Mostrando postagens com marcador Reportagem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Reportagem. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

REABERTA A BIBLIOTECA DA ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS


BIBLIOTECA DA ACL SERÁ REABERTA HOJE
quarta-feira, 12 de novembro de 2014
Por Eduarda Talicy

A Biblioteca Justiniano de Serpa reabre hoje. Cerimônia de entrega do espaço, que passou por reforma, terá homenagens e mesas redondas
Após três meses de reforma, a Academia Cearense de Letras (ACL), com sede no Palácio da Luz, no Centro, abre novamente as portas da Biblioteca Justiniano de Serpa. Localizado no pavimento principal do edifício, o equipamento dispõe de 25 mil livros. A partir das 16 horas de hoje, uma cerimônia comemora a reabertura da biblioteca com a entrega de medalhas, lançamento da revista anual da associação e mesa-redonda para discutir o centenário dos escritores Moreira Campos e Antônio Girão Barroso. Participam dos debates a autora Ângela Gutierrez, diretora cultural do espaço; o acadêmico da ACL Linhares Filho; a professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) Neuma Cavalcante; o teatrólogo Oswald Barroso; e Carolina Campos, neta de Moreira Campos.
Com o fim das obras, a biblioteca, uma das principais do Estado, ganha climatização, sala para leitura, nova acomodação para acervo e um mezanino para acondicionar as publicações raras. Os trabalhos, orçados em R$ 240 mil, também incluíram revitalização da estrutura, com restauro do piso e conserto de infiltrações e rachaduras nas paredes.
 “É uma promessa que nós estamos cumprindo, resgatando esse local de consultas, de informações, de aprimoramento da nossa sociedade através da leitura”, afirma José Augusto Bezerra, presidente da ACL. Fundada em 1894, a instituição comemorou 120 anos de atividades. A entidade literária é a mais antiga do gênero no Brasil, antecedendo até mesmo a Academia Brasileira de Letras (ABL), criada somente três anos depois.
De acordo com Olímpio Rocha, engenheiro e coordenador do projeto de reforma, os trabalhos buscaram respeitar as características originais da edificação.

Encontros

Erguido com o auxílio de mão de obra indígena no século XIX, o Palácio da Luz comemora 200 anos de construção neste ano. É lá onde se reúnem 40 literatos cearenses em encontros que ocorrem sempre às 16 horas dos dias 10 de cada mês. Atualmente, o local abriga também reuniões de outras 14 entidades e agremiações. Entre elas, a Academia Cearense da Língua Portuguesa e a Sociedade Amigas do Livro.
Olímpio explica que todas as intervenções tiveram, por causa do tombamento do prédio, acompanhamento de técnicos da Secretaria da Cultura do Ceará (Secult). “A reforma é importante e dá mais qualidade para quem trabalha e estuda no local”, projeta.
O engenheiro ressalta ainda que, após a requalificação física da Justiniano de Serpa, é importante começar o processo de catalogação, digitalização e informatização do acervo.
Diretora-executiva da ACL há mais de 20 anos, Regina Fiúza também acredita que a reforma é um sonho que se realiza. “Nós sempre havíamos tentado, mas só agora a coisa se concretizou. Desta vez, entregaremos um equipamento de pesquisa e de leitura importantíssimo para a comunidade que é tão carente desse tipo de espaço”, festeja.
O projeto de restauração e requalificação da biblioteca da Academia Cearense de Letras contou com apoio cultural do Oi Futuro, instituto de responsabilidade social da Oi; da Fundação Beto Studart; e da Secult.

SERVIÇO

Academia Cearense de Letras
Onde: Rua do Rosário, 1, Centro (próximo à Praça dos Leões).
Funcionamento: segunda a sexta-feira, das 8 às 16 horas.
Telefone: 3253 4275.

SAIBA MAIS

O Palácio da Luz, que sedia a Academia Cearense de Letras, também receberá obras de restauração.
No último dia 4, o presidente da instituição, José Augusto Bezerra, firmou convênio com o Banco do Nordeste (BNB) que garante financiamento no valor de R$ 500 mil.
A empresa responsável pelo restauro será escolhida por meio de licitação. Os trabalhos podem seguir até junho de 2015, quando se encerra o cronograma do financiamento.
Em matéria publicada pelo O POVO, no dia 5 deste mês, José Augusto Bezerra afirmou que, com a reforma, a ACL deverá promover atividades culturais permanentes no espaço.


Fonte: O Povo, de 12/11/2014. Caderno Vida & Arte, p.4.

domingo, 8 de junho de 2014

Lêda Maria, em sua festejada Coluna, do Jornal O Povo do dia 22 de março de 2014, assim, registrou a festa de LANÇAMENTO de "A Silhueta das Areias", do Médico e poeta JOSÉ TELLES, ocorrido em grande Estilo no dia13 deste mês :

"A Noite de LANÇAMENTO DO LIVRO do Médico e poeta José Telles, A Silhueta das Areias, coletou as mais Belas Palavras de Juarez Leitão, apresentando autor e obra e as Emoções de Telles, cercado no Ideal Clube da Família e dos Fiéis amigos. Ali , também "uma Cidade abraçava uma enseada grávida de aconchego." Afeto e Admiração entregues a quem FAZ da VIDA uma Busca permanente do Amor ". 




PARABÉNS, TELLES!


terça-feira, 29 de outubro de 2013

LIVROS & LIVROS

Agradecemos aos autores o envio de seus maravilhosos livros.



"(...) o poeta Pereira de Albuquerque encontra, em todos os detalhes da vida, sobejos motivos para, deles, extrair poesia. Nada lhe escapa à observação: o amor, a crítica social, a felicidade,  a educação, o (des)governo, a religião, a paz, o futebol,os falsos profetas, e tudo o mais.
Afirmar essas verdades é para ele apenas a maneira que escolheu para nos brindar com as suas redondilhas - os notáveis heptassílabos onde dá largas à sua aguçada percepção do mundo, enxergando, inclusive, o que outros não veem.
(...) Tem razão Dimas Macedo, poeta e crítico literário, quando o reputa um dos nossos melhores escritores".
(Vicente Alencar)



 "(...) Arquiteto a Posteriori reúne textos acerca de obras cuidadosamente eleitas sob o rigor da qualidade, nos quais descreve olhar e sentimento, exercendo atitude crítica pura, incólume às práticas menores dos achaques, dos desnegrimentos gratuitos e das desmerecidas lisonjas.
Assenhoreia-se, ao traçar os conceitos e considerações, da admirável benquerença que lhe merecem os amigos e os bons textos, mas não se afasta da atitude severa dedicada à análise erudita, que modestamente chama de comentário".
(Geraldo Jesuíno da Costa)




"(...) Verdade: pelas janelas invisíveis do ÚLTIMO TREM PARA PASÁRGADA, Eduardo Fontes estira, ao longe, um olhar bifronte: é o poeta obcecado pelo simples, verdadeiro e distraído pelo Belo. E o leitor vai-se enriquecendo de Poesia, de emoção e de mistério, de conhecimento e de ideias. Diga-se frutífera a mistura de imaterial e material, de emoção e razão.
Embarque, leitor, nesse último trem: você vai em companhia de 'um poeta constantemente emocionado diante da vida e dos mistérios da morte'."
(Dias da Silva)




"(...) Talentoso e culto, desliza ao sabor de diferentes estilos literários, com muita propriedade, da mesma forma como atua dentro da área médica. E agora nos traz "Isso é coisa do Pessoa - em Prosa e Verso" para nos deleitar com suas rimas inteligentes em trovas líricas ou satíricas e com a prosa gostosa, de mesa de boteco, ao som dos copos e grugrulejo das cervejas, onde somos capazes de passar horas e horas batendo papo e gargalhando sem nos lembrarmos de que existem colesterol, inflação, dieta, imposto de renda..."
(Celina Côrte Pinheiro)



"(...) Aqui, estamos diante de um compêndio de sabedoria. São poemas sob os mais variados temas. E não pense o leitor que vai encontrar versos rebuscados, herméticos. Não! São versos simples, rolados da grande correnteza da vida.
(...) Os conceitos morais, religiosos, são trabalhados pela Autora com a mesma simplicidade e leveza, por meio  de sua aguçada visão interior, a nos chamar para as suas verdades.
(...) Quem conhece Terezinha Bedê sabe de sua riqueza espiritual, de sua dignificante postura diante dos fatos imutáveis da vida. Dentro de sua visão humanizada, ela sabe (e comunga com o pensamento de Aristóteles) que a existência é uma dádiva concedida pela natureza, mas uma vida bela somente a sabedoria nos pode proporcionar."
(Giselda Medeiros)




"(...) Li a História desses povos, dessas gentes. Mas li também Camões, a Bíblia, Alencar, Machado, cordel, Moreira Campos. E me pus a escrever também. Mais para relembrar aquele povo e seus descendentes. Para recriá-los. Ou mesmo criá-los, porque talvez nada exista. O que existe é obra de arte, que é ficção. Nada é real. Quanto mais antigo mais irreal."
(Nilto Maciel)

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Luiz Felipe Pondé - Revista Literatura



Literatura como cura

Hoje quero falar de dois sintomas que marcam nossa época. O primeiro sintoma é a falação ruidosa de nosso mundo; o segundo é a ideia de que o mundo sofre porque não nos amamos e que tudo se resolveria se nos abraçássemos e parássemos de sermos gananciosos.
Fala-se demais hoje. Todos têm opinião. Até jovens de 20 anos são chamados a dar opinião sobre o mundo e a sociedade, quando mal sabem arrumar o quarto. E quando se elegem crianças de 25 anos como arautos da sociedade (adulto que faz isso, o faz, normalmente, para ter discípulos fiéis e fanáticos, ou porque é bobo mesmo), o resultado é que acaba se pensando que o mundo começou, como diz um amigo meu muito esquisito, em "Woodstock".
Quando se pensa isso, acaba-se imaginando que o problema do mundo é mesmo aprendermos que "all you need is love"... Infelizmente, a humanidade é mais complicada do que pensa nossa vã inteligência woodstockiana. Contra essa visão infantil da realidade (este é o segundo sintoma do qual falei acima), proponho a leitura da obra do grande crítico norte-americano Edmund Wilson. Vou a ele já; antes, quero voltar ao problema do ruído mais especificamente (o primeiro sintoma do qual falei acima).
Somos um grande mundo ridículo e falastrão. Decorrente dessa falação, um ruído infernal toma conta do dia a dia. O silêncio, às vezes, é um dos maiores indicativos de maturidade, não só de uma pessoa, mas de uma civilização.
Estou falando isso por conta de um breve ensaio que caiu na minha mão esses dias, parte integrante do volume "Best American Essays 2013", editado por Cheryl Strayed.
O ensaio ao qual me refiro foi escrito pela prêmio Nobel Alice Munro e chama-se "Night". Nele, a autora conta a operação que fez quando criança para tirar o apêndice e uma "coisa do tamanho de um ovo de peru". Munro compara o comportamento atual diante de casos como o dela e o comportamento de seus pais na época. A conclusão é que hoje se falaria como o diabo do risco que ela corria na época. Mas, ao contrário, pouco se falou do assunto, "respeitando o medo" sem falação. Conta Munro que, nessa época, ela dormia num beliche com sua irmã mais nova (moravam numa espécie de granja), e que numa noite olhou para a irmã e pensou em sufocá-la.
A partir daí, não conseguia mais dormir, pensando no ímpeto que tivera de matar sua irmã. Numa das manhãs seguintes a suas noites de insônia, encontrou com seu pai, todo vestido chique, saindo de casa de manhã muito cedo. Contou para ele o que pensara e o horror que sentira.
Seu pai simplesmente lhe disse que esquecesse aquilo e que essas coisas passam. Depois, adulta, lembra como o modo simples de falar do pai a acalmou profundamente. A pequena Alice nunca mais teve insônia.

Na sequência, a prêmio Nobel comenta que nunca perguntara ao pai para onde ele ia tão cedo e tão elegante. Perguntou-se se ele ia ao banco renegociar a dívida da família ou ver a mulher que amava, mas com quem não podia ficar porque amava sua família... Silêncio. Nem uma linha de rancor. Hoje, escreveriam uma tese sobre como seu pai poderia ter sido um homem desatento ou, quem sabe, infiel. Ao lembrar do seu pai no momento do reconhecimento em que recebera o prêmio, Munro pensa em como ele teria ficado orgulhoso de sua pequena filha insone.
Nessas horas, tenho saudade do passado e lamento como nos transformamos em adolescentes barulhentos que se levam demasiadamente a sério.
O segundo autor que quero comentar é Edmund Wilson, um dos últimos críticos literários, segundo Paulo Francis, a enfrentar a literatura sem se esconder atrás de grandes teorias abstratas (que se querem "concretas").
No volume editado por Francis pela Companhia das Letras em 1991, "Onze Ensaio - Literatura, Política, História", esgotado, aparece sua "visão de mundo": a história é um longo processo através do qual as civilizações se devoram, criando e destruindo, em círculos, indo para lugar nenhum. Concordo.
Pura coragem intelectual, que tanto faz falta hoje, nesta época de líderes adolescentes que creem em Woodstock como modelo de sociedade.

Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, "Contra um mundo melhor" (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".


Artigo publicado  Folha de S.Paulo

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA 2013


A canadense Alice Munro venceu nesta quinta-feira (10) o Prêmio Nobel de Literatura 2013, informou a Academia Sueca, que a classificou como "mestre do relato curto contemporâneo". Munro, destacou a Academia em sua decisão, é consagrada por seu "harmonioso estilo de relatar, que se caracteriza por sua clareza e realismo psicológico".
Considerada por alguns críticos como "a Tchecov canadense", a escritora, nascida em 1931 em Wingham, na província de Ontário, é conhecida por suas histórias breves e publicou várias coleções ao longo dos últimos anos.
Munro, que chegou a estudar jornalismo e inglês, abandonou a universidade ao se casar. A escritora escreveu suas primeiras histórias na adolescência, mas publicou sua primeira obra, Dance of the Happy Shades (Dança das Sombras Felizes, em tradução livre), em 1968. No Brasil, a Companhia da Letras publicou seus livros Amor de uma boa mulher, Felicidade demais e Fugitiva, e a Editora Globo lançou Ódio, amizade, namoro, amor, casamento.
Suas obras costumam ter como cenário pequenas cidades onde a luta por condições de vida aceitáveis provoca em algumas ocasiões conflitos morais. O valor do prêmio é de milhões de coroas suecas (R$ 2,8 milhões) e o vencedor do ano passado foi o chinês Mo Yann.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

OS 10 MAIORES POEMAS BRASILEIROS DE TODOS OS TEMPOS - REVISTA BULA





Pedimos a 50 convidados — escritores, críticos, professores, jornalistas — que escolhessem os poemas mais significativos de autores brasileiros em todos os tempos. Cada participante poderia indicar entre um e dez poemas. Nenhum autor poderia ser citado mais de uma vez. 40 poemas foram indicados, mas, destes, apenas 24 tiveram mais de três citações. São eles: “A Máquina do Mundo”, “Procura da Poesia”, “Áporo” e “Flor e a Náusea”, de Carlos Drummond de Andrade; “O Cão Sem Plumas”, “Tecendo a Manhã” e “Uma Faca Só Lâmina”, de João Cabral de Melo Neto; “Invenção de Orfeu”, de Jorge de Lima; “O Inferno de Wall Street”, de Sousândrade; “Marília de Dirceu”, de Tomás Antônio Gonzaga; “Cobra Norato”, de Raul Bopp; “O Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles; “Vozes d’África”, de Castro Alves; “Vou-me Embora pra Pasárgada” e “O Cacto”, de Manuel Bandeira; “Poema Sujo” e “Uma Fotografia Aérea”, de Ferreira Gullar; “Via Láctea” e “De Volta do Baile”, de Olavo Bilac; “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias; “As Cismas do Destino” e “Versos Íntimos”, de Augusto dos Anjos; “As Pombas”, de Raimundo Correia; “Soneto da Fi­delidade”, de Vinícius de Moraes. Eis a lista baseada no número de citações. Por motivo de direitos autorais, alguns poemas tiveram apenas trechos publicados.

A Máquina do Mundo
(Carlos Drummond de Andrade)
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas.
(Trecho de A Máquina do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade).

Vou-me Embora pra Pasárgada
(Manuel Bandeira)
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Poema Sujo
(Ferreira Gullar)
turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro
menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma?
claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica
e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha
que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor
e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo
(não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
(Trecho de Poema Sujo, de Ferreira Gullar).

Soneto da Fidelidade
(Vinícius de Moraes)
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Via Láctea
(Olavo Bilac)
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

O Cão Sem Plumas
(João Cabral de Melo Neto)
A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.
O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.
Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.
Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.
Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Canção do Exílio
(Gonçalves Dias)
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

As Cismas do Destino
(Augusto dos Anjos)
Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!
Na austera abóbada alta o fósforo alvo
Das estrelas luzia… O calçamento
Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento,
Copiava a polidez de um crânio calvo.
Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!
A noite fecundava o ovo dos vícios
Animais. Do carvão da treva imensa
Caía um ar danado de doença
Sobre a cara geral dos edifícios!
Tal uma horda feroz de cães famintos,
Atravessando uma estação deserta,
Uivava dentro do eu, com a boca aberta,
A matilha espantada dos instintos!
Era como se, na alma da cidade,
Profundamente lúbrica e revolta,
Mostrando as carnes, uma besta solta
Soltasse o berro da animalidade.
E aprofundando o raciocínio obscuro,
Eu vi, então, à luz de áureos reflexos,
O trabalho genésico dos sexos,
Fazendo à noite os homens do Futuro.
(Trecho de As Cismas do Destino, de Augusto dos Anjos).

As Pombas
(Raimundo Correia)
Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada.
Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.

Invenção de Orfeu
(Jorge de Lima)
1.
Um barão assinalado
sem brasão, sem gume e fama
cumpre apenas o seu fado:
amar, louvar sua dama,
dia e noite navegar,
que é de aquém e de além-mar
a ilha que busca e amor que ama.
Nobre apenas de memórias,
vai lembrando de seus dias,
dias que são as histórias,
histórias que são porfias
de passados e futuros,
naufrágios e outros apuros,
descobertas e alegrias.
Alegrias descobertas
ou mesmo achadas, lá vão
a todas as naus alertas
de vaia mastreação,
mastros que apoiam caminhos
a países de outros vinhos.
Está é a ébria embarcação.
Barão ébrio, mas barão,
de manchas condecorado;
entre o mar, o céu e o chão
fala sem ser escutado
a peixes, homens e aves,
bocas e bicos, com chaves,
e ele sem chaves na mão.
2.
A ilha ninguém achou
porque todos o sabíamos.
Mesmo nos olhos havia
uma clara geografia.
Mesmo nesse fim de mar
qualquer ilha se encontrava,
mesmo sem mar e sem fim,
mesmo sem terra e sem mim.
Mesmo sem naus e sem rumos,
mesmo sem vagas e areias,
há sempre um copo de mar
para um homem navegar.
Nem achada e nem não vista
nem descrita nem viagem,
há aventuras de partidas
porém nunca acontecidas.
Chegados nunca chegamos
eu e a ilha movediça.
Móvel terra, céu incerto,
mundo jamais descoberto.
Indícios de canibais,
sinais de céu e sargaços,
aqui um mundo escondido
geme num búzio perdido.
Rosa-de-ventos na testa,
maré rasa, aljofre, pérolas,
domingos de pascoelas.
E esse veleiro sem velas!
Afinal: ilha de praias.
Quereis outros achamentos
além dessas ventanias
tão tristes, tão alegrias?
(Trecho de Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima).

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Obra de Clarice Lispector é finalista do Prêmio de Melhor Livro Traduzido nos EUA 11/04/2013


A primeira tradução para o inglês de Um Sopro de Vida (A Breath of Life), o último romance de Clarice Lispector, por Johnny Lorenz, é finalista do Prêmio de Melhor Livro Traduzido nos Estados Unidos, na categoria Ficção. O anúncio dos dez finalistas, escolhidos entre os 25 nomeados, foi feito hoje (10) pelo centro de investigação literária que criou a premiação, o Three Percent, da Universidade de Rochester, no estado norte-americano de Nova Iorque.
FANPAGE_CLARICE_2
O Prêmio de Melhor Livro Traduzido nos Estados Unidos é atribuído anualmente ao melhor livro traduzido para o inglês, publicado no mercado norte-americano, considerando a qualidade da obra e da tradução. Segundo a organização, a premiação é “uma oportunidade para honrar e distinguir tradutores, editores e outros agentes literários que ajudam a disponibilizar a literatura de outras culturas aos leitores americanos”.
A cerimônia de entrega dos prêmios ocorrerá em Nova Iorque no dia 4 de junho. O autor e o tradutor das obras premiadas nas categorias de Ficção e Poesia receberão um prêmio de US$ 5 mil dólares (cerca de 3.800 euros) cada, atribuído pela Amazon.
Clarice Lispector decidiu ser escritora em 1933, aos 13 anos. Em 1942, publicou sua primeira obra, Perto do Coração Selvagem. Ela escreveu 36 livros, entre os quais A Paixão Segundo G.H, A Vida Íntima de Laura, A Mulher que Matou os Peixes, Laços de Família e A Maçã no Escuro.
Um Sopro de Vida, o último romance de Clarice Lispector, foi editado nos Estados Unidos em 2012 pela New Directions. A escritora brasileira morreu em 1977 aos 57 anos.
(Da Agência Brasil)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Clarice Vianna Silva, 26, estudante da Faculdade de Direito da UFRJ, Premiada em Concurso pela UNESCO,


SERÁ QUE A GLOBO VAI FAZER UMA ENTREVISTA COM ESSA ESTUDANTE? SERÁ QUE A NOSSA PRESIDENTE VAI LHE DAR ALGUMA CONDECORAÇÃO? ELA IRÁ GANHAR BOLSA DE ESTUDOS? VAMOS VER...

REDAÇÃO DE ESTUDANTE CARIOCA VENCE CONCURSO DA UNESCO COM 50.000 PARTICIPANTES
Tema:'Como vencer a pobreza e a desigualdade'
Por Clarice Zeitel Vianna Silva
UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - RJ

'PÁTRIA MADRASTA VIL'

Onde já se viu tanto excesso de falta?
Abundância de inexistência...
Exagero de escassez...
Contraditórios?
Então aí está!
O novo nome do nosso país!
Não pode haver sinônimo melhor para BRASIL.
Porque o Brasil nada mais é do que o excesso de falta de caráter, a abundância de inexistência de solidariedade, o exagero de escassez de responsabilidade.
O Brasil nada mais é do que uma combinação mal engendrada - e friamente sistematizada - de contradições.
Há quem diga que 'dos filhos deste solo és mãe gentil', mas eu digo que não é gentil e, muito menos, mãe.
Pela definição que eu conheço de MÃE, o Brasil, está mais para madrasta vil.
A minha mãe não 'tapa o sol com a peneira.'
Não me daria, por exemplo, um lugar na universidade sem ter-me dado uma bela formação básica.
E mesmo há 200 anos atrás não me aboliria da escravidão se soubesse que me restaria a liberdade apenas para morrer de fome. Porque a minha mãe não iria querer me enganar, iludir.
Ela me daria um verdadeiro Pacote que fosse efetivo na resolução do problema, e que contivesse educação + liberdade + igualdade. Ela sabe que de nada me adianta ter educação pela metade, ou tê-la aprisionada pela falta de oportunidade, pela falta de escolha, acorrentada pela minha voz-nada-ativa.
A minha mãe sabe que eu só vou crescer se a minha educação gerar liberdade e esta, por fim, igualdade.
Uma segue a outra...
Sem nenhuma contradição!
É disso que o Brasil precisa: mudanças estruturais, revolucionárias, que quebrem esse sistema-esquema social montado; mudanças que não sejam hipócritas, mudanças que transformem!
A mudança que nada muda é só mais uma contradição.
Os governantes (às vezes) dão uns peixinhos, mas não ensinam a pescar.
E a educação libertadora entra aí.
O povo está tão paralisado pela ignorância que não sabe a que tem direito.
Não aprendeu o que é ser cidadão.
Porém, ainda nos falta um fator fundamental para o alcance da igualdade: nossa participação efetiva; as mudanças dentro do corpo burocrático do Estado não modificam a estrutura.
As classes média e alta - tão confortavelmente situadas na pirâmide social - terão que fazer mais do que reclamar (o que só serve mesmo para aliviar nossa culpa)...
Mas estão elas preparadas para isso?
Eu acredito profundamente que só uma revolução estrutural, feita de dentro pra fora e que não exclua nada nem ninguém de seus efeitos, possa acabar com a pobreza e desigualdade no Brasil.
Afinal, de que serve um governo que não administra?
De que serve uma mãe que não afaga?
E, finalmente, de que serve um Homem que não se posiciona?
Talvez o sentido de nossa própria existência esteja ligado, justamente, a um posicionamento perante o mundo como um todo. Sem egoísmo.
Cada um por todos.
Algumas perguntas, quando auto-indagadas, se tornam elucidativas.
Pergunte-se: quero ser pobre no Brasil?
Filho de uma mãe gentil ou de uma madrasta vil?
Ser tratado como cidadão ou excluído?
Como gente... Ou como bicho?

Clarice Zeitel Vianna Silva, 26, estudante que termina Faculdade de Direito da UFRJ em julho, concorreu com outros 50 mil estudantes universitários. Ela acaba de voltar de Paris, onde recebeu um prêmio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) por uma redação sobre 'Como vencer a pobreza e a desigualdade.' A redação de Clarice intitulada 'Pátria Madrasta Vil' foi incluída num livro, com outros cem textos selecionados no concurso. A publicação está disponível no site da Biblioteca Virtual da UNESCO.