segunda-feira, 4 de março de 2019

DIFERENÇAS - CRÔNICA DE ANA PAULA MEDEIROS



DIFERENÇAS

Ana Paula de Medeiros Ribeiro

Ser professor universitário é sempre uma oportunidade de observar os anseios e pensamentos da juventude sobre as coisas do mundo.
Ontem, foi o primeiro dia de aula do semestre – um momento de expor aos estudantes a dinâmica da disciplina, as regras institucionais e de convivência. Ao final disso tudo, houve a rodada de apresentações em que os estudantes puderam se apresentar e dizer algo de si.
Nesta pequena incursão ao universo discente, no primeiro dia de aula, podem ser identificados aqueles mais extrovertidos e engraçados, os mais tímidos e reservados, aqueles que já trabalham e aqueles que ainda não possuem experiências profissionais. Estes, no entanto, ainda são maioria. Muitos declararam que ainda não trabalham.
No contexto atual, ter a possibilidade de dedicar-se exclusivamente aos estudos e ainda estar em uma Universidade pública é um grande privilégio. Isso provocou em mim várias reflexões porque relembrei uma conversa que tive com Nino, meu sogro, um homem de 80 anos, ali, ao lado de sua oficina, espaço que o possibilita ainda ser muito produtivo.
Em meio a uma conversa bastante agradável, ele me disse:
– Se eu tivesse tido a oportunidade que meus filhos tiveram de estudar e de se formar, eu teria sido um profissional melhor, de mais saberes e conhecimentos. Eu sempre tive muita vontade de progredir nos meus estudos e, um dia, eu tomei coragem e me aproximei de meu pai fazendo o pedido para que ele me permitisse estudar. Embora eu gostasse muito do ambiente das oficinas e de tudo o que eu fazia por lá, era meu desejo saber mais, ler mais para poder entender mais e trabalhar melhor. Mas, após meu pleito, meu pai deu um longo suspiro e, olhando-me de modo melancólico, disse: “Eu poderia lhe dar a oportunidade para continuar seus estudos, mas eu, necessariamente, teria que dar também para todos os outros filhos”. E, espalmando ambas as mãos, nomeou um filho em cada dedo.
Nino disse que após aquela explanação do pai, ficou sem palavras, sem argumento algum e aceitou seu destino, embora não fosse aquilo que seu espírito sedento de conhecimento desejasse.
Àquela época, seguir nos estudos demandava muito esforço econômico dos pais e inúmeras renúncias. Lembrei-me também das histórias de minha avó que, mesmo viúva e com muitas dificuldades, enviou os cinco filhos para a capital a fim de estudarem, uma vez que na cidadezinha do interior em que moravam, o máximo que conseguiam era finalizar o primário. Os filhos vieram para Fortaleza, ficaram na casa de uma tia severa e completaram o ginásio, o científico e o nível superior. Mas, tudo às custas de muito sacrifício. Muito provavelmente isso não teria sido possível se minha avó tivesse a quantidade de filhos que tinha o pai de Nino.
Então, diante desses relatos e lembranças, me pus a pensar em o quanto nós, a geração seguinte, fomos privilegiados, uma vez que estudamos em excelentes escolas e universidades e tivemos mais conforto e tranquilidade para seguir nos estudos. Uma coisa interessante é que nossa geração conseguiu estudar e trabalhar ao mesmo tempo. Havia muitas dificuldades, também, para conciliar ambas as coisas, mas a maior parte das pessoas que conheço, da minha geração, passou pelas mesmas situações.
Todavia, interessante é observar o quanto nos tornamos protetores de nossos filhos. Eles já possuem maior conforto e acesso a recursos do que nós tivemos. Entretanto, uma coisa que identifico nesta geração de jovens de agora é uma espécie de apatia, de ceticismo, creio que fruto de uma acomodação alimentada por nossa extrema proteção.
Antes, trabalho e estudo eram muito incompatíveis por fatores expostos nos relatos de Nino e de minha avó, mas, atualmente, com os recursos disponíveis, as facilidades e a flexibilidade oriunda das formas de trabalhar e de estudar, creio que há poucas justificativas para a falta de vontade dos jovens em buscar oportunidades e autonomia. A vida profissional apresenta muitos desafios, mas pelo modo como os enfrentamos é que ela se constrói.
Por fim, ficou em mim esta conclusão: Sejamos gratos ao que obtivemos de nossos pais e comedidos ao que damos aos nossos filhos. Amor não se expressa pela permissividade e, sim, por atitudes sensatas e firmes diante das necessidades e desejos de nossos rebentos.
Ana Paula Medeiros - Da Academia Cearense da Língua Portuguesa e  da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil - AJEB/CE.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

SOB EROS E THANATOS, DE GISELDA MEDEIROS, POR DIAS DA SILVA



SOB EROS E THANATOS



Confirma-se: Giselda Medeiros – além de poeta admirada e lida por tantos – vem a público, agora, como contista, que com certeza “terá o mesmo destino. Simplesmente porque é grande”. Em destaque, expressões do prof. Genuíno Sales, que já escrevera antes: “... Seus contos são histórias de vida e muito bem contadas porque contadas com as letras do coração”.

De fato:  Sob Eros e Thanatos são trinta e sete histórias de vida. Porque são histórias de gente. Porque são pedaços de vida de gente. Porque são histórias de sonhos. De esperança. De saudade. De solidão. De pobreza. De amarguras. De tédio. De buscas e procuras. De solidariedade. De curiosidade. De confidências. Da cruel realidade. De mistério. De incertezas.
           
Porque sonhar e esperar é coisa de gente. Saudade é coisa de gente. Solidão – a de sentir-se só – e a essencial, que é a de ser único no mundo –, são coisas de gente. Pobreza, estado de vida inevitável (pobres sempre os haverá), é coisa de gente. Porque o ser humano é um esterno insatisfeito e a busca interminável é coisa de gente. Porque a vida se alterna entre o prazer e o tédio, e o prazer e o tédio são coisas de gente. Porque são histórias das Marilus inúmeras por aí em fora. Das Cecílias sem conta. Das casinhas de esquina: há sempre uma casinha na esquina.

Assim, por feitos de gente. De sentimentos de gente. De dores de gente – a dor é a substância da vida. Aos contos de Giselda Medeiros não lhes cabe a denominação de lineares ou de histórias concretas para serem lidas e narradas oralmente, pelas calçadas ou em círculos de pessoas. Os cenários e motivos ou, melhor dizendo, os pretextos são materiais e concretos: a pousada. A casinha da esquina. A fogueira. A lagoa. A pescaria. A serpente. As flores. A surpresa é que a Autora faz pouquíssimas referências (descrições) à pousada. À lagoa. À fogueira. À casinha da esquina... O leitor vai perceber o pulo rápido e espontâneo e sutil do concreto para o abstrato. Do motivo concreto e particular para o universal. Do palpável ao imaterial. É o aproveitamento do cenário da pescaria, por exemplo, para a fundamentação da traição e para dizer da força do sexo proibido. A serpente é só o pretexto para o aguçamento do desejo sexual e sua concretização.

Também nas histórias da autora de Tempo das Esperas, permeia o clima de mistério e de surpresa, na quebra do ritmo das narrativas bem arrumadas. Em poucas linhas, Giselda Medeiros mostra os cenários e logo vem o mistério. O leitor não sai do livro com o retrato formado da casinha da esquina, senão com a imagem de Lúcia (há tantas por aí em fora), da implicante Sarinha; do desapontamento de Lúcia sentindo-se rejeitada por outras crianças, da amargura de dona Francisca. Os três últimos parágrafos beiram, assim, a experiência concreto-surrealista. O recurso do mistério, da surpresa e do humano faz dos contos de Giselda Medeiros histórias universais, de lições e de salvação. Trata-se, pois, de contos sem idade que podem ser prolongados ou se podem fazer mais longevos por sua literariedade.

O aspecto conotativo da linguagem é dominante em todas as páginas, pela atribuição de significados novos e criação de novas relações entre as palavras, com domínio desse recurso. São contos, contudo, de fácil compreensão, apesar da aura de mistério e da freqüência das imagens e das figuras, cujo quase abuso amortece tanto ou quanto o refinamento do conteúdo mental e enredo do conto, recursos que devem ser usados, neste gênero, com certa parcimônia e não repetidamente. Os textos de Sob Eros e Thanatos, em face da abundância imagética e de conotação, ganham em sonoridade e música, ante o que a alma do leitor ressoa e vibra, o estilo se reveste de certo rebuscamento de figuras e imagens, diluindo um pouco a ação. É a poeta e a contista se reclamando e se completando, numa coexistência pacífica: poesia e prosa se misturando.

A frase de Giselda Medeiros é curta. Delas curtíssimas. De uma palavra só às vezes. Não há o que se corrigir na estrutura frasal da Autora, que prima pelo uso clássico do pronome oblíquo lhe, que deixa elegante a linguagem.

“Grande poeta não poderia deixar de ser grande contista”. Giselda Medeiros, poeta consagrada, com uma obra poética profunda, revela-se, agora, como contista, com um caminho à frente a palmilhar. O que é importante é que a Escritora tem já toda a ferramenta e a matéria-prima, porque tem o domínio da frase curta e contundente, da palavra usual (e da conotação) e do período harmonioso. E mais: tem outras qualidades do bom contista: a fuga da obviedade, dispensa de detalhes desnecessários, dosagem de mistério nas entrelinhas, exigindo do leitor esforço mental como num trabalho de co-autoria (o leitor deve ser um co-autor).

Assim, futuros contos de Giselda Medeiros poderão perder na extensão – síntese não é perda –, far-se-ão, todavia, obra de arte que se caracteriza pela longevidade.

Pois não, amigo leitor, Sob Eros e Thanatos é uma obra recheada de gente. De pedaços de vida e de pedaços de alma que são de todo mundo, no mundo todo. Nenhum texto que fale de outro texto diz mais sobre o texto em questão. Ou seja: a leitura destas impressões não substitui a leitura dos contos de Giselda Medeiros, todos ricos de conteúdos mentais universais. Independente do que se escreveu ou do que se não disse sobre, o leitor precisa folhear Sob Eros e Thanatos, porque o crítico (jamais disse sê-lo) não tem razões a pedir, a contista não tem contas a prestar, pois a arte (os contos de Giselda Medeiros são arte) dispensa rédeas, regras e mordaças.

Que sem mordaça, teorias e regras, continue Giselda Medeiros criando suas histórias, com riqueza e versatilidade dos meios verbais.

                                                                            Dias da Silva
                                             Editor de BINÓCULO – caderno de leitura
                                                 Membro da Academia Lavrense de Letras  

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

MAIS UM CONTO DE GISELDA MEDEIROS


SELMA
Giselda Medeiros

Ainda a bordo do avião, fico a pensar em Selma. Como será o nosso reencontro?! Imagino-a mais madura (quem sabe?) curada daquele trauma antigo. Luís, ao meu lado, finge não perceber minha preocupação, chamando-me a atenção para suas leituras. Sei que o seu objetivo é desviar meus pensamentos. No entanto, à medida que a distância aérea vai sendo vencida, mais eu me vou compungindo nesta expectativa de novamente reacender toda uma triste história adormecida no passado.
Ficar três anos longe do Brasil (e sem notícia, pois assim achara melhor Dr. Enrique) fizera-nos um bem enorme. Estamos inteiros, Luís e eu, para esclarecer (digo melhor, virar) uma página que não fora lida, muito menos interpretada com exatidão. Como estaria Selma era a minha grande preocupação. E como reagiria ante o nosso regresso? Sabia-me amada por ela, para quem fui mais que uma irmã, desde a morte de nossos pais. Estaria ela melhor? Tomara!
Toda aquela cena de antes jorrou sobre mim, cascateando dúvidas (como sempre as tive), medo e insegurança. E se aquelas suspeitas fossem duras verdades? Sempre acreditara no óbvio. Mas, se o óbvio passar a ser o não óbvio? Como reagirei? Que atitude tomar?
Após a morte de nossos pais, eu, recém-casa, passara a cuidar dela e não me lembro de ter notado, até essa época, nada de anormal no seu comportamento. Era uma criança precoce, é bem verdade. Com o passar dos dias, formos nos tornando seus pais. Luís a colocava no colo, brincava de cavalinho, de paga-pega, de cabra-cega, enfim, era duas crianças peraltas. Esse clima, familiarmente perfeito, durou até o dia em que presenciei amuar-se quando Luís a pôs no colo. Era natural, pensei, já estava mudando: os seios intumesciam-se, os pelos desenhavam-se no corpo e a menarca precoce que lhe chegara. Desde então, comecei a notar algo esquisito no seu comportamento. Fugia para o quarto, sempre com alguma desculpa, à simples chegada de Luís.
Porque casara muito jovem, aos 14 anos (Luís tinha trinta), não sabia bem como assumir a maternidade nesta fase adolescente. Por isso (e acho que foi aí o meu erro), deixei Luís mais à vontade para iniciá-la nessa nova fase da vida, uma vez eu o via como um verdadeiro pai para ela, amadurecido e experiente. Ah, adolescência, adolescência! – pensei com saudade. Não tive tempo para usufruí-la em sua exuberância nem pude vê-la cair sobre minha irmã. Pobre Selma!
Recriminava-me agora por tê-la abandonado. Digo melhor, não abandonado, pois a deixara sob a tutela do Dr. Henrique, que nos aconselhara a viagem. Deixasse com ele as providências quanto ao caso de Selma.
Novamente Luís intervém, dizendo-me estar perto a chegada. O coração angustia-se. Bate mais forte. Suores. Ondas de frio e calor percorrem-me o corpo. Fecho os olhos, acomodo-me à poltrona e finjo dormir. Rememoro o primeiro encontro com Luís, um empresário recém-saído de um casamento sem filhos. Dizia não querê-los. Este era um ponto discordante entre nós, porque sempre achei serem os filhos uma peça vital no tabuleiro do matrimônio. Tornavam-no mais completo, mais sólido, embora entendesse não ser isso somente o seu sustentáculo. Mas são o sal necessário ao paladar do casal. Diante deste meu posicionamento, Luís sempre achava argumentos para provar que nem sempre eu estava com a razão. Porém o mais intrigante era o fato de ele não querer filhos e gostar tanto de crianças, principalmente das meninas. Sempre fora um bom marido, entretanto uma nódoa pairava no céu. Eu sentia (aliás, sempre senti) algum embaraço na voz, nos gestos dele, quando evocávamos o passado. “Vamos esquecer isso”, dizia-me sempre que queria retomar o assunto.
Agora mesmo, no avião, enquanto finjo dormir, noto-lhe uma ansiedade no olhar, um não sei quê perdido que preciso reencontrar. Finge ler e me examina. Pareço dormir, ele afrouxa a gravata, sério. E, como que tomado de um certo medo, suspira aflição. Novamente volta a me olhar (sinto-lhe o hálito preocupado no beijo que deita nos meus lábios e que me queima pele adentro). O “querida, estamos 
chegando” arranca-me do falso sono.
“Apertem os cintos”... E o pouso em minha terra.
Cumprimentos, abraços, beijos. Nada me distrai. Meu olhar busca Selma com ânsia dorida. Selma! Selma! (?)
“Olá, Dr. Henrique! E Selma?!”
Selma não viera. Tão moça!
Cheia de interrogações, vi cair sobre Luís o olhar áspero, carregado de revolta, vindo do Dr. Henrique no “como vão”, secamente articulado.

(in: Sob Eros e Thanatos)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

CANÇÃO PARA O QUE VEIO - GISELDA MEDEIROS



CANÇÃO PARA O QUE VEIO

Giselda Medeiros

Quem és tu, andarilho, que me vens
Quando esmaece a aurora no meu peito,
Quando adormece em mim o olhar do tempo,
No corre-corre desta vida infrene?

E vens a mim com tuas mãos de sonho,
Com dedos de carícias, mimos puros,
E, em doce afago, acalma minha alma,
Vem plantar ilusões em terra virgem!

Mesmo assim, fica! Há muito eu te esperava,
Pus laços de cetim sobre as janelas
E pétalas na porta de entrada.

E fica! É longo o estio, e as cigarras
Já não cantam para alegrar minha alma,
E é triste a vida sem o canto delas!

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

SONETO A QUATRO MÃOS: MÁRCIO CATUNDA E VIANNEY MESQUITA - PARA O ANO NOVO





MAIS UM ALVORECER

Márcio Catunda – quadras

Vianney Mesquita - trísticos

31.12.2018

Mil, dez mil anos não passam de um simples ponto que nos não é dado ver.

(Simônides de Ceos, epigramático grego arcaico. 556-468 a.t.p.)


Nos meandros vertentes da esperança,

Navegamos ao Porto da Alegria.

Só chegamos à paz pela confiança

Com fé no bem da luz de outro dia.


Que o ano novo seja de bonança

- Vamos chamados pela estrela-guia –

De sombra, de água fresca e maré mansa,

A mesa farta e boa companhia.


Esteados na autossegurança,

Alcemos o pendão da temperança

No arrimo salutar da parceria.


E em firme entretecer da aliança,

Bem plausíveis na verossimilhança,

Ensaiemos subir à Parusia.

domingo, 30 de dezembro de 2018

MAIS UM POEMA DE ADELINA GARRIDO CHARNECA





BREVE CONTO DE AMOR SEM PRINCIPIO NEM FIM!


... que importa se não me queres,
nem me importa que me mintas;
que fazer a este coração que te ama,
não posso mais contrariá-lo,
nem esquecer tudo o que a cada dia está mais vivo em mim,
que me importa, se não mais te terei,
que posso eu fazer se os meus olhos te vêm até quando durmo.
Já está chegando o Natal outra vez, mais um ano termina,
e esta batalha de esquecer-te já é uma batalha perdida,
então...
fica para sempre no meu peito,
viverei com este sentimento em silêncio,
levo-o para onde for,
e que me mate a morte mais sublime,
a morte de morrer pensando em ti,
são tantas vidas vividas,
tantas vidas, e em nenhuma foste meu,
já não és o meu desespero,
és a minha tranquilidade
já não és o meu desejo,
és a minha feliz coincidência
já não és tu e eu,
é a minha alma e a tua,
sim...
ninguém (nem tu) pode impedir-me de querer-te até ao fundo da minha alma,
nem a vida, que parece não me querer,
nem o mundo cheio de preconceito,
ninguém... ninguém... és meu todas as noites no silêncio da noite escura,
és meu,
quando caminho, ou onde quer que eu vá,
aqui no meu peito,
a tua mão sempre me guiará,
até ao final,
e que o final seja próximo.
Isto não é uma declaração de amor,
já não necessito declará-lo,
já o sabe Deus,
já o sabe a Virgem,
até o universo... e também o sabes tu,
é uma confirmação do meu amor,
e do meu sorriso,
se te vejo sorrir,
é a felicidade de saber-te assim... feliz,
e a suprema satisfação de ter conhecido o amor,
contigo!

Adelina Garrido Charneca
(poeta portuguesa)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

NATAL NORDESTINO - INUSITADO TEXTO ASSINADO POR BATISTA DE LIMA





A criança divina ainda não nasceu e já estamos comemorando treze dias antes, é o milagre do Natal. Quero, no entanto, me antecipar e montar uma árvore de natal. Será uma goiabeira carregada de goiabas maduras e verdes. Tem que ser goiabeira porque possui galhos e troncos muito fortes para sustentar tudo o que nela for colocado. As goiabas parecem com aquelas bolinhas caras vendidas nos supermercados. Os três reis magos serão três moradores de rua muito magros. Os três pastores serão três cegos que trarão lições de como ver luzes de olhos nulos.

“O presépio”, do xilógrafo pernambucano José Miguel da Silva.
O casal será Fabiano e Sinhá Vitória que há oitenta anos, exatamente, foram criados por Graciliano. O filho não será o mais velho nem o mais novo, e sim uma criança da Síria, ou da Etiópia, mas que se chama Jesus, que a mãe seja Maria Vitória e o pai José Fabiano. A oliveira pode ser uma mangueira e a tamareira, um cajueiro, com muitos cajus de castanhas grandes, todas perguntando-nos por que, como sementes, não estão dentro do caju. Quanto ao Pinheiro que não é de nosso chão vou colocar um angico que de tão duro tem a nossa consistência.

Que Jesus me perdoe essa comemoração de seu nascimento com coisas daqui da terra. Se ele por aqui vier, quando estiver maior, vai ver que não crucificamos ninguém, mas há perigo de bala perdida, de fome, peste e guerra, que nem São Sebastião tem conseguido resolver. Quanto a São José, que venha ensinar carpintaria nas escolas do Estado, já que é notório saber e cabe perfeitamente na BNCC. Nossa Senhora pode ser dona de casa, ou ensinar às jovens mães como criar bem suas crianças. Depois explicar às senhoras nossas que não precisa haver massacre de perus nessa data gloriosa, lá em Belém era mais peixe e carneiro. Outra coisa, por que as cores precisam ser vermelha e branca se nosso mar é azul e nossas matas são verdes?

Meu querido, e divino Cristo, como presente de natal nós lhe prometemos devoção, e perdoar quem nos molesta em todos os dias do ano. Mas gostaríamos que o Senhor não deixasse as criancinhas morrerem por descaso dos adultos, nem deixasse os idosos sofrerem depois de tantos anos de trabalho duro. Ah sim, Jesus, desculpe essas palavras sem jeito de me dirigir ao Senhor, e de comemorar o Natal no meio dos meus amigos. Eles esperavam ouvir nesta ocasião tocar uns sinos de Belém, falar em manjedoura, Papai Noel e aqueles mesmos animais desconhecidos arrastando um trenó no gelo. Aqui só tem poeira e mato. Até os jumentos estão em extinção, nem carroça é mais permitido ser arrastada por burro. As crianças no Natal só querem ganhar celulares, cada vez mais megahabituadas. Não meu Jesus querido, minha prece natalina é feita de esperança ao Senhor e a sua Família Sagrada.

Lembra-te ainda, Jesus sagrado, de quando fui interno no Seminário Apostólico da Sagrada Família. Eram padres alemães. Ali eu via, no carpinteiro, São José consertando carteiras, portas e janelas, via em Dona Hilda Niehoff a figura de Nossa Senhora, cuidando da cozinha do claustro, da roupa limpa dos seminaristas e Jesus personificado no padre Rodolfo Stall, cuidando da nossa espiritualidade e fazendo seus primeiros milagres na tradução do “De Bello Gallico”, das Catilinárias e do Tito Lívio.

Na árvore de natal, Jesus, vou colocar alguns livros de poemas, e outros teréns para os quais as gentes pouco ligam.

Ilustrações de Aldemir Martins para Vidas Secas.
Ainda voltando à manjedoura, não será feita de um coxo mas de gamela do engenho do Taquari, que é para o menino Jesus ficar mais confortável, forrado com folhas de bananeira, que são bem friinhas. Vou colocar um passarinho carrancudo do Horácio Dídimo para cantar canções de ninar, trepado num cajueiro pequenino carregadinho de flor, plantado pelo Juvenal Galeno. Patativa vai me mandar do local onde estiver a vaca Estrela e o boi Fubá.

Já pedi a Barros Pinho sua ajuda ovina, mas ele me preveniu cuidado, dizendo: “meu carneiro Jasmim nunca se queixou de mim”. Quando chegar o bode Yoyô trazido pelo Mário Gomes, ou pelo Chagas dos Carneiros, vou aceitar a ajuda, guardando o devido cuidado. Uma vaquinha também está presente mandada por Jorge de Lima. É uma vaca de garupa palustre e bela e dois cachorros lá de nós, Rompe Nuvem e Rompe Ferro, e os animais de carga e sela, bem feito, Memória e Gasolina e a burrinha de Tedeza e o cavalo de Parredino ali estarão sentados secundados pela cachorra Baleia, presente de Graciliano, um burrinho pedrês, uma égua Balalaica, e o burro Canário estarão ali de vigia, mandados pelo Rosa das Gerais. Não esquecerei Navegante e Rapé, Chuvisco e Surubim.

Para finalizar, digo que eu creio nos seus ensinamentos, creio em Deus pai, todo poderoso, criador do céu e da terra, e em Jesus Cristo seu único filho, Nosso Senhor, que foi concebido, pelo poder do Espírito Santo,
nasceu da Virgem Maria
padeceu sob Pôncio Pilatos,
foi crucificado,
morto e sepultado, desceu à mansão dos mortos,
ressuscitou no terceiro dia, subiu aos céus e está
sentado à direita de Deus pai todo poderoso
donde há de vir julgar os vivos e os mortos. Creio
no Espírito Santo, na santa Igreja Católica, na
comunhão dos Santos, na remissão dos pecados,
na ressurreição da carne, e na vida eterna
Amém.



quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Quintilhas decassilábicas acrostiquenas (ABBAB) – Vianney Mesquita





QUINTETOS PARA ANA PAULA

Vianney Mesquita*


Duas espécies de escritores possuem gênio: os que pensam e os que fazem os outros pensar. (JOSEPH ROUX, hidrógrafo e pintor.  Marselha, 1725-1793). 


Ana Paula de Medeiros Ribeiro,
Nossa autora de crase genial,
Altiva mestra, referencial,
Pedagoga alçada ao mundo inteiro:
A professora inferencial.

Uma poetisa em plaino sendeiro,
Literata excedente, especial,
Alma inspirada, exponencial,
De estrofe branca, límpido luzeiro,
E verso rimado excepcional!

Modelar do metro brasileiro,
Em inspiração celestial;
Da prosa e poesia é o fanal,
Estro alumiado, não lindeiro,
Inspiração multifatorial.
                                                                      
Realeza do gênio verdadeiro,
Ode ao entendimento supernal,
Sucedes de Giselda - matricial

Ribeiro, de onde escorre o herdeiro
Insuperável sulco sensorial.
Beletrista, fiel desfiladeiro
Extremoso, de peça memorial,
Iminência da estese, a credencial,
Repositório das letras, celeiro
O quartzo fulgente do cristal.

sábado, 8 de dezembro de 2018

UM POEMA DE GISELDA MEDEIROS




SÓ EU E A NOITE

Giselda Medeiros


                        Um grilo enche a noite de notas...
                        Pressinto-lhe desespero na cantiga.
                        Na vidraça da janela,
a chuva desenha teu rosto
                        e me impõe a cantar meus salmos.
                        Em uníssono, cantam comigo as horas
                        em sua canção de desfolhar o tempo.
                       
Escuto Bach, longe, longe,
trazido pelo vento que, invejoso,
apaga da vidraça a tua imagem.

O grilo cala a melodia aflita,
enquanto o meu desejo espalha sons
estridentes, estilhaçando-se na noite
que parece nada ouvir
e dorme, enquanto a última estrela
persigna-se ante o Cruzeiro do Sul.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

RELEMBRANDO NEIDE FREIRE





NEIDE FREIRE – UMA MULHER MAIÚSCULA
 Giselda Medeiros 

            Em estudo sobre Neide Freire, no livro Ensaios e Perfis, Dimas Macedo assim se reporta muito acertadamente: “No plano especificamente cultural e humano, Neide é dotada de personalidade que a distingue do comum dos mortais. Sabe ser humilde, fraterna, compreensiva e, acima de tudo, sabe ser simples e não faz alarde jamais de seus conhecimentos, tendo recebido, recentemente, homenagem da Assembléia Legislativa do Estado, no Dia Internacional da Mulher. Trata-se, portanto, de nome que honra o Ceará e que honra a tradição das águas do Salgado e a história de sua cidade natal”. Efetivamente, não só concordo com o notável crítico literário, como assumo sua postura judicativa a respeito de Neide Freire, escritora de méritos com dois livros publicados e muitos outros trabalhos em publicações diversas. Poetisa, soube florir em versos o sentimento nacionalista, difundindo o amor pela Pátria, quer em sala de aula, quer nas reuniões literárias, onde pontificava com sua inteligência.
               Raimunda Neide Moreira Freire nasceu na cidade de Lavras da Mangabeira, sob a fertilidade do Rio Salgado, no dia 23 de maio de 1924. Nascera predestinada a levar aos carentes do saber o seu conhecimento. Daí, ainda na adolescência, viera com seus pais estudar em Fortaleza, no Colégio Imaculada Conceição. Tornou-se professora e desempenhou essa função nas cidades de Ubajara (onde fixou residência durante anos) e, também, em Ibiapina e Tianguá. Depois bacharelou-se em Teologia, pela Faculdade Universal de São Paulo. Detém o troféu Monsenhor Tarciso Melo, outorgado pela Prefeitura de Ubajara (2001).
               A professora e teóloga, entretanto, tinha em si mais um outro ideal: as Letras. Seus conhecimentos e suas experiências adquiridas pelo passar do tempo levaram-na ao país mágico da Literatura. Assim, ingressou na Casa de Juvenal Galeno, de cujas atividades litero-culturais passara a frequentar. Por sua inteligência privilegiada, logo se destacou entre as mulheres que ali mourejavam, filiando-se à destacada Ala Feminina da Casa de Juvenal Galeno e a outras entidades, a saber: União Brasileira de Trovadores (UBT - seção Fortaleza); Academia de Letras Municipais do Estado do Ceará (ALMECE); Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB-CE); sócia correspondente da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul e da Academia Irajaense de Letras (RJ). Foi Presidente da Ala Feminina da Casa de Juvenal Galeno, no biênio 1992-1994, ocupante da cadeira n° 53, sendo Maria Gonçalves da Rocha Leal a sua Patrona.
Neide Freire (seu nome literário) publicou Acendalhas (crônicas e poemas) e Poemas e Lembranças, além de muitas publicações em revistas, antologias, jornais. Seu nome é verbete no Dicionário de Literatura Cearense; Dicionário de Mulheres; Ensaios e Perfis; e Cearenses Notáveis.
Infelizmente, apesar de sua contínua e ferrenha luta, por muitos anos, contra o diabetes, este acabou vencendo-a. E foi assim que Neide Freire, no dia 10 de maio de 2018, em um dos leitos do Hospital São Raimundo, em Fortaleza/CE, com o consentimento de Deus, pôs um ponto-final na história de sua vida, deixando seu nome imortalizado no mundo das letras e no coração dos familiares, dos amigos e dos que a admiravam.  

Um rápido olhar sobre sua obra
              
               Esta resumida passagem pela biografia da escritora fez-se necessária para que pudéssemos adentrar a leitura do seu segundo livro Poemas e Lembranças, e, ao fim, deixar algumas impressões. Confesso que ler um livro de Neide Freire é-me tarefa demais prazerosa, haja vista o embevecimento que nos vem de seu estilo, da linguagem escorreita, do encadeamento perfeito das ideias, o que faz com que seu texto flua ininterruptamente, denso e limpo, como as águas de uma cascata.
               Conheci Neide Freire desde as lides da Ala Feminina da Casa de Juvenal Galeno, pela qual trabalhamos (ela presidente; eu, vice), durante o período 13 de setembro de 1992 a 13 de setembro de 1996, época em que reformamos o Estatuto da entidade, renovamos e ampliamos o número de sócias efetivas, publicamos o 2º volume de Um Livro da Ala, o 4º. e 5º. volumes da série Mulheres do Brasil e retomamos a circulação semestral da revista “Jangada”, após longos trinta e nove anos de ausência. Retomamos a revista em seu número 19 e a editamos até o número 36. Neide Freire resgatou, assim, o prestígio da Ala Feminina e, para as palestras da Casa, convidamos nomes expressivos de diversas entidades literárias e culturais cearenses.
               Ao longo desse tempo em que trabalhamos em uníssono, pude aquilatar o valor desta mulher, fisicamente frágil, mas de uma fortaleza espiritual indestrutível. Coerente com seus princípios, ela sabia exercitar a solidariedade, o amor, a fé, a amizade, jamais deixando que as vaidades humanas cerceassem sua visão humanisticamente cristã. A ela, indubitavelmente, cabem estas palavras de Armando Fuentes Aguirre: “Feliz é o homem que no fim da vida possui apenas o que deu aos outros”.
               Neste seu livro, Poemas e Lembranças, entrelaçam-se harmoniosamente poesia e prosa, sob a batuta de sua maestrina que, de posse das notas que a vida lhe pôs ao alcance das mãos, vai compondo suas melodias ao ritmo das oscilações de tons do cotidiano.
               Assim é que, no poema “Rota da Vida”, podemos vislumbrar uma certa angústia, um tom de desalento expressados nestes versos:

                                                “Na sala deserta
                                                o silêncio é vigia
                                                do tempo furtivo
                                                das horas que passam.”

               A efemeridade das coisas e da vida, também, está presente no poema “Transcorrência”, metaforizada na expressão “disfarce da face”. Vejamos:

                                                “Na firmeza dos dias
                                                os anos passam
                                                disfarce da face
                                                de coisas extintas,
                                                naufragados desejos,
                                                segredos, imaginação.”

               O humor também se faz notar neste Poemas e Lembranças, notadamente em “Imagem”, ainda que mesclado ao sentimento de tédio:

“Horas alopáticas
horas cinzentas de tédio
que só lembram caixas rotas
onde se guarda remédio
assim vou passando a vida
ao sabor de amargas drogas
que o relógio anuncia
oh, pontualidade marota!
Agora é a hora das pílulas,
mais tarde, é a hora das gotas.”

               Quando transita pela prosa, Neide Freire conserva a mesma desenvoltura. São textos agradáveis, sóbrios, de grande densidade conteudística. Sobressaem, dentre outros, “Evocação ao Padre Cícero”; “O Rei Poeta” (belíssimo texto sobre o Rei Davi); “Apresentação do livro Interlúdio do Encantamento, de autoria da inesquecível poetisa Zênith Feitosa; “Literatura Feminina” e “Amor”, no qual Neide disserta sobre as várias formas de amor, esse sentimento maior que “põe melodia” na vida, e sobre o qual asseverou Santo Agostinho: “Não se adentra a verdade a não ser pelo amor”. Transcrevemos, aqui, o fechamento do texto de Neide, “O Amor”, que se presta a uma rica reflexão. Vejamos:
                “Concluímos daí não podermos chamar de amor as aberrações, as mais tristes e enodoantes que se agitam em nossos dias, mesmo porque, embora alguém tivesse dito que ‘amor é frase que o mundo aclama e desconhece’, o verdadeiro amor, gêmeo do amor criador e salvador de Deus, tem seus valores firmados na intemporalidade do espírito e ultrapassa o poder da morte”.
               Considero, portanto, válida e imprescindível a leitura do livro Poemas e Lembranças, uma vez que a Autora nos conduz ao exercício do pensamento do poeta chileno Pablo Neruda, ao asseverar que é preciso recobrar o vínculo com o distante leitor; é preciso caminhar na escuridão e se encontrar com o coração do homem, com os olhos da mulher, com os desconhecidos das ruas.
               Ao final, deixo expressa a nossa eterna felicidade por termos convivido com esta Mulher Maiúscula, cuja obra e retidão de caráter se eternizarão pelas gerações futuras como um sol a desbravar as madrugadas sangrentas.
(publicado em POLICROMIAS - nº10, p.84-90).
                                                 

Giselda Medeiros
Poetisa, contista, ensaísta. Pertence à Academia Cearense de Letras, entre outras. Foi Presidente Nacional da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – AJEB (2002/2006). Obras: Alma Liberta (Poesia); Transparências (Poesia); Cantos Circunstanciais (Poesia); Tempo das Esperas (Poesia); Sob Eros e Thanatos (Contos); Crítica Reunida (Ensaios); Ânfora de Sol (Poesia); e Caminho de Sol (Memórias). Detém vários Prêmios Literários, entre eles, o “Prêmio Osmundo Pontes de Literatura – Poesia” (1999) e o “Prêmio Lúcia Fernandes Martins de Poesia”, promovido pela Academia Cearense de Letras (2008). Em 2002, foi aclamada “Princesa dos Poetas do Ceará”.