domingo, 11 de julho de 2010

ACHEI ESSE TEXTO DE IVAN MARTINS MUITO INTERESSANTE

Ontem eu levei uma bronca da minha prima. Como leitora regular desta coluna, ela se queixou, docemente, de que eu às vezes escrevo sobre “solidão feminina” com alguma incompreensão.

Ao ler o que eu escrevo, ela disse, as pessoas podem ter a impressão de que as mulheres sozinhas estão todas desesperadas – e não é assim. Muitas mulheres estão sozinhas e estão bem. Escolhem ficar assim, mesmo tendo alternativas. Saem com um sujeito lá e outro aqui, mas acham que nenhum deles cabe na vida delas. Nessa circunstância, decidem continuar sozinhas.
Minha prima sabe do que está falando. Ela foi casada muito tempo, tem duas filhas adoráveis, ela mesma é uma mulher muito bonita, batalhadora, independente – e mora sozinha.
Ontem, enquanto a gente tomava uma taça de vinho e comia uma tortilha ruim no centro de São Paulo, ela me lembrou de uma coisa importante sobre as mulheres: o prazer que elas têm de estar com elas mesmas.
“Eu gosto de cuidar do cabelo, passar meus cremes, sentar no sofá com a cachorra nos pés e curtir a minha casa”, disse a prima. “Não preciso de mais ninguém para me sentir feliz nessas horas”.
Faz alguns anos, eu estava perdidamente apaixonado por uma moça e, para meu desespero, ela dizia e fazia coisas semelhantes ao que conta a minha prima. Gostava de deitar na banheira, de acender velas, de ficar ouvindo música ou ler. Sozinha. E eu sentia ciúme daquela felicidade sem mim, achava que era um sintoma de falta de amor.
Hoje, olhando para trás, acho que não tinha falta de amor ali. Eu que era desesperado, inseguro, carente. Tivesse deixado a mulher em paz, com os silêncios e os sais de banho dela, e talvez tudo tivesse andado melhor do que andou.
Ontem, ao conversar com a minha prima, me voltou muito claro uma percepção que sempre me pareceu assombrosamente evidente: a riqueza da vida interior das mulheres comparada à vida interior dos homens, que é muito mais pobre.
A capacidade de estar só e de se distrair consigo mesma revela alguma densidade interior, mostra que as mulheres (mais que os homens) cultivam uma reserva de calma e uma capacidade de diálogo interno que muitos homens simplesmente desconhecem.
A maior parte dos homens parece permanentemente voltada para fora. Despeja seus conflitos interiores no mundo, alterando o que está em volta. Transforma o mundo para se distrair, para não ter de olhar para dentro, onde dói.
Talvez por essa razão a cultura masculina seja gregária, mundana, ruidosa. Realizadora, também, claro. Quantas vuvuzelas é preciso soprar para abafar o silêncio interior? Quantas catedrais para preencher o meu vazio? Quantas guerras e quantas mortes para saciar o ódio incompreensível que me consome?
A cultura feminina não é assim. Ou não era, porque o mundo, desse ponto de vista, está se tornando masculinizado. Todo mundo está fazendo barulho. Todo mundo está sublimando as dores íntimas em fanfarra externa. Homens e mulheres estão voltados para fora, tentando fervorosamente praticar a negligência pela vida interior – com apoio da publicidade.
Se todo mundo ficar em casa com os seus sentimentos, quem vai comprar todas as bugigangas, as beberagens e os serviços que o pessoal está vendendo por aí, 24 horas por dia, sete dias por semana? Tem de ser superficial e feliz. Gastando – senão a economia não anda.
Para encerrar, eu não acho que as diferenças entre homens e mulheres sejam inatas. Nós não nascemos assim. Não acredito que esteja em nossos genes. Somos ensinados a ser o que somos.
Homens saem para o mundo e o transformam, enquanto as mulheres mastigam seus sentimentos, bons e maus, e os passam adiante, na rotina da casa. Tem sido assim por gerações e só agora começa a mudar. O que virá da transformação é difícil dizer.
Mas, enquanto isso não muda, talvez seja importante não subestimar a cultura feminina. Não imaginar, por exemplo, que atrás de toda solidão há desespero. Ou que atrás de todo silêncio há tristeza ou melancolia. Pode haver escolha.
Como diz a minha prima, ficar em casa sem companhia pode ser um bom programa – desde que as pessoas gostem de si mesmas e sejam capazes de suportar os seus próprios pensamentos. Nem sempre é fácil.

Ivan Martins é editor-executivo da ÉPOCA

quinta-feira, 8 de julho de 2010

PARA GISELDA, NA DATA DO SEU ANIVERSÁRIO - Lúcia Helena Pereira


VOCÊ, MINHA DILETA AMIGA, MINHA IRMÃ DO CORAÇÃO,
PARABENIZO PELO SEU ANIVERSÁRIO, DIA 14 PRÓXIMO.
BEM MAIS DO QUE UM ANIVERSÁRIO - A FESTA DA POESIA!
A POESIA LUMINOSA DA SUA INTELIGÊNCIA.


PARABÉNS AO CEARÁ DA SUA ILUSTRE ESCRITORA
A PRINCESA DOS POETAS DO CEARÁ,
AQUELA QUE JÁ IMORTALIZOU AS LETRAS FEMININAS DA TERRA.


PARAGÉNS, GISELDA MEDEIROS.
PARABÉNS MIL VEZES, POR SUA GRANDEZA E BELEZA,
POR SUAS VIRTUDES E ELEVADO CARÁTER.


EU TE AMO, GIGI!
LÚCIA HELENA PEREIRA
POETISA DAS FLORES

quarta-feira, 7 de julho de 2010

"te amarei eternamente e, depois..."


de ti, serei inteiro


                        sempre
                       corpo de tulipas
                       amoroso tigre
como tu apenas viu.


                                                                      poeira
                                                                      cinza
                                                       eu hei de estar ali
                                                       te aquecendo
                                                       anônimo
                                                                     &
                                                                     calado
                                         dizendo para o amor triste
                                         que teima que não mais existe,
                                                                    que inda é
                                                    sem nunca ter estado.


                                        há um olhar de mim
                                       dois passos. seguindo
                                       vasto campo de amor que vi.
                                                                           sigo,
                                   no descompasso da morte rara,
                                      esse estar vivo e morrer em ti.


                                                              daufen bach.


(Blog: Omnia Vincit Amor)

domingo, 4 de julho de 2010

CONTEMPLAÇÃO

Acaso escutas um tropel insano,
que vai desvirginando as alvoradas,
e desce pelas tardes languescentes
até romper o útero da noite?!


Repara, olha, vê as alvas crinas
desse ginete posto em cavalgadas
indômitas e assaz apavorantes
diante de nós, humanos, e perplexos!


Pára um instante, sai de teu casulo,
contempla, tudo, tudo ao teu redor
como se fora tua última imagem.


Então compreenderás: é tão pequeno
e tão efêmero esse contemplar...
Por isso, sorve a vida inteiramente!

(De "Ânfora de Sol")

domingo, 27 de junho de 2010

É TEU DESTINO... - Giselda Medeiros



Permanecerá em ti
o meu eu
com seus refrões de silêncio
cruzando o mítico reino
dos fantasmas.
Alongado sobre ti
estará meu olho de poeta,
indecifrável
e esquecido archote,
nas trevas.
Sobre ti cairá a mão
de pele tão alva
deste meu poema.
E haverás de carregar-me
com meus horizontes
de indefinidas formas
sempre vestida de poeta
na calma completa
de um verso adormecido


(Tempo das Esperas)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

UM POEMA DE AMOR DE J. G. DE ARAÚJO JORGE


Exaltação do amor
Sofro, bem sei... Mas se preciso fôr
sofrer mais, mal maior, extraordinário,
sofrerei tudo o quanto necessário
para a estrêla alcançar... colher a flor...

Que seja imenso o sofrimento, e vário!
Que eu tenha que lutar com força e ardor!
Como um louco talvez, ou um visionário
hei de alcançar o amor... com o meu Amor!

Nada me impedirá que seja meu
se é fogo que em meu peito se acendeu
e lavra, e cresce, e me consome o Ser...

Deus o pôs... Ninguém mais há de dispor!
Se êsse amor não puder ser meu viver
há de ser meu para eu morrer de Amor!

(do livro -Bazar de Ritmos- 1935)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

EIS UM TEXTO QUE VALE A PENA SER LIDO!

A COMPLICADA ARTE DE VER
Rubem Alves
Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado.

Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido.

Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho".

Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram".

Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa _garrafa, prato, facão_ era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas _e ajustamos a nossa ação.

O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras.

Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as tem na mão e olha devagar para elas".

Por isso _porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver_ eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...

(Extraído da seção 'Sinapse', jornal 'Folha de S.Paulo', versão on line, publicado em 26/10/2004)

terça-feira, 8 de junho de 2010

MAIS UM POEMA DE "ÂNFORA DE SOL"


DOCE BRISA DE CRISTAL
Não me desacostumes de ti!
Do que me serviriam as estrelas
se eu não pensasse nos teus olhos?
Do que me serviria a aurora
se eu não conhecesse a prata dos teus cabelos?

Não me desacostumes de ti!
Que beleza poderia haver nas tardes
se eu não pensasse nos teus braços me enlaçando?
Que poesia restaria inédita
se não fora aquela falada ao meu ouvido?

Não me desacostumes de ti!
Não negues a palavra que te escrevo,
pois se longe estou, longe de ti,
é tão longo o tempo, o presente tão distante,
e o futuro, assustador!
Sem ti, ó doce brisa minha de cristal,
os dias são fantasmas, nada mais,
gargalhando em minha amarga solidão.


Giselda Medeiros

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O Sono das Águas - Guimarães Rosa


Há uma hora certa,
no meio da noite,
uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,

porque a água dos olhos
nunca tem sono...


(Magma)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Cecília Meireles - pequena biografia



Poetisa brasileira, nasceu no Rio de Janeiro em 7 de janeiro de 1901. Em 1910, concluiu o curso primário e, sete anos depois, diplomou-se professora primária e passou a desenvolver intensa atividade como educadora. Estudou também línguas, canto, violino. Aos dezoito anos, lançou o livro de poemas Espectros, pelo qual recebeu elogios da crítica especializada. Em 1934, organizou a primeira biblioteca infantil do país. Em 1935, foi nomeada professora de Literatura Luso-brasileira e, depois, de Técnica e Crítica Literária na Universidade do então Distrito Federal. Cecília Meireles faleceu no dia 9 de novembro de 1964, em pleno apogeu de sua atividade literária. Recebeu, post mortem, o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra. De fina espiritualidade, sua poesia, sem deixar de ser moderna, mergulha raízes nas essências do simbolismo, caracterizando-se, no plano formal, pela riqueza de recursos estilísticos. Obras principais: Viagem (1938); Vaga música (1942); Mar absoluto (1945); Romanceiro da Inconfidência (1953); Solombra (1964).

Despedida - Cecília Meireles


Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces ? - me perguntarão. -
Por não ter palavras, por não ter imagem.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que procuras ?
Tudo.
Que desejas ?
Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação ...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão !
Estandarte triste de uma estranha guerra ... )
Quero solidão.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

POEMA DE ÂNFORA DE SOL - LIVRO A SER LANÇADO BREVEMENTE


CONTEÚDO E CONTINENTE
Giselda Medeiros


Poeta,
de que barro,
de que águas,
de que matéria
vem tua rima,
se ela é tão rara
e embriaga as retinas
ávidas de pérolas,
e de luz, e de canções?!
Chove emoção com teu verso...
E tua poesia é azeite e lâmpada,
fio e teia, corda e harpa,
asa e voo, luz e estrela,
água e rio,
pássaro que pousa
sobre o azedume da vida
soterrando espantos
e despertando mitos.
Tua poesia escorre sobre nós
como o orvalho sobre a pétala,
tão leve e cristalina...
Poeta, responde-nos:
de que barro,
de que águas,
de que matéria
vem tua rima,
se tua mão guia, no invisível espaço matinal,
o ritmo e a palavra
que começam a dançar nas madrugadas
envoltos no ciciar da brisa,
a explodir em versos sobre tua fronte?!
Tu cantas, Poeta,
a amargura da vida
com a mesma singeleza com que choras
o amor sonhado, encravado nas estrelas.
Teu é o território do sentimento.
Teu é o infinito que se abre para conter o sonho.
Teu é o canto da saudade
evolando nas asas do pássaro do amor.
Por isso, poeta, vem e dize-nos:
de que barro,
de que águas,
de que matéria, enfim, vem tua primorosa rima?!...

domingo, 23 de maio de 2010

DE MIM - Giselda Medeiros



Sou o que a vida me impõe:
auroras e crepúsculos,
mãos e adeuses,
altar e sacrifícios,
pegadas e caminhos.

Sou o atavio,
o assobio,
a carta que longe vai
em busca de um leitor.

Sou o sol dos que partiram
e não deixaram pegadas

Sou a solidão da espera
dos que jamais regressaram.

Sou esse adeus tatuado
no rosto dos que ficaram.

E sou o azul do teu olho,
maior do que o do oceano,
com o qual enxergas a vida
mais azul do que parece.

E isso me basta!


(Tempo das Esperas)

terça-feira, 18 de maio de 2010

UM POUCO SOBRE AUTA DE SOUZA

Auta de Souza nasceu em Macaíba, no Rio Grande do Norte, no dia 12 de setembro de 1876.

Era filha de Eloy Castriciano de Souza e Henriqueta Leopoldina de Souza, sendo irmã de dois políticos e intelectuais, Henrique Castriciano e Eloy de Souza.

Ficou órfã de mãe, antes de chegar aos 3 anos de idade e, quase dois anos mais tarde, mais perderia também o pai.

Depois da morte dos pais, Auta e os quatro irmãos vão morar em Recife, com os avós maternos, no velho sobrado do Arraial.

Com 10 anos de idade, assiste à morte trágica do irmão Irineu. Era 15 de fevereiro de 1887. O irmão subira ao andar superior do sobrado com uma lamparina de querosene. Houve uma explosão do candeeiro e Irineu foi envolvido e morto pelas chamas.

Estudou no Colégio São Vicente de Paulo, coordenado por religiosas francesas, e no Colégio São Vicente, onde aprendeu o francês, o que lhe possibilitou a leitura no original de Vitor Hugo, Chateaubriand, Fénelon, Lamartine, dentre outros.

Aos 14 anos de idade, surgem os primeiros sinais da tuberculose. A avó Dindinha, após desenganar-se da cura da neta em Recife, retorna com toda a família para Macaíba (RN).

Auta então, abandona os estudos, indo em busca da cura no interior. O avanço da doença obriga-a a buscar cidades do interior de clima mais seco.


Em 20 de junho de 1900, publica O Horto, seu primeiro e único livro de poemas, que foi prefaciado por Olavo Bilac. Foi tamanho o sucesso que, em sessenta dias, a edição esgotara-se.

A tuberculose, no entanto, não arrefece. Aos 24 anos, no dia 7 de fevereiro de 1901, em Natal, morre Auta de Souza.

Nove anos após a morte da poetisa, em 1910, saía a segunda edição, em Paris, com ilustrações artísticas de D. Widhopff. Em 1936, a terceira, no Rio de Janeiro, com prefácio de Alceu de Amoroso Lima.

Na poética de Auta de Souza, observam os críticos um acentuado lirismo e leves traços simbolistas. Temas como a morte e o universo infantil são abundantemente trabalhados.

Segue-se um de seus belos poemas.

SAUDADE - AUTA DE SOUZA


Ah! se soubesse quanto sofro e quanto
Longe de ti meu coração padece!
Ah! se soubesses como dói o pranto
Que eternamente de meus olhos desce!

Ah! se soubesses!... Não perguntarias
De onde é que vem esta sombria mágoa
Que traz-me o peito cheio de agonias
E os tristes olhos arrasados d’água!

Querem que a lira de meus versos cante
Mais esperança e menos amargura,
Que fale em noites de luar errante
E não invoque a pobre noite escura.

Mas... como posso eu levar sonhando
A vida inteira n’um anseio infindo,
Se choro mesmo quando estou cantando
Se choro mesmo quando estou sorrindo!

Ouve, ó formosa e doce e imaculada,
Visão gentil de eterna fantasia:
Minh’alma é uma saudade desfolhada
De mãe querida sobre a cova fria.

Ah! minha mãe! Pois tu não sabes, santa,
Que Ela partiu e me deixou no berço?
Desde esse dia a minha lira canta
Toda a saudade que lhe inspira o verso!

Depois que Ela se foi a Mágoa veio
Encher-me o coração de luto e abrolhos.
Eu sofro tanto longe de seu seio,
Eu sofro tanto longe de seus olhos!

Ó minha Eugênia! Estrela abençoada
Que iluminas o horror deste deserto...
De teu afeto a chama consagrada
Lança à minh’alma como um pálio aberto.

Quando beijares teus filhinhos, pensa
O que seria d’eles sem teus beijos;
E, então, compreenderás a dor imensa,
A amargura cruel destes harpejos!

Junta as mãozinhas dos pequenos lírios,
Das criancinhas que tu’alma adora,
E ensina-os a rezar sobre os martírios
E a saudade infinita de quem chora.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

AFLIÇÃO - Giselda Medeiros



A boca da noite grita
cheia de beijos de estrelas
sobre nossos corpos
engolindo medos.
E aflita
morde nossos desejos.

O sangue que escorre
amarelo
colore os relâmpagos
de nossa alma
que se recolhe
no tumulto dos sonhos
envelhecidos.

Mas o desejo é um lobo, condenado
a mirar-se no lago congelado
do silêncio cristalino,
imóvel pássaro aposentado
de seus voos longínquos.

E a boca da noite grita
aflita
cheia de beijos de estrelas
sobre nossos corpos
lânguidos...


(Tempo das Esperas)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

UMA HOMENAGEM À MINHA MÃE


ÂNFORA DE SOL(para Dona Raimundinha)

Na sala
a Ânfora cheia de sol...
Imponente, ao olhar de anjos,
esparge no ar
cheiros dourados
embebidos de lúcida liberdade.
E o meu olfato cego
enche-se do sal cheiroso
de suas entranhas.
Meus chinelos rotos, à porta,
denunciam reverência
à Ânfora imóvel, resplendendo em sol.

Ao contemplá-la,
em sua altivez etérea,
meus olhos vestidos do cansaço humano
transfiguram-se em centelhas,
cativos de seu encantamento,
ametistas em noite de núpcias.

E ela ali, imóvel, cheia de Sol,
Poesia no ar, em asas,
planando sobre minha inutilidade...

Aí, então, desferi meu grito
angustiado
qual um punhal,
e renasci, na aflição de minhas cinzas,
qual fora fria gota cristalina
de orvalho
a deslizar sobre a pétala da saudade.

Giselda Medeiros

DIA DAS MÃES - Ghiaroni



Mãe! eu volto a te ver na antiga sala
onde uma noite te deixei sem fala
dizendo adeus como quem vai morrer.
E me viste sumir pela neblina,
porque a sina das mães é esta sina:
amar, cuidar, criar, depois... perder.

Perder o filho é como achar a morte.
Perder o filho quando, grande e forte,
já podia ampará-la e compensá-la.
Mas nesse instante uma mulher bonita,
sorrindo, o rouba, e a velha mãe aflita
ainda se volta para abençoá-la

Assim parti, e nos abençoaste.
Fui esquecer o bem que me ensinaste,
fui para o mundo me deseducar.
E tu ficaste num silêncio frio,
olhando o leito que eu deixei vazio,
cantando uma cantiga de ninar.

Hoje volto coberto de poeira
e te encontro quietinha na cadeira,
a cabeça pendida sobre o peito.
Quero beijar-te a fronte, e não me atrevo.
Quero acordar-te, mas não sei se devo,
não sinto que me caiba este direito.

O direito de dar-te este desgosto,
de te mostrar nas rugas do meu rosto
toda a miséria que me aconteceu.
E quando vires a expressão horrível
da minha máscara irreconhecível,
minha voz rouca murmurar:''Sou eu!"

Eu bebi na taberna dos cretinos,
eu brandi o punhal dos assassinos,
eu andei pelo braço dos canalhas.
Eu fui jogral em todas as comédias,
eu fui vilão em todas as tragédias,
eu fui covarde em todas as batalhas.

Eu te esqueci: as mães são esquecidas.
Vivi a vida, vivi muitas vidas,
e só agora, quando chego ao fim,
traído pela última esperança,
e só agora quando a dor me alcança
lembro quem nunca se esqueceu de mim.

Não! Eu devo voltar, ser esquecido.
Mas que foi? De repente ouço um ruído;
a cadeira rangeu; é tarde agora!
Minha mãe se levanta abrindo os braços
e, me envolvendo num milhão de abraços,
rendendo graças, diz:"Meu filho!", e chora.

E chora e treme como fala e ri,
e parece que Deus entrou aqui,
em vez de o último dos condenados.
E o seu pranto rolando em minha face
quase é como se o Céu me perdoasse,
me limpasse de todos os pecados.

Mãe! Nos teus braços eu me transfiguro.
Lembro que fui criança, que fui puro.
Sim, tenho mãe! E esta ventura é tanta
que eu compreendo o que significa:
o filho é pobre, mas a mãe é rica!
O filho é homem, mas a mãe é santa!

Santa que eu fiz envelhecer sofrendo,
mas que me beija como agradecendo
toda a dor que por mim lhe foi causada.
Dos mundos onde andei nada te trouxe,
mas tu me olhas num olhar tão doce
que, nada tendo, não te falta nada.

Dia das Mães! É o dia da bondade
maior que todo o mal da humanidade
purificada num amor fecundo.
Por mais que o homem seja um ser mesquinho,
enquanto a Mãe cantar junto a um bercinho

cantará a esperança para o mundo!

HOMENAGEM A TODAS AS MÃES!!!

terça-feira, 4 de maio de 2010

Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente) - Thiago de Mello


A Carlos Heitor Cony

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

SE EU FOSSE UM HOMEM - Regine Limaverde


(resposta a Dimas Macedo pelo seu poema "Sândalo")

Se eu fosse um homem
beijaria minha mulher
cada vez que a minha lança
nela se escondesse,
para lhe contar da explosão
quando tudo acontecesse.

Se eu fosse um homem
o ventre da minha fêmea
seria um regaço,
e os seus seios
fonte que me saciaria a fome,
leite que me sufocaria anseios
Se eu fosse um homem,
pela mulher me tornaria rei
e, a cada luta que por ela
entrasse, teria uma faca e espada
para cravar no peito dos inimigos
que não amassem a mulher amada.

(Ritos do Entardecer)

quinta-feira, 29 de abril de 2010

INFÂNCIA - Giselda Medeiros


Descoloriram o desenho da minha infância
e pisaram com botas de sete léguas
o canteiro de cirandas
que eu cultivava.
Soltaram da caixinha de sapatos
os sonhos que dormiam
tão tranqüilos.
E uma revoada de asas azuis
abriu-se no espaço das esperas.
Restou a criança grande
no pasmo da vida,
com fome de asas
com fome de cores
com fome de espaço
para o desenho da felicidade.
(Cantos Circunstanciais)

A ESTRUTURA DESMONTADA - Lançamento no Centro Cultural OBOÉ


F. S. Nascimento na noite de autógrafo de seu livro: "A Estrutura Desmontada".
Na foto, Ednilo Soárez, Giselda Medeiros (apresentadora da obra) e o autor.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Ciranda das Emoções - Giselda Medeiros


E há algazarra de corais e pérolas
no fundo dos mares.
E há sons de cirandas
de remotos afogados.
E há queixas e rezas de peixes expatriados,
que vêm morrer, boca aberta,
olho ferido de anzóis,
na areia tonta de emoções.
E penso nas âncoras inúteis
que nada prenderam
e se perderam em sua própria
metamorfose.
E penso mais no desalento dos búzios
querendo reter as vozes
das sereias que se desencantaram.
Ah, pobres sereias,
estrelas marinhas,
lentamente,
conduzidas ao pó,
desprendidas do céu,
desprendidas do mar....
Sou como vós,
corais e pérolas
e peixes e areias
e âncoras e búzios!
Sou como vós, sereias sem mares,
e meu destino invário
é carregar neste meu dorso amargo
essas vozes macias de saudade
da vossa ciranda de emoções!

terça-feira, 20 de abril de 2010

Yde (Adelaide) Schloenbach Blumenschein

COLOMBINA

Nasceu esta poetisa na cidade de São Paulo em 26 de maio de 1882, vindo a falecer na madrugada do dia 14 de março de 1963, vítima de um colapso cardíaco.
O amor é o leitmotiv que perpassa pela grande maioria de seus versos. No caso das trovas, preponderam versos que tratam do amor de forma mais inocente. Todavia, em outros poemas, a forma como rompe com as convenções burguesas ao falar dos desejos carnais provocou a crítica impiedosa por parte de muitos amigos e familiares. Um processo que eclode com o lançamento de seu último livro, Rapsódia Rubra: Poemas à Carne - livro composto de poemas eróticos.
Eis um de seus poemas:
INTIMIDADE
Toda alcova em penumbra. Em desalinho o leito,
onde, nus, o meu corpo e o teu corpo, estirados
na fadiga que vem do gozo satisfeito,
descansam do prazer, felizes, irmanados.
Tendo a minha cabeça encostada ao teu peito,
e, acariciando os meus cabelos desmanchados,
és tão meu…Sou tão tua. Ainda sob o efeito
da louca embriaguez dos momentos passados.
Porém, na tua carne insaciável, ardente,
o desejo reacende, estua…E, de repente,
dos meus seios em flor beijas a rósea ponta…
E se unem outra vez a lúbrica bacante
do meu ser e o teu sexo impávido, possante,
na comunhão sensual das delícias sem conta…

domingo, 18 de abril de 2010

O RETRATO FIEL - Gilka Machado


Não creias nos meus retratos,
nenhum deles me revela,
ai, não me julgues assim!
Minha cara verdadeira
fugiu às penas do corpo,
ficou isenta da vida.

Toda minha faceirice
e minha vaidade toda
estão na sonora face;
naquela que não foi vista
e que paira, levitando,
em meio a um mundo de cegos.

Os meus retratos são vários
e neles não terás nunca
o meu rosto de poesia.
Não olhes os meus retratos,
nem me suponhas em mim.

CANTARÃO OS GALOS - Cecília Meireles


Cantarão os galos, quando morrermos,
e uma brisa leve, de mãos delicadas,
tocará nas franjas, nas sedas
mortuárias.


E o sono da noite irá transpirando
sobre as claras vidraças.


E os grilos, ao longe, serrarão silêncios,
talos de cristal, frios, longos, ermos,
e o enorme aroma das árvores.


Ah, que doce lua verá nossa calma
face ainda mais calma que o seu grande espelho
de prata!


Que frescura espessa em nossos cabelos,
livres como os campos pela madrugada!


Na névoa da aurora,
a última estrela
subirá pálida.


Que grande sossego, sem falas humanas,
sem o lábio dos rostos de lobo,
sem ódio, sem amor, sem nada!


Como escuros profetas perdidos,
conversarão apenas os cães, pelas várzeas.
Fortes perguntas. Vastas pausas.


Nós estaremos na morte
com aquele suave contorno
de uma concha dentro da água.


(Flor de Poemas)

ESCREVE-ME... - Florbela Espanca


Escreve-me! ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d'açucenas!

Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que não te vejo, amor! Meu coração
Morreu, já e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração

"Amo-te!" cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade"!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então... brandas... serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...

(Poemas de Florbela Espanca)

LENDO-TE - Humberto de Campos


“As roseiras aqui já estão florindo...”
Mandas dizer... “As híspidas e pretas
Rochas da estrada já se estão cobrindo
De musgo verde... Há muitas borboletas...”

E eu me fico a pensar que agora e o lindo
Mês das rosas esplêndidas e inquietas
Asas: mês em que todo o ser anda sorrindo,
E em todos os pássaros são poetas.

Vejo tudo: a água canta entre os cafeeiros
Vejo o crespo crisântemo e a açucena
Estrelando a verdura dos canteiros.

Penso, então, que em tudo isso os olhos pousas...
E começo a chorar... Olha: tem pena,
Não me escrevas falando nessas cousas

quarta-feira, 14 de abril de 2010

IMPLOSÃO - Giselda Medeiros


Da palavra
eu nasci.
Na palavra
eu vivo.
Com a palavra
eu amo.
Pela palavra
eu luto.
Sem a palavra
sou caos
o mar sem água.
Sobre a palavra
debruço-me
e choro.
Sob a palavra
ergo tendas.
E para a Palavra
retornarei
ante a implosão
de Thanatos.

(Cantos Circunstanciais)

SIMBIOSE - Giselda Medeiros



Dizer que somos dois... ah, que mentira!
Eu sou a tua voz, e és tu a minha.
Minha também é tua boca, a lira,
que embala os sonhos meus, que me acarinha.

E teus dedos do amor a campainha
a despertar-me o gozo, a ardente pira
do meu castelo de emoções... Rainha
eu sou de um rei que, como eu, delira!

Andamos sós, errantes pela vida,
sob este céu que é meu, que é teu, no entanto,
dispersa nosso sonho que definha.


E, enquanto os dois vagueamos (que ferida!)
eu cuido ver, por trás do nosso pranto,
tua alma a soluçar dentro da minha!

segunda-feira, 12 de abril de 2010

POR AMOR AO SONETO - J. Udine


Amo o Soneto, incondicionalmente!
Para mim ele sempre foi imortal:
Com seus quatorze versos, tão somente,
Eu ergo em versos bela catedral!

Amo o Soneto em sua forma e arcabouço!
Com ou sem rimas...métrica perfeita...
Dentro de minha alma seu chamado ouço,
E vejo em flor a minha Musa eleita!...

Amo o Soneto! Mesmo Modernista
Sou poeta do Verbo, mero artista,
Mas sem fazer do verso, um escarcéu!

Amo o Soneto em sua forma pura;
Amo o Soneto na paz , na ternura:
Por ele ser simplesmente o meu Céu!...

12-04-2010

quarta-feira, 7 de abril de 2010

MOTIVOS - XVI


Sinto-me renascer, se te contemplo,
ó poeta, mesmo quando finges
esse pasmo indefinível suspenso em tua fronte
– espelho que te mostra a lágrima
geratriz de incansáveis solidões.
Inútil o gesto, inútil o grito e a tristeza de Narciso:
o espelho não reflete nada senão a lágrima.

A face te revela o que não queres decifrar:
a inexorável corrida do tempo à espera de ninguém.
Lembra-te, no entanto, poeta,
de que há cânticos celebrando a passagem dos sóis
e o lento alvoroço das auroras
despencadas das paredes onde as puseste
ou o sono dos ocasos dormindo em teus lençóis.

sexta-feira, 26 de março de 2010

MAR DISTANTE - Giselda Medeiros



Há um gemer de ondas
em minha voz aflita
quando te imagino mar
distante, inacessível.

Minhas mãos desfolham-se
em tristezas magoadas
por não poderem conter
a geometria do teu corpo
distante, inacessível.

Tudo foge
como o rumor das asas
em travessia.
Não há nuvens de canções sobre as auroras
afagando o céu de minhas emoções.
Sou uma longa tarde de estio
a contemplar o vôo das asas
em travessia...
E o trajeto do teu corpo,
mar distante e inacessível,
sob o imaginário do meu pensamento,
abre-se sobre mim qual gigante arco-íris
de sonho.


(Tempo das Esperas)

segunda-feira, 22 de março de 2010


"As ilusões sustentam a alma como as asas de um pássaro."


Victor Hugo

"Há coisas em que só acreditamos depois que sabemos e outras que só sabemos depois que acreditamos."
Santo Agostinho

SEM TI - Giselda Medeiros


Pousaste sobre mim
e fincaste estacas
em minhas profundidades.
Dançaste para mim a valsa
sob o pálio do arco-íris
na tarde que crescia.
Mordi o pêssego que me ofereceste
e, desde então,
fiz-me de ti peregrina,
fiz-me teu afoito bergantim,
tua nave viageira,
no luminoso azul que te dei.
Hoje, desfeito o azul,
tenho apenas sombras
e distâncias.

(Tempo das Esperas)

sexta-feira, 19 de março de 2010

E TU VIRÁS - Giselda Medeiros


É noite em mim...
noite de silêncios e tristezas
a pervagar nas canções dos andarilhos
que não têm para quem voltar.

É noite nas tímidas paisagens do luar,
no ciciar da brisa outonal
e na grande solidão das pedras.

E cresce a noite em mim,
em tudo,
como crescem os ais apaixonados
em seus lençóis de linho
tão branquinhos!
Ou os ais dos que se deram adeus
na tarde que se foi.

Mas não faz mal que a noite cresça...
Acenderei em mim
a branca luz do castiçal do amor,
e tu virás por ela,
entre ofuscado e amante,
beber da minha luz
e ouvir-me os versos que fiz.
Aí, então, cuidemos, meu amado,
que a noite será breve,
muito breve.


(Tempo das Esperas)

TROVAS - GISELDA MEDEIROS



É teu sorriso, querido,
ao se abrir com harmonia,
um sol maior sustenido,
na pauta azul da poesia.



Mentiras... Dize-as, não calas,
pois gosto delas. Deveras,
verdades de amor propalas
nessas mentiras sinceras.



O trovador vai, risonho,
a empinar, com arte nova,
pelos céus azuis do sonho,
as leves pipas da Trova.



Amei-te, amor, tanto e tanto...
Amei-te mais do que pude!
Tanto, tanto, que, hoje, o pranto
é a minha maior virtude...



] Da pátria do amor distante,
sem o brasão dos teus braços,
sou bandeira tremulante
no vazio dos espaços.



Meu amor, quando sorris
e quando me beijam, sábios,
teus lábios são colibris,
sugando o mel dos meus lábios.



Ser mulher é, com certeza,
trazer consigo os poderes
de, na aparente fraqueza,
ser o mais forte dos seres!



Talvez esses ais tristonhos
das ondas, sempre a chorar,
sejam lamentos de sonhos,
presos nas conchas do mar...

(Des)Espera - Giselda Medeiros



O olho da solidão
toca a imutabilidade do espaço.
E vesgo
derrama fogo na silhueta das sombras.
Abandono.
Resta a inércia
queimando sua última pupila
dilatada
sob o ranger de dentes
da inútil espera
que o tempo digere
dilata e dilui
deforma e doma.

(Cantos Circunstanciais)

DEPOIS DE TI - Giselda Medeiros


Depois que saboreei o mel da tua boca;
depois que conheci o afago de teus dedos;
depois que revelei-te os íntimos segredos,
eu ando pela vida estranhamente louca.

Depois de ti, senti que a luz do sol épouca,
que os sonhos não são mais do que longos degredos,
que sou um oceano indômito, sem medos,
que vem beijar a areia em mansitude rouca.

Depois que desvendei o teu mundo submerso;
depois que descobri ser curta esta existência,
eu pus a eternidade em rimas no meu verso.

E quis te dar o tudo, além da brevidade
da vida, que é nada, do amor, que é essência,
para entregar-te, amado, intacta, esta saudade...


(Cantos Circunstanciais)

quinta-feira, 11 de março de 2010

O ENCONTRO DAS MÃOS - Giselda Medeiros


Postas sobre o silêncio da mesa,
nossas mãos são como pássaros
querendo bicar o azul de um sonho adormecido.
A melodia do ar açoita-lhes as plumas,
macios desejos de voar.


Qual pássaro, tua mão pousa sobre a minha
e grita o silêncio que há em mim.
E eu querendo dizer-te da beleza das auroras...
Mas meu lábio mudo geme fagulhas de palavras,
para a lavratura do incêndio iminente.


De súbito, elas se erguem imantadas
e, atraídas, nossas mãos se juntam,
ajustam-se entrelaçadas.
Como pálpebras, vão-se fechando, lentamente,
conchas silentes,
na agonia do instante entre o gesto e o olhar
suspensos na palavra que não é dita,
mas sentida,
nos fragmentos dos espelhos
de nossa memória.


Então, trêmulas, uma na outra,
atiçam-nos as vértebras, músculos e nervos,
e sangram desejos
na geometria de nossos dedos unidos.

quarta-feira, 10 de março de 2010

CHAMAS - Giselda Medeiros



Derrama-se em brasas o sol morrente...
Há gritos de silêncio sobre a terra,
e a alma dos rios, silente, chora a vida
que morre entre as pedras submersas.

Pesado é o céu... E as aves agoureiras
descem as asas sobre a torre da matriz,
o rude bico, as penas eriçadas,
o canto mudo sofrendo na garganta.

No manto aflito do horizonte surgem
assustadas estrelas solitárias,
de brilho morno e, com olhos de surpresa,
espreitam tímidas a timidez da luz.

A noite segue em sua nave de mistério,
a negra mão a controlar as sombras,
a cabeleira densa sobre os montes
e o olhar a derramar-se nos caminhos


(Cantos Circunstanciais)

CANÇÃO DA ESPERA - Giselda Medeiros



Passas.
Teu vulto é um oásis
onde quero aprender
o ofício das areias
nas longas noites
em que as estrelas
fiam fios finos
de fluida luz.

Teus passos na tarde
ecoam ainda
em minhas manhãs,
alvacentas e lânguidas,
como o marulho das vagas
que ficaram para trás.

Mas passas,
indiferente e lento,
sobre meus anseios
com mãos enfeitadas de adeuses
a romper em flores
de esquecimento.

E passas tão perto de mim
e tão distante!
Não conheces o mapa
de meus arquipélagos
nem sabes da beleza
de meus profundos mares
onde há conchas e corais
em êxtase.

Talvez um dia
- um dia desses -
quando pisares as névoas
do meu tempo
e sentires pesar o teu tempo,
talvez, tu resolvas ficar
no tempo dos meus domínios...




(Tempo das Esperas)

domingo, 7 de março de 2010

A TI, MULHER! - Giselda Medeiros


Sei que tens o dom de amar,
O dom de excluir o estéril da vida,
de quebrar geleiras, lavrar sementes,
sofrer e amar em simbiose constante.

Sei que és capaz de abrir leiras de jardins
com tuas mãos de flores e de mármore.
Tornar o abstrato em concreto
no descanso de teus olhos de mulher.

Por trás do granito existe um rio de canções
que ensinas a teus filhos.
E eles cantam porque aprenderam de ti
que ao entardecer também há luz
nos olhos das estrelas.

E sei mais: que por amor
tornas gostoso o amargo do jiló
e que fazes nascer um sol indefinido
na escuridão dos eclipses da vida.

ANTIGÊNESE - Giselda Medeiros



E disse o homem:
Faça-se a minha vontade!
E poluiu as águas dos rios
e pôs veneno no caule das árvores
e pôs espelhos negros no fundo da alma
e pôs travancas no peito com chaves
e pôs muralhas no olhar das crianças
e pôs cimento no ventre da abelha
e pôs espadas na toca do amor
e pôs cortinas no altar da esperança
e pôs barragem na ilha da fé.
Depois de tudo isso
descansou nos braços da Morte.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

O TEMPO E SEUS MISTÉRIOS - Giselda Medeiros



O tempo, amado, é uma fina espada,
é um fluir constante de ilusão;
é um fremir de asas em revoada,
por sobre o pó do nosso coração.

O tempo, amado, é um carrossel de sonhos
desmantelados, rotos pelo chão;
é um galope de dragões medonhos
a vomitarem cinza em nossa mão.

O tempo, amado, é um rio caudaloso
a tremer silencioso em sua foz
para soltar seu grito ruidoso
sobre o oceano de nossa dor atroz.

O tempo, amado, é uma roda-gigante
que nos leva, em frêmito, abaixo e acima,
acima e abaixo, em volta circundante
sobre o estertor da dor que nos calcina.

Por isso, amado, é urgente que vivamos
este momento pleno de lirismo
antes que o pó a que nos destinamos
venha ceifar o nosso romantismo.

E vivamos como aquelas velhas árvores
altivas a exibir os frutos que gerarem...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

BUSCA - Giselda Medeiros



Hoje quero tocar-te,
alcançar as dunas que circundam
a alvura de tuas praias.
Hoje queria ter
dedos insubmissos,
sentinelas destas mãos
que comandam a feroz audácia
de gestos indormidos.
Queria alongar-te pelo dorso manso
a inquietude de desejos secretos
até sentires a quentura gritante
da minha insaciável busca.

Sinto o tempo de amar,
o tempo de entrega.
Entanto, os meus olhos já se enublam
como um sol poente
nas águas sofridas de um rio.
E minha alma, cisne arisco,
já se inclina ante a miragem
do fogo de teus olhos.

Hoje queria tocar-te a superfície,
cadeia enervada de emoções.
Mas, que adianta!
Hoje é apenas um momento...
E o momento é breve como o canto
que te canto.
Depois... Somente a praia submersa
que se inclina
e o sol, pedaços de ânsias afogadas
na mansitude negra das águas.