sexta-feira, 12 de abril de 2019

UM CORDEL ESPECIAL PARA GUTEMBERG ANDRADE





           CORDEL  DO GUTEMBERG

           Autor: Francisco José PESSOA de Andrade Reis



          NESSE MOMENTO SUBLIME
          PRA MIM DE GRANDE VALOR
          QUEM FALA É MEU CORAÇÃO
          COM VERSOS DE PURO AMOR
          JÁ PRESTANDO CONTINÊNCIA
          PRO CORONEL REFERÊNCIA
          NO CORDEL E TROVADOR

          PEDAGOGO E ADVOGADO
          FUNDADOR E COMANDANTE
          DO COLÉGIO DA P M
          FOI PROFESSOR ATUANTE
          FEZ DESSE COLÉGIO UM TEMPLO
          QUE AINDA HOJE É EXEMPLO
          PARA QUALQUER ESTUDANTE

          DEIXANDO POR ORA, A FARDA
          CINGINDO SEU AVENTAL
          TRABALHOU NA SUA PEDRA
          QUE FOI POLIDA E AFINAL
           ASSUMIU O COMPROMISSO
          DE SEMPRE ESTAR A SERVIÇO
          DA IRMANDADE UNIVERSAL

          AS LETRAS FALAM MAIS ALTO
          VERSEJAR SE TORNA A META
          E SOB O ENCANTO DAS MUSAS
          SEU ARCO DISPARA A SETA
          A MAIS DIFÍCIL DAS PROVAS
          SEU ALVO ERA FAZER TROVAS
          ASSIM NASCIA O POETA

          COM SUA CAPACIDADE
          DE FOMENTAR UNIÃO
          A TODOS SEMPRE ELE ALEGRA
          TANTO AOS SIM COMO AOS NÃO
          COM SUA VOZ SEMPRE MANSA
          SEU TIMBRE SUAVE ALCANÇA
          O OUVIDO DO CORAÇÃO

          E NESSE MODUS VIVENDI
          A TODOS LEVANDO PAZ
          TOMA AS RÉDEAS COM VIGOR
          O QUE A TODOS SATISFAZ
          DESSA UBT SEM UM RÂNCIO
          LEMBRANDO FERNANDO CÂNCIO
          QUE NÃO NOS DEIXA JAMAIS


          FINALIZANDO POETA
          QUE TODOS DIGAM AMÉM
          PELA MULHER PRATEADA
          CAJADO QUE VOCÊ TEM
          DOU-TE UM ÓSCULO NA FACE
          NÃO SÓ A ÁGUIA RENASCE
          TU RENASCESTE TAMBÉM!

                       PESSOA

quinta-feira, 11 de abril de 2019

UMA PARÓDIA INTELIGENTE DE VIANNEY MESQUITA




OH, MAMINHA!
Luz Braz de Canhões*

Oh maminha senil que te partiste
Com medo desta serra renitente
É cousa de beréu impenitente...
M’esquiva eu cá da perra que me assiste!

No momento funéreo em que cindiste
A escória desta lida putrescente,
Jamais te esqueças do fedor ingente
Que já do olfato meu também sentiste.

Se tu vires que podes esquecer-te
Da cousa: o mau odor que me restou
Da água – oh que tédio – a corromper-te,

Ora a Zeus, que teus planos abreviou,
Que tão cedo daqui leve a comer-te
Quem, ledo, sob escolhos, te cheirou.


*Paródia configura um arremedo burlesco de um texto de prosa ou poesia. Luz Braz de Canhões é o pseudônimo (neste soneto) de Vianney Mesquita.

O autor parodia o célebre soneto de Luís de Camões, dedicado a Dinamene (Tin Nam Men), ninfa aquática (nereida) chinesa, uma das 50 filhas de Nereu, inserida na Ilíada, de Homero. Decerto, de caso pensado, critica o cacófato que há no soneto de Camões, na expressão Alma minha gentil que te partiste - maminha - que gerou a paródia.

SONETO DE AMOR






SIMBIOSE
Giselda Medeiros

Dizer que somos dois... ah, que mentira!
Eu sou a tua voz, e és tu a minha.
Minha também é tua boca, a lira,
que embala os sonhos meus, que me acarinha.

E teus dedos, do amor a campainha,
a despertar-me o gozo, a ardente pira
do meu castelo de emoções... Rainha
eu sou de um rei que, como eu, delira!

Andamos sós, errantes pela vida,
sob este céu que é meu, que é teu, no entanto,
dispersa nosso sonho que definha.

E, enquanto os dois vagueamos (que ferida!)
eu cuido ver, por trás do nosso pranto,
tua alma a soluçar dentro da minha!


sexta-feira, 5 de abril de 2019

UM POEMA DE VICENTE ALENCAR - SÓCIO BENEMÉRITO DA AJEB





... AO AMOR
Vicente Alencar
(Autor de Madrugada Fria)

Não tirei uma virgula sequer
do grande texto escrito
para louvar o meu amor
por ti.

Não foi poema,
nem crônica,
nem conto,
nem trova ou sextilha.

Apenas um Hino de amor
levando a minha alma,
e os meus sentimentos
para quem gosto tanto.

Os dias se passam
(o ano vai sendo vencido)
e em cada um deles
minha expectativa aumenta
mas não há resposta nem volta.

O meu texto amarela-se,
há uma emoção
provocada pela esperança,
e tudo vai em frente.

quarta-feira, 13 de março de 2019

Apreciação Literária – VM




CRÔNICAS DE VIAGEM
Carona Oportuna

Vianney Mesquita*


As viagens são a parte frívola da vida das pessoas sérias e a parte séria na vida das pessoas frívolas. [ANA SOFHIA SWETCHINE (ou Sofia Petrovna Soymonova) – Moscou, 1782-1857)].

Os predicados de quem pratica a oralidade, no discurso pronunciado ou grafado, conferem ao bom leitor a habilidade de saber, de antemão, o perfil do escritor – ruim, sofrível, bom, excepcional. Até a credibilidade, por parte do decodificador, sobeja, de algum modo, dependente dessa feição de quem comunica, ao falar ou redigir.

            Já experimentei o lance de exprimir a ideia de que, agradáveis aos ouvidos, deleitosos para os olhos e benignos ao coração, os escritos e falas expressos ao compasso da boa elocução estimulam a audiência, manobrando o ouvinte e o leitor a prosperarem na atenção até o remate do discurso, deste recolhendo o sumo precioso de uma ideação bem refletida.

            No mesmo passo, se contiverem impropriedades elocutórias, vícios de linguagem, repetições desnecessárias, frases feitas e anacrônicas, manias, chavões, redundâncias, modismos e tolices – sem se fazer remissão a deslizes gramaticais e a entendimentos flagrantemente equívocos – o público ledor, de qualidade, vai largar tais escritos e seus produtores, rejeitando-os para sempre.

Crônicas de Viagem – Passeio pelo Mundo, do facultativo e literato cearense José Fábio Bastos Santana, veste, qual uma luva, a primeira das duas circunstâncias ora explícitas, em razão da expressividade verdadeira de seu autor, que dirige a matéria com um português direto, escorreito e simples, com vistas a  se achegar aos leitores de regular a excelente nível de entendimento.

Em sua narrativa, entretanto, ele procura não descender a qualquer degrau da vulgaridade discursiva, tampouco, em passagem nenhuma, subir aos páramos do pensamento dito, erroneamente, douto e enciclopédico, o qual somente se presta a impedir uma descodificação perfeita da mensagem, travando e chegando até a cifrar a intenção de quem escreve e tenciona ver compreendidas suas reflexões por parte de quem as aprecia.

A exposição literária de suas viagens mundo afora traz manifesta a capacidade de um literato “artista” da Medicina e médico “cientista” da Literatura, pois demanda ambas as coisas com alçado saber e habilidade.

 Aqui, então, fora do consultório e de seus desdobres profissionais, faz entrevistas com clássicos portugueses em Lisboa, afina violinos de musicistas eruditos da Europa e conta estórias claras dos lugares por ele percorridos, sempre aportando achegas históricas, geográficas, científicas e de outras ordens, fato denotativo de sua qualificada escolaridade por todos os sítios do conhecimento, o que representa uma glória para a Arte Literária cearense.

Além das aulas de enologia e gastronomia, Fábio Santana ajunta aos cabedais dos leitores desta obra uma literatura de alevantado poder de conquista, pois – insisto - vazada em estilo saboroso, singelo e sem tom de vulgaridade, conquanto em elocução elevada, porém, deseixada dos intentos de erudição, contra-dotes próprios dos pseudossábios, dos quais a Literatura está repleta.

Caros leitores: peguem carona com ele neste comodíssimo veículo literário!

segunda-feira, 4 de março de 2019

DIFERENÇAS - CRÔNICA DE ANA PAULA MEDEIROS



DIFERENÇAS

Ana Paula de Medeiros Ribeiro

Ser professor universitário é sempre uma oportunidade de observar os anseios e pensamentos da juventude sobre as coisas do mundo.
Ontem, foi o primeiro dia de aula do semestre – um momento de expor aos estudantes a dinâmica da disciplina, as regras institucionais e de convivência. Ao final disso tudo, houve a rodada de apresentações em que os estudantes puderam se apresentar e dizer algo de si.
Nesta pequena incursão ao universo discente, no primeiro dia de aula, podem ser identificados aqueles mais extrovertidos e engraçados, os mais tímidos e reservados, aqueles que já trabalham e aqueles que ainda não possuem experiências profissionais. Estes, no entanto, ainda são maioria. Muitos declararam que ainda não trabalham.
No contexto atual, ter a possibilidade de dedicar-se exclusivamente aos estudos e ainda estar em uma Universidade pública é um grande privilégio. Isso provocou em mim várias reflexões porque relembrei uma conversa que tive com Nino, meu sogro, um homem de 80 anos, ali, ao lado de sua oficina, espaço que o possibilita ainda ser muito produtivo.
Em meio a uma conversa bastante agradável, ele me disse:
– Se eu tivesse tido a oportunidade que meus filhos tiveram de estudar e de se formar, eu teria sido um profissional melhor, de mais saberes e conhecimentos. Eu sempre tive muita vontade de progredir nos meus estudos e, um dia, eu tomei coragem e me aproximei de meu pai fazendo o pedido para que ele me permitisse estudar. Embora eu gostasse muito do ambiente das oficinas e de tudo o que eu fazia por lá, era meu desejo saber mais, ler mais para poder entender mais e trabalhar melhor. Mas, após meu pleito, meu pai deu um longo suspiro e, olhando-me de modo melancólico, disse: “Eu poderia lhe dar a oportunidade para continuar seus estudos, mas eu, necessariamente, teria que dar também para todos os outros filhos”. E, espalmando ambas as mãos, nomeou um filho em cada dedo.
Nino disse que após aquela explanação do pai, ficou sem palavras, sem argumento algum e aceitou seu destino, embora não fosse aquilo que seu espírito sedento de conhecimento desejasse.
Àquela época, seguir nos estudos demandava muito esforço econômico dos pais e inúmeras renúncias. Lembrei-me também das histórias de minha avó que, mesmo viúva e com muitas dificuldades, enviou os cinco filhos para a capital a fim de estudarem, uma vez que na cidadezinha do interior em que moravam, o máximo que conseguiam era finalizar o primário. Os filhos vieram para Fortaleza, ficaram na casa de uma tia severa e completaram o ginásio, o científico e o nível superior. Mas, tudo às custas de muito sacrifício. Muito provavelmente isso não teria sido possível se minha avó tivesse a quantidade de filhos que tinha o pai de Nino.
Então, diante desses relatos e lembranças, me pus a pensar em o quanto nós, a geração seguinte, fomos privilegiados, uma vez que estudamos em excelentes escolas e universidades e tivemos mais conforto e tranquilidade para seguir nos estudos. Uma coisa interessante é que nossa geração conseguiu estudar e trabalhar ao mesmo tempo. Havia muitas dificuldades, também, para conciliar ambas as coisas, mas a maior parte das pessoas que conheço, da minha geração, passou pelas mesmas situações.
Todavia, interessante é observar o quanto nos tornamos protetores de nossos filhos. Eles já possuem maior conforto e acesso a recursos do que nós tivemos. Entretanto, uma coisa que identifico nesta geração de jovens de agora é uma espécie de apatia, de ceticismo, creio que fruto de uma acomodação alimentada por nossa extrema proteção.
Antes, trabalho e estudo eram muito incompatíveis por fatores expostos nos relatos de Nino e de minha avó, mas, atualmente, com os recursos disponíveis, as facilidades e a flexibilidade oriunda das formas de trabalhar e de estudar, creio que há poucas justificativas para a falta de vontade dos jovens em buscar oportunidades e autonomia. A vida profissional apresenta muitos desafios, mas pelo modo como os enfrentamos é que ela se constrói.
Por fim, ficou em mim esta conclusão: Sejamos gratos ao que obtivemos de nossos pais e comedidos ao que damos aos nossos filhos. Amor não se expressa pela permissividade e, sim, por atitudes sensatas e firmes diante das necessidades e desejos de nossos rebentos.
Ana Paula Medeiros - Da Academia Cearense da Língua Portuguesa e  da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil - AJEB/CE.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

SOB EROS E THANATOS, DE GISELDA MEDEIROS, POR DIAS DA SILVA



SOB EROS E THANATOS



Confirma-se: Giselda Medeiros – além de poeta admirada e lida por tantos – vem a público, agora, como contista, que com certeza “terá o mesmo destino. Simplesmente porque é grande”. Em destaque, expressões do prof. Genuíno Sales, que já escrevera antes: “... Seus contos são histórias de vida e muito bem contadas porque contadas com as letras do coração”.

De fato:  Sob Eros e Thanatos são trinta e sete histórias de vida. Porque são histórias de gente. Porque são pedaços de vida de gente. Porque são histórias de sonhos. De esperança. De saudade. De solidão. De pobreza. De amarguras. De tédio. De buscas e procuras. De solidariedade. De curiosidade. De confidências. Da cruel realidade. De mistério. De incertezas.
           
Porque sonhar e esperar é coisa de gente. Saudade é coisa de gente. Solidão – a de sentir-se só – e a essencial, que é a de ser único no mundo –, são coisas de gente. Pobreza, estado de vida inevitável (pobres sempre os haverá), é coisa de gente. Porque o ser humano é um esterno insatisfeito e a busca interminável é coisa de gente. Porque a vida se alterna entre o prazer e o tédio, e o prazer e o tédio são coisas de gente. Porque são histórias das Marilus inúmeras por aí em fora. Das Cecílias sem conta. Das casinhas de esquina: há sempre uma casinha na esquina.

Assim, por feitos de gente. De sentimentos de gente. De dores de gente – a dor é a substância da vida. Aos contos de Giselda Medeiros não lhes cabe a denominação de lineares ou de histórias concretas para serem lidas e narradas oralmente, pelas calçadas ou em círculos de pessoas. Os cenários e motivos ou, melhor dizendo, os pretextos são materiais e concretos: a pousada. A casinha da esquina. A fogueira. A lagoa. A pescaria. A serpente. As flores. A surpresa é que a Autora faz pouquíssimas referências (descrições) à pousada. À lagoa. À fogueira. À casinha da esquina... O leitor vai perceber o pulo rápido e espontâneo e sutil do concreto para o abstrato. Do motivo concreto e particular para o universal. Do palpável ao imaterial. É o aproveitamento do cenário da pescaria, por exemplo, para a fundamentação da traição e para dizer da força do sexo proibido. A serpente é só o pretexto para o aguçamento do desejo sexual e sua concretização.

Também nas histórias da autora de Tempo das Esperas, permeia o clima de mistério e de surpresa, na quebra do ritmo das narrativas bem arrumadas. Em poucas linhas, Giselda Medeiros mostra os cenários e logo vem o mistério. O leitor não sai do livro com o retrato formado da casinha da esquina, senão com a imagem de Lúcia (há tantas por aí em fora), da implicante Sarinha; do desapontamento de Lúcia sentindo-se rejeitada por outras crianças, da amargura de dona Francisca. Os três últimos parágrafos beiram, assim, a experiência concreto-surrealista. O recurso do mistério, da surpresa e do humano faz dos contos de Giselda Medeiros histórias universais, de lições e de salvação. Trata-se, pois, de contos sem idade que podem ser prolongados ou se podem fazer mais longevos por sua literariedade.

O aspecto conotativo da linguagem é dominante em todas as páginas, pela atribuição de significados novos e criação de novas relações entre as palavras, com domínio desse recurso. São contos, contudo, de fácil compreensão, apesar da aura de mistério e da freqüência das imagens e das figuras, cujo quase abuso amortece tanto ou quanto o refinamento do conteúdo mental e enredo do conto, recursos que devem ser usados, neste gênero, com certa parcimônia e não repetidamente. Os textos de Sob Eros e Thanatos, em face da abundância imagética e de conotação, ganham em sonoridade e música, ante o que a alma do leitor ressoa e vibra, o estilo se reveste de certo rebuscamento de figuras e imagens, diluindo um pouco a ação. É a poeta e a contista se reclamando e se completando, numa coexistência pacífica: poesia e prosa se misturando.

A frase de Giselda Medeiros é curta. Delas curtíssimas. De uma palavra só às vezes. Não há o que se corrigir na estrutura frasal da Autora, que prima pelo uso clássico do pronome oblíquo lhe, que deixa elegante a linguagem.

“Grande poeta não poderia deixar de ser grande contista”. Giselda Medeiros, poeta consagrada, com uma obra poética profunda, revela-se, agora, como contista, com um caminho à frente a palmilhar. O que é importante é que a Escritora tem já toda a ferramenta e a matéria-prima, porque tem o domínio da frase curta e contundente, da palavra usual (e da conotação) e do período harmonioso. E mais: tem outras qualidades do bom contista: a fuga da obviedade, dispensa de detalhes desnecessários, dosagem de mistério nas entrelinhas, exigindo do leitor esforço mental como num trabalho de co-autoria (o leitor deve ser um co-autor).

Assim, futuros contos de Giselda Medeiros poderão perder na extensão – síntese não é perda –, far-se-ão, todavia, obra de arte que se caracteriza pela longevidade.

Pois não, amigo leitor, Sob Eros e Thanatos é uma obra recheada de gente. De pedaços de vida e de pedaços de alma que são de todo mundo, no mundo todo. Nenhum texto que fale de outro texto diz mais sobre o texto em questão. Ou seja: a leitura destas impressões não substitui a leitura dos contos de Giselda Medeiros, todos ricos de conteúdos mentais universais. Independente do que se escreveu ou do que se não disse sobre, o leitor precisa folhear Sob Eros e Thanatos, porque o crítico (jamais disse sê-lo) não tem razões a pedir, a contista não tem contas a prestar, pois a arte (os contos de Giselda Medeiros são arte) dispensa rédeas, regras e mordaças.

Que sem mordaça, teorias e regras, continue Giselda Medeiros criando suas histórias, com riqueza e versatilidade dos meios verbais.

                                                                            Dias da Silva
                                             Editor de BINÓCULO – caderno de leitura
                                                 Membro da Academia Lavrense de Letras  

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

MAIS UM CONTO DE GISELDA MEDEIROS


SELMA
Giselda Medeiros

Ainda a bordo do avião, fico a pensar em Selma. Como será o nosso reencontro?! Imagino-a mais madura (quem sabe?) curada daquele trauma antigo. Luís, ao meu lado, finge não perceber minha preocupação, chamando-me a atenção para suas leituras. Sei que o seu objetivo é desviar meus pensamentos. No entanto, à medida que a distância aérea vai sendo vencida, mais eu me vou compungindo nesta expectativa de novamente reacender toda uma triste história adormecida no passado.
Ficar três anos longe do Brasil (e sem notícia, pois assim achara melhor Dr. Enrique) fizera-nos um bem enorme. Estamos inteiros, Luís e eu, para esclarecer (digo melhor, virar) uma página que não fora lida, muito menos interpretada com exatidão. Como estaria Selma era a minha grande preocupação. E como reagiria ante o nosso regresso? Sabia-me amada por ela, para quem fui mais que uma irmã, desde a morte de nossos pais. Estaria ela melhor? Tomara!
Toda aquela cena de antes jorrou sobre mim, cascateando dúvidas (como sempre as tive), medo e insegurança. E se aquelas suspeitas fossem duras verdades? Sempre acreditara no óbvio. Mas, se o óbvio passar a ser o não óbvio? Como reagirei? Que atitude tomar?
Após a morte de nossos pais, eu, recém-casa, passara a cuidar dela e não me lembro de ter notado, até essa época, nada de anormal no seu comportamento. Era uma criança precoce, é bem verdade. Com o passar dos dias, formos nos tornando seus pais. Luís a colocava no colo, brincava de cavalinho, de paga-pega, de cabra-cega, enfim, era duas crianças peraltas. Esse clima, familiarmente perfeito, durou até o dia em que presenciei amuar-se quando Luís a pôs no colo. Era natural, pensei, já estava mudando: os seios intumesciam-se, os pelos desenhavam-se no corpo e a menarca precoce que lhe chegara. Desde então, comecei a notar algo esquisito no seu comportamento. Fugia para o quarto, sempre com alguma desculpa, à simples chegada de Luís.
Porque casara muito jovem, aos 14 anos (Luís tinha trinta), não sabia bem como assumir a maternidade nesta fase adolescente. Por isso (e acho que foi aí o meu erro), deixei Luís mais à vontade para iniciá-la nessa nova fase da vida, uma vez eu o via como um verdadeiro pai para ela, amadurecido e experiente. Ah, adolescência, adolescência! – pensei com saudade. Não tive tempo para usufruí-la em sua exuberância nem pude vê-la cair sobre minha irmã. Pobre Selma!
Recriminava-me agora por tê-la abandonado. Digo melhor, não abandonado, pois a deixara sob a tutela do Dr. Henrique, que nos aconselhara a viagem. Deixasse com ele as providências quanto ao caso de Selma.
Novamente Luís intervém, dizendo-me estar perto a chegada. O coração angustia-se. Bate mais forte. Suores. Ondas de frio e calor percorrem-me o corpo. Fecho os olhos, acomodo-me à poltrona e finjo dormir. Rememoro o primeiro encontro com Luís, um empresário recém-saído de um casamento sem filhos. Dizia não querê-los. Este era um ponto discordante entre nós, porque sempre achei serem os filhos uma peça vital no tabuleiro do matrimônio. Tornavam-no mais completo, mais sólido, embora entendesse não ser isso somente o seu sustentáculo. Mas são o sal necessário ao paladar do casal. Diante deste meu posicionamento, Luís sempre achava argumentos para provar que nem sempre eu estava com a razão. Porém o mais intrigante era o fato de ele não querer filhos e gostar tanto de crianças, principalmente das meninas. Sempre fora um bom marido, entretanto uma nódoa pairava no céu. Eu sentia (aliás, sempre senti) algum embaraço na voz, nos gestos dele, quando evocávamos o passado. “Vamos esquecer isso”, dizia-me sempre que queria retomar o assunto.
Agora mesmo, no avião, enquanto finjo dormir, noto-lhe uma ansiedade no olhar, um não sei quê perdido que preciso reencontrar. Finge ler e me examina. Pareço dormir, ele afrouxa a gravata, sério. E, como que tomado de um certo medo, suspira aflição. Novamente volta a me olhar (sinto-lhe o hálito preocupado no beijo que deita nos meus lábios e que me queima pele adentro). O “querida, estamos 
chegando” arranca-me do falso sono.
“Apertem os cintos”... E o pouso em minha terra.
Cumprimentos, abraços, beijos. Nada me distrai. Meu olhar busca Selma com ânsia dorida. Selma! Selma! (?)
“Olá, Dr. Henrique! E Selma?!”
Selma não viera. Tão moça!
Cheia de interrogações, vi cair sobre Luís o olhar áspero, carregado de revolta, vindo do Dr. Henrique no “como vão”, secamente articulado.

(in: Sob Eros e Thanatos)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

CANÇÃO PARA O QUE VEIO - GISELDA MEDEIROS



CANÇÃO PARA O QUE VEIO

Giselda Medeiros

Quem és tu, andarilho, que me vens
Quando esmaece a aurora no meu peito,
Quando adormece em mim o olhar do tempo,
No corre-corre desta vida infrene?

E vens a mim com tuas mãos de sonho,
Com dedos de carícias, mimos puros,
E, em doce afago, acalma minha alma,
Vem plantar ilusões em terra virgem!

Mesmo assim, fica! Há muito eu te esperava,
Pus laços de cetim sobre as janelas
E pétalas na porta de entrada.

E fica! É longo o estio, e as cigarras
Já não cantam para alegrar minha alma,
E é triste a vida sem o canto delas!

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

SONETO A QUATRO MÃOS: MÁRCIO CATUNDA E VIANNEY MESQUITA - PARA O ANO NOVO





MAIS UM ALVORECER

Márcio Catunda – quadras

Vianney Mesquita - trísticos

31.12.2018

Mil, dez mil anos não passam de um simples ponto que nos não é dado ver.

(Simônides de Ceos, epigramático grego arcaico. 556-468 a.t.p.)


Nos meandros vertentes da esperança,

Navegamos ao Porto da Alegria.

Só chegamos à paz pela confiança

Com fé no bem da luz de outro dia.


Que o ano novo seja de bonança

- Vamos chamados pela estrela-guia –

De sombra, de água fresca e maré mansa,

A mesa farta e boa companhia.


Esteados na autossegurança,

Alcemos o pendão da temperança

No arrimo salutar da parceria.


E em firme entretecer da aliança,

Bem plausíveis na verossimilhança,

Ensaiemos subir à Parusia.

domingo, 30 de dezembro de 2018

MAIS UM POEMA DE ADELINA GARRIDO CHARNECA





BREVE CONTO DE AMOR SEM PRINCIPIO NEM FIM!


... que importa se não me queres,
nem me importa que me mintas;
que fazer a este coração que te ama,
não posso mais contrariá-lo,
nem esquecer tudo o que a cada dia está mais vivo em mim,
que me importa, se não mais te terei,
que posso eu fazer se os meus olhos te vêm até quando durmo.
Já está chegando o Natal outra vez, mais um ano termina,
e esta batalha de esquecer-te já é uma batalha perdida,
então...
fica para sempre no meu peito,
viverei com este sentimento em silêncio,
levo-o para onde for,
e que me mate a morte mais sublime,
a morte de morrer pensando em ti,
são tantas vidas vividas,
tantas vidas, e em nenhuma foste meu,
já não és o meu desespero,
és a minha tranquilidade
já não és o meu desejo,
és a minha feliz coincidência
já não és tu e eu,
é a minha alma e a tua,
sim...
ninguém (nem tu) pode impedir-me de querer-te até ao fundo da minha alma,
nem a vida, que parece não me querer,
nem o mundo cheio de preconceito,
ninguém... ninguém... és meu todas as noites no silêncio da noite escura,
és meu,
quando caminho, ou onde quer que eu vá,
aqui no meu peito,
a tua mão sempre me guiará,
até ao final,
e que o final seja próximo.
Isto não é uma declaração de amor,
já não necessito declará-lo,
já o sabe Deus,
já o sabe a Virgem,
até o universo... e também o sabes tu,
é uma confirmação do meu amor,
e do meu sorriso,
se te vejo sorrir,
é a felicidade de saber-te assim... feliz,
e a suprema satisfação de ter conhecido o amor,
contigo!

Adelina Garrido Charneca
(poeta portuguesa)