esvaindo”, em que a locução apresenta um aspecto durativo da ação expressa pelo verbo, sem que a ela seja dada uma definição na divisão geral de tempo presente, passado e futuro. É como se a cena se registrasse num tempo que vai sempre se prolongando.
              Em segundo lugar, na pele de narrador detalhista, o que se nota através da multiplicidade de informações, leva-nos o Autor a refletir sobre as condições da realidade social de um tempo em que a dominação (muito mais intensa que hoje), das oligarquias corrobora a veracidade deste pensamento do historiador A. Hauser, com que expressou a vitória do capitalismo industrial: O dinheiro é a força que domina toda a vida política e privada e (...) todos os direitos passam a exprimir-se através dele. Tudo, para ser compreendido, tem de se reduzir a um denominador comum: o dinheiro. E, em terceiro lugar, a caracterização (a nosso ver) de um romance de costumes com tendências naturalistas, quando combate, com inabalável urdidura, a Igreja, a Família, a Justiça, imergindo no mais profundo da miserável condição humana de suas personagens para daí trazer-nos temas que, mesmo recorrentes, ganham mais dramaticidade quando tratados pela pena sensível de Lustosa da Costa. Dessa maneira, ele denuncia, com argúcia, a vaidade, a futilidade, a hipocrisia, a ambição, a inveja, o adultério, o sexo, enfim, os impulsos antagônicos do ser humano. E tudo isso apresentando densidade conteudística, fluxo narrativo emergente, em que sobressai a capacidade de trabalhar as personagens em suas tramas, o que lhe confere o irrefutável pendor para a narrativa longa.
              Digna de nota é também a coerência da linguagem. Os períodos curtos, em sua grande maioria, denunciam o equilíbrio do processo criativo do Autor e o seu compromisso com o leitor, no que concerne ao entendimento da mensagem. Os diálogos guardam uma aura de autenticidade, reveladora, muitas vezes, do mundo psicológico de suas personagens. Há aí sátiras, ironias, metamorfoses de comportamentos ou, simplesmente, o desnudar-se de almas.
              Vida, Paixão e Morte de Etelvino Soares é, pois, a narração de uma luta insana, quixotesca, em que se digladiam a moral e suas pretensas autoridades, a oligarquia, o tradicionalismo conservador das famílias de estirpe, o clero, a política, a justiça, enfim, a comunidade aristocrática sobralense, que se impõe, dominadora, caricaturizada na personagem Romão Patriolino de Albuquerque. Do outro lado, a figura de Etelvino, um arraigado jornalista que nada mais queria senão combater os moinhos da injustiça e da opressão.
              Por fim, fazemos nossas as palavras do inesquecível mestre da crônica, o cearense Mílton Dias, ao prefaciar “Cartas do Beco”, em que enumera as qualidades de bom ficcionista, que é Lustosa da Costa: “estilo simples, escorreito, a prosa pura, enxuta, a que não falta um lirismo contido, o vocabulário rico, sem afetação, a palavra fácil, a plasticidade, abordando os temas mais vários, os mais graves e os mais leves com a mesma vibrante espontaneidade”. E, em seguida, arremata: “o leitor que o conhece tem a impressão de estar a ouvir-lhe a voz”.
              Pois é assim mesmo, mestre Mílton. Lendo Lustosa da Costa, sentimo-lo em cada letra, em cada frase, em cada período, em cada capítulo, em cada obra, limpo em sua integridade de homem de imprensa, e, como poucos, a conquistar o aplauso e a simpatia de seu público leitor. O humor inteligente, o cavalheirismo fazem deste jornalista de largo conceito e militância um homem perspicaz. Por isso sabe ele que é necessário reinventar a vida e para tal transpõe a objetividade do fato jornalístico em literatura. Assim, o que é ou o que foi produto de um tempo atravessará os espaços da historicidade do cotidiano e passa a ser arte vertical e transcendente: Ars longa, vita brevis.

              Desse modo, Lustosa, aceitando seu convite, entramos prazerosamente nesta saga sobralense e gostamos tanto de conviver com seus protagonistas que difícil é, agora, nossa retirada.

(in CRÍTICA REUNIDA)

domingo, 10 de novembro de 2013

POETA E POETISA - Sânzio de Azevedo


 Não é a primeira vez que abordo esse assunto, mas resolvi retomá-lo depois de uma conversa que tive há algum tempo com o amigo e poeta Jorge Tufic, oportunidade  em que ele me revelou não concordar com o costume, que grassa em nossa imprensa, de se dizer, ao falar de uma mulher que faz versos, tratar-se de “uma poeta”.
Sinésio Cabral, em trabalho de 199l, 1 após lembrar que, em Antenor Nascentes, em Silveira Bueno e na Delta Larousse (e eu acrescentaria Caldas Aulete e Koogan-Houaiss), encontra-se poetisa como feminino de poeta, adverte que em latim temos poeta (poeta) e poetria (poetisa); em francês, poète e poétesse; como, em inglês, poet e  poetess. Ao que eu acrescento, em espanhol, poeta e poetisa; em italiano, poeta e poetessa e, em alemão, Dichter e Dichterin.
 No mesmo trabalho, cita Sinésio Cabral o poeta e crítico Péricles Eugênio da Silva Ramos, o qual considerava Francisca Júlia “talvez o mais característico dos poetas parnasianos do Brasil”, dizendo em seguida que “a poetisa professou a arte pela arte”. 2
 E observa o ensaísta cearense: “Trata-se, aqui, do emprego correto de poetas (a poetisa entre poetas) e de poetisa (feminino de poeta).” 3
 José Peixoto Júnior, escritor cearense radicado em Brasília, em texto publicado numa revista dirigida por Nilto Maciel, ao referir-se a poeta e poetisa, assinalou: “O uso dos dois epítetos nunca arranhou a igualdade reinante no seio do poetismo; jamais limitou o espaço a ‘quantos bebem a água do Parnaso’; entretanto, insinuam o enquadramento do substantivo poeta na classificação morfológica do grupo ‘comum de dois’, submetendo-o ao vexame de ver-se antecedido por forma articular feminina na determinação daquela que verseja, denominando-a de ‘a poeta’.” O mesmo ensaísta sugere que o vocábulo poetisa “deve ter surgido nos estertores do Iluminismo”. 4
 O filólogo conterrâneo José Alves Fernandes me apresentou o único exemplo que vi, fora de nosso tempo, do emprego de poeta com referência a uma mulher. É do século XVII, e diz: “No fim de todas elas (...) vem hua natural de Saxônia chamada Rosuvides estremada na língua Latina & Grega, & Poeta laureada da qual diz Arnoldo (...) que foi admirável assi na prosa, como no verso.” 5
 É o caso de se imaginar o que, em nossos dias, teria levado alguns a substituir poetisa pelo equivalente masculino, tratando embora de mulher. Terá sido a palavra desgastada pela produção de tantas versejadoras sem mérito, ao longo dos anos? Não, esse argumento não procede, se pensarmos no número imenso de homens escrevendo maus poemas no Brasil, ontem, hoje e certamente amanhã...
 Embora continue julgando ser poetisa o feminino legítimo de poeta, como juíza o é de juiz, ou pintora de pintor, ainda admito que alguém se refira a uma autora de poemas chamando-a de poeta, mas desde que seja respeitado o gênero do vocábulo.
 Cecília Meireles, em “Motivo”, disse: “Não sou alegre nem sou triste: / sou poeta.” Lendo este último verso, não podemos ter certeza quanto ao fato de a autora de  Viagem aceitar a forma feminina “a poeta” (que me parece antiestética), mas, se me é lícita a lembrança de um testemunho oral, contou-me o saudoso escritor Edigar de Alencar que, ao perguntar a Cecília Meireles se ela havia escrito algum poema humorístico, teve dela esta resposta: “ – Eu sou um poeta elegíaco!” Note-se que a escritora disse “um poeta”, e não “uma poeta”.
Curioso constatar que só acontece esse atentado à gramática com o vocábulo poeta. Ninguém diz que a atriz Cacilda Becker foi “uma ator”, ou que a pintora Tarsila do Amaral foi “uma pintor”, o que equivaleria rigorosamente a “uma poeta”...
José Veríssimo, tratando de Júlia Cortines, afirmou, no começo do século XX: “esta poetisa é um poeta tão bom como nossos melhores”. 6 Claro que o crítico usou poeta para generalizar, tanto que o estudo se intitula “Uma poetisa e dois poetas”, pois fala também de Cruz e Sousa e de Luís Guimarães Filho.
 Bem outro é o caso de Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde) que, no estudo “Uma poetisa poeta”, datado de 1920, comentando a escassez do trabalho cultural das mulheres (as quais, para ele, “não se distinguem (...) por uma produção satisfatória e nem mesmo apreciável”), conclui o trabalho com esta frase: “A Sra. Maria Eugênia Celso não é uma poetisa, é um poeta, mas de alma profundamente feminina.” 7
 Parece-me estar nessa visão preconceituosa (e machista) a origem da aversão de alguns ao vocábulo poetisa. E ainda assim o crítico respeitou a gramática, pois não escreveu “uma poeta”...
Sirva-me de consolo a leitura de uma poetisa atual, que assume de maneira forte e bela sua condição de mulher que faz versos; trata-se de Elisabeth Veiga, que escreveu um poema intitulado, justamente, “Poetisa”:

Ponho a palavra batom no papel
 -- palavra de carne
 como o beijo é vermelho.

 Ponho a palavra rímel
 e os olhos se fecham sob mel negro
 dessa tinta alerta,
 e o poema se entrega entre teus dedos,
 observa
 o ócio com que o folheias:
 se tivesse pétalas voava
 suicida, de volta para o vidro de perfume.

 Mas o silêncio da rosa
 é perfeito
 quando é só:
 rosa – eternidade na mesa.
 Mas ponho a palavra terra.
 Sou origem.


 Poetisa. Não poeta. 8

(da Academia Cearense de Letras)

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

PARA REFRIGÉRIO DE NOSSA ALMA


REVELAÇÃO
Cf. Salmo 23/22
 Horácio Dídimo

  
Quando vejo a estrela azul
Brilhando por um instante
Descanso em águas tranquilas
E em pastagens verdejantes.

Minha alma se fortalece,
Minha vida se transforma,
Uma mesa é preparada
E meu cálice transborda.

Quando vejo a estrela azul
Em todo seu esplendor
Sei que tudo vai mudar,

Sei que tudo já mudou,
Que o Senhor é meu pastor
E nada me faltará.
                                             

 Música de Mauro Augusto