Mostrando postagens com marcador Estudo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Estudo. Mostrar todas as postagens

sábado, 5 de novembro de 2016

PUBLICAÇÃO DE SOCORRO LIMA MESQUITA E VIANNEY MESQUITA


Versão Sintetizada

O Autocídio sob a Óptica do Filósofo, Teólogo e Bioeticista Paranaense Luiz Antônio Bento (1)

                                                                                Socorro Lima Mesquita (2)
                                                                                Vianney Mesquita (2)


O Deus que em nós impera proíbe que partamos sem o seu consentimento. (Marco Túlio CÍCERO).

Procedeu-se, em atendimento a fins acadêmicos, à leitura do livro Bioética – desafios éticos no debate contemporâneo, onde o sacerdote católico, filósofo e teólogo paranaense Luís Antônio Bento evoca o fato de o ser humano atual perpassar difícil fase da história, permeada por múltiplas e rápidas transformações, alastradas globalmente. Essas mudanças – aduz o Autor - interferem nos modos de pensar e agir, afetando as relações socioculturais e até vinculações religiosas.
Na interpretação livre operada em parte do texto, compreendeu-se o ato suicida, do modo como divisa o Escritor - sob o ponto de vista da confissão católica e sem descer a explicações da Ciência Psicológica nem de outras fontes disciplinares - ao expressar a noção de que, perante tantas inovações, a pessoa entra em crise, sente-se insegura, de modo que não sabe o caminho a seguir.
Há de se convir na ideia de que jamais a humanidade experimentou tanta abertura de liberdade como nos dias de hoje. Contrastando com esse panorama, apontado pelo Padre Luiz Antônio Bento, surgem outras modalidades de escravidão social e psicológica, de modo que são muitas as forças destrutivas a molestar os seres humanos. Dentre estas, estão conflitos políticos, sociais, econômicos, raciais e ideológicos.
 Influenciado, então, por tantas interferências complexas, o ente humano sente dificuldades de autoafirmação. Seu pensamento balança entre a esperança e a angústia, e ele não sabe se posicionar ante tais desafios – exprime o Filósofo sob estudo.
  A história caminha tão celeremente que os seus protagonistas não logram acompanhar o próprio ritmo. Esse descompasso põe na berlinda, muitas vezes, os valores da estrutura familial. Surge, pois, outro modelo de humanismo, marcado por contradições e desequilíbrios, e os grupos familiares são importunados por tensões decorrentes das condições demográficas, como também por circunstâncias econômicas e sociais.
De efeito, esses conflitos desencadeiam desgraças, das quais o gênero humano é, simultaneamente, origem e vítima (GAUDIUM ET SPES).

2 ANTECIPAÇÃO DO FIM À PRÓPRIA VIDA – INCÓGNITA

         Não obstante o grande desenvolvimento das Ciências Sociais e de outras vertentes do conhecimento ordenado, particularizando a Psicologia e a Psicanálise, o óbito autoinfligido continua sendo um enigma, pois tem continuidade por séculos a fio, como incógnita, sem explicação plausível, de sorte que seu espectro não se limita apenas a causas psicológicas, psicanalíticas ou sociológicas, porquanto é expresso como bem mais abrangente, o que não compete aqui debater.
No seu magnificamente delineado escrito, o bioeticista Luís Antônio Bento ensina que o fato de pôr termo à própria existência representa morte intencional, a si cominada, quando a pessoa experimenta uma situação-limite, não suporta mais a pressão criada por ela mesma, por terceiros, ou pela sociedade, indiretamente.
As condições psicológicas, por consequente, sobram alteradas, restando difícil raciocinar com clareza. Parece que só existe um foco, ficando aquele sob essa compressão polimotivada a maquinar o intento, até alcançar efetivá-lo.
Os registros históricos  - consoante alvitra o ensaísta de Bioética: desafios éticos no debate contemporâneo (2008) - assentam a constante ocorrência de autopassamentos, e as tentativas visando a este propósito se expandem por toda a Terra nas mais diversas épocas.
 Consoante ele informa no ensaio sob comentário, dados da Organização Mundial da Saúde dão conta de que, atualmente, um milhão de pessoas se matam por ano no mundo. Os índices globais de suicídios oscilam de 25 óbitos em cada cem mil habitantes. No Japão e países do Continente Europeu, como Espanha, Itália, Irlanda e Holanda, bem assim no Egito, a taxa é reduzida para até menos de dez trespasses a cada cem mil habitantes.
A maior incidência de vítimas está no segmento de adolescentes e jovens abaixo dos 30 anos. Fato curioso – sugere o Teólogo cujo texto é agora interpretado - é que o suicídio atinge maior percentual de homens, apesar de as mulheres tentarem mais.
Visando ao caráter social, destacam-se os desempregados como maioria das vítimas, ao passo que os profissionais liberais representam minoria. São as mais incidentes causas geradoras desse agravo lamentável a solidão, o sentimento de inutilidade, a privação afetiva e de integração social. Daí a constante ocorrência entre viúvos, divorciados e outros que vivem sozinhos – completa o Padre  Cornélio-procopiense.
Na lição do Sacerdote paranaense, suicida é uma pessoa que decide se anular, pois seu projeto é fugir de sofrimentos, físicos ou psicológicos. Quando uma personagem está enfrentando crise depressiva, é mais passível de ser alvo de suicídio, prefere a morte no lugar da vida insuportável.
O Filósofo e bioeticista sob nota dá conta do fato de que a Igreja Católica, Apostólica e Romana abominava esse evento. Não assentia em que se efetivassem nem missas de corpo presente. No tempo que ora flui, a Filosofia eclesiástica decodifica diferentemente tal acontecimento, pois não o considera mais uma ação moral. Assim, não faz julgamentos da vítima e a recebe com misericórdia.
              Ele indigita três motivos básicos para a taxinomia do autocídio como imoral:
              a) é uma fuga individual que atenta contra o princípio da autoconservação vital;
              b) cuida-se de negação social, deixando-se de contribuir para o bem da sociedade; e
               c) constitui falha no âmbito religioso, pois atenta contra o quinto mandamento do Decálogo Mosaico – NÃO MATAR.
 O suicídio direto representa falha contra si, desfavoravelmente ao próximo e sem mercê a Deus. É oposto à dimensão da moral religiosa. O catecismo da Igreja Católica acentua: ”O suicídio é gravemente contrário à justiça, à esperança e à caridade. É proibido pelo quinto mandamento”. (Nº 2325). As pessoas que o demandam arrostam conflitos internos e externos e não vislumbram possibilidades de solvê-los.
 O Catecismo da Igreja Católica aponta “distúrbios psíquicos de natureza grave, a angústia ou o medo grave da provação, do sofrimento ou de tortura podem diminuir a responsabilidade do suicida”. (Nº 2282).

3 O SUICÍDIO INDIRETO

No entendimento do Escritor agora comentado, a justificativa da morte perante valorações superiores é havida pela tradição moral como suicídio indireto. A morte não é o fim, e sim o meio, para se atingir bom resultado. Os mártires doam sua vida para testemunhar o amor de Deus. A doação da vida numa dedicação aos enfermos contagiosos provoca a morte gradual. No caso, o óbito não é o fim útil, porém um gesto caritativo. Os doutrinadores católicos consideram de duplo efeito, porque a morte não é intencional, mas acidental. A atitude pode ser havida como ato heroico de demonstração de amor ao próximo.           
No concernente à responsabilidade pelo suicídio, as compreensões da Sociologia, Psicologia e outros saberes – como alvitra o Investigador ora glosado - acentuam o fato de que aquele a impor um termo à própria vida não é responsável por esse ato. Sob o espectro eclesiástico, em contraposição, o autocida responde por isso, pois, pelo fato de ser ato humano, comporta, minimamente, algo de liberdade.
Além da de perfil direto, existem outras modalidades de suicídio: o de ordem indireta pode ser classificado de ato consciente, inspirado na caridade heroica, de modo que se configura, de maneira equivocada, como uma obediência aos desejos de Deus.
              O ato de se aniquilar por amor está embasado no benquerer ao próximo, tendo como paradigma a generosidade de Jesus Cristo.  A pessoa se expõe ao martírio, acreditando solidarizar-se com os sofredores.
 O Teólogo, filósofo e bioeticista católico sob modesto exame também protege a noção de que a eutanásia, por exemplo, é algo muito complexo, bastante questionado, ou seja, se vale a pena prolongar a vida em situação de sofrimento extremo, ou deixar seguir o curso normal.
É notório o fato de que a prática da autodestruição se dá em qualquer instância, desencadeia-se pela existência de um vazio, uma falta de sentido para a vida. No momento em que surgir uma centelha de esperança, de possibilidade de uma vida feliz, certamente, o intento de autoimposição ao fim vital é eliminado. A fé em Deus muito contribui para afastar a infelicidade, que pode despertar a vontade de desistir de viver.
O autocídio nega o cumprimento do dever social e histórico, sendo o individualismo um dos grandes agravantes para o surgimento da ideia de autodestruição, consoante expresso em Bioética - desafios éticos no debate contemporâneo.

4 O OUTRO COMO CONCORRENTE

O reverendíssimo Padre Luís Antônio Bento entende – evidentemente, como o orbe inteiro o faz – o homem com estrutura de ser social. Quando, por qualquer motivo, se isola, começa a sofrer a solidão e perder o sentido da vida. Falta, por parte da sociedade, atenção para com os semelhantes.
              Comum é considerar o outro apenas como um concorrente, alguém que disputa algo conosco. Inexiste o diálogo, uma troca sempre tão rica que se experimenta no convívio social. A deficiência, sob este aspecto, o sentido de proximidade, tem consequências funestas.
 Na opinião de Pellizzaro (apud BENTO, 2008), esse questionamento é de fundamental importância, uma vez que essa lacuna pode ensejar o desencanto em relação à vida. Na perspectiva do Autor opinante - ora chamado pelo Padre Bento -  para se solucionar essa deficiência nos relacionamentos sociais, é necessário algo fundamental e simples, a todos ensinado por Jesus Cristo: o amor ao próximo.
Mera é a proposta de aproximação, mas sua aplicação solicita a se refletir em muitos aspectos complexos, sendo necessária uma avaliação técnica, tanto no âmbito individual como na contextura social. O apoio da família é muito válido nessa fase tão delicada.
Pellizzaro sugere, ainda (IBIDEM), rever alguns dos valores éticos fundamentais que possam atribuir algum sentido à vida e fortalecê-la na ocasião das crises. Desse modo, é possível assegurar que a prevenção pertinente para o suicídio é de ordem moral, de perfil social e cunho religioso.
De acordo com a reflexão de Paulo [...] “Sabemos que a Lei é espiritual, mas eu sou humano e fraco, vendido como escravo ao pecado. Não consigo entender nem mesmo o que eu faço; pois não faço aquilo que eu quero, mas aquilo que mais detesto. Ora, se eu faço o que eu não quero, reconheço que a Lei é boa; portanto, não sou eu quem faço, mas é o pecado que mora em mim. Sei que o bem não mora em mim, isto é, em meus instintos egoístas. O querer bem está em mim, mas não sou capaz de fazê-lo. Não faço o bem que quero, e sim o mal que não quero. Ora,se faço aquilo que não quero, não sou eu que o faço, mas é o pecado que mora em mim. Assim, encontro em mim esta lei: quando quero fazer o bem, acabo encontrando o mal. No meu íntimo eu amo a lei de  Deus; mas percebo em meus membros outra lei que luta contra a lei da minha razão e que me torna escravo da lei do pecado que está em meus membros. Infeliz de mim! Quem me libertará desse corpo de morte? Sejam dadas graças a Deus, por meio de Jesus  Cristo, nosso Senhor. Assim pela razão eu sirvo à lei de Deus, mas pelos os instintos egoístas sirvo à lei do pecado”. ( ROMANOS, 7, 14-25).

5 A MODO DE TÉRMINO

Mediante a lúcida elocução do autor, cuja reflexão é nesse instante objeto de exame, constantes mutações ocorrentes no meio social são passíveis de desestabilizar as pessoas, de modo a se sentirem inseguras e infelizes, ao ponto de se desencantarem em relação à vida.b
O ente humano, sendo um ser social por natureza - na ocorrência de seu afastamento do convívio com seus circunstantes - é objeto de prejuízos incalculáveis, sendo esta causa, talvez, a que mais o conduz a intentar contra a própria vida.
Têm ressalto, ainda, o fator econômico, o sentimento de inutilidade, o individualismo e a míngua de afeto.
Aquele em decurso de entrega à própria inflição está, pois, com as frequências cerebrais alteradas, sofrendo grande pressão psicológica, de modo a não ter sucesso em reverter a situação até materializar seu desígnio lastimável.
              Evento singular, lembrado pelo autor, é observável: há discreta divulgação nos casos de suicídio. Os meios de propagação coletiva - é verdade – suprimem e rejeitam eticamente a possibilidade de lhe conceder visão pública. Procura-se, por conseguinte, não tornar massiva a ocorrência, pois pode produzir emulação em pessoas já predispostas a perpetrar esse ato tão insólito.
Nada justifica, por fim, a autoinflição, pois assalta a preservação da vida e o ser humano deixa de ser útil à sociedade. Na perspectiva do Padre Luís Antônio Bento, não se tem, entretanto, o direito de julgar as pessoas que assim procedem. De tal sorte, então, cabe a Deus o entendimento de tal comportamento, porquanto apenas Ele é capaz de conhecer e compreender o coração humano.

                                         BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA

1 BENTO, Luís Antônio. Bioética: desafios éticos no debate contemporâneo. São Paulo: Paulinas, 2008.
2 BENTO, Luiz Antônio. Bioética e Pesquisas em Seres Humanos. São Paulo: Paulinas, 2011.
 3    AAVV. Dicionário de Teologia Moral. São Paulo: Paulus, 1997.
4 CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Pastoral Galdium et Spes. São Paulo: Paulinas, 2007.
5 EDIÇÕES LOYOLA. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo, 1999.
6 EDIÇÕES LOYOLA. Bíblia Sagrada. TEB. São Paulo, 1994.


(1) Interpretação do livro (parte referente ao suicídio) Bioética – desafios éticos no debate contemporâneo, da autoria de Luís Antônio Bento, como tarefa realizada para a disciplina Bioética, do Curso de Graduação em Teologia da Faculdade Católica de Fortaleza, da qual é estudante Socorro Mesquita, sob a regência do Prof. Dr. Pe. Marcos Mendes.

(2) Socorro Mesquita é bacharela em Eventos, pela Faculdade Integrada de Fortaleza, e concludente do Curso de Teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (antigo Seminário Arquidiocesano de Fortaleza). Vianney Mesquita é docente da Universidade Federal do Ceará – prof. Adj. IV. Acadêmico titular das Academias Cearense da Língua Portuguesa e Cearense de Literatura e Jornalismo. Árcade novo (fundador) da Arcádia Nova Palmaciana. Escritor e jornalista. (1)
                                                                                                       

domingo, 13 de março de 2016

Informação Historicoliterária - Estudo sobre Carlos D'Alge


CARLOS D’ALGE
 AUTOR CEARENSE TRASMONTANO

    VIANNEY MESQUITA*                                                                                      


                              Um dos males da literatura consiste em terem os nossos sábios pouco espírito e serem pouco sábios os nossos homens de espírito. (JOSEPH JOUBERT, ensaísta e moralista francês. ( *Montignac,          07.05.1754 - Villeneuve-sur-Yonne, 04-05.1824).
                                                                                

          Há algum tempo, o escritor Carlos Neves d’Alge está fora do circuito intelectual da nossa Terra, no recesso de sua residência, cuidando da saúde, ultimamente, meio combalida, do que, decerto, se vai liberar, para gáudio de seus pares, admiradores e amigos e vitória da atividade intelectual do Estado e do País.
          Nascido em Chaves – Trás-os-Montes – Portugal (24.07.1930), veio jovem para o Brasil, tendo estado no Pará, porém há dezenas de anos tem vida social e literária aqui em Fortaleza, como docente-titular de Literatura Portuguesa da UFC, acadêmico das Academias Cearense da Língua Portuguesa e Cearense de Letras, creditando-se, no rol de várias funções assumidas, as de chefe do Gabinete do Reitor Martins Filho, nos começos da UFC, e Diretor-Presidente da TV Educativa do Ceará – Canal 5.
          Tem ativo literário bastante recheado de produções, contabilizando-se, dentre muitas outras, Terra do Mar Grande (1970), As Relações Brasileiras de Almeida Garret (1980), Sintaxe do Compromisso (1981), O Exílio Imaginário (1983) e O Sal da Escrita – Ensaios de Literatura Comparada (1977).
          D’Alge transita por vários gêneros, do ensaio à poética, demonstrando ser o intelectual sóbrio e preciso, ao empreender estudos em profundidade acerca das literaturas de língua portuguesa, por ele cultuadas e avigoradas, com textos cuidadosos, nos quais se verifica, com facilidade, o filão da pesquisa bem buscada.
          Distinto, em virtude da profusão de seus trabalhos escritos e orais, tem ressalto na sua obra o mencionado O Exílio Imaginário, com trinta estudos, divididos em quatro partes, compostos de fundamentais pontos para o então cultural instante brasileiro. Envolve as relações do Brasil e outros países, com destaque para o africano de expressão lusitana, escritores portugueses clássicos e modernos e sua influência no nosso País. Reporta-se, ainda, a produtores brasileiros de ocorrência marcante na nossa história e até no estrangeiro – como no caso de escrito traduzido para a língua tcheca. Por fim, são expressos pelo Autor do mais à frente referido O Sal da Escrita, os exames de nomes diretamente vinculados à cultura do Ceará, conduzindo-nos ao debate próximo com escritores que carrearam subsídios de relevo para projeção, mundo afora, da cultura do Nordeste brasileiro.
          De tal maneira, O Exílio Imaginário, como os demais trabalhos de seleção rigorosa que as Edições UFC (hoje sob a competente direção do Prof. Antônio Cláudio Lima Guimarães) trazem a público, tem a marca do talento e o sinete do método, circunstâncias exigíveis do investigador, dignificando, por consequência, a estante de qualquer estudioso, estudante ou apreciador da literatura de Língua Portuguesa, que poderão se louvar no retrocitado volume para empreender consultas.
          Tem ressalto, em meio aos seus bens produzidos, um conjunto de ensaios de literatura lusitana comparada – o há pouco expresso O Sal da Escrita - cujo ponto alto, para mim, descansa na remissão à obra da notável escritora Marquesa de Alorna – Dona Leonor de Almeida de Lorena e Lencastre (quarta marquesa), a sétima Condessa de Oyenhause, nascida lisboeta (1750- + Benfica, 1839).
          Conhecida como Alcipe pelos poetas da Arcádia, a Marquesa de Alorna pertence a um ramo familiar de fidalgos portugueses. Foi perseguida pelo Governo do Marquês de Pombal (o mais célebre, o segundo marquês) – Sebastião José de Carvalho e Melo – expulsor dos Padres Jesuítas do Brasil, quando do Tratado de Madrid. Este a encerrou, juntamente com a mãe e o irmão, no Convento de Chelas, destino também reservado ao pai, preso na Torre de Belém e depois no Forte de Junqueira. O moto da persecução era simples – o parentesco dos Alornas com os Távoras – eis a vinculação com o Ceará.
          A obra da Marquesa de Alorna, desde a truculência do mencionado Conde de Oeiras e Segundo Marquês de Pombal, analisada pelo Prof. Dr. Carlos Neves D’Alge, configura-se em seis volumes de composições poéticas, originais e traduções, entre as quais estão os três primeiros cantos de Oberon, de Christoph Martin Wieland (Achstetten – Alem., 05.09.1733 – Weimar, 20.01.1813), bem como as Estações, de James Thomson (Ednam – Escócia, 11.09.1700 – Richmond – UK, 27.08.1748).

          Após o conjunto textual de Carlos D’Alge, importa evidenciar, a empresária e literata portuguesa Maria João Mendonça Lopo de Carvalho procedeu à edição, em outubro de 2011, do estudo profundo intitulado Marquesa de Alorna, somente a respeito dessa Escritora, ao passo que o livro do intelectual tramontano-cearense encerra outros ensaios de semelhante magnitude, dispondo em paralelo literaturas de língua portuguesa de Brasil e Portugal.   

terça-feira, 1 de setembro de 2015

HORA DO VERNÁCULO


Prof. Myrson Lima

I. Abortado

Significados:
1. Que abortou. Produzido antes do tempo. Parido antes da gestação. 

2.  Malogrado, frustrado, gorado.
Exemplos:

O negócio foi abortado. O golpe militar foi abortado pelo governo.
Na linguagem nordestina, não é nada disso.

Abortado se chama o indivíduo de sorte, feliz.
Esse cara é um abortado, nasceu com a bunda para a lua.

Estrofe de Anilda Figueredo, da Academia dos Cordelistas do Crato:
Há sujeito que tem sorte

Mesmo um desmantelado
Escapa de endemia

De polícia e delegado
De acidente e perigo

Pois é aí que eu digo:

Só tendo sido abortado!

II. Afobado
Significados:

Pessoa impaciente, agoniada, inquieta, nervosa, apressada. Com raiva. Tipo atrapalhado, avexado, em função de pressa excessiva ou de
impaciência; precipitado.
Exemplos:

O jogador afobado chutou a bola para fora. Quem é afobado come cru ou queima a boca.
Estrofe de Ulisses Germano, cordelista do Crato

Uma pessoa afobada
É nervosa e inquieta

Anda sempre agoniada

E tudo em volta lhe afeta
É no gesto aligeirado

Que o trejeito do afobado
Perde prumo, perde a reta.

III. Baitinga
Vem de baitola. Há uma etimologia talvez fantasiosa que diz que o termo nasceu na construção da primeira estrada de ferro no Ceará. O capataz encarregado do assentamento dos trilhos era de origem inglesa e possuía modos efeminados. Tinha ele a preocupação com o espaçamento padrão entre os trilhos chamado de bitola. Por influência da língua materna em que o i tem o som de ai, gritava com frequência o termo baitola em vez de bitola. Os peões por causa disso começaram a chamar o capataz de baitola.

Significado: baitola, balde, veado, gay, fresco, homossexual, bicha.
Empregado também para xingar alguém.

É termo menos ofensivo que os anteriores. Usa-se muito nas brincadeiras entre amigos. Geralmente, não tem conotação ofensiva. Tudo vai depender da entonação de quem emprega o termo.
Exemplos:

E aí seu baitinga, não vai me emprestar o cavalo não?
Estrofe de Bastinha Job (da Academia de Cordelista do Crato)

Digo com convicção
Nem preciso de mandinga

Pois falo com precisão

O sinônimo de baitinga

é o cara afrescalhado

É o popular veado

Tem na rua e na caatinga.

IV. Birita
Significados:

a) Cachaça, pinga, aguardente, por extensão qualquer bebida alcoólica.
b) Apelido que se acrescenta a um nome de um cachaceiro: Chico Birita. Manel Birita.

Estrofe de Aldemá de Morais, da Academia dos Cordelistas do Crato
“Birita” é o nome dado

A um tipo de cachaça.
O caboclo no engenho

Bebe em cuia de cabaça
É vendida em botequim

Seus clientes: “Papudim”,

“Pé inchado” e “Arruaça”.

V. Escambau
Origem provável: No Brasil Império, era comum os portugueses que aqui viviam fazer o "escambo", que consistia na troca direta de mercadorias sem o uso de moeda corrente, na maioria das vezes, gêneros de última necessidade, em uma grande feira chamada escambau.

Significados
Significa etc e tal. Comprou farinha, rapadura, carne seca e o escambau.

Escambau também se usa para denominar as pessoas de baixa condição social.
Trova

Bater fofo é não cumprir
Etecetera é escambau

Sujar muito é encardir
Quem acusa, cai de pau

Confusão é funaré
Carta curinga é melé

Atacar é só de mau.

VI. Distrenado
Sentido no cearensês: sem graça, encabulado.

Exemplo: Depois que fez esta besteira, ficou todo distrenado.
Trova de Josenir Lacerda, cordelista do Crato.

Se o sujeito tá confuso
Tristonho e encabulado

Com vergonha, constrangido

Feito um cão escorraçado
Tem gente que olha e diz:

- Aquele pobre infeliz
Tá sem graça, "distrenado".

A.C.L.P.  -  28.8.2015.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Português do dia a dia de A a Z - Prof. Valdemir Mourão


Português do dia a dia de A a Z

● Acento diferencial.

A) O acento diferencial pelo acento gráfico (de intensidade) deixa de existir (agudo ou circunflexo) nas palavras homógrafas paroxítonas. Exemplos:
1) coa, coas (verbo coar e subst.: coação, ato de coar) 2) para (verbo parar)  ≠ para ( preposição);
3) pela, pelas (v. pelar e substantivo: jogo, bola de   borracha, ato de pelar) ≠ pela(s){ comb. per + la(s) };
4) pelo (v. pelar), ≠ pelo ( comb. de per + lo); 4) pelo, pelos (subst.: cabelo, fio delgado) ≠ pelo {comb. de per + lo(s)};
5) pera ( subst.: fruta, interruptor elétrico ); pera (subst.: usada no composto pêra-fita: grande pedra fincada no chão; monumento de pedra) ≠ pera ( prep. arcaica, ainda de uso oral popular );
6) pero (subst.:fruta; variedade de maçã; nome dado aos portugueses pelos índios) ≠ pero (conjunção antiga);
7) pola, polas (subst.: sova, pancadaria) ≠ pola, polas {forma antiga de por + la(s) };
8) pola, polas (subst.: broto, galho pequeno) ≠ pola, polas { formas antigas de por + la(s) };
9) polo, polos ( subst.: extremidade, jogo) ≠ polo, polos1 {formas antigas de por + lo(s) };
10) polo, polos (subst.: gavião pequeno) ≠ polo, polos {forma antiga de por + lo(s) }.

EXCEÇÕES: 1) pôde (v. poder, pret. perf..) ≠ pode (v. pres. ind.); 2) pôr (v.) ≠ por (preposição).

CUIDADO!
A) Os monossílabos ás (tônico, carta de baralho) ≠ as (artigo plural, átono) e más (adjetivo, singular de má) ≠ mas (conjunção) se incluem ao grupo dos monossílabos tônicos, portanto não entram na regra das paroxítonas.
B) O acento diferencial morfológico é o que distingue a terceira pessoa do plural dos verbos ter e vir (e seus derivados) da terceira pessoa do singular. Exemplos:
1) ele tem ≠ eles têm;
2) ele vem ≠ eles vêm;
3) ele detém ≠ eles detêm; 4) ele provém ≠ eles provêm.

ATENÇÃO! Nas formas verbais em que acrescenta um pronome oblíquo (ver colocação de pronomes), deve-se ignorar o pronome e enquadrá-las normalmente às regras de acentuação. Exemplo:
1) Fi-lo (não acentuado); escrevê-lo; fá-lo-íamos (com dois acentos); pô-lo-ia; esperá-lo-íamos; amá-la-íeis; fá-lo-ás; pô-lo.


C) O acento diferencial de timbre foi abolido na Reforma Ortográfica desde 1971, com exceção da forma verbal pôde, já explicado e exemplificado no acento diferencial de intensidade.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

PALÍNDROMOS


Os palíndromos são palavras ou frases que podem ser lidas da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, sem alterar o sentido. Exercitá-los é mais uma forma de interagir com a palavra.

Um dos palíndromos mais antigos está em latim: "SATOR AREPO TENET OPERA ROTAS" (O lavrador diligente conhece a rota do arado"). Este é considerado um palíndromo perfeito.

O maior palíndromo que se conhece é a palavra finlandesa SAIPPUAKIVIKAUPPIAS, de 19 caracteres, que significa "vendedor de soda cáustica". Já a palavra palindrômica mais extensa do nosso idioma é o superlativo de omisso, OMISSÍSSIMO. 

Seguem-se frases palindrômicas:
•             A CARA DA JARARACA.
•             A DIVA EM ARGEL ALEGRA-ME A VIDA.
•             A DROGA DA GORDA.
•             A MALA NADA NA LAMA.
•             A SACADA DA CASA.
•             A TORRE DA DERROTA.
•             ALI, LADO DA LILA.
•             ANOTARAM A DATA DA MARATONA.
•             ASSIM A AIA IA A MISSA.
•             ATACA O NAMORO.
•             LIVRE DO PODER VIL.
•             LUZA ROCELINA, A NAMORADA DO MANUEL, LEU NA MODA DA ROMANA: ANIL É COR AZUL.
•             ME VÊ SE A PANELA DA MOÇA É DE AÇO MADALENA PAES, E VEM.
•             MORRAM APÓS A SOPA MARROM.
•             O CASO DA DROGA DA GORDA DO SACO.
•             O CÉU SUECO.
•             O GALO AMA O LAGO.
•             O GALO DO LAGO.
•             O LOBO AMA O BOLO.
•             O ROMANO ACATA AMORES A DAMAS AMADAS E ROMA ATACA O NAMORO.
•             O VÔO DO OVO.
•             OH, NÓ DE MARA MEDONHO!
•             OH, NOSSAS LUVAS AVULSAS, SONHO.
•             OVOS NELE, HELEN SOVO!
•             RIR, O BREVE VERBO RIR.
•             ROMA É AMOR.
•             ROMA ME TEM AMOR.
•             SÁ DA TAPAS E SAPATADAS.
•             SAIRAM O TIO E OITO MARIAS.
•             SECO DE RAIVA COLOCO NO COLO CAVIAR E DOCES.
•             SOCORRAM-ME, SUBI NO ÔNIBUS EM MARROCOS.
•             SUBI NO ÔNIBUS.
•             ZE DE LIMA RUA LAURA MIL E DEZ.


COLABORAÇÃO DE ÍTALO GURGEL

terça-feira, 29 de julho de 2014

PRIMOROSA AULA DE VIANNEY MESQUITA

TRÊS LAPSOS DE ENTENDIMENTO
Vianney Mesquita*


Na primeira vez que me enganares, a culpa será tua; na seguinte, será minha. (Anônimo).

As significações equívocas, antes ocorrentes mais em circunstâncias de uso da língua no universo coloquial, sem o escopo de socializar conhecimento, tampouco de lecionar, encontram-se também, hoje, nos espaços de emprego da linguagem culta, em que se codificam, por exemplo, feitos e fatos científicos a se propagarem em livros ou quaisquer suportes de informação.
Exibem-se inumeráveis exemplos desses logros elocutórios até em legislações e documentos de órgãos oficiais do Brasil, fato a se deplorar, pois conduzem o leitor à arapuca do erro, desabilitando nosso código glossológico perante os demais do ecúmeno linguístico, nomeadamente deste exercitado nos Estados Lusofônicos – o Português.
Reportamo-nos a três eventos que a nós nos parece oportuno trazer à balha, pelo emprego genérico e indiscriminado em textos de lições escolares, dispostos legais, pronunciamentos formais, discursos e comunicações científicos e literários, peças de Doutrina e Jurisprudência, Bioestatística governamental et reliqua.

Alternativa

Consoante expressamos, em razão do largo e inadequado uso da dicção alternativa e suas variações cognatas, com acepções distintas daquelas que realmente conotam, impende tomar-se em consideração a ideia de que alternativa provém de alter (Latim) = outro, outra.
            Por conseguinte, existe, tão-só, UMA alternativa.
            Diz-se, em Português correto, a alternativa é esta, de sorte a não se cogitar em (cogita-se em) diversas alternativas, num “leque” de alternativas (Proh pudor!), porquanto, por definição, o vocábulo corresponde à Sucessão de duas coisas reciprocamente exclusivas, isto é, uma opção entre duas coisas.
            Efetivamente, pois, a opção – não sendo uma coisa – será a outra (alter), a alternativa.
            Opção será, pois, a alternativa para eliminar as construções frasais equivocadas, feitas, amiúde, a contrapelo das regras da Língua, desprezando, in casu, a procedência glossológica da palavra.

            Nascer morto

            Quiçá inglória seja nossa luta em objeção a expressões desse jaez. Todo o Mundo, até o escrevinhador da língua culta, como adiantamos há pouco, suporta, aceita e aplica palavras e expressões sem qualquer consistência glotológica. Pouco se lhe dá se está ou não depauperando a língua do Prof. Dr. Horácio Dídimo.
            Muita vez, são expressas até antíteses violentíssimas, como na consagrada (miserável consagração!) – e universalizada nas línguas românicas – dicção NASCER MORTO, utilizada pela Bioestatística, até em mensagens de lavra e responsabilidade estatais, no Brasil.
            Se NASCER significa, conceitualmente, começar a ter vida exterior, vir à luz, enxergar a luz, como pode alguém NASCER MORTO? Nascer, então, é o mesmo que morrer?
            Diga-se, por conseguinte, a mulher pariu um feto sem vida, delivrou um corpo morto, ou algo semelhante. NASCER, por conseguinte, foi, é e será, indefinidamente, o antônimo perfeitíssimo de morrer.
            Lamentavelmente, com alternativa, ainda alimentamos expectativa; com relação a nascer morto, entretanto, parece estar a “guerra” definivamente perdida, a não ser, entre nós do Ceará, com o adjutório da Academia Cearense da Língua Portuguesa.

            Entre xis e ípsilon ou de xis a ípsilon?

            Eis a derradeira demonstração de emprego atrapalhado de expressões, na indicação, notadamente em trabalhos universitários, de intervalos de duas grandezas ou coisas.
            É necessário enxergar-se a grande diferença bem visível nas duas dicções, no caso, exempli gratia, de se apontar intervalo etário.
 Ao se expressar a ideia de que as pessoas ouvidas na pesquisa revelaram nas respostas idades de 28 a 40 anos, evidentemente, se depreende que os números lindeiros, as idades-limite inferior e superior, onde estão contidos 28 e 40, são 27 e 41 anos, isto é, aqueles que têm ENTRE 27 e 41 anos, na realidade contam DE 28 A 40 anos.
 Muitas vezes, os pesquisadores expressam que as crianças do seu experimento, por exemplo, nasceram entre 2011 e 2012, tal significando dizer que ainda não nasceram, porquanto, ENTRE 2011 E 2012, nada existe.
Então, rematando o caso, ENTRE os anos de 1927 e 1946, estão os períodos DE 1928 a 1945, não, como é constante e equivocamente apontado. ENTRE e E (aditiva) são intervalos de fora, e não devem ser contados, ao passo que DE-A hão de ser considerados.
De tal sorte, DE XIS A ÍPSILON # de ENTRE XIS E ÍPSILON.


*Acadêmico ocupante titular da Cadeira número 37, cujo patrono é Estêvão Cruz.

 
 MEU CARO PROF. MOURÃO. Veja que aí há uma redundância estilística - A NÓS NOS PARECE, um À BALHA = À BAILA e COGITAR EM, de propósito feitos.
          

sábado, 7 de junho de 2014

‘Discípula de Paulo Freire assassina Machado de Assis’


O esplêndido artigo do jornalista José Maria e Silva é leitura obrigatória: ‘Discípula de Paulo Freire assassina Machado de Assis’

machado-de-assis-aos-25-anos-size-598
Discípula de Paulo Freire assassina Machado de Assis, informa o título do artigo publicado pelo jornalista José Maria e Silva no jornal Opção, de Goiânia. “Em sua arbitrária simplificação de Machado de Assis, em que comete erros primários de interpretação de texto, a escritora-empresária Patrícia Secco embrutece o espírito do leitor ao falsear o mestre e descaracterizar seus personagens”, emenda o subtítulo. Impecável na forma e brilhante no conteúdo, a análise demonstra que a pretendida “adaptação” de O Alienista é um crime contra a literatura, um insulto ao escritor brasileiro, uma vigarice lucrativa e um monumento à imbecilidade. (AN)
JOSÉ MARIA E SILVA
Localizado nas proximidades do Viaduto do Chá, que, desde a inauguração em 1892, se tornou, durante muitos anos, o principal cartão postal da cidade de São Paulo, o Vale do Anhangabaú será palco, em junho próximo, de um evento literário inusitado — um túnel construído não por concreto, mas por 60 mil livros. Trata-se do lançamento da nova edição de uma das mais importantes obras da língua portuguesa de todos os tempos, a novela O Alienista, de Machado de Assis, que, depois da morte do escritor em 1908, separou-se de Papéis A­vulsos, o volume de contos em que fora originalmente publicado em 1882, e se tornou um livro autônomo, traduzido em vários idiomas. Mas não se trata exatamente da obra-prima de Machado — o que o leitor vai encontrar nesse lançamento faraônico é uma adaptação de O Alienista, coordenada pela escritora Patrícia Secco e patrocinada pelo Ministério da Cultura, por intermédio da Lei Rouanet.
“Entendo por que os jovens não gostam de Machado de Assis. Os livros dele têm cinco ou seis palavras que não entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso”, disse Patrícia Secco, em 4 de maio último, numa entrevista ao jornalista Chico Felliti, da Folha de S. Paulo. Proprietária da Secco Assessoria Empresarial S/C Ltda., que juntamente com sua pessoa física já teve aprovados no Ministério da Cultura projetos que somam cerca de R$ 10 milhões captados, Patrícia Secco produz literatura infanto-juvenil em ritmo industrial, com mais de 200 títulos publicados, a maioria com temas da moda, como meio ambiente, direitos humanos e inclusão social. Com o propósito de facilitar a leitura de quatro clássicos da literatura brasileira, Secco pedira autorização ao Ministério da Cultura para captar R$ 1,53 milhão; por incrível que pareça, foi autorizada a captar R$ 1,45 milhão, ou seja, quase o montante que havia pedido para seu projeto. Na prática, conseguiu captar uma cifra milionária — R$ 1,039 milhão — para produzir dois livros a serem lançados num mesmo volume: O Alienista, de Machado de Assis, e A Pata da Gazela, de José de Alencar.
A princípio, a ideia de adaptar um clássico não é necessariamente condenável, especialmente se for para crianças. As adaptações de clássicos da literatura — começando pela Bíblia — devem ser tão antigas quanto o ato de ler. Em sua já clássica Uma História da Leitura, o argentino-canadense Alberto Man­guel conta que, em 1387, John de Trevisa, que estava traduzindo do latim para o inglês a epopeiaPolychronicon, do monge beneditino Ranulf Higden (c. 1280-1364), resolveu fazê-lo não em versos, mas em prosa, pois sabia que o público já não queria ouvir uma recitação pública da obra (que, por sinal, se tornaria muito popular no século XV), preferindo lê-la diretamente. Da mesma forma, a Divina Comédia, de Dante Alighieri, originalmente escrita em versos, mereceu adaptações em prosa e versões condensadas para crianças, que exploram o viés aventureiro de sua viagem ao Inferno, Purgatório e Céu, transformando-o numa espécie de Julio Verne do espírito.
Uma das primeiras justificativas para se adaptar uma obra é, sem dúvida, sua extensão. Poucas crianças são capazes de ler um romance ou uma epopeia que se estende por mais de 500 páginas. A boa adaptação é uma espécie de resumo que tenta extrair a essência da obra sem desvirtuá-la. Carlos Heitor Cony, que adaptou diversos clássicos para o público infanto-juvenil, como Dostoievski, Melville, Mark Twain, Dumas, Gogol, Eça, Manoel An­tônio de Almeida e Julio Verne, ao ser indagado numa entrevista à revista “Cult” se reescrevia ou resumia os livros, respondeu: “Era uma condensação. Eu eliminava pontos mortos, alguns diálogos, detalhes técnicos. Deixava o texto mais denso. Mas preservava a história, o clima e principalmente a expectativa”. Cony foi taxativo: ”O bom adaptador não falseia o original”.
Facilitação de Machado nega o escritor
Infelizmente, Patrícia Secco falseia Machado de Assis. Além de lhe desfigurar o estilo, ela o emburrece. Sua adaptação é um retrocesso, que sacrifica até os avanços linguísticos do estilo machadiano, já ousadamente próximo da linguagem coloquial, numa antecipação das vanguardas do modernismo que só iriam se consolidar no Brasil quase meio século de-pois. A autora esqueceu-se de que Machado, assim como Borges, Beckett, Graciliano, não dá para ser adaptado em prosa sem que se perca a essência de sua arte. A obra machadiana é basicamente linguagem. Em seus romances, não há enredos rocambolescos nem profusão de personagens, como há em Homero, Cervantes e nos clássicos românticos. Mesmo O Alienista, talvez o enredo mais movimentado de toda a sua obra, depende substancialmente da linguagem, pois é nela que moram a argúcia e a ironia do conto.
Para justificar sua adaptação, Patrícia Secco recorre a afirmações demagógicas. “Estou horrorizada. É muito triste pensar que algumas pessoas acham que Machado de Assis, o mestre da literatura brasileira, não pode ser lido pelo sr. José, eletricista do bairro do Espinheiro, que, apesar de gostar de ler, não cursou mais que o primário, ou pelo Cristiano, faxineiro de uma farmácia de Boa Viagem, que não sabe nem mesmo o significado da palavra boticário”, disse a escritora-empresária à repórter Maria Fernanda Rodrigues, do Estadão, em matéria de 9 de maio último. Ora, quem disse que um faxineiro não pode compreender Machado de Assis? Se fosse assim, o próprio Machado — descendente de agregados e ex-escravos, somente com o ensino primário — nem existiria. Foi justamente porque em seu tempo não existia uma Patrícia Secco facilitando-lhe Camões, Vieira e Almeida Garrett que o Machadinho do Morro do Livramento embebeu-se dos clássicos, aprendeu francês sozinho e não apenas se tornou capaz de compreender os mestres da literatura universal como até mesmo se tornou um deles.
Com sua adaptação de O Alienista, a escritora-empresária Patrícia Secco destrói a universalidade da literatura de Machado de Assis com a pequenez ideológica da pedagogia de Paulo Freire. Foi o criador da “Pedagogia do Oprimido”, uma espécie de marxismo de autoajuda, quem consagrou a tese pedagógica de que o aprendizado é um epifenômeno das circunstâncias materiais e é somente a partir delas que se pode alfabetizar uma criança e despertar-lhe a consciência. O pedagogo brasileiro foi um grande admirador de Mao Tsé-Tung e, assim como o monstruoso comunista chinês mandava os lavradores arrancarem até as flores nativas, porque eram inúteis no universo do trabalho, Paulo Freire também arranca as palavras burguesas da cartilha do trabalhador, determinando a alfabetização a partir das tais “palavras geradoras”, como “tijolo”. É o que chamo de pedagogia análoga à escravidão — o filho do lavrador deve ter os olhos presos ao chão e está proibido de ouvir estrelas.
Patrícia Secco professa a mesma filosofia: se o faxineiro da farmácia não sabe o que é “boticário”, que se arranque então essa maldita palavra dos textos clássicos. Nunca ocorreu a ela que seria muito mais fácil, barato e respeitoso oferecer um dicionário ao faxineiro? Aliás, um trabalhador que resolva ler O Alienista — e isso está longe de ser raro — nem precisará de dicionário para descobrir o significado dessa palavra. O próprio conto, que sempre associa o boticário Crispim Soares a remédios, já lhe oferece a resposta. Além disso, tão logo veja a palavra no texto, o faxineiro irá se lembrar de que existe uma rede de perfumaria com esse nome e, por associação de ideias, poderá lembrar-se da palavra “botica” que pode ter ouvido a um parente mais velho. Caso não disponha de um dicionário em casa, o faxineiro machadiano sempre poderá consultar uma pessoa letrada de seu meio, parente ou um conhecido, que se não for capaz de sanar sua dúvida, saberá onde encontrar a resposta. Ou Patrícia Secco acha que só existe vida inteligente em seu meio social e que nas classes pobres não há ninguém capaz de trocar ideias com um faxineiro interessado em literatura?
Censo de 1872 abalou a literatura brasileira
O psicólogo Yves de La Taille, professor da USP e autor do livro Limites, considera que os limites morais comportam três dimensões, uma das quais significa desafio — uma pessoa, além de respeitar limites em face dos direitos dos outros e de impor limites em defesa de sua intimidade, deve também superar limites, o que significa superar a si mesma, buscando a maturidade e a excelência. É tudo o que Pa­trí­cia Secco não quer do leitor, com sua simplificação dos clássicos. Nin­guém aprende sem esforço próprio, recebendo tudo de mão bei­jada. Graciliano Ramos começou a ser escritor quando se sentiu de­safiado pelas mesóclises daCarta de ABC, do lendário A­bí­lio César Borges, o Barão de Ma­caú­bas, que trazia a máxima “fala pouco e bem, ter-te-ão por al­guém”. A frase o levaria a indagar à sua meia-irmã Mocinha se “ter-te-ão” era um homem. Co­mo Mo­ci­nha, a adolescente se­mial­fabetizada que o ensinou a ler, também não tinha ideia do que fosse aquilo, o me­nino Gra­ci­li­ano, enfezado vi­vente das Alagoas, criado a cascudos e beliscões, teve que descobrir so­zinho, devorando, antes dos dez anos, a prosa romântica de José de A­lencar, bem mais distante da linguagem comum do que a linguagem coloquial de Machado de Assis.
Ao se dar conta da indignação que sua proposta suscitou no País, desde um abaixo-assinado contrário até artigos e editoriais — Patrícia Secco publicou na Folha de S. Paulo, no dia 13 de maio, uma defesa de sua adaptação. O título do artigo não poderia ser menos machadiano: “Machado não gostaria de permanecer desconhecido para quem não lê”. Que afirmação mais esdrúxula! Ma­chado, revolucionariamente, sabia-se texto e, como tal, sabia-se também de­pendente do leitor. Em sua tese Os Leitores de Machado de Assis (Editora da USP, 2004), o professor da USP Hélio de Seixas Guimarães chega a sustentar que a obra machadiana foi influenciada pelo Censo de 1872 (o primeiro realizado no Brasil e divulgado em 1876), ao revelar que apenas 18,6% da população livre e 15,7% da população total, incluindo escravos, sabiam ler e escrever. “A tomada de consciência da escassez de leitores, problema que se inscreve de maneira cada vez mais radical em seus romances, parece-me fator relevante para ajudar a guinada que o escritor imprimiu a sua carreira”, escreve Seixas Guimarães.
Mas Machado de Assis, como sociólogo e psicólogo nato, também estava preocupado com os que não sabem — ou não querem — ler, oferecendo-lhes não a literatura-texto, mas a literatura-instituição, encarnada na Academia Brasileira de Letras, que detém até o monopólio legal da língua, tão grande é a sua importância. Aliás, ao contrário do que pensa Patrícia Secco, isso torna Machado de Assis o escritor mais conhecido pelos que não sabem — ou não querem — ler, nomeando ruas e escolas e simbolizando as letras nacionais da mesma forma que o desgrenhado Be­ethoven simboliza a música para quem nunca pisou numa sala de concerto e só conhece da música erudita o eterno “tchan-tchan-tchan” da Quinta Sinfonia. No próprio modo de composição da ABL, que aceita políticos e notáveis travestidos de escritores (como o Barão do Rio Branco, Marco Maciel e Ivo Pitan­guy), Machado de Assis revelou toda sua engenharia político-institucional, dando à literatura brasileira uma dignidade social que ela jamais poderia alcançar numa nação de analfabetos se continuasse sendo produzida em bares, por uma despreocupada geração de boêmios.
E quando procurou fazer da literatura brasileira também uma instituição social descarnada do texto, capaz de chamar a atenção da sociedade por outros meios, Machado de Assis não estava pensando exatamente nas camadas populares da nação — estou certo de que ele pensava, sobretudo, na preguiçosa elite nacional, que, mesmo sabendo e podendo ler, não lia, nem em seu tempo, nem hoje. Machado estava consciente de que, mesmo entre as elites, eram poucos os que tinham o habito da leitura, tanto que seu grande amigo José de Alencar se queixava de que o público conhecia mais O Guarani pelo teatro do que pelo texto do romance em si. Portanto, Patrícia Secco revela todo o seu preconceito contra os pobres quando cita uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo mostrando que 58% dos brasileiros não leram nenhum livro nos últimos seis meses e, logo em seguida, afirma que, “por trás desses números existem rostos e vidas”, mas ao desvendá-los só se lembra de pessoas como “Seu Roberto, motorista de táxi, o Cristiano, caixa da farmácia da esquina, a Dona Nice, copeira do escritório”, pois, segundo ela, “eles são não leitores”.
Ora, só eles? E quantos são leitores entre as elites econômica, social e política do País? Essa preocupação perpassa a obra de vários críticos ao longo do tempo, como José Ve­ríssimo, Sílvio Romero e Otto Maria Carpeaux, que se angustiavam com o grande número de profissionais liberais, como médicos, engenheiros, advogados, professores e outros profissionais de nível superior, que passam ao largo da literatura, limitando-se às leituras técnicas de suas respectivas áreas e reservando o tempo livre para outras formas de lazer, que nada têm a ver com as letras. Por isso, quando se pensa em pobre como sinônimo de não leitor, o que se quer, no fundo, é uma justificativa para arrancar dinheiro dos cofres públicos.
Simplificar livros agrava o problema da leitura
Linguagem difícil nunca foi o maior empecilho à leitura. Mário de Andrade, com seu espírito galhofeiro, disse que para se gostar de Machado de Assis é preciso já nascer velho. Eu vou mais longe: para se gostar de literatura é preciso envelhecer cedo. Por isso, o Eclesiastes diz que “o muito estudar enfado é da carne”. Em nenhuma época ou lugar, a leitura foi a mais popular das formas de lazer. A literatura é a mais reflexiva das artes e a maioria das pessoas abomina reflexão, que, para muitos, rima com depressão. Isso ocorre também com a música erudita. Quantas pessoas, ricas ou pobres, formadas ou não, tão logo se sentem tocadas por um concerto de Mozart, uma sonata de Beethoven, logo tendem a afastá-las dos ouvidos, pedindo uma “música alegre”, sob a alegação de que aquele tipo de música lhes provoca tristeza?
Creio que isso ocorre com qualquer povo, só que, no Brasil, fugir da reflexão como o diabo foge de cruz não é uma característica só das massas, mas também das elites. Uma frase de Machado de Assis talvez explique esse fenômeno: “A verdadeira ciência não é a que se incrusta para ornato, mas a que se assimila para nutrição”. Infelizmente, no Brasil, a educação nunca foi um meio de edificação intelectual e moral do indivíduo, como pregava Machado, mas um salvo-conduto para o sucesso social. Nas nações que levam a sério o conhecimento, o indivíduo primeiro busca o saber e, como consequência, conquista o diploma. No Brasil dá-se o contrário: o sujeito busca avidamente o diploma e, se sobrar tempo, vai à cata de algum conhecimento para fingir que não é de todo ignorante. Por isso, lê-se pouco no Brasil, mesmo entre a gente letrada: ler exige uma posição de sentido do espírito — que é cada vez mais rara numa nação que sempre desprezou o mérito.
Simplificar livros não resolve o problema — pelo contrário, agrava-o. Iniciativas como a de Patrícia Secco abastardam o povo brasileiro ao impedi-lo de conhecer o verdadeiro Machado de Assis, sufocado por uma montanha de 600 mil falsificações de sua obra. Nesta semana que passou, dormi menos de três horas por dia, em média, varando as madrugadas na comparação — linha por linha — da sagrada escritura de O Alienista de Machado de Assis com o apócrifo de mesmo nome da escritora Patrícia Secco. Ao cabo dessa ingente labuta (que Secco, toscamente, “traduziria” por “ao fim desse grande trabalho”), faço minha a indignação de Alcides Vilaça, professor da USP: “Apresentar como sendo de Machado de Assis uma mutilação bisonha de seu texto não devia dar cadeia?” Sim, devia dar cadeia, sobretudo para os tecnocratas do MEC que torraram mais de R$ 1 milhão dos cofres públicos nessa falsificação grosseira de Machado de Assis.
Machado de Assis para consumo próprio
Nem se pode chamar de adaptação esse trabalho de Patrícia Secco. Em sua arbitrária simplificação de O Alienista, com graves erros de interpretação de texto, a escritora-empresária embrutece o espírito do leitor ao falsear o estilo de Machado de Assis, descaracterizar seus personagens e descontextualizar sua obra. Segundo ela própria contou a Chico Felliti, da Folha, a equipe que “descomplica” o texto é formada “por um monte de gente” (expressão dela, segundo o jornalista), entre eles a própria escritora e “dois jornalistas amigos”. É como pegar pintores de parede num bar e levá-los para restaurar a Capela Sistina. O resultado não poderia ser pior. Onde Machado de Assis escreve: “Uma volúpia científica alumiou os olhos de Simão Bacamarte”; Patrícia Secco traduz: “Uma curiosidade científica iluminou os olhos de Simão Bacamarte”. Além de destruir a musicalidade da frase, a troca de palavras assassina o sentido do texto: “volúpia” tem uma forte conotação sexual, imprescindível para se compreender a paixão de Bacamarte pela ciência, algo que se perde completamente com a palavra “curiosidade”. Além do mais, palavras como “volúpia” e “alumiar” não precisam de tradução: a primeira pode ser lida na Bíblia ou ouvidas em homilias católicas e pregações evangélicas e a segunda, em que pese fazer parte do repertório clássico da língua, é perfeitamente compreensível para qualquer lavrador que nunca frequentou escola, mas sabe perfeitamente o que é uma candeia alumiando.
A impressão que fica é que Patrícia Secco e sua equipe traduziram Machado de Assis para consumo próprio. Ou alguém imagina que uma pessoa esforçada o suficiente para ler um livro não vai ser capaz de compreender, com a ajuda do contexto da obra, palavras e expressões como “congregar”, “atarantado”, “estatelar-se”, “pessoa de consideração”, “déspota”, “laudas”, “demanda”, “estar em erro”, “arruaças e clamores”, “vereança”, “eloquência”, “aritméticos”, “abono”, “vestuário”, “gaiato”, “intuito”, “oficiou”, “lusitana”, “juiz-de-fora” e outras do mesmo nível? Pois todas essas palavras foram substituídas por sinônimos catados arbitrariamente no dicionário sem levar em conta o contexto da obra muito menos o estilo do autor. Analisei minuciosamente a adaptação de Patrícia Secco e hei de voltar a ela. Mas já adianto: trata-se de um caso clínico de analfabetismo funcional, digno de ser recolhido às dependências da Casa Verde de Simão Bacamarte. Em vários momentos, Secco e sua equipe não conseguem compreender o que Machado diz com sua peculiar clareza e desvirtuam completamente o original.
Machado de Assis escreve: “Simão Bacamarte começou por organizar um pessoal de administração; e aceitando essa ideia ao boticário Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos”. Patrícia Secco deturpa: “Simão Bacamarte começou organizando um pessoal de administração. Convencendo o farmacêutico Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos”. Reparem no absurdo: a adaptadora transforma o alienista num subordinado do boticário, a quem precisa convencer sobre a necessidade de uma administração em seu próprio manicômio. Em outro trecho, o Padre Lopes diz: “Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo”. A adaptadora reescreve: “Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, prejudica o juízo”. Chega a ser inacreditável essa troca da popularíssima expressão “vira o juízo” por “prejudica o juízo”, um barbarismo que deve ter revirado o estômago do primeiro verme que roeu as frias carnes do defunto Brás Cubas!
Deturpando o enredo e a história
Machado conta que, como D. Evarista não conseguia ter filhos, o Dr. Simão Bacamarte “fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regímen alimentício especial”. Entretanto, “a ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência, — explicável, mas inqualificável, — devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes”. Qualquer dona de casa sem nenhum estudo compreende que D. Evarista, por amor à saborosa carne de porco de Itaguaí, não quis fazer a dieta proposta pelo marido e, por isso, não conseguiu ter filhos. Agora vejam a versão analfabeto-funcional de Patrícia Secco: “[Simão Bacamarte] acabou por indicar à mulher um regime alimentício especial. A ilustre dama, que deveria se alimentar exclusivamente com a carne de porco de Itaguaí, não atendeu aos conselhos do esposo. E, à sua teimosia — explicável, mas inqualificável — devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes”. Ela simplesmente está dizendo que o alienista receitou uma dieta de carne de porco à esposa, quando foi o contrário.
Mais adiante, quando descreve a revolta dos Canjicas contra a Casa Verde, Machado de Assis narra: “Os dragões pararam, o capitão intimou à multidão que se dispersasse; mas, conquanto uma parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro”. Patrícia Secco estropia o texto: “Os soldados pararam, o capitão intimou à multidão que se dispersasse. Mas, enquanto uma parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro”. A adaptadora não faz ideia da conjunção “conquanto” e, em vez de recorrer a “embora”, a traduz por “enquanto”, transformado Machado em analfabeto. No mesmo episódio, o escritor diz que o capitão dos “dragões” mandou “carregar contra os Canjicas”. Patrícia Secco traduz “carregar” (que, no contexto, significa “investir contra”) por “disparar”, sem perceber que os dragões — como os “Dragões da Independência” de hoje — usavam espadas e não armas de fogo. Com isso, o leitor de sua adaptação vai achar que Machado de Assis fazia realismo mágico: uma tropa mete fogo na multidão e essa multidão arrosta as balas, sem medo da morte.
Uma das admiráveis qualidades do conto O Alienista é o cuidado com que a história aparece nele. Machado de Assis preocupa-se com os mínimos detalhes históricos e escreve que Simão Bacamarte era “o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas”. Patrícia Secco corrige para “Espanha”, sem fazer a menor ideia de que, na época colonial em que se passa a história, a Espanha era oficialmente chamada de “Reino das Espanhas”. Em outro trecho, Machado diz que, para D. Evarista, ver o Rio de Janeiro “equivalia ao sonho do hebreu cativo”, sintetizando nessa expressão a sensação de exílio e confinamento que a acanhada Itaguaí produzia no espírito frívolo da mulher de Bacamarte. Patrícia Secco estraga a imagem, substituindo “hebreu cativo” por “judeu cativo”. Ela confunde os hebreus que se tornaram escravos no Egito e foram libertados por Moisés com os filhos da tribo de Judá que, já na terra prometida de Canaã, séculos depois, emprestariam o nome de sua tribo para todo o povo eleito. Se ao citar Dante, Machado tivesse dito, com precisão histórica, “poeta florentino”, não tenho dúvida de que Patrícia Secco iria corrigir para “poeta italiano”. Aliás, numa das raras e lacônicas notas de rodapé, a adaptadora faz isso: ela diz que Averrois é um filósofo e poeta “hispano-árabe”. É o mesmo que chamar Santo Agostinho de filósofo romano-argelino.
Por que Patrícia Secco e sua equipe cometem essa profusão de erros de extrema gravidade ao adaptar o conto de Machado de Assis? Sem dúvida, porque não estão à altura da tarefa. No fundo, a escritora e seus amigos jornalistas, a cada vez que buscam um sinônimo para um termo ou expressão do conto, estão traduzindo a obra para eles próprios e não para o eletricista, o faxineiro, o motorista de táxi, que precisam menos do que eles dessa facilitação. Para se ter uma ideia do quanto é absurda essa adaptação, Machado empregou o termo “transeuntes” e a adaptadora achou por bem substituí-lo pela expressão “os que por ali passavam”. Imagino Patrícia Secco ouvindo uma rádio AM do interior na década de 70, quando o Brasil era muito menos escolarizado do que hoje. Ela ficaria pasmada (ou “espantada” conforme sua tradução de Machado) ao se dar conta de que um dos grandes sucessos de Tonico & Tinoco, dedicado por peões de fazenda às suas respectivas namoradas, era a canção O Gondoleiro do Amor, um poema de Castro Alves, cantado pela dupla caipira ao som de violinos. Saudosos tempos em que uma dupla de lavradores elevava o povo até Castro Alves; hoje, gente como Patrícia Secco faz é rebaixar o povo quando dá a ele um Machado de Assis no nível de si mesma.