domingo, 13 de março de 2016

Informação Historicoliterária - Estudo sobre Carlos D'Alge


CARLOS D’ALGE
 AUTOR CEARENSE TRASMONTANO

    VIANNEY MESQUITA*                                                                                      


                              Um dos males da literatura consiste em terem os nossos sábios pouco espírito e serem pouco sábios os nossos homens de espírito. (JOSEPH JOUBERT, ensaísta e moralista francês. ( *Montignac,          07.05.1754 - Villeneuve-sur-Yonne, 04-05.1824).
                                                                                

          Há algum tempo, o escritor Carlos Neves d’Alge está fora do circuito intelectual da nossa Terra, no recesso de sua residência, cuidando da saúde, ultimamente, meio combalida, do que, decerto, se vai liberar, para gáudio de seus pares, admiradores e amigos e vitória da atividade intelectual do Estado e do País.
          Nascido em Chaves – Trás-os-Montes – Portugal (24.07.1930), veio jovem para o Brasil, tendo estado no Pará, porém há dezenas de anos tem vida social e literária aqui em Fortaleza, como docente-titular de Literatura Portuguesa da UFC, acadêmico das Academias Cearense da Língua Portuguesa e Cearense de Letras, creditando-se, no rol de várias funções assumidas, as de chefe do Gabinete do Reitor Martins Filho, nos começos da UFC, e Diretor-Presidente da TV Educativa do Ceará – Canal 5.
          Tem ativo literário bastante recheado de produções, contabilizando-se, dentre muitas outras, Terra do Mar Grande (1970), As Relações Brasileiras de Almeida Garret (1980), Sintaxe do Compromisso (1981), O Exílio Imaginário (1983) e O Sal da Escrita – Ensaios de Literatura Comparada (1977).
          D’Alge transita por vários gêneros, do ensaio à poética, demonstrando ser o intelectual sóbrio e preciso, ao empreender estudos em profundidade acerca das literaturas de língua portuguesa, por ele cultuadas e avigoradas, com textos cuidadosos, nos quais se verifica, com facilidade, o filão da pesquisa bem buscada.
          Distinto, em virtude da profusão de seus trabalhos escritos e orais, tem ressalto na sua obra o mencionado O Exílio Imaginário, com trinta estudos, divididos em quatro partes, compostos de fundamentais pontos para o então cultural instante brasileiro. Envolve as relações do Brasil e outros países, com destaque para o africano de expressão lusitana, escritores portugueses clássicos e modernos e sua influência no nosso País. Reporta-se, ainda, a produtores brasileiros de ocorrência marcante na nossa história e até no estrangeiro – como no caso de escrito traduzido para a língua tcheca. Por fim, são expressos pelo Autor do mais à frente referido O Sal da Escrita, os exames de nomes diretamente vinculados à cultura do Ceará, conduzindo-nos ao debate próximo com escritores que carrearam subsídios de relevo para projeção, mundo afora, da cultura do Nordeste brasileiro.
          De tal maneira, O Exílio Imaginário, como os demais trabalhos de seleção rigorosa que as Edições UFC (hoje sob a competente direção do Prof. Antônio Cláudio Lima Guimarães) trazem a público, tem a marca do talento e o sinete do método, circunstâncias exigíveis do investigador, dignificando, por consequência, a estante de qualquer estudioso, estudante ou apreciador da literatura de Língua Portuguesa, que poderão se louvar no retrocitado volume para empreender consultas.
          Tem ressalto, em meio aos seus bens produzidos, um conjunto de ensaios de literatura lusitana comparada – o há pouco expresso O Sal da Escrita - cujo ponto alto, para mim, descansa na remissão à obra da notável escritora Marquesa de Alorna – Dona Leonor de Almeida de Lorena e Lencastre (quarta marquesa), a sétima Condessa de Oyenhause, nascida lisboeta (1750- + Benfica, 1839).
          Conhecida como Alcipe pelos poetas da Arcádia, a Marquesa de Alorna pertence a um ramo familiar de fidalgos portugueses. Foi perseguida pelo Governo do Marquês de Pombal (o mais célebre, o segundo marquês) – Sebastião José de Carvalho e Melo – expulsor dos Padres Jesuítas do Brasil, quando do Tratado de Madrid. Este a encerrou, juntamente com a mãe e o irmão, no Convento de Chelas, destino também reservado ao pai, preso na Torre de Belém e depois no Forte de Junqueira. O moto da persecução era simples – o parentesco dos Alornas com os Távoras – eis a vinculação com o Ceará.
          A obra da Marquesa de Alorna, desde a truculência do mencionado Conde de Oeiras e Segundo Marquês de Pombal, analisada pelo Prof. Dr. Carlos Neves D’Alge, configura-se em seis volumes de composições poéticas, originais e traduções, entre as quais estão os três primeiros cantos de Oberon, de Christoph Martin Wieland (Achstetten – Alem., 05.09.1733 – Weimar, 20.01.1813), bem como as Estações, de James Thomson (Ednam – Escócia, 11.09.1700 – Richmond – UK, 27.08.1748).

          Após o conjunto textual de Carlos D’Alge, importa evidenciar, a empresária e literata portuguesa Maria João Mendonça Lopo de Carvalho procedeu à edição, em outubro de 2011, do estudo profundo intitulado Marquesa de Alorna, somente a respeito dessa Escritora, ao passo que o livro do intelectual tramontano-cearense encerra outros ensaios de semelhante magnitude, dispondo em paralelo literaturas de língua portuguesa de Brasil e Portugal.   

sábado, 5 de março de 2016

UMA BOA LEITURA


AUTOCONTROLE


Às vezes pode aparecer alguém que nos tira do sério...
...provoca, cutuca nossas feridas de uma forma que muitas vezes nem dá para entender se fez de propósito ou por ingenuidade. São pessoas que fazem pedidos descabidos,  simplesmente acham que tem mais direito que os demais.
Talvez seja necessário autocontrole para continuarmos nossa vida sem nos desentendermos com cada uma destas pessoas.
Hoje em dia, para algumas pessoas, a competição pode ficar cada vez mais intensa, talvez tenhamos que assumir cada vez mais riscos para conseguir acompanhar. Podem aparecer muitas de coisas para fazer ao mesmo tempo. Para quem é casado pode existir as exigências do casamento, para quem é pai ou mãe, são os filhos que podem requisitar no momentos onde não se esperava, para quem é solteiro pode se fazer necessário equilibrar trabalho, amigos, as tarefas de casa, família, etc.

Não é difícil imaginar a quantidade de coisas que podem desequilibrar: um colega tipo “sabichão” que consegue te tirar do serio,  aquele chefe critico, um supervisor na defensiva, um filho sapeca, uma esposa que não colabora, o amigo que só te liga para falar dele mesmo e nem te pergunta como você está, o parente complicado, enfim, a lista é gigante.
Nestas situações frases que podemos ouvir são: “Meu chefe me deixa louco”. “Meus filhos acabam comigo”. “Eu odeio quando... (preencha como quiser - pode ser um evento, uma tarefa, uma decisão, um prazo, uma crise ou uma incerteza)".
Muita coisa pode abalar: mudança de carreira, um divórcio,  um casamento , a compra da sua casa, uma entrevista de emprego, o transito, decisões para tomar, etc.

Não sair do sério?

Imagino se seria possível, ou desejável, não sair do sério. Alguns podem identificar a necessidade de maior autogerência para lidar bem com isso tudo. Alguns desejam conhecer formas de não permitir que os fatos do cotidiano e as pessoas afetem tanto, e assim superar as dificuldades sem sofrer desnecessariamente.

Onde está o problema?

As pessoas costumam achar que o problema está sempre fora delas, ou seja, se você se irritou, é porque alguém o ofendeu, se você está depressiva é porque o outro te deixou assim. Mas eu prefiro analisar o quanto de responsabilidade cada um teria por seus próprios sentimentos e comportamentos. O que tira do sério são as dificuldades que te aparecem, as pessoas difíceis que você tem na sua vida, seus prazos curtos a cumprir, os sabichões, a irresponsabilidade dos outros? Ou haveria algo interno que também colaboraria?  Talvez a forma como você lidamos com essa bagagem toda faça diferença. Te convido a pensar se o que te afeta não seriam as coisas que te acontecem, mas os pensamentos, interpretações e reações que você tem quando cada uma destas coisas te acontecem?
Quando ocorre um problema, por exemplo no trânsito, alguém lhe deu uma fechada. A pessoa reage, pode ser que tenha ficado bravo, perseguiu o outro motorista, brigou com ele, etc. Mas antes de você reagir, de se alterar, de responder, algo aconteceu automaticamente: você pode ter percebido, escolhido, analisado, julgado, imaginado. Enfim, tudo isso tem um mesmo nome, que é: você pensou! Mesmo que esse pensamento seja muito rápido e você mal o perceba, você precisou dele para sentir raiva ou o ter a reação que teve, você precisa do pensamento para chegar a algum comportamento. O negocio é que muitas vezes esse pensamento é tão rápido que você não se dá conta dele, ele pode ser automático.
Algumas pessoas podem não se dar conta disso, elas dizem: “Fulano abriu a boca e o sangue me subiu na cabeça”. Aí, parece que o sangue lhe subiu à cabeça pelo que fulano disse, parece que o sangue lhe subiu a cabeça porque fulano lhe disse aquilo. Mas o sangue lhe subiu pelo o que você pensou a respeito do que fulano lhe disse. Você teve que considerar uma ofensa, então essa fúria surgiu por sua causa, por causa de seus conteúdos mentais e não diretamente por causa do outro.

Pensamento Catastrófico

Existem alguns modos de pensar quando algo te acontece. Vou dar um exemplo: O  chamado pensamento catastrófico. Isso significa que a pessoa transforma tudo em algo muito mais importante do que realmente é. É fácil de reconhecê-los, porque muitos pensamentos catastróficos começam com a expressão “e se”.
Por exemplo, você está na sala de espera de uma entrevista de emprego e sua cabeça começa: “E se ele perguntar algo que não sei responder. E se não gostarem de mim. E se eu não for interessante?”. Essas perguntas querem dizer que caso alguma dessas coisas aconteça não vai ser só uma preocupação, vai ser uma catástrofe. Entrando na entrevista com isso na cabeça você será derrotado, com muita certeza esses pensamentos vão virar uma profecia que se auto realiza.
Quantas vezes  entramos em pânico por coisas que, quando realmente aconteceram, vimos que não eram tão ruins assim?  Por exemplo, a pessoa que não abre o resultado do exame pois surgem pensamentos com medo de ter uma doença tão grave que o médico vai lhe dar só alguns dias de vida, mas quando finalmente ele tem coragem e abrir percebe que não tem doença nenhuma, ou aquela pessoa que começa um emprego achando que não vai conseguir aprender as funções, mas dali a alguns dias já está muito bem no serviço.

O Pensamento Absolutista

Os pensamentos absolutistas aparecem quando pensamos em termos de  “eu devo”, “eu tenho que”, “eu preciso”, “eu deveria”. “Eu deveria ter dito tal coisa”. “Eu tenho de ser mais organizado”. Todos nós podemos fazer isso algumas vezes. O problema aparece quando exageramos na autocrítica.
Pensamos que deveríamos ser mais sérios, mais alegres, mais maduros ou nunca envelhecer.

O Pensamento de Racionalização

Eu considero que raciocinar é uma coisa, racionalizar é diferente. Raciocinar é entender as coisas como elas são. Racionalizar é negar os sentimentos.
Exemplo: você tem um filho difícil, ele te dá muito trabalho. Dizer que você não está nem aí para ele é racionalizar. Dizer “chega, eu não ligo, se ele quer arruinar a própria vida o problema é dele”, pode não ser verdade.  Em outro exemplo de racionalização, a pessoa é tão tímida, com uma dificuldade enorme em se relacionar com pessoas. E o que ela faz? Diz que não está nem aí para os outros, diz que prefere mesmo viver sozinha, comer sozinha, ir ao cinema sozinha, ou nem sai de casa, diz que prefere ficar vendo Faustão do que ir ao clube.

O Pensamento das Preferências Realistas

Este tipo de pensamento costuma ajudar às pessoas que desejam autocontrole. Exemplo:  “eu se sentiria melhor se...“, “eu gostaria de...”, “eu preferiria que...”, “seria melhor se...”.
Para explicar melhor vou dar um exemplo de um professor. Em seu primeiro dia de aula ele passou pelos três tipo de pensamentos enlouquecedores. Primeiro os catastróficos. “E se minha aula for horrível”? “E se os alunos morrerem de tédio”? “E se fizerem uma pergunta que eu não sei responder”? “E se todo mundo for embora no meio da aula”?
Aí ele passou para a fase da autocrítica: “Eu deveria ter capacidade para dar uma excelente aula, mesmo sendo a primeira aula da minha vida. Minha mãe tinha razão, eu sou um idiota mesmo. Nunca vou ser nada na vida”. Em seguida, as racionalizações. “E daí, nem me importo. Se eles não gostarem da minha aula, significa que são burros demais para entender minha capacidade. Se eles não sabem apreciar o que tenho a oferecer, o problema deles”.
Eu considero possível aprender a usar o pensamento na forma de preferências. Vejam bem que isso não é usar pensamento positivo. Eu não quero que ninguém fique rezando mentiras bonitas para si mesmo. O que eu quero são pessoas trabalhando pela capacidade de superar as dificuldades da vida.
Bem quando este professor conseguiu colocar a coisa em termos de preferências realistas, a sua visão referente às suas primeiras aulas ficaram assim: “Eu gostaria que esta turma gostasse de mim e de minhas aulas. Gostaria que respeitassem o que tenho a dizer. Se não for assim, será uma pena, mas não será horrível, a não ser que eu assim o determine”, “Gostaria de responder de forma brilhante a cada pergunta, mas, se não der, posso aguentar sem me criticar”.
O pensamento realista não garante que tudo vai dar certo, mas eu acredito que vale a pena tentar, tentar e se corrigir e aprender a cada tentativa.
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*O material deste site é informativo, não substitui a terapia  ou psicoterapia  oferecida por um psicólogo

Marisa de Abreu Alves Psicóloga - CRP 06/29493-5

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

SONETO COM O AZUL DA MOÇA DO RETRATO - Carlos Augusto Viana



SONETO COM O AZUL DA MOÇA DO RETRATO
Carlos Augusto Viana
(Da Academia Cearense da Língua Portuguesa).

A moça do retrato é toda azul
e se veste das fibras da paisagem
Em seus olhos, as tâmaras acendem
as nuvens de um crepúsculo em miragem.
A moça azul flutua numa janela
emoldurada pelos grãos do mar.
Seus cabelos abrigam os navios
encalhados no sal da preamar.
O azul dessa moça é assim tão líquido
que se alastra nos cântaros  do vento; 
e, inaugurando rios, já se derrama
nos prados estivais do pensamento.
A moça, sendo azul em seu retrato,

só se semeia o pão do amor exato.

FOTOGRAFIA - Vicente Alencar


FOTOGRAFIA
Vicente Alencar
(Da Academia Cearense da Língua Portuguesa e da ALMECE)

A imagem da amada
brilha na fotografia
da escrivaninha.
Serena,
de perfil envolvente,
com olhar que me passa
bela mensagem.
Sinto a fortaleza
que emana
do seu sorriso,
que amo,

cada dia mais.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

“Conhecimento do rebanho e das ovelhas”: o sacerdote, de acordo com João Paulo II Anotações pessoais do papa polonês são publicadas pelo cardeal Dziwisz


 Fez alarde na mídia, entre ontem e hoje, a notícia de que São João Paulo II manteve uma “relação de grande proximidade“, ao longo de mais de 30 anos, com a filósofa polonesa naturalizada norte-americana Anna-Teresa Tymieniecka.
A correspondência intercambiada entre o papa e a filósofa, segundo a mídia, teria sido “mantida em segredo” pela Biblioteca Nacional da Polônia durante anos.
A história
Eles se conheceram em 1973. Karol Wojtyla era arcebispo de Cracóvia. Anna-Teresa viajou dos Estados Unidos até a Polônia para conversar com o então cardeal sobre um livro de filosofia que ele tinha escrito.
Pouco tempo depois, começou a correspondência entre o cardeal e a filósofa, que decidiram trabalhar em uma versão ampliada do livro. Os dois se encontraram a partir de então muitas vezes e intensificaram a correspondência, que, naturalmente, com o tempo, se tornava menos formal.
Em 1976, o cardeal Wojtyla participou de um encontro católico nos EUA e foi convidado por Anna-Teresa para ficar na casa de campo da família, em Vermont. Grande apaixonado pela natureza, Wojtyla aparece em fotos daquele verão bastante alegre e descontraído junto à família de Anna-Teresa.
Em setembro do mesmo ano, ele escreve para ela:
“Minha querida Teresa, recebi as três cartas. Você escreve que está arrasada, mas não consegui encontrar resposta para essas palavras (…) No ano passado, já estava buscando uma resposta para essas palavras: ‘Eu pertenço a você’. E, finalmente, antes de partir da Polônia, encontrei uma forma: um escapulário. A dimensão na qual aceito e sinto você em todo lugar em todos os tipos de situações, quando você está perto e quando está distante”.
O teor dessas cartas pode dar a entender que Anna-Teresa tinha se apaixonado pelo cardeal. Esta é a opinião, por exemplo, de Marsha Malinowski, a comerciante de manuscritos que negociou a venda das cartas para a Biblioteca Nacional da Polônia. “Acho que isto se reflete completamente na correspondência”, conclui ela, em entrevista à rede BBC.
Anna-Teresa não foi a única mulher com quem o futuro papa João Paulo II manteve correspondência e amizade. Desde a juventude, Karol Wojtyla cultivou uma saudável relação de proximidade com várias amigas, entre elas Wanda Poltawska, psiquiatra com quem trocou cartas ao longo de décadas.
O que causou barulho na mídia no caso de Anna-Teresa foi a “intensidade pessoal” das cartas e o fato de que a filósofa era casada. De fato, após o horror nazista e a Segunda Guerra Mundial, ela tinha se mudado para estudar nos Estados Unidos, onde se casou e teve três filhos.
Uma amizade intensa e familiar
O marido de Anna-Teresa, Hendrik Houthakker, também era amigo de João Paulo II. Hendrik era um renomado economista de Harvard e, após a queda do comunismo, aconselhou o papa sobre a economia dos países do Leste Europeu. O papa o homenageou pelos serviços prestados.
Quando João Paulo II foi diagnosticado com o mal de Parkinson, Anna-Teresa passou a visitá-lo com frequência, além de lhe mandar flores e fotos da casa de campo de Vermont, que tanto encantara o cardeal Wojtyla no verão de 1976.
Depois da última visita do papa à Polônia, ele escreveu para Anna-Teresa sobre sua pátria: “Nosso lar comum; tantos lugares onde nos encontramos, onde tivemos conversas tão importantes para nós, onde vivenciamos a beleza da presença de Deus“.
A mídia, os internautas e suas previsíveis interpretações
Uma amizade cultivada tanto em família quanto em particular, na qual se vivencia e destaca “a beleza da presença de Deus”… Hmmm, não parece uma realidade palpável para boa parte da imprensa laica e dos seus leitores.
O barulho da mídia (e dos internautas que distribuem suas doses de infantilidade em forma de comentários) foi impulsionado, para variar, pelos “furores venéreos” típicos da nossa “cultura” sexualmente frustrada e doente: o que pipocou em torno à revelação da correspondência entre São João Paulo II e Anna-Teresa Tymieniecka não foi a beleza da amizade, a vivência pessoal e intensa da espiritualidade, um diálogo aberto sobre sentimentos e sua sublimação, a transparência afetiva, os conteúdos filosóficos debatidos, a natureza, a família, a pátria, Deus. Não, nada disso. O que pipocou, previsível e mediocremente, foram as pobres e vulgares insinuações de algum possível escândalo sexual.
É verdade que boa parte dos artigos fez a ressalva de que “não há sugestão alguma de quebra do celibato por parte do papa“, mas também há insinuantes martelamentos em aspectos como “a mulher era casada“. E se fosse solteira? Não haveria, será, o mesmíssimo insinuante martelamento no fato de que “a mulher era solteira“? E se fosse viúva? Zzzzz.
Nossa sociedade tem dificuldades graves para construir e nutrir amizades sólidas. Amizades profundas são uma raridade. Entre homem e mulher, então, quase uma aberração. Entre homem e mulher e sem sexo? Hahaha. Amizades capazes de transparência afetiva e abertura filosófica e espiritual soam quase tão alienígenas quanto a beleza da castidade e do celibato por parte de um homem forte, jovem e saudável. E amizades em que há intercâmbio de correspondência, para pessoas que mal sabem produzir uma linha sem erros de ortografia, parecem ser, irremediavelmente, incompreensíveis.

Pobre mundo. Ora pro nobis, São João Paulo II.


sábado, 6 de fevereiro de 2016

NOBEL DE LITERATURA: LYGIA FAGUNDES TELLES É INDICADA

O Nobel distante do Brasil 


 Lygia Fagundes Telles foi a escritora indicada este ano pela União Brasileira de Escritores para o Prêmio
A escritora  Lygia Fagundes Telles tem obras traduzidas para oito idiomas, como polonês e tcheco

 
A indicação da escritora Lygia Fagundes Telles, de 92 anos, provocou burburinho nas redes sociais e acendeu, mais uma vez, a esperança de um autor brasileiro conquistar o Prêmio Nobel de Literatura. O nome da ficcionista foi o escolhido pela União Brasileira de Escritores - instituição, regularmente, convidada pela Real Academia Sueca para sugerir concorrentes.
De certa maneira, a ânsia de um dos nossos escritores ser agraciado com o Nobel lembra a eterna torcida para levarmos um Oscar, na categoria de Filme Estrangeiro (as demais, nos parecem demasiado distantes, senão inacessíveis). Acontece que, se há filmes nacionais que justificam a empolgação dos cinéfilos, o mundo literário costuma vacilar diante da escolha de seu concorrente aquele que é o mais famoso prêmio literário do mundo.

Não falta quem torne pública a sua indignação diante de uma "injustiça história". São aqueles que evocam nomes que mereciam ter recebido, caso dos gigantes Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. Insistir nesse ponto, do que deveria ter acontecido, é esquecer que outros grandes nomes da literatura também ficaram de fora da lista da honraria. O francês Marcel Proust não levou, talvez por tocar em pontos polêmicos à época, com seu "Em busca do tempo perdido". O irlandês James Joyce sequer foi indicado. E, ainda hoje, os argentinos se ressentem por Jorge Luis Borges não ter levado o prêmio.

O problema dos escritores brasileiros contemporâneos não é a falta de talentos literários. Difícil mesmo é chegar a um consenso quanto ao candidato brasileiro. Os EUA têm uma lista de favoritos, com Philip Roth à frente; os japoneses, Haruki Murakami. Aqui, alguns nomes são recorrentes, como o poeta e crítico de arte Ferreira Gullar e a romancista Nélida Piñon, já indicados pela UBE. A entidade, contudo, já fez indicações difíceis de entender. Em 2014 e 2015, o nome encampado pela UBE foi o do baiano Moniz Bandeira - diplomata, historiador e cientista político, com incursões pela poesia, e pouca expressão no meio literário brasileiro. A opção por Lygia Fagundes Telles aponta em outra direção

Reconhecimento

A escolha de Lygia, autora de Ciranda de Pedra e As Meninas, entre tantos outros sucessos de crítica e de público, foi unânime. "Lygia é a maior escritora brasileira viva e a qualidade de sua produção literária é inquestionável", disse o advogado e escritor Durval de Noronha Goyos, presidente da UBE, em comunicado.

No fim do ano, ela venceu o Prêmio Fundação Conrado Wessel 2015 na categoria Cultura, e ganhou R$ 300 mil. A cerimônia de entrega deve ocorrer ainda neste semestre. Em novembro, ela foi homenageada durante o Encontro Mundial de Invenção Literária, em sessão da Academia Paulista de Letras (ela é imortal, também, da Academia Brasileira de Letras), e causou comoção ao dizer que sua luta foi "heroica e desesperada". Lygia Fagundes Telles fez história ao se tornar uma das primeiras mulheres a estudar Direito no Largo São Francisco.

A autora tem obras traduzidas para o alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, polonês, sueco e tcheco. Alguns de seus títulos foram adaptados para o cinema, teatro e televisão. A presença de Lygia no mercado estrangeiro é um ponto positivo para sua candidatura. 

Ainda que o Nobel não recorra exclusivamente a este critério (vide a premiação do francês Patrick Modiano, em 2014, que à época só tinha um único título disponível em inglês e, no Brasil, estava com seus poucos livros traduzidos fora de catálogo), analistas apontam a diminuta expressão do português no mundo editorial e literário, em escala mundial, como um dos obstáculos enfrentados pelos escritores brasileiros. 

Desde a primeira edição do prêmio, em 1901, apenas um autor de língua portuguesa recebeu o Nobel de Literatura, o português José Saramago, em 1998.

Os mais recentes premiados com o Nobel de Literatura foram a bielorrussa Svetlana Alexievich (2015), o francês Patrick Modiano (2014), a canadense Alice Munro (2013), o chinês Mo Yan (2012), o sueco Tomas Tranströmer (2011) e o peruano Mario Vargas Llosa (2010).

(Com informações da Agência Estado)

FONTE: DIÁRIO DO NORDESTE
http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/o-nobel-distante-do-brasil-1.1486634 http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/o-nobel-distante-do-brasil-1.1486634

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

TRÊS POEMAS DE SÉRGIO MACEDO



ILUSÃO

Os mares invadem os litorais de tua vida
Talvez valha invadir os mares
Adentrar até os horizontes
Derramado sobre as serras
Delas extrair todos os desertos possíveis
Criar a solidão que transcende quaisquer isolamentos
Debruçar-se sobre as chuvas insofismáveis
E criar os mares a partir dessas ilusões.




CANDEIA

 Mesmo após se por,
Horizonte turbulento e lúgubre,
Permaneceu pairando entre nós,
Anjo branco.

Mesmo em luzes apagadas
Encontrou e mostrou caminhos,
Desvendou segredos,
Abusou de ser presente
Na ausência.

Legendário mestre e criador
De magnas virtudes
Jamais aceitou as ladeiras do tempo:
Enfrentou-o de igual para igual,
Olhou-lhe os olhos e o fez
Olhar o chão.
Nunca morreu, morrendo,
Pois, só parte de vez o que não cria,
Quem não deixa legado. 
Só vai completo
O que nada inova nem estimula.
Morrer, portanto, uma mentira,
Uma invenção
Para selar o tempo
Dos que não deixam saudades.




 ALMA/ tempo em atraso

Ela não disse nada,
silêncio de sepulcros,
alma aprisionada ao universo.
Eu só queria que voltasse um pouco,
sentada em um cadeira de balanços,
nesse vento gostoso da manhã, conversasse comigo.
não suportou e foi-se
deixando-me órfão de emoções.
Sua cadeira  de balanço, nunca usada, vazia, tem nome de tédio.
O vento de todo o dia,

Vazio, balança a cadeira,
Como se me alentasse
Em sua ausência.
Em seu lugar, também
Seria refém do universo,
Tirana prisão,
Largaria de mão quem não percebe
A luta ou não a quer,
Deixaria de lado o centurião fugidio,
Mataria todos os deuses do depois,
Do depois sem solução,

Do depois inevitável dos soluços.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Texto muito bom do Professor Vianney Mesquita: leia-o



Apreciação Literocientífica

ESTUDANTE ABJETO: ESTADO SEM COMPROMISSO?

Vianney Mesquita*

A escola elementar deve ser tão franca e tão obrigativa a todos como a pia batismal.(A. F. DE CASTILHO).
Quando o Estado tem ordem, é vergonha ser pobre e vulgar. Quando o Estado se encontra no caos, vergonha é ser rico e mandar. (CONFÚCIO).


Concluí, há pouco, revista da relação de doutoramento de autoria da filósofa e pedagoga, docente da Secretaria de Educação do Município de Fortaleza, Magister Scientiae e investigadora de temas sociais - Valéria Cassandra Oliveira de Lima - sob a orientação acadêmica da Professora Doutora Ercília Maria Braga de Olinda – FACED – Universidade Federal do Ceará, com o título Alunos Abjetos: Etnografia da Inclusão numa Escola Municipal de Fortaleza.  
Muito me contenta exprimir a verdade segundo a qual, nos mais de trinta anos na atividade de copydesk de textos diversos, notadamente de teor acadêmico, esta tese se inserta nos cinco melhores dos quais procedi à revisão, nesse âmbito temático.
Quem o deparar vai perceber que o trabalho foi efetivado com soberana fidelidade aos pressupostos da ordem científica, obediente às determinações da metodologia, tanto na parte adjetiva da escrita quanto no lado substantivo da recolha dos elementos anímicos do relatório, no trabalho rural magnificamente operado, sem qualquer paixão refalsada, em circunstância de enorme risco físico pessoal e velada ameaça psicológica, quando realizadas as denominadas “tarefas de campo”.
 Sob esse aspecto, ainda, o conjunto textual restou absolutamente conformado às condições morais e intelectuais exigidas de um produtor de entendimentos, ao executar um procedimento oriundo do saber ordenado, em especial pelo fato de a autora haver defendido, com alegações pessoais corretíssimas, posições terminantes contra a existência das pessoas havidas como abjetas, nódoa pespegada, também e principalmente, a alunos especiais de uma escola pública localizada na “Grande Messejana”, aqui em Fortaleza, seu campo de prova por dois anos e cuja tese vai sustentar, proximamente, na Faculdade de Educação da U.F.C., com vistas à obtenção do título de doutor.
No resguardo de seus pontos de vista, no entanto, não externou, por inexistente, ânimo enviesado ou determinação viciosa, principalmente pelo fato de se haver reportado aos melhores autores das Ciências da Educação e afins, nacionais e do Exterior, como, exempli gratia e entre muitos, a filósofa estadunidense Judith Butler, o sociofilósofo francêsMichel Foucault e a intelectual brasileira Eveline Bertino Algebaile, produtora de textos sobre escola pública, docente da Universidade Estadual do Rio Janeiro.
A nenhum dos escritores a quem recorreu, ressai exprimir, ela se curvou, tampouco se mostrou submissa, haja vista o seu preparo, manifesto com segurança, detidamente operado num escrito de quase trezentas páginas de arrazoados lógicos, sem raiva nem preconceito (sine ira et studio) – no dizer de Caio Tácito - muito bem meditados e em comunicação facilmente legível por parte de pares seus na Academia e pessoas de boa capacidade de decodificação, incluindo, em especial, as autoridades educacionais da Prefeitura de Fortaleza.
 Pelo fato de o esmerado escrito da Professora Doutora Valéria Cassandra aportar literatura de absoluta necessidade ao temário educacional brasileiro, mormente no campo da inclusão educacional, na senda dos ensaios sobre indisciplina no chão da escola e terrenos afins, guardo a esperança de que seja editado em livro (sugiro Aluno abjeto: Estado Irresponsável?) para circulação por todo o ecúmeno educativo nacional e das nações lusófonas, destino por ele merecido e fonte obsequiosa a novos experimentos no mencionado rol temático, no âmbito dos mencionados países.

Congratulo-me com a Autora e enuncio minha satisfação pelo feito, ao modo como procedo a cada ensejo em que aflora da Academia um exemplar com perfil semelhante ou aproximado ao teor da relação de pesquisa sob comento, motivo de júbilo para a Escritora e razão de contentamento renovado para uma academia de alcance e respeito nacional (U.F.C.), que inumeráveis peças de sublime qualidade já ofereceu de presente à sociedade culta do Brasil, com transposição às balizas patriais. 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

POEMA DE GISELDA MEDEIROS



NOSSOS MOTIVOS

Queria ser o motivo do teu riso,
da tua lágrima.
Queria ser tua voz,
o chão alcatifado de folhas
no teu outono...
Eu e tu metamorfoseando cores,
caminhos, a espiar a lonjura das nossas almas.
A flor entreabrindo sua corola...
Ah, essa cor... Esse encolher-se tão lânguido,
tendo o vento a nos açoitar as áureas asas...
Aberta a corola para o nosso encontro!

Eis-me aqui à tua espera
Para ti, para o teu amor...
Sou múltipla e una – EU e TU –
Terra e mar, onda e areia,
Veludo e voz,
veio d’água escorrendo das violáceas pétalas...
Luz penetrando as virgens águas dormidas...
Sou o vale por onde escorrem tuas águas,
a ilha onde descansas tua fome de andarilho.
Enfurecidas ondas... Sou eu a te moldar o ritmo.
Somos pingentes na orelha do vento
que assobia uma canção de amor...

Toma-me. Eis aqui tua noiva.

O véu que te espera para ser descerrado...

(in: Revista da Academia Cearense de Letras - ano 2014)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

PARA SE LER COM O CORAÇÃO


Há de se cuidar da amizade e do amor
26/10/2013

A amizade e o amor constituem as relações maiores e mais realizadores que o ser humano, homem e mulher, pode  experimentar e desfrutar. Mesmo o místico mais ardente só consegue uma fusão com a divindade através do caminho do amor. No dizer de São João da Cruz, trata-se da experiência da “a amada(a alma) no Amado transformada”.

Há vasta literatura sobre estas duas experiências de base. Aqui restringimo-nos ao mínimo. A amizade é aquela relação que nasce de uma ignota afinidade, de uma simpatia de todo inexplicável, de uma proximidade afetuosa para com a outra pessoa. Entre os amigos e amigas se cria uma como que comunidade de destino. A amizade vive do desinteresse, da confiança e da lealdade. A amizade possui raízes tão profundas que, mesmo passados muitos anos, ao reencontrarem-se os amigos e amigas, os tempos se anulam e se reatam os laços e até  se recordam da última conversa havida há muito tempo.

Cuidar da amizade é preocupar-se com a vida, as penas e as alegrias do amigo e da amiga. É oferecer-lhe um ombro quando a vulnerabilidade o visita e o desconsolo lhe oculta as estrelas-guias. É no sofrimento e no fracasso existencial, profissional ou amoroso que se comprovam os verdadeiros amigos e amigas. Eles são como uma torre fortíssima que defende  o frágil castelo de nossas vidas peregrinas.

A relação mais profunda é a experiência do amor. Ela  traz as mais felizes realizações ou as mais dolorosas frustrações. Nada é mais misterioso do que o amor. Ele vive do encontro entre duas pessoas que um dia cruzarem seus caminhos, se descobriram no olhar e na presença e viram nascer um sentimento de enamoramento, de atração, de vontade de estar junto até resolverem fundir as vidas, unir os destinos, compartir as fragilidades e as benquerenças da vida. Nada é comparável à felicidade de amar e de ser amado.  E nada  há de mais desolador, nas palavras do poeta Ferreira Gullar, do que não poder dar amor a quem se ama.

Todos esses  valores, por serem os mais preciosos, são também os mais frágeis  porque  mais expostos às contradições da humana existência.

Cada qual é portador de luz e de sombras, de histórias familiares e pessoais diferentes, cujas raízes alcançam arquétipos ancestrais, marcados por experiências bem sucedidas ou trágicas que deixaram marcas na memória genética de cada um.

O amor é uma arte combinatória de todos estes fatores, feita com sutileza que demanda capacidade de compreensão, de renúncia, de paciência e de perdão e, ao mesmo tempo, comporta o desfrute  comum do encontro amoroso, da intimidade sexual, da entrega confiante de um ao outro. A experiência do amor serviu de base para entendermos a natureza de Deus: Ele é amor essencial e incondicional.
Mas o amor sozinho não  basta. Por isso São Paulo em seu famoso hino ao amor, elenca os acólitos do amor sem os quais ele não consegue subsistir e irradiar. O amor tem que ser paciente, benigno, não ser ciumento, nem gabar-se, nem ensoberbecer-se, não procurar seus interesses, não se ressentir do mal…o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta…o amor nunca se acaba (1Cor 13, 4-7). Cuidar destes acompanhantes do amor é fornecer o húmus necessário para que o amor seja sempre vivo e não morra pela indiferença. O que se opõe ao amor não é o ódio mas a indiferença.

Quanto mais alguém é capaz de uma entrega total, maior e mais forte é o amor. Tal entrega supõe extrema coragem, uma experiência de morte pois não retém nada para si e mergulha totalmente no outro. O homem possui especial dificuldade para esta atitude extrema, talvez pela herança de machismo, patriarcalismo e racionalismo de séculos que carrega dentro de si e que lhe  limita a capacidade desta  confiança extrema.

A mulher é mais radical: vai até o extremo da entrega no amor, sem resto e sem retenção. Por isso seu amor é mais pleno e realizador e, quando se frustra, a vida revela contornos de tragédia e de um vazio abissal.
O segredo maior para cuidar do amor reside no singelo cuidado da ternura.  A ternura vive de gentileza, de pequenos gestos que revelam o carinho, de sacramentos tangíveis, como recolher uma concha na praia e levá-la à pessoa amada e dizer-lhe que, naquele momento, pensou carinhosamente nela.

Tais “banalidades” tem um peso maior que a mais preciosa joia. Assim como uma estrela não brilha sem uma atmosfera ao seu redor, da mesma forma, o amor não vive  sem um aura de enternecimento, de afeto e de cuidado.
Amor e cuidado formam um casal inseparável. Se houver um divórcio entre eles, ou um ou outro morre de solidão. O amor e o  cuidado constituem uma arte. Tudo o que cuidamos também amamos. E tudo o que amamos também cuidamos.

Tudo o que vive tem que ser alimentado e sustentado. O mesmo  vale para o amor e para o cuidado. O amor e  o cuidado se alimentam da afetuosa preocupação de um para com o outro. A dor e a alegria de um é a alegria e a dor do outro.

Para fortalecer a fragilidade natural do amor precisamos de Alguém maior, suave e amoroso, a quem sempre podemos invocar. Daí a importância dos que se amam, de reservarem algum tempo de abertura e de comunhão com esse Maior, cuja natureza é de amor, aquele amor, que segundo Dante Alighieri da Divina Comédia “move o céu e as outras estrelas”  e nós acrescentamos: que comove os nossos corações.

Leonardo Boff é autor de  O Cuidado necessário, Vozes 2012.

(Colaboração de Eugênio Eduardo Pimentel) 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

PASSAGEM DO ANO - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE



O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
E coral,

Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
Os irreparáveis uivos
Do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
Não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
Uma mulher e seu pé,
Um corpo e sua memória,
Um olho e seu brilho,
Uma voz e seu eco.
E quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.

Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.

A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.