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sábado, 28 de setembro de 2019

UM CONTO DE GISELDA MEDEIROS



O ENCONTRO RECIDIVO


Sabia. Tinha certeza de que tudo iria se repetir. Que vontade de falar, de gritar que ela não lhe desse atenção, que não se deixasse levar pelas aparências, que  ouvisse a minha história! Mas não me saía a voz. Tudo estava cinza à minha volta. Vozes e choro. Por que choravam? E por que ninguém detinha o casal que atravessava a sala, rumo ao pátio de saída?!
Vi-o uma única vez no velório de uma amiga. A sala estava quente, e resolvi tomar um pouco de ar lá fora.
– A moça conheceu a defunta?
Volto-me na direção daquela voz masculina, de timbre agradável, dessas a que a gente não resiste, por mais que queira.
– Sim. Éramos amigas. Tão boa! Com um fim tão trágico... Mas, desculpe-me. Nem o conheço e já estou aqui a falar de coisas que talvez nem lhe interessem.
Interrompeu-me mansamente e, com um gesto delicado e amigo, pousou a mão máscula sobre meus ombros, quase enlaçando-me:
– Mário Xavier de Lima, encantado por conhecê-la.
A simples menção àquele nome fez-me estremecer. Não sabia por quê. Não poderia saber, mas tive pressentimentos estranhos.
Quis fugir. Sair dali correndo. Mas, seu braço continuava enlaçando-me, prendendo-me a ele, a uma realidade palpável, crua e sinistra...
– Mas, a moça bonita ainda não me disse seu nome - falou tão sussurrante que pude sentir-lhe o hálito acre.
Não sabia o que dizer. Sua voz entrava-me, anestesiando-me. Quis balbuciar algo. A voz embargada, sufocava-me. Suores. Tremores.
– Vamos, chore, moça. Desabafe a dor da perda de sua amiga.   
Não podia chorar. Sem forças, deixei tombar a cabeça sobre o peito musculoso daquele homem, que me sustinha, que me prendia ao seu chão. Acariciava meus cabelos tão ternamente que me recompus, num instante. No entanto, por que o medo? Carinhoso daquele jeito... Não! Não deveria ter medo!
Veio vindo da sala um odor de rosas, e a muda voz da amiga morta: “Cuidado, as aparências enganam!” Sobressaltei-me com aquele pressentimento. Contudo, continuava ali, indefesa, encolhida, como presa abocanhada. Seria tão fácil pedir licença, arrancar-lhe o braço que me prendia e sair! Meu Deus...   
– Vejo que melhorou. Agora, pode dizer-me seu nome? - e continuava insistindo -  seu nome, querida?
– No... me! No... me!
Sua voz hipnotizava-me. E ele me ia conduzindo. Conduzindo. Para onde? Atravessamos a sala. Minha amiga morta nos acenava seu adeus. E pude ver-lhe as lágrimas luzindo à luz dos círios. Adeus, mas escute, amiga: “As aparências enganam”.
Já não me incomodava aquela advertência. Ia sendo levada, fluida, autômata, à imolação. Só o que me importava, naquele momento, era o braço peludo, musculoso, sustendo-me, cada vez mais forte, mais forte, tão mais forte que me doía.
Onde estava? Nem mais sabia. Sentia, apenas. Sentia um corpo pesado sobre mim. Duas mãos másculas me apertando o pescoço, num misto de força e carícia. E uma boca quente me sussurrando, sugando-me a alma.
– Seu nome? Seu nome?
Dor e prazer misturavam-se em mim como o vento e uma chuva miúda que caía sobre nossos corpos exangues. Seu hálito roçando-me os últimos vestígios de vida. E a voz grossa, entrecortada, borbulhante de prazer.
– Ma... da... le... na. Seu nome é Ma... da... le... na,  não é?
Meu nome soou-me como um toque de recolher. Silêncio. Era noite! Uma longa noite para mim.
 A sala continuava quente e cinza. Olhei, pela última vez, meu corpo, um chão de rosas, regado pelas lágrimas dos amigos que o velavam. E pude ver, ainda, desaparecendo no final do corredor, uma moça apoiada sobre o peito musculoso daquele homem, que a sustinha, prendendo-a  a uma realidade palpável, tão palpável quanto a minha.  
E eu sabia. Tinha certeza de que tudo iria se repetir. Seria mais uma outra Madalena!...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

MAIS UM CONTO DE GISELDA MEDEIROS


SELMA
Giselda Medeiros

Ainda a bordo do avião, fico a pensar em Selma. Como será o nosso reencontro?! Imagino-a mais madura (quem sabe?) curada daquele trauma antigo. Luís, ao meu lado, finge não perceber minha preocupação, chamando-me a atenção para suas leituras. Sei que o seu objetivo é desviar meus pensamentos. No entanto, à medida que a distância aérea vai sendo vencida, mais eu me vou compungindo nesta expectativa de novamente reacender toda uma triste história adormecida no passado.
Ficar três anos longe do Brasil (e sem notícia, pois assim achara melhor Dr. Enrique) fizera-nos um bem enorme. Estamos inteiros, Luís e eu, para esclarecer (digo melhor, virar) uma página que não fora lida, muito menos interpretada com exatidão. Como estaria Selma era a minha grande preocupação. E como reagiria ante o nosso regresso? Sabia-me amada por ela, para quem fui mais que uma irmã, desde a morte de nossos pais. Estaria ela melhor? Tomara!
Toda aquela cena de antes jorrou sobre mim, cascateando dúvidas (como sempre as tive), medo e insegurança. E se aquelas suspeitas fossem duras verdades? Sempre acreditara no óbvio. Mas, se o óbvio passar a ser o não óbvio? Como reagirei? Que atitude tomar?
Após a morte de nossos pais, eu, recém-casa, passara a cuidar dela e não me lembro de ter notado, até essa época, nada de anormal no seu comportamento. Era uma criança precoce, é bem verdade. Com o passar dos dias, formos nos tornando seus pais. Luís a colocava no colo, brincava de cavalinho, de paga-pega, de cabra-cega, enfim, era duas crianças peraltas. Esse clima, familiarmente perfeito, durou até o dia em que presenciei amuar-se quando Luís a pôs no colo. Era natural, pensei, já estava mudando: os seios intumesciam-se, os pelos desenhavam-se no corpo e a menarca precoce que lhe chegara. Desde então, comecei a notar algo esquisito no seu comportamento. Fugia para o quarto, sempre com alguma desculpa, à simples chegada de Luís.
Porque casara muito jovem, aos 14 anos (Luís tinha trinta), não sabia bem como assumir a maternidade nesta fase adolescente. Por isso (e acho que foi aí o meu erro), deixei Luís mais à vontade para iniciá-la nessa nova fase da vida, uma vez eu o via como um verdadeiro pai para ela, amadurecido e experiente. Ah, adolescência, adolescência! – pensei com saudade. Não tive tempo para usufruí-la em sua exuberância nem pude vê-la cair sobre minha irmã. Pobre Selma!
Recriminava-me agora por tê-la abandonado. Digo melhor, não abandonado, pois a deixara sob a tutela do Dr. Henrique, que nos aconselhara a viagem. Deixasse com ele as providências quanto ao caso de Selma.
Novamente Luís intervém, dizendo-me estar perto a chegada. O coração angustia-se. Bate mais forte. Suores. Ondas de frio e calor percorrem-me o corpo. Fecho os olhos, acomodo-me à poltrona e finjo dormir. Rememoro o primeiro encontro com Luís, um empresário recém-saído de um casamento sem filhos. Dizia não querê-los. Este era um ponto discordante entre nós, porque sempre achei serem os filhos uma peça vital no tabuleiro do matrimônio. Tornavam-no mais completo, mais sólido, embora entendesse não ser isso somente o seu sustentáculo. Mas são o sal necessário ao paladar do casal. Diante deste meu posicionamento, Luís sempre achava argumentos para provar que nem sempre eu estava com a razão. Porém o mais intrigante era o fato de ele não querer filhos e gostar tanto de crianças, principalmente das meninas. Sempre fora um bom marido, entretanto uma nódoa pairava no céu. Eu sentia (aliás, sempre senti) algum embaraço na voz, nos gestos dele, quando evocávamos o passado. “Vamos esquecer isso”, dizia-me sempre que queria retomar o assunto.
Agora mesmo, no avião, enquanto finjo dormir, noto-lhe uma ansiedade no olhar, um não sei quê perdido que preciso reencontrar. Finge ler e me examina. Pareço dormir, ele afrouxa a gravata, sério. E, como que tomado de um certo medo, suspira aflição. Novamente volta a me olhar (sinto-lhe o hálito preocupado no beijo que deita nos meus lábios e que me queima pele adentro). O “querida, estamos 
chegando” arranca-me do falso sono.
“Apertem os cintos”... E o pouso em minha terra.
Cumprimentos, abraços, beijos. Nada me distrai. Meu olhar busca Selma com ânsia dorida. Selma! Selma! (?)
“Olá, Dr. Henrique! E Selma?!”
Selma não viera. Tão moça!
Cheia de interrogações, vi cair sobre Luís o olhar áspero, carregado de revolta, vindo do Dr. Henrique no “como vão”, secamente articulado.

(in: Sob Eros e Thanatos)

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

UM CONTO DE GISELDA MEDEIROS



 O ENCONTRO RECIDIVO


                   Sabia. Tinha certeza de que tudo iria se repetir. Que vontade de falar, de gritar que ela não lhe desse atenção, que não se deixasse levar pelas aparências, que ouvisse a minha história! Mas não me saía a voz. Tudo estava cinza à minha volta. Vozes e choro. Por que choravam? E por que ninguém detinha o casal que atravessava a sala, rumo ao pátio de saída?!
                   Vi-o uma única vez no velório de uma amiga. A sala estava quente, e resolvi tomar um pouco de ar lá fora.
                   – A moça conheceu a defunta?
                   Volto-me na direção daquela voz masculina, de timbre agradável, dessas a que a gente não resiste, por mais que queira.
                   – Sim. Éramos amigas. Tão boa! Com um fim tão trágico..., mas, desculpe-me. Nem o conheço e já estou aqui a falar de coisas que talvez nem lhe interessem.
                   Interrompeu-me mansamente e, com um gesto delicado e amigo, pousou a mão máscula sobre meus ombros, quase enlaçando-me:
                   – Mário Xavier de Lima, encantado por conhecê-la.
                   A simples menção àquele nome fez-me estremecer. Não sabia por quê. Não poderia saber, mas tive pressentimentos estranhos.
                   Quis fugir. Sair dali correndo. Mas, seu braço continuava enlaçando-me, prendendo-me a ele, a uma realidade palpável, crua e sinistra...
                   – Mas, a moça bonita ainda não me disse seu nome - falou tão sussurrante que pude sentir-lhe o hálito acre.
                   Não sabia o que dizer. Sua voz entrava-me, anestesiando-me. Quis balbuciar algo. A voz embargada, sufocava-me. Suores. Tremores.
                   – Vamos, chore, moça. Desabafe a dor da perda de sua amiga.  
                   Não podia chorar. Sem forças, deixei tombar a cabeça sobre o peito musculoso daquele homem, que me sustinha, que me prendia ao seu chão. Acariciava meus cabelos tão ternamente que me recompus, num instante. No entanto, por que o medo? Carinhoso daquele jeito... Não! Não deveria ter medo!
                   Veio vindo da sala um odor de rosas, e a muda voz da amiga morta: “Cuidado, as aparências enganam!” Sobressaltei-me com aquele pressentimento. Contudo, continuava ali, indefesa, encolhida, como presa abocanhada. Seria tão fácil pedir licença, arrancar-lhe o braço que me prendia e sair! Meu Deus...  
                   – Vejo que melhorou. Agora, pode dizer-me seu nome? - e continuava insistindo - seu nome, querida?
                   – No... me! No... me!
                   Sua voz hipnotizava-me. E ele me ia conduzindo. Conduzindo. Para onde? Atravessamos a sala. Minha amiga morta nos acenava seu adeus. E pude ver-lhe as lágrimas luzindo à luz dos círios. Adeus, mas escute, amiga: “As aparências enganam”.
                   Já não me incomodava aquela advertência. Ia sendo levada, fluida, autômata, à imolação. Só o que me importava, naquele momento, era o braço peludo, musculoso, sustendo-me, cada vez mais forte, mais forte, tão mais forte que me doía.
                   Onde estava? Nem mais sabia. Sentia, apenas. Sentia um corpo pesado sobre mim. Duas mãos másculas me apertando o pescoço, num misto de força e carícia. E uma boca quente me sussurrando, sugando-me a alma.
                   – Seu nome? Seu nome?
                   Dor e prazer misturavam-se em mim como o vento e uma chuva miúda que caía sobre nossos corpos exangues. Seu hálito roçando-me os últimos vestígios de vida. E a voz grossa, entrecortada, borbulhante de prazer.
                   – Ma... da... le... na. Seu nome é Ma... da... le... na, não é?
                   Meu nome soou-me como um toque de recolher. Silêncio. Era noite! Uma longa noite para mim.
                    A sala continuava quente e cinza. Olhei, pela última vez, meu corpo, um chão de rosas, regado pelas lágrimas dos amigos que o velavam. E pude ver, ainda, desaparecendo no final do corredor, uma moça apoiada sobre o peito musculoso daquele homem, que a sustinha, prendendo-a a uma realidade palpável, tão palpável quanto a minha. 
                   E eu sabia. Tinha certeza de que tudo iria se repetir. Seria mais uma outra Madalena!...

Giselda Medeiros
(do livro Sob Eros e Thanatos)


sábado, 9 de julho de 2016

UM CONTO DE ANA PAULA MEDEIROS



CONTO DE UMA NOITE DE ABRIL

Os ponteiros pareciam passear vagarosamente sob o vidro do relógio de pulso, enquanto ela aguardava a definição do lugar do encontro.

Há poucas horas, havia recebido um convite para jantar. Deveria estar feliz, mas uma avalanche de emoções escorregava-lhe pela espinha. Há dias, o relacionamento não estava muito bem. Existia algo, uma energia forte, contrária à dos amantes, que se espalhava como uma erva daninha. Uma sombra pairava sobre os dois, amornando a euforia do amor. Ela sabia que estava por vir mais um daqueles momentos de contabilidade... Contas de coisas que ela fizera e o desagradou. Contas postas friamente sobre a mesa de jantar. Era sal na sobremesa...

Finalmente, chegou a mensagem com o local e hora do encontro. Ela levantou-se da cama e foi se banhar. Deixou, por longos instantes, a água escorrer pelo seu corpo e sumir através do ralo. Parecia que a água levava embora um pouco de sua desilusão... Respirou fundo e recompôs-se. Perfumou-se e vestiu uma roupa nova, como era de costume nos encontros que tinha com ele. E foi. Chegou cedo e explorou o lugar. Havia um jardim grande com muitas plantas e luminárias. Sentou-se e, ao recordar alguns momentos, percebeu o quanto o amava e o admirava e se orgulhava de ser... ser... ser o quê?... Não conseguiu se definir em relação ao que era para ele. Levantou-se e andou inquieta por entre as mesas vazias do jardim até que o avistou entrando pelo portão. Seu coração disparou e um soluço inesperado lhe aparecera naquela hora. Ele aproximou-se e a cumprimentou formalmente. Era um homem de poucas palavras, mas de muitos pensamentos. Ela queria pular em seus braços, morder sua orelha e dizer: olá, meu amor! Mas, o jeito sisudo e grave, com o qual ele a recebeu, embargou a ebulição dos gestos que ela desejava fazer naquela hora.

Foram ao salão e se assentaram. Havia uma dormência nela e uma estranha tranquilidade nele. Ele examinou o cardápio, solicitou sugestões e fez o pedido ao garçom. Enquanto isso, ela sofria silenciosamente... Até que, depois de um longo suspiro, ele iniciou a conversa. A sensação que ela tinha era que as palavras dele a aprisionavam em uma caverna escura e a faziam ficar lá: triste e acuada. Recebeu tudo de peito aberto. Nunca teve escudos, trincheiras, abrigos de defesa. E tinha um grave defeito: total inabilidade para brigar e contra argumentar em situações que envolviam seus afetos.

Ele lhe disse coisas que chegaram nela como um tsunami. Ela chorou muito e foi embora só. Ele não a quis. Sequer lhe retribuiu o abraço na despedida. Permaneceu inflexível como um carvalho na tempestade.


Naquela noite, ao chegar em casa, enquanto tremia acometida por uma febre emocional, ela ouviu aquela mesma sombra, que pairava sobre os dois, dar muitas gargalhadas. Depois dali, ela mergulhou num torturante vazio que lhe roubou o viço e o doce da vida. Não há mais tâmaras nem damascos nas manhãs de domingo.