domingo, 8 de junho de 2014

POEMA DE ANO NOVO - VINICIUS DE MORAES


Poema de Ano-Novo

(Vinicius de Moraes)


É preciso que nos encontremos diante do amor como as árvores fêmeas cuja raiz é a mesma e se perde na terra profana


... É preciso... a tristeza está no fundo de todos os sentimentos como a lágrima no fundo de todos os olhos
Sejamos graves e prodigiosos, ó minha amada, e sejamos também irmãos e amigos.


É preciso que levemos diante de nós o retrato das nossas almas como se fôssemos a um tempo a Verônica e o Crucificado
Eu sou o eterno homem e hoje que a dor fecunda o tempo eu sinto mais que nunca a vontade de fechar os braços sobre a minha miséria.


Fiquemos como duas crianças pensativas sentadas numa escada - todos serão os peregrinos e apenas nós os contemplados.


Lêda Maria, em sua festejada Coluna, do Jornal O Povo do dia 22 de março de 2014, assim, registrou a festa de LANÇAMENTO de "A Silhueta das Areias", do Médico e poeta JOSÉ TELLES, ocorrido em grande Estilo no dia13 deste mês :

"A Noite de LANÇAMENTO DO LIVRO do Médico e poeta José Telles, A Silhueta das Areias, coletou as mais Belas Palavras de Juarez Leitão, apresentando autor e obra e as Emoções de Telles, cercado no Ideal Clube da Família e dos Fiéis amigos. Ali , também "uma Cidade abraçava uma enseada grávida de aconchego." Afeto e Admiração entregues a quem FAZ da VIDA uma Busca permanente do Amor ". 




PARABÉNS, TELLES!


sábado, 7 de junho de 2014

‘Discípula de Paulo Freire assassina Machado de Assis’


O esplêndido artigo do jornalista José Maria e Silva é leitura obrigatória: ‘Discípula de Paulo Freire assassina Machado de Assis’

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Discípula de Paulo Freire assassina Machado de Assis, informa o título do artigo publicado pelo jornalista José Maria e Silva no jornal Opção, de Goiânia. “Em sua arbitrária simplificação de Machado de Assis, em que comete erros primários de interpretação de texto, a escritora-empresária Patrícia Secco embrutece o espírito do leitor ao falsear o mestre e descaracterizar seus personagens”, emenda o subtítulo. Impecável na forma e brilhante no conteúdo, a análise demonstra que a pretendida “adaptação” de O Alienista é um crime contra a literatura, um insulto ao escritor brasileiro, uma vigarice lucrativa e um monumento à imbecilidade. (AN)
JOSÉ MARIA E SILVA
Localizado nas proximidades do Viaduto do Chá, que, desde a inauguração em 1892, se tornou, durante muitos anos, o principal cartão postal da cidade de São Paulo, o Vale do Anhangabaú será palco, em junho próximo, de um evento literário inusitado — um túnel construído não por concreto, mas por 60 mil livros. Trata-se do lançamento da nova edição de uma das mais importantes obras da língua portuguesa de todos os tempos, a novela O Alienista, de Machado de Assis, que, depois da morte do escritor em 1908, separou-se de Papéis A­vulsos, o volume de contos em que fora originalmente publicado em 1882, e se tornou um livro autônomo, traduzido em vários idiomas. Mas não se trata exatamente da obra-prima de Machado — o que o leitor vai encontrar nesse lançamento faraônico é uma adaptação de O Alienista, coordenada pela escritora Patrícia Secco e patrocinada pelo Ministério da Cultura, por intermédio da Lei Rouanet.
“Entendo por que os jovens não gostam de Machado de Assis. Os livros dele têm cinco ou seis palavras que não entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso”, disse Patrícia Secco, em 4 de maio último, numa entrevista ao jornalista Chico Felliti, da Folha de S. Paulo. Proprietária da Secco Assessoria Empresarial S/C Ltda., que juntamente com sua pessoa física já teve aprovados no Ministério da Cultura projetos que somam cerca de R$ 10 milhões captados, Patrícia Secco produz literatura infanto-juvenil em ritmo industrial, com mais de 200 títulos publicados, a maioria com temas da moda, como meio ambiente, direitos humanos e inclusão social. Com o propósito de facilitar a leitura de quatro clássicos da literatura brasileira, Secco pedira autorização ao Ministério da Cultura para captar R$ 1,53 milhão; por incrível que pareça, foi autorizada a captar R$ 1,45 milhão, ou seja, quase o montante que havia pedido para seu projeto. Na prática, conseguiu captar uma cifra milionária — R$ 1,039 milhão — para produzir dois livros a serem lançados num mesmo volume: O Alienista, de Machado de Assis, e A Pata da Gazela, de José de Alencar.
A princípio, a ideia de adaptar um clássico não é necessariamente condenável, especialmente se for para crianças. As adaptações de clássicos da literatura — começando pela Bíblia — devem ser tão antigas quanto o ato de ler. Em sua já clássica Uma História da Leitura, o argentino-canadense Alberto Man­guel conta que, em 1387, John de Trevisa, que estava traduzindo do latim para o inglês a epopeiaPolychronicon, do monge beneditino Ranulf Higden (c. 1280-1364), resolveu fazê-lo não em versos, mas em prosa, pois sabia que o público já não queria ouvir uma recitação pública da obra (que, por sinal, se tornaria muito popular no século XV), preferindo lê-la diretamente. Da mesma forma, a Divina Comédia, de Dante Alighieri, originalmente escrita em versos, mereceu adaptações em prosa e versões condensadas para crianças, que exploram o viés aventureiro de sua viagem ao Inferno, Purgatório e Céu, transformando-o numa espécie de Julio Verne do espírito.
Uma das primeiras justificativas para se adaptar uma obra é, sem dúvida, sua extensão. Poucas crianças são capazes de ler um romance ou uma epopeia que se estende por mais de 500 páginas. A boa adaptação é uma espécie de resumo que tenta extrair a essência da obra sem desvirtuá-la. Carlos Heitor Cony, que adaptou diversos clássicos para o público infanto-juvenil, como Dostoievski, Melville, Mark Twain, Dumas, Gogol, Eça, Manoel An­tônio de Almeida e Julio Verne, ao ser indagado numa entrevista à revista “Cult” se reescrevia ou resumia os livros, respondeu: “Era uma condensação. Eu eliminava pontos mortos, alguns diálogos, detalhes técnicos. Deixava o texto mais denso. Mas preservava a história, o clima e principalmente a expectativa”. Cony foi taxativo: ”O bom adaptador não falseia o original”.
Facilitação de Machado nega o escritor
Infelizmente, Patrícia Secco falseia Machado de Assis. Além de lhe desfigurar o estilo, ela o emburrece. Sua adaptação é um retrocesso, que sacrifica até os avanços linguísticos do estilo machadiano, já ousadamente próximo da linguagem coloquial, numa antecipação das vanguardas do modernismo que só iriam se consolidar no Brasil quase meio século de-pois. A autora esqueceu-se de que Machado, assim como Borges, Beckett, Graciliano, não dá para ser adaptado em prosa sem que se perca a essência de sua arte. A obra machadiana é basicamente linguagem. Em seus romances, não há enredos rocambolescos nem profusão de personagens, como há em Homero, Cervantes e nos clássicos românticos. Mesmo O Alienista, talvez o enredo mais movimentado de toda a sua obra, depende substancialmente da linguagem, pois é nela que moram a argúcia e a ironia do conto.
Para justificar sua adaptação, Patrícia Secco recorre a afirmações demagógicas. “Estou horrorizada. É muito triste pensar que algumas pessoas acham que Machado de Assis, o mestre da literatura brasileira, não pode ser lido pelo sr. José, eletricista do bairro do Espinheiro, que, apesar de gostar de ler, não cursou mais que o primário, ou pelo Cristiano, faxineiro de uma farmácia de Boa Viagem, que não sabe nem mesmo o significado da palavra boticário”, disse a escritora-empresária à repórter Maria Fernanda Rodrigues, do Estadão, em matéria de 9 de maio último. Ora, quem disse que um faxineiro não pode compreender Machado de Assis? Se fosse assim, o próprio Machado — descendente de agregados e ex-escravos, somente com o ensino primário — nem existiria. Foi justamente porque em seu tempo não existia uma Patrícia Secco facilitando-lhe Camões, Vieira e Almeida Garrett que o Machadinho do Morro do Livramento embebeu-se dos clássicos, aprendeu francês sozinho e não apenas se tornou capaz de compreender os mestres da literatura universal como até mesmo se tornou um deles.
Com sua adaptação de O Alienista, a escritora-empresária Patrícia Secco destrói a universalidade da literatura de Machado de Assis com a pequenez ideológica da pedagogia de Paulo Freire. Foi o criador da “Pedagogia do Oprimido”, uma espécie de marxismo de autoajuda, quem consagrou a tese pedagógica de que o aprendizado é um epifenômeno das circunstâncias materiais e é somente a partir delas que se pode alfabetizar uma criança e despertar-lhe a consciência. O pedagogo brasileiro foi um grande admirador de Mao Tsé-Tung e, assim como o monstruoso comunista chinês mandava os lavradores arrancarem até as flores nativas, porque eram inúteis no universo do trabalho, Paulo Freire também arranca as palavras burguesas da cartilha do trabalhador, determinando a alfabetização a partir das tais “palavras geradoras”, como “tijolo”. É o que chamo de pedagogia análoga à escravidão — o filho do lavrador deve ter os olhos presos ao chão e está proibido de ouvir estrelas.
Patrícia Secco professa a mesma filosofia: se o faxineiro da farmácia não sabe o que é “boticário”, que se arranque então essa maldita palavra dos textos clássicos. Nunca ocorreu a ela que seria muito mais fácil, barato e respeitoso oferecer um dicionário ao faxineiro? Aliás, um trabalhador que resolva ler O Alienista — e isso está longe de ser raro — nem precisará de dicionário para descobrir o significado dessa palavra. O próprio conto, que sempre associa o boticário Crispim Soares a remédios, já lhe oferece a resposta. Além disso, tão logo veja a palavra no texto, o faxineiro irá se lembrar de que existe uma rede de perfumaria com esse nome e, por associação de ideias, poderá lembrar-se da palavra “botica” que pode ter ouvido a um parente mais velho. Caso não disponha de um dicionário em casa, o faxineiro machadiano sempre poderá consultar uma pessoa letrada de seu meio, parente ou um conhecido, que se não for capaz de sanar sua dúvida, saberá onde encontrar a resposta. Ou Patrícia Secco acha que só existe vida inteligente em seu meio social e que nas classes pobres não há ninguém capaz de trocar ideias com um faxineiro interessado em literatura?
Censo de 1872 abalou a literatura brasileira
O psicólogo Yves de La Taille, professor da USP e autor do livro Limites, considera que os limites morais comportam três dimensões, uma das quais significa desafio — uma pessoa, além de respeitar limites em face dos direitos dos outros e de impor limites em defesa de sua intimidade, deve também superar limites, o que significa superar a si mesma, buscando a maturidade e a excelência. É tudo o que Pa­trí­cia Secco não quer do leitor, com sua simplificação dos clássicos. Nin­guém aprende sem esforço próprio, recebendo tudo de mão bei­jada. Graciliano Ramos começou a ser escritor quando se sentiu de­safiado pelas mesóclises daCarta de ABC, do lendário A­bí­lio César Borges, o Barão de Ma­caú­bas, que trazia a máxima “fala pouco e bem, ter-te-ão por al­guém”. A frase o levaria a indagar à sua meia-irmã Mocinha se “ter-te-ão” era um homem. Co­mo Mo­ci­nha, a adolescente se­mial­fabetizada que o ensinou a ler, também não tinha ideia do que fosse aquilo, o me­nino Gra­ci­li­ano, enfezado vi­vente das Alagoas, criado a cascudos e beliscões, teve que descobrir so­zinho, devorando, antes dos dez anos, a prosa romântica de José de A­lencar, bem mais distante da linguagem comum do que a linguagem coloquial de Machado de Assis.
Ao se dar conta da indignação que sua proposta suscitou no País, desde um abaixo-assinado contrário até artigos e editoriais — Patrícia Secco publicou na Folha de S. Paulo, no dia 13 de maio, uma defesa de sua adaptação. O título do artigo não poderia ser menos machadiano: “Machado não gostaria de permanecer desconhecido para quem não lê”. Que afirmação mais esdrúxula! Ma­chado, revolucionariamente, sabia-se texto e, como tal, sabia-se também de­pendente do leitor. Em sua tese Os Leitores de Machado de Assis (Editora da USP, 2004), o professor da USP Hélio de Seixas Guimarães chega a sustentar que a obra machadiana foi influenciada pelo Censo de 1872 (o primeiro realizado no Brasil e divulgado em 1876), ao revelar que apenas 18,6% da população livre e 15,7% da população total, incluindo escravos, sabiam ler e escrever. “A tomada de consciência da escassez de leitores, problema que se inscreve de maneira cada vez mais radical em seus romances, parece-me fator relevante para ajudar a guinada que o escritor imprimiu a sua carreira”, escreve Seixas Guimarães.
Mas Machado de Assis, como sociólogo e psicólogo nato, também estava preocupado com os que não sabem — ou não querem — ler, oferecendo-lhes não a literatura-texto, mas a literatura-instituição, encarnada na Academia Brasileira de Letras, que detém até o monopólio legal da língua, tão grande é a sua importância. Aliás, ao contrário do que pensa Patrícia Secco, isso torna Machado de Assis o escritor mais conhecido pelos que não sabem — ou não querem — ler, nomeando ruas e escolas e simbolizando as letras nacionais da mesma forma que o desgrenhado Be­ethoven simboliza a música para quem nunca pisou numa sala de concerto e só conhece da música erudita o eterno “tchan-tchan-tchan” da Quinta Sinfonia. No próprio modo de composição da ABL, que aceita políticos e notáveis travestidos de escritores (como o Barão do Rio Branco, Marco Maciel e Ivo Pitan­guy), Machado de Assis revelou toda sua engenharia político-institucional, dando à literatura brasileira uma dignidade social que ela jamais poderia alcançar numa nação de analfabetos se continuasse sendo produzida em bares, por uma despreocupada geração de boêmios.
E quando procurou fazer da literatura brasileira também uma instituição social descarnada do texto, capaz de chamar a atenção da sociedade por outros meios, Machado de Assis não estava pensando exatamente nas camadas populares da nação — estou certo de que ele pensava, sobretudo, na preguiçosa elite nacional, que, mesmo sabendo e podendo ler, não lia, nem em seu tempo, nem hoje. Machado estava consciente de que, mesmo entre as elites, eram poucos os que tinham o habito da leitura, tanto que seu grande amigo José de Alencar se queixava de que o público conhecia mais O Guarani pelo teatro do que pelo texto do romance em si. Portanto, Patrícia Secco revela todo o seu preconceito contra os pobres quando cita uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo mostrando que 58% dos brasileiros não leram nenhum livro nos últimos seis meses e, logo em seguida, afirma que, “por trás desses números existem rostos e vidas”, mas ao desvendá-los só se lembra de pessoas como “Seu Roberto, motorista de táxi, o Cristiano, caixa da farmácia da esquina, a Dona Nice, copeira do escritório”, pois, segundo ela, “eles são não leitores”.
Ora, só eles? E quantos são leitores entre as elites econômica, social e política do País? Essa preocupação perpassa a obra de vários críticos ao longo do tempo, como José Ve­ríssimo, Sílvio Romero e Otto Maria Carpeaux, que se angustiavam com o grande número de profissionais liberais, como médicos, engenheiros, advogados, professores e outros profissionais de nível superior, que passam ao largo da literatura, limitando-se às leituras técnicas de suas respectivas áreas e reservando o tempo livre para outras formas de lazer, que nada têm a ver com as letras. Por isso, quando se pensa em pobre como sinônimo de não leitor, o que se quer, no fundo, é uma justificativa para arrancar dinheiro dos cofres públicos.
Simplificar livros agrava o problema da leitura
Linguagem difícil nunca foi o maior empecilho à leitura. Mário de Andrade, com seu espírito galhofeiro, disse que para se gostar de Machado de Assis é preciso já nascer velho. Eu vou mais longe: para se gostar de literatura é preciso envelhecer cedo. Por isso, o Eclesiastes diz que “o muito estudar enfado é da carne”. Em nenhuma época ou lugar, a leitura foi a mais popular das formas de lazer. A literatura é a mais reflexiva das artes e a maioria das pessoas abomina reflexão, que, para muitos, rima com depressão. Isso ocorre também com a música erudita. Quantas pessoas, ricas ou pobres, formadas ou não, tão logo se sentem tocadas por um concerto de Mozart, uma sonata de Beethoven, logo tendem a afastá-las dos ouvidos, pedindo uma “música alegre”, sob a alegação de que aquele tipo de música lhes provoca tristeza?
Creio que isso ocorre com qualquer povo, só que, no Brasil, fugir da reflexão como o diabo foge de cruz não é uma característica só das massas, mas também das elites. Uma frase de Machado de Assis talvez explique esse fenômeno: “A verdadeira ciência não é a que se incrusta para ornato, mas a que se assimila para nutrição”. Infelizmente, no Brasil, a educação nunca foi um meio de edificação intelectual e moral do indivíduo, como pregava Machado, mas um salvo-conduto para o sucesso social. Nas nações que levam a sério o conhecimento, o indivíduo primeiro busca o saber e, como consequência, conquista o diploma. No Brasil dá-se o contrário: o sujeito busca avidamente o diploma e, se sobrar tempo, vai à cata de algum conhecimento para fingir que não é de todo ignorante. Por isso, lê-se pouco no Brasil, mesmo entre a gente letrada: ler exige uma posição de sentido do espírito — que é cada vez mais rara numa nação que sempre desprezou o mérito.
Simplificar livros não resolve o problema — pelo contrário, agrava-o. Iniciativas como a de Patrícia Secco abastardam o povo brasileiro ao impedi-lo de conhecer o verdadeiro Machado de Assis, sufocado por uma montanha de 600 mil falsificações de sua obra. Nesta semana que passou, dormi menos de três horas por dia, em média, varando as madrugadas na comparação — linha por linha — da sagrada escritura de O Alienista de Machado de Assis com o apócrifo de mesmo nome da escritora Patrícia Secco. Ao cabo dessa ingente labuta (que Secco, toscamente, “traduziria” por “ao fim desse grande trabalho”), faço minha a indignação de Alcides Vilaça, professor da USP: “Apresentar como sendo de Machado de Assis uma mutilação bisonha de seu texto não devia dar cadeia?” Sim, devia dar cadeia, sobretudo para os tecnocratas do MEC que torraram mais de R$ 1 milhão dos cofres públicos nessa falsificação grosseira de Machado de Assis.
Machado de Assis para consumo próprio
Nem se pode chamar de adaptação esse trabalho de Patrícia Secco. Em sua arbitrária simplificação de O Alienista, com graves erros de interpretação de texto, a escritora-empresária embrutece o espírito do leitor ao falsear o estilo de Machado de Assis, descaracterizar seus personagens e descontextualizar sua obra. Segundo ela própria contou a Chico Felliti, da Folha, a equipe que “descomplica” o texto é formada “por um monte de gente” (expressão dela, segundo o jornalista), entre eles a própria escritora e “dois jornalistas amigos”. É como pegar pintores de parede num bar e levá-los para restaurar a Capela Sistina. O resultado não poderia ser pior. Onde Machado de Assis escreve: “Uma volúpia científica alumiou os olhos de Simão Bacamarte”; Patrícia Secco traduz: “Uma curiosidade científica iluminou os olhos de Simão Bacamarte”. Além de destruir a musicalidade da frase, a troca de palavras assassina o sentido do texto: “volúpia” tem uma forte conotação sexual, imprescindível para se compreender a paixão de Bacamarte pela ciência, algo que se perde completamente com a palavra “curiosidade”. Além do mais, palavras como “volúpia” e “alumiar” não precisam de tradução: a primeira pode ser lida na Bíblia ou ouvidas em homilias católicas e pregações evangélicas e a segunda, em que pese fazer parte do repertório clássico da língua, é perfeitamente compreensível para qualquer lavrador que nunca frequentou escola, mas sabe perfeitamente o que é uma candeia alumiando.
A impressão que fica é que Patrícia Secco e sua equipe traduziram Machado de Assis para consumo próprio. Ou alguém imagina que uma pessoa esforçada o suficiente para ler um livro não vai ser capaz de compreender, com a ajuda do contexto da obra, palavras e expressões como “congregar”, “atarantado”, “estatelar-se”, “pessoa de consideração”, “déspota”, “laudas”, “demanda”, “estar em erro”, “arruaças e clamores”, “vereança”, “eloquência”, “aritméticos”, “abono”, “vestuário”, “gaiato”, “intuito”, “oficiou”, “lusitana”, “juiz-de-fora” e outras do mesmo nível? Pois todas essas palavras foram substituídas por sinônimos catados arbitrariamente no dicionário sem levar em conta o contexto da obra muito menos o estilo do autor. Analisei minuciosamente a adaptação de Patrícia Secco e hei de voltar a ela. Mas já adianto: trata-se de um caso clínico de analfabetismo funcional, digno de ser recolhido às dependências da Casa Verde de Simão Bacamarte. Em vários momentos, Secco e sua equipe não conseguem compreender o que Machado diz com sua peculiar clareza e desvirtuam completamente o original.
Machado de Assis escreve: “Simão Bacamarte começou por organizar um pessoal de administração; e aceitando essa ideia ao boticário Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos”. Patrícia Secco deturpa: “Simão Bacamarte começou organizando um pessoal de administração. Convencendo o farmacêutico Crispim Soares, aceitou-lhe também dois sobrinhos”. Reparem no absurdo: a adaptadora transforma o alienista num subordinado do boticário, a quem precisa convencer sobre a necessidade de uma administração em seu próprio manicômio. Em outro trecho, o Padre Lopes diz: “Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, vira o juízo”. A adaptadora reescreve: “Isso de estudar sempre, sempre, não é bom, prejudica o juízo”. Chega a ser inacreditável essa troca da popularíssima expressão “vira o juízo” por “prejudica o juízo”, um barbarismo que deve ter revirado o estômago do primeiro verme que roeu as frias carnes do defunto Brás Cubas!
Deturpando o enredo e a história
Machado conta que, como D. Evarista não conseguia ter filhos, o Dr. Simão Bacamarte “fez um estudo profundo da matéria, releu todos os escritores árabes e outros, que trouxera para Itaguaí, enviou consultas às universidades italianas e alemãs, e acabou por aconselhar à mulher um regímen alimentício especial”. Entretanto, “a ilustre dama, nutrida exclusivamente com a bela carne de porco de Itaguaí, não atendeu às admoestações do esposo; e à sua resistência, — explicável, mas inqualificável, — devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes”. Qualquer dona de casa sem nenhum estudo compreende que D. Evarista, por amor à saborosa carne de porco de Itaguaí, não quis fazer a dieta proposta pelo marido e, por isso, não conseguiu ter filhos. Agora vejam a versão analfabeto-funcional de Patrícia Secco: “[Simão Bacamarte] acabou por indicar à mulher um regime alimentício especial. A ilustre dama, que deveria se alimentar exclusivamente com a carne de porco de Itaguaí, não atendeu aos conselhos do esposo. E, à sua teimosia — explicável, mas inqualificável — devemos a total extinção da dinastia dos Bacamartes”. Ela simplesmente está dizendo que o alienista receitou uma dieta de carne de porco à esposa, quando foi o contrário.
Mais adiante, quando descreve a revolta dos Canjicas contra a Casa Verde, Machado de Assis narra: “Os dragões pararam, o capitão intimou à multidão que se dispersasse; mas, conquanto uma parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro”. Patrícia Secco estropia o texto: “Os soldados pararam, o capitão intimou à multidão que se dispersasse. Mas, enquanto uma parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro”. A adaptadora não faz ideia da conjunção “conquanto” e, em vez de recorrer a “embora”, a traduz por “enquanto”, transformado Machado em analfabeto. No mesmo episódio, o escritor diz que o capitão dos “dragões” mandou “carregar contra os Canjicas”. Patrícia Secco traduz “carregar” (que, no contexto, significa “investir contra”) por “disparar”, sem perceber que os dragões — como os “Dragões da Independência” de hoje — usavam espadas e não armas de fogo. Com isso, o leitor de sua adaptação vai achar que Machado de Assis fazia realismo mágico: uma tropa mete fogo na multidão e essa multidão arrosta as balas, sem medo da morte.
Uma das admiráveis qualidades do conto O Alienista é o cuidado com que a história aparece nele. Machado de Assis preocupa-se com os mínimos detalhes históricos e escreve que Simão Bacamarte era “o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas”. Patrícia Secco corrige para “Espanha”, sem fazer a menor ideia de que, na época colonial em que se passa a história, a Espanha era oficialmente chamada de “Reino das Espanhas”. Em outro trecho, Machado diz que, para D. Evarista, ver o Rio de Janeiro “equivalia ao sonho do hebreu cativo”, sintetizando nessa expressão a sensação de exílio e confinamento que a acanhada Itaguaí produzia no espírito frívolo da mulher de Bacamarte. Patrícia Secco estraga a imagem, substituindo “hebreu cativo” por “judeu cativo”. Ela confunde os hebreus que se tornaram escravos no Egito e foram libertados por Moisés com os filhos da tribo de Judá que, já na terra prometida de Canaã, séculos depois, emprestariam o nome de sua tribo para todo o povo eleito. Se ao citar Dante, Machado tivesse dito, com precisão histórica, “poeta florentino”, não tenho dúvida de que Patrícia Secco iria corrigir para “poeta italiano”. Aliás, numa das raras e lacônicas notas de rodapé, a adaptadora faz isso: ela diz que Averrois é um filósofo e poeta “hispano-árabe”. É o mesmo que chamar Santo Agostinho de filósofo romano-argelino.
Por que Patrícia Secco e sua equipe cometem essa profusão de erros de extrema gravidade ao adaptar o conto de Machado de Assis? Sem dúvida, porque não estão à altura da tarefa. No fundo, a escritora e seus amigos jornalistas, a cada vez que buscam um sinônimo para um termo ou expressão do conto, estão traduzindo a obra para eles próprios e não para o eletricista, o faxineiro, o motorista de táxi, que precisam menos do que eles dessa facilitação. Para se ter uma ideia do quanto é absurda essa adaptação, Machado empregou o termo “transeuntes” e a adaptadora achou por bem substituí-lo pela expressão “os que por ali passavam”. Imagino Patrícia Secco ouvindo uma rádio AM do interior na década de 70, quando o Brasil era muito menos escolarizado do que hoje. Ela ficaria pasmada (ou “espantada” conforme sua tradução de Machado) ao se dar conta de que um dos grandes sucessos de Tonico & Tinoco, dedicado por peões de fazenda às suas respectivas namoradas, era a canção O Gondoleiro do Amor, um poema de Castro Alves, cantado pela dupla caipira ao som de violinos. Saudosos tempos em que uma dupla de lavradores elevava o povo até Castro Alves; hoje, gente como Patrícia Secco faz é rebaixar o povo quando dá a ele um Machado de Assis no nível de si mesma.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

COMENTÁRIO




O ORTÔNIMO, OS HETERÔNIMOS E A OUTRA COISA, NA CALIGRAFIA DO POLÍGRAFO LINHARES FILHO

Vianney Mesquita*

O que penso do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

[Alberto Caeiro – heterônimo de PESSOA, FERNANDO Antônio Nogueira de Seabra  - *Lisboa, 13.06.1888; +Lisboa (Jerônimos), 30.11.1935].


Procedia a uma regulagem nas minhas (como eu) desorganizadas estantes, quando divisei A Outra Coisa na Poesia de Fernando Pessoa, do escritor polimático Linhares Filho, professor titular de Literatura Portuguesa da U.F.C. mestre nesta linha investigativa (Pessoa) e doutor no mesmo veio (Miguel Torga).
José Linhares Filho, de quem experimentei o prazer de assistir ao lançamento do broto intitulado Junto à Lareira Invisível, há poucos meses, é lavrense (da Mangabeira), como ocorrem ser Dimas Macedo, Batista de Lima, Josafá e Joel Linhares e Joaryvar Macedo, bem assim muitos autores de renome, procedentes desta fonte prolígera de pessoas de letras, cultura e ciência.
Tanto em razão de sua diversa e qualificada produção na poesia, ensaio e noutros gêneros de escritura, como, em particular, em decorrência dos estudos empreendidos em profundez acerca de Pessoa e Miguel Torga (Adolfo Correia da Rocha), LF é produtor apreciado, estudado e policitado no Brasil, Portugal e nas várias nações lusofônicas, razão por que constitui nome de referência terciária no ecúmeno literário nacional e mesmo ultrapassando os limiares patriais do idioma português.
Na releitura do mencionado clássico da ensaística literária, restou mais cristalina ainda (a leitura repetida tempos após é procedida sempre noutra perspectiva) a ideia de que descobrir lances novos, por exemplo, na produção de literatos da grandeza de Machado de Assis, Eça de Queiroz, José de Alencar, Fran Martins ou Fernando Pessoa não constitui labor no alcance das pessoas comuns, porquanto, se pensa, desarrazoadamente, suas obras já restam eficientemente dissecadas pelos mais eminentes analistas.
Desta sorte, depreende-se a noção de que a Arte, na sua acepção melhor, não é tão estreita ao ponto de se esgotarem valores latentes, e sempre haverá no seu recôndito entretons ainda intocados e que somente poderão ser devassados pela argúcia do estudioso exigente e fiel à pesquisa para descodificação perfeita da mensagem.
A Outra Coisa na Poesia de Fernando Pessoa, ora apreciada com visão renovada, diversa da leitura inaugural, não constitui, decerto, um livro a maior na bibliografia passiva do Lisbonense notável, conforme se poderia erroneamente supor a priori, pois LF percorre intimamente o discurso admirável do Poeta luso e, sine ira et studio, no frasear de Públio Cornélio Tácito, imagina, supõe, fotografa, conclui e explica, com a clareza do bom tradutor, as diversas facetas da obra do Autor de Mensagem.
Linhares Filho estabelece as relações entre o ortônimo e os heterônimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis; exprime singularmente as posições de Caeiro e Reis, bem assim o relacionamento de Campos-Caeiro; formula coerentemente as soluções idealista e realista no contexto pessoano, explicando, no que chamou solução realista, o infinito de Pessoa, o impossível de Reis e o realismo de Campos.
Linhares Filho, pois, no volume sob comento, deu continuidade ao seu fado de excelente escritor de ensaios, garantindo um lugar de destaque no concerto da crítica especializada; e, ao demostrar a personalidade multíplice do Escritor de Primeiro Fausto, arremata com o enfeixe maior de Pessoa – o empenho deste em compreender o mundo e atingir o ser.
O experimento literocientífico sob exame, por conseguinte, malgrado assunto espreitado amiúde por teóricos de toda parte, é uma vertente exata para quem tencionar proceder a incursões mais demoradas pela obra de Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa, em decorrência da absoluta originalidade das suas proposições.
Glória e paz e parabéns e vida longa ao excelso ensaísta e enorme cristão, ocupante de uma cadeira (a de Luís Antônio da Rocha Lima) na Academia Cearense de Letras, o lavrense José Linhares Filho ! 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

GISELDA MEDEIROS - É TEU DESTINO...


                Permanecerá em ti
                o meu eu
                com seus refrões de silêncio
                cruzando o mítico reino
                dos fantasmas.
                Alongado sobre ti
                estará meu olho de poeta,
                indecifrável
                e esquecido archote,
                nas trevas.
                Sobre ti cairá a mão
                de pele tão alva
                deste meu poema.
                E haverás de carregar-me
                com meus horizontes
                de indefinidas formas
                sempre vestida de poeta
                na calma completa
                de um verso adormecido.

            (do livro “Tempo das Esperas”)

quarta-feira, 21 de maio de 2014

LILA XAVIER E MAIS UM POEMA

Lua Minguante
Lila Xavier

O amor que inundava minh’alma
Minguou, como se a mordida
Do dragão que habita a Lua
Tivesse arrancado sua
Parte mais doce, mais brilhante.
Nesse ínterim,
São Jorge em seu cavalo branco
Arteiro, dispensava as esporas
Numa luta desigual com o dragão
Roubador do it da Lua
Do seu brilho incandescente
Que minguava, carente de amor.
Meu olhar ficava preso ao firmamento
Preso à Lua e a seu encanto
Encanto que prende os poetas
À melancolia de seus perdidos amores
E a Lua, forte e sem esforço
Resistia bravamente.
E o amor que minh’alma
Alimentava com seu brilho cada vez mais opaco
Ia-se embora definhando
Engolido pelo dragão que Jorge não aplacava
E ficava mais voraz à medida que, parte da Lua, engolia.
Meu olhar inda preso ao meu amor
Que, distantemente, se desenhava
Ia de saudade me inundando
E arrebatando-me para a fúria do dragão
Que ateava fogo e feria meu coração
Marcando a forma da Lua
Que minguava
Perdendo o brilho incandescente
Que refletia a minha sombra
Sob o luar.
E lá estava São Jorge perdendo a batalha
E eu... a esperança... do meu amor encontrar
E sob o clarão, não mais tão claro, assim
Eu via o dragão que engolia a Lua
E o seu doce brilho minguante.
Quisera eu que minh’alma
Fizesse resplandecer o brilho que
Perdeu-se da Lua que minguava,
Vomitado pela força hercúlea
Do dragão empanzinado.
De volta, eu queria
O brilho do amor que minguou
E que sob o luar me enchia de inspiração


Porque era inundado pelo brilho da Lua Cheia.


quinta-feira, 15 de maio de 2014

NEIDE AZEVEDO LOPES E SUA CRÍTICA SOBRE "ÂNFORA DE SOL"


O LEGADO POÉTICO DE GISELDA MEDEIROS
A poesia é mistério, solidão e descoberta. Presente em qualquer aurora, ela nos arrebata, prende, fascina. Conosco voa, plana, ou esconde-se. Nos cantos mais sutis das nossas almas, ou até mesmo numa porta fatigada de esperas. Estampa-se no sorriso do vento, na insensatez do tempo ou nos confins dos nossos braços cheios de abraços.
Assim, envolta na túnica do sonho, testemunha da saudade, da dor ou do recolhimento, Giselda Medeiros lega à sua imensa legião de leitores, essa obra de singular beleza, onde tudo converge ao essencial. Incrustada numa ânfora morna de sol; pronta aos nossos olhos ávidos de sabê-la.
Afirma Voltaire que o esplendor da relva só pode mesmo ser percebido pelo poeta. Os outros pisam nela.
Pelo prisma de sua farta imaginação poética, a escritora intui a filigrana da metáfora, transformando o que poder-se-ia tomar como lugar comum, numa cortina aberta às conjecturas, certezas, solidões, esperanças, silêncios e caminhos. Esses, por vezes tortuosos, inalcançáveis, vazios...
“Há muito estou aqui / no meio deste tempo sem história / cansa-me procurar a saída / nesses vales úmidos de espanto”. Ante a indefinição, o medo, o inconcluso, só resta à poeta adormecer. Para quem sabe, achar uma saída... E, nessa sublimação, exclama: “Adormecer, adormecer – é o que me resta, / para sonhar com tuas mãos se abrindo em flores”.
No poema visões a simbiose da escritora com o eu lírico forma-se em movimentos alternados de aproximação e distância. Isso, Giselda mostra num percurso solitário e indiviso, compondo em miragens uma fragilidade infinda: “Há pássaros engaiolados em teus olhos / nos meus há liberdade de nuvens em travessia”. “Tudo em ti é mito; / tudo em mim é poesia / tuas mãos não derramam brindes; / minhas mãos derramam estrelas”.
Já em nuvem de sândalo a poeta canta o canto inaugural das tardes, prometendo ao amado seu cálido perfume de mulher. Aqui, o erotismo é sutil; posto sabermos que sua poesia jamais tombará sob o peso do grotesco. “Eu serei para ti a amada e a amante. / descerei ao pomar de teus anseios, / feito fruta colhida entre tuas heras”.
Há beleza em tudo que se move; Ânfora de Sol é beleza em movimento. “O ardente desejo de amanhecer-me aurora / cresce, expande-se, alastra-se em vigílias, / enquanto só a melancolia amanhece em minhas pálpebras.”
Giselda Medeiros é multifacetada em versos. E sua poesia é indissociável do canto, da dança, da cor e do lamento: “tu cantas, poeta, / a amargura da vida / com a mesma singeleza com que choras / o amor sonhado, encravado nas estrelas”. “Para ti / a nota o ritmo / na simbiose da canção / de amor que cantas”. “ah, deixem-me cantar minha canção / na dor silenciosa dos espinhos, / porquanto a aurora ainda é paisagem em mim!”
Ânfora de Sol é tudo isso. A reflexão existencial sobre o amor e seus contornos. A memória percorrendo lenta as sendas do impreciso. Ou a explosão da luz totalizando os êxtases!
Giselda Medeiros seguirá, certamente, o seu caminho; encantada e conclusiva sobre a pujança de se saber poeta. Nós, seus leitores, inclinamo-nos reverentes ao seu verso.


Neide Azevedo Lopes



segunda-feira, 12 de maio de 2014

UM POEMA DE MYRSON LIMA

Mãe

O pêndulo do relógio ainda ecoa jaculatórias
no silêncio do quarto que envolve tuas preces.
A presença do divino se esconde na inutilidade das horas.
Busca o infinito teu olhar distante e imóvel
Na pregação de tua fala indecifrável.
Ecoam lições de infância o semblante de paz
e o apelo camuflado de teus gestos.
Revelam ternura e alegria
teus sorrisos raros e discretos.
À luz da fé, teu espírito vela
Na expectativa confiante da imortalidade.

Myrson

11.5.2014

sexta-feira, 9 de maio de 2014

GISELDA MEDEIROS



VIVER O AMOR

                            Sem amor, somos pobres como Jó;
                            e somos deus sem sua onipotência;
                            e somos sol sem luz, lua sem brilho
                            e a pobre mãe que já perdeu seu filho.

                            Sem amor... sem amor... ai, nossas bocas
                            nada dirão, embora que as metáforas
                            rocem-lhe a língua e deixem-na ferida.
                            Ai, como é triste a vida sem Amor!

                            As esperanças chegam, vão-se embora...
                            Uma após outra, vão soltando as asas
                            rumo ao canteiro onde descansa o Amor.

                            Por isso, amemos muito, enquanto a vida
                            em nós vibrar tão plena de alegria,
                            porque o Amor é o templo da Poesia. 

         
                                                             (do livro Ânfora de Sol)

terça-feira, 6 de maio de 2014

O "DIA DAS MÃES" - por Vicente Alencar (Presidente da UBT-FORTALEZA)




O Dia das Mães no Brasil é comemorado no segundo domingo de maio. Tem a mesma data, também, reverenciada neste mesmo dia na Dinamarca, Finlândia, Japão, Turquia, Itália, Austrália, Bélgica e Estados Unidos, entre outros, totalizando 46 países, nos mais de 200 espalhados pelo globo.
Na Argentina a data é vivida no segundo domingo de outubro, e na Noruega, no segundo domingo de fevereiro. No Líbano, no segundo dia da Primavera e no México a 10 de maio. Na Suécia, no último domingo de maio e na Espanha e em Portugal  a mesma coisa. 

Esse dia causa alvoroço entre os comerciantes, pois lhes possibilita  grandes lucros, aumentando o amor filial e favorecendo a todos, de uma maneira geral.

Muitos dizem que o "Dia das Mães" passou a ser comemorado após a norte-americana Anna Jarvis, filha de pastores, homenagear sua Mãe, de quem ficou órfã em 1905
e passou a cuidar de uma irmã cega com muito amor.

Corria o ano de 1908 quando uma Missa foi celebrada no dia 10 de maio, na Cidade de Grafton, na Filadélfia. Dois anos depois, o seu Governo instituía oficialmente o "Dia das Mães" no seu território.

Porém é bom que se registre e todos saibam que, o "Dia das Mães" não  começou neste movimento. Ele já vinha sendo comemorado há muitos séculos.

Na Grécia antiga, já se comemorava o Dia de Rhea, a mulher de Chronus e a mãe de todos os Deuses. Alguns séculos depois em 250 a. C. Roma Antiga  comemorava, oficialmente, a festa anual de Cybele, com três dias de duração, e acontecia no mês de março.  Cybele, outra mãe dos deuses, para os romanos, e venerada por muitos e muitos séculos entre os latinos.

Aqui no Brasil, comemorações do "Dia das Mães" começaram no dia 12 de maio de 1918, em Porto Alegre, numa iniciativa da Associação Cristã dos Moços, num movimento congregando à juventude gaúcha, incorporando-se  todos os outros após a primeira experiência.

Mas somente em 1932, precisamente, a data ganharia foro oficial quando o Presidente Getúlio Vargas sancionou o segundo domingo de maio como a data oficial para as comemorações em torno da homenagem.


Uma coisa é certa: nunca uma data foi tão merecida, mesmo sabendo-se que todos os 365 dias do ano são os dias das Mães, pois, nada é mais sublime que uma Mãe, em qualquer raça, em qualquer idioma, em qualquer lugar. Na terra e no céu, elas estão sempre conosco, seus filhos.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

BATISTA DE LIMA EXPLORA "ÂNFORA DE SOL", DE GISELDA MEDEIROS


O tempo, a ânfora e o sol

O tempo corrosivo lhe dá a chance de recuperação através do restauro do corpo do poema. Trabalhar a forma poemática é trabalhar-se. Daí sua preocupação em se vestir, muitas vezes, de dois quartetos e dois tercetos e sair sonetada aos olhos de seus leitores. São sonetos sem rima, a maioria, mas metrificados em decassílabos

Diante
de nossas retinas, a ânfora. Nela, azeite, vinho ou água. Mas não. Na ânfora está o sol. Ou é ela feita de sol? Quem vai dar essa resposta é a poesia de Giselda Medeiros. Já que ela começa feito andorinha fiando esperas, conclui-se que essa ânfora, mesmo feita de sol, vem mesmo é repleta com o tempo que flui pelas aberturas que não se tapam. O grande tema desse mais recente livro de Giselda é mesmo o tempo em correnteza fluindo de uma "Ânfora de Sol".

O tempo corrosivo lhe dá a chance de recuperação através do restauro do corpo do poema. Trabalhar a forma poemática é trabalhar-se. Daí sua preocupação em se vestir, muitas vezes, de dois quartetos e dois tercetos e sair sonetada aos olhos de seus leitores. São sonetos sem rima, a maioria, mas metrificados em decassílabos.

Em um rastreamento através desses sonetos é possível encontrar caminhos novos nas quebradas do destino, passos de algo peregrino que o tempo não conseguiu desrespeitar. Esse milagre só a poesia pode fazer. Daí que a autora confessa: "A aurora ainda é paisagem em mim".

Mesmo assim há uma profusão de metáforas melancólicas, como: "silentes olhos de crepúsculo", "tempo sem história", "rendas de espantos", "paisagens que se despedaçam sob os látegos do tempo" e "amarga solidão". Todo esse estado de espírito é amortizado na sua força corrosiva através da linguagem poética que ela vai tecendo, como um bordado de flor sobre uma túnica de tristeza.

Essa tristeza, quase um luto, faz com que surja, entre seus versos, aquele que nos parece mais revelador de sua fala. É um verso antológico que representa a culminância de toda a sua poética: "Preciso urgentemente ser nós dois". Aí está o resumo de tudo o que aparece no livro. Pode até ser sem propósito definido, esse desabafo, mas se configura profundamente revelador.

Nesse mesmo caminho, se direcionam as reflexões feitas pela escritora Neide Azevedo Lopes, nas orelhas do livro, quando relaciona expressões como: "porta fatigada de esperas", "vales úmidos de espanto", "canto inaugural das tardes" e "sendas do impreciso". Não se pode omitir esse clima sombrio que se esvai dos poemas como surgidos do "útero da noite", até o momento em que "a última estrela persigna-se ante o Cruzeiro do Sul".

Como se vê, há uma sintonia entre os elementos da natureza como a fazer coro uníssono em torno de uma angústia suspensa no ar. Até "o canto do rio é um lamento / na bda noite", e ""a bruma cai e é pesada", enquanto a "noite dos espantos" produz "metáforas alucinadas" no "horizonte das ausências". Toda essa angústia, no entanto, é abrandada também quando a autora retorna, ou tenta retornar, a um paraíso perdido: "meu olhar busca o passado".

Esse retorno leva a um encontro com elementos da natureza, que são revistos com olhos de metáfora. Assim é que "o sol esfrega os olhos / ainda úmidos de trevas" e "o vento / vem deitar em mim / suas promessas de cinza e pó". Mesmo assim, o tom ainda é de angústia e pessimismo, como se mesmo transformando o mundo do retorno não houvesse solução para o efêmero da vida.

"Ânfora de sol", contradizendo seu conteúdo semântico, não é um livro da claridade da manhã. É muito mais um canto da maturidade, simbolizado pelo tom sombrio de suas imagens. São "notas dilaceradas" de um canto de angústia e solidão. Uma permanente catarse de alguém que não teme em revelar aquilo que lhe pesa nos costados da alma. É revelador, portanto, dizer que "há fuligem no cais onde me encontro".

Mesmo assim há momentos, que se intercalam nessa angústia, onde um lirismo namorador, feito chuvas de verão, vem verdejar os campos áridos da melancolia. São momentos da visita do amor, ou outras acontecências de alteridades agradáveis. "E o mel, que escorre de meus lábios escarlates, / adoça teu nome em minha boca". Em outro momento ela declara: "Ó senhor da minha messe, / não te lembres de ir embora. / Quem irá cuidar da vinha / que tão linda floresce? / E quem subirá comigo / os degraus do arco-íris?"

Finalmente chegamos à última página do livro como um marinheiro que não quer desembarcar. Afinal, de tanto navegarmos esse manancial poético de Giselda Medeiros, nos viciamos no sabor de sua linguagem. Seu texto revela sabores e saberes onde o leitor se refestela. Por isso ele conclui que essa ânfora não é feita exatamente de sol, mas vem repleta principalmente de sabedoria. Conclui também que essa autora tem crescido poeticamente de livro para livro. Que essa Ânfora não é apenas de sol mas principalmente carregada de signos poéticos de alta qualidade. Giselda é poeta.

*jbatista@unifor.br

sábado, 19 de abril de 2014

CRÍTICA LITERÁRIA: ÁGUAS DO TEMPO

UMA POESIA DESNUDA


A literatura cearense se enriquece com a chegada de mais uma voz a serviço da Poesia. Trata-se de Rejane Costa Barros, há muito militante no nosso mundo literário, agora, estreando em publicação solo.

Pertencente à Academia Feminina de Letras do Estado do Ceará, à Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – AJEB-CE, à União Brasileira de Trovadores – secção Fortaleza, à Ala Feminina da Casa de Juvenal Galeno, dentre outras, Rejane sempre serviu às hostes literárias, com sua contribuição valiosa, sua presença constante, seja participando de coletâneas, antologias, seja participando de concursos literários, arrebatando muitos deles, inscrevendo, assim, seu nome no mural de várias entidades culturais.

Agora, ela vem proporcionar-me a alegria de ler os originais de seu livro e prefaciá-lo. Atitudes como essa sempre nos deixam felizes, e, ao mesmo tempo, preocupadas. Feliz, porque, em concedendo-me esse privilégio, demonstra a grande confiança que deposita em mim, afora a amizade; preocupada, por temer que minhas palavras possam não atingir as suas expectativas e as dos seus leitores.

Mas, arrimada na Poesia, tendo-a como suporte, vou buscando, em sua voz, em sua melodia, em seu encantamento, encontrar na palavra de Rejane Costa Barros a arte de bem escrever, de saber cantar, com estilo e correção, com leveza e graça, o amor em sua subjetividade, a paixão na ambiguidade de suas metáforas, a dor na busca pela superação de seus elementos existencialistas.

É bem verdade que Rejane sabe que o poeta é um ser especial, sobrevivente mágico, conforme atestam as palavras de Rabindranath Tagore: “Quando a minha voz se calar com a morte, meu coração continuará te falando”. Isso porque o poeta reinventa-se a cada momento, a ele e ao mundo, uma vez que sabe trabalhar com o fio precioso do sonho, tecendo esperanças no coração do povo, num “ato que é desespero e apaziguamento. Ousadia e insegurança. Ansiedade e celebração”.  

Nesse seu livro, a poetisa dá testemunho de que traz tatuada em sua alma viageira a fonte de onde fluem constantemente as águas que a levam, em seu bergantim de sonho, ao reino da Poesia. É dessas águas que ela retorna grávida de versos com os quais vai cingir a cabeça do amado, que a espera com sua cítara para a grande festa das palavras.

“Águas do Tempo” é o título do livro, em que o sintagma “águas” confere à poetisa uma identificação existencial tal que quase todas as suas imagens criadoras passam a se fundar nesse elemento (águas), que, segundo Bachelard, “não é mais o vão destino de um sonho que não se acaba, mas um destino especial que metamorfoseia incessantemente a substância do ser”, e confere à obra o devaneio artístico que nos faz vislumbrar na autora a metaforização dos seus sentimentos, em versos como: “Tenho chaves no peito que deságuam minhas solidões” (Enigmas); “Mais que as palavras, darei a ti meu pranto” (Escritura do Corpo); “(...) assim nua / toda me esvaindo, líquida, / sem fronteiras / sem nenhum limite / como um rio que vai para o mar” (No Tempo das Diligências); “A vida me cobra viver o momento presente / e busco oceanos e afluentes, / rochedos, tempestades e contentamento”.

Por sua vez, o “tempo”, que acompanha as “águas” e que as faz moverem-se constantemente, num balé, algumas vezes vibrante, outras, impregnado de imagens e sensações de “espinhos cravados em nós”, é metaforizado pela autora como aquele “que nos define e nos arrasta em sua eterna errância”. Vejamos alguns versos do poema que dá título ao livro: “O tempo, esse mago sereno que se fixa num instante de emoção, / invade o mundo e vigia as sombras cruas’; “o tempo é cravo brotando em quintais /  dando cor ao abandono e fibras à fome”; “este velho guerreiro entremeia velhos hábitos / de imagens enganosas”; “O farto balanço das águas atrevidas de tuas praias / espia uma nudez e se abisma”).

Extremamente lírica, a autora vai imergindo dessas águas profundas, onde náufragos sussurram seu canto melancólico, e chega à tona, com seu alforje repleto de canções para o amado, num chamamento desesperado (“vem partilhar comigo, o último sonho / fazer em meu corpo a algazarra infantil / como o voo vespertino das andorinhas”; louca de paixão (“te dou meus abismos e a lã quente para te acolher. / Faremos uma festa é certo e haverá uma coroa de espumas, / uma abelha em voo para o amor, / uma semente a germinar”; com total entrega (“Dei-me a ti somente / e busco, afoita, este furor em brasa / uma leve astúcia me percorrendo a alma”); plena de dor (“assim, aponto ao horizonte mirando os pássaros / do meu destino, em curvas delineadas pela fragilidade / com que o amor nos dilacera a alma, sangrando / os musgos da nossa existência!”); tomada de saudade (“Tenho saudade das vezes em que te ofereci o mar, / a chuva, o sol, a tarde, o amor, / saudade do medo e da alegria, / do riso rasgado na hora maior”).

A “poética corporal”, expressão com que Octavio Paz se refere ao erotismo, também está visivelmente impregnada na escritura de Rejane Costa Barros. O forte apelo ao amado, injetado numa linguagem construída por imagens sensoriais, por metáforas arrojadas num jogo sinestésico, leva-nos a uma atmosfera, em que a multiplicidade de significações desperta na consciência do leitor um sopro de sensualidade, que lhe tange as cordas do coração.

Deliciemo-nos com a magia, o mistério, o encantamento e a linguagem altamente sensorial desses versos: “Quando amanhece e o sol rasga o céu em seu nascimento, / penso em ti, iluminado réu de meu sentimento, / preso, amado, solto, livre, voando entre meus braços” (Confidências); “Ele pousa em mim trazendo fermento e prazer / faz-me ardorosas promessas / e assim, entrego-me plena de suor / a recender vinho, puro das verdes uvas /que fervilham em mim, / tenho na última hora, o ventre molhado em chuva” (Entre Nós Dois); “Te pressinto o desejo, tuas escamas, / teus anseios marinhos; / te dou meus abismos e a lã quente para te acolher./ Faremos uma festa é certo e haverá uma coroa de espumas, / uma abelha em voo para o amor, / uma semente a germinar.” (Criação); “Desta espera, surgiu a fértil semente / madura fenda se derramando em verso, / um naufrágio sem origem e sem pressa / a forma imprecisa de um arco-íris.” (Inquietude); “O sexo numa órbita fragmentada / diz-me que a urgência é a primeira chama / dessa razão que o corpo pede e inflama / que a alma geme e se completa”.

Não poderia deixar de citar um verso, cujo significado exprime toda a carga de erotismo contida no livro: “sou apenas tua oficina de amor!”, cuja metáfora “oficina de amor” é elemento determinante na composição de um ambiente propício ao desenvolvimento da sensualidade, do fazer erótico.

Por fim, acrescentemos que Rejane Costa Barros encontra, ainda, espaço para tecer canções aos amigos, isso sem derramamento adjetivista, mas com propriedade, leveza, gratidão e poesia.

Assim é “Águas do Tempo”, um livro que, embora estreante, dá provas de que sua autora sabe utilizar o que aprendeu, ao longo do tempo, sobre disciplina literária, em benefício do aproveitamento da forma e do conteúdo de sua poesia.

Giselda Medeiros
Da Academia Cearense de Letras

       

Giselda Medeiros e Rejane Costa Barros