terça-feira, 9 de outubro de 2012
domingo, 7 de outubro de 2012
CECÍLIA MEIRELES
A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.
***
(Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366)
Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.
Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.
Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.
Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.
***
(Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366)
terça-feira, 2 de outubro de 2012
RELÍQUIAS - Giselda Medeiros
Trago junto a mim
o doce lamento
do vento
nas palmas da minha infância.
E o som lúgubre
das cantigas silenciosas
das baladas
junto às rosas.
Trago um mafuá
de sonhos. Mais nada...
e nestes teu nome
a despertar-me em auroras.
o doce lamento
do vento
nas palmas da minha infância.
E o som lúgubre
das cantigas silenciosas
das baladas
junto às rosas.
Trago um mafuá
de sonhos. Mais nada...
e nestes teu nome
a despertar-me em auroras.
domingo, 23 de setembro de 2012
MOTIVOS - GISELDA MEDEIROS
E esta solidão de lajes
a velar o sono
do sonho
adormecido em mim,
terra e mar,
metáfora alucinada,
mastigando o silêncio das estrelas!...
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
GISELDA MEDEIROS
É TEMPO DE SEMEAR
Não te pedirei mais nada.
Se
já me amas
e
cantas comigo
a
doce canção da Poesia
já
me basta.
É
tempo de semear.
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
terça-feira, 11 de setembro de 2012
MUITO TARDE - REGINE LIMAVERDE
MUITO TARDE
Uma tarde e outra tarde.
Muitas tardes vão passando.
Que não tardes ao meu lado,
pois é tarde e vou findando.
É tão tarde e não chegaste
e na tarde vou ficando.
Muitas tardes vão correndo,
já é tarde, estás tardando.
Outras tardes hão de vir.
Oh! Não tardes meu amor.
Já é noite entardecendo.
Como arde a minha dor!
(do livro: Eternas Lanternas do Tempo).
domingo, 9 de setembro de 2012
MAR INTERIOR - GISELDA MEDEIROS
(para Maria Luísa Bomfim)
Mar bravo. Ondas batendo revoltosas
em loucas e
alternantes vindas e idas,
ora a gemer, ora a
chorar, feridas,
sob o látego das
águas furiosas.
O sol lança seus
raios... surgem rosas,
cristais de luz
sobre águas indormidas,
as quais se vão, das
águas refletidas,
alçar-se aos céus em
pétalas olosas.
Ante a grandeza augusta
da paisagem,
cala-me a pequenez –
ai... nada sou
além de triste e
efêmera miragem!
Mas, ao pulsar-me o
peito, diz-me o ar:
– Dentro de ti se move tanto amor
que no teu peito, também, bate um mar!
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
O BRASIL- Renato Sêneca Fleury
— Por que é todo cor de anil?
Ele me disse, sorrindo:
— Eu sou o céu do Brasil!
Perguntei ao Sol, então,
A causa de tanta luz.
— Sou a glorificação
Da Terra de Santa Cruz!
Depois perguntei à Lua:
— Por que noites de luar?
— É para enfeitar a tua
Grande Pátria à beira-mar.
Perguntei às claras fontes:
— Por que correis sem cessar?
— Nós brotamos destes montes
Para a terra fecundar!
Então eu disse à floresta:
— És tão bela, verde inteira!
Ela respondeu em festa:
— Sou a mata brasileira!
Perguntei depois às aves:
— Por que estais a cantar?
— Cantamos canções suaves
Para tua Pátria saudar.
Céu e sol, luar e cantos,
Florestas e fontes mil
Enchem de eternos encantos
És minha Pátria, — o Brasil!
Renato Sêneca de Sá Fleury ( SP
1895- SP 1980) Pseudônimo: R. S. Fleury, ensaísta, pedagogo, escritor de
Literatura Infantil, professor, professor catedrático de Pedagogia e
Psicologia, jornalista, membro da Academia de Ciências e Letras de São Paulo,
membro fundador do Centro Sorocabano de Letras.
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
UM POEMA DE GISELDA MEDEIROS NA NOITE DA LUA AZUL
INDECIFRÁVEL
(para Rejane Costa Barros)
Será o meu amado um verde gesto,
inaudível palavra, não expressa,um vento brincalhão entre os palmares
ou indormida pétala de rosa?
indiferente às ânsias, às esperas
e ao mormaço da tarde a declinar?
Será o meu amado aflita gota
do espelho d’água que reflete o
céucom seu cortejo de anjos e de nuvens?
Não! O meu amado é alvo
pensamento
a correr sobre as dunas da
poesia,trazendo-me as areias do lirismo.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
sábado, 18 de agosto de 2012
CECÍLIA MEIRELES
Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade
que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase
seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde e, em silêncio, ia atirando com
a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de
aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas,
para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu
coração ficava completamente feliz. Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que
vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os
olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refelectidas
no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Às vezes um galo canta. Às vezes um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar,
cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz. Mas, quando falo
dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem
que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas,
e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
sábado, 4 de agosto de 2012
DE OLHOS ENTREABERTOS
ENSAIO
A poética de Aíla Sampaio
A vida nunca se faz
plena como se um passe de mágica estivesse por trás das aparências
A eternidade não depende do tempo, mas do desejo com que
buscamos possuir a plenitude das coisas. Existir não é o mesmo que viver, assim
como escrever é possuir o indizível da língua, e, assim, traduzir também o seu
mistério, em face da sua transcendência. De Olhos Entreabertos, os escritores
costumam conversar com as estrelas, representar o brilho dos cristais e acolher
em seu texto a solidão dos que vegetam enquanto o cosmos agoniza. Leia-se o
poema "Tela":
(Texto I) O ato da criação literária é o mais atomizado de
todos os processos de representação da arte; é o mais denso e o mais sagrado de
todos os prazeres do corpo, e é a forma mais sólida de representação do mundo
perante os apelos da história. A pós-modernidade compreende o oblívio de Deus
substituído pela ilusão do Capital, como se a mercadoria fosse capaz de intuir
o sentido supremo do sagrado; como se a estética do gosto fosse superior à
estética da arte, como se o sagrado fosse assim, capaz de sucumbir diante da
sedução do efêmero.
A arte da palavra
As marcas e as grifes são apenas miçangas ou enfeites de uma
civilização em ruína, esmagada pelo consumo e pela tentação do capital e das
suas formas miseráveis de alienação e acumulação. Vejam-se, então, os versos de
"Desvarios de maio":
(Texto II)
Assim sendo, urge que a arte, a arte mais sutil e prazerosa,
a arte mais pura e a mais sofisticada assumam o seu lugar no discurso do caos,
para que a linguagem poética e a sua liturgia possam reconquistar o espaço
soberano do texto. A representação da poesia nunca perdeu o seu lugar na
história. Na era em que o homem mais decididamente mergulhou na guerra, em nome
da ilusão do mito, Ulisses ressurgiu como o herói de todas as idades; e quando
o céu e o inferno se fundiram na idade escura da magia, Dante segurou a mão de
Virgílio e nos devolveram, por fim, a claridade, o sentido poético da alegoria
e a escansão do verso refletido. Os tempos de enfrentamento da linguagem agora
são outros, mas a poesia está sutilmente em toda parte. Poetas existem no mundo
de todas as maneiras, e poetas ruins é o que não falta em todos os quadrantes
do globo. O Ceará é uma terra povoada de muitos escritores e de Academias que
não valem o preço com que foram feitos os seus estatutos, mas é também uma
terra de veras escritoras, da estirpe de Ana Miranda, Marly Vasconcelos,
Natércia Campos, Inez Figueredo, Giselda Medeiros e Tércia Montenegro, dentre
outras.
A essa elite de escritoras de talento pertence o nome de
Aíla Sampaio, que conheci ainda por ocasião da sua estreia, e cuja evolução
venho acompanhando com respeito e curiosidade, porque profícua a sua produção,
porque profundos os seus conhecimentos, porque sincero e visceral o seu
compromisso com a palavra ritmada e com a palavra fundadora do belo. Como, por
exemplo, nos versos de "Silêncio antigo": (Texto III)
Depois de chamar a atenção do público, com a sua tese de
mestrado sobre os mistérios de Lygia, e de esquadrinhar as vozes da sua
escritura sutil e polifônica, Aíla entrega-se agora à sedução da poesia,
abrindo o seu baú de desejos e expondo totalmente aos ventos a vertigem fatal
da sua poética fulgurante. E, por entre curvas e desvios, Aíla Sampaio vai
construindo a sua arte, tecendo as suas teias, e mergulhando na sua solidão
compartilhada, entretendo os seus leitores com a força aliciante da palavra e
da sua beleza metafórica.
Das temáticas
A poesia de Aíla Sampaio, nesse seu livro, de título
sugestivo, faz-se a um só tempo verbo e escansão, solidão e reticência, e
purgação da morte em face da libido do tempo.
O amor, a comunhão a dois e a busca incessante de Eros, para
aplacar os desafios da vida e os sentidos cambiantes do corpo, se entrelaçam,
nesse livro novo de Aíla Sampaio, como se fossem os seus esteios de maior
destaque. Leiam-se os versos do poema "De outro tempo": (Texto IV)
Eis, portanto, De Olhos Entreabertos (Fortaleza, Editora
Sponti, 2012), um livro cuja linguagem nos seduz, um livro que dignifica a sua
autora e que não desmerece a ensaísta. E que faz da sintaxe do desejo (e também
do verso refletido) o espaço poético da arte literária.
O QUE ELES PENSAM
"Na poesia de Aíla Sampaio, uma das marcas mais
expressivas reside no cultivo de metáforas entrelaçadas a impressões
sensoriais".
CARLOS AUGUSTO VIANA
Escritor
"Nesse livro, o tema do amor, explorado sob múltiplos
ângulos, abre caminho para a reflexão sobre a própria fragilidade do ser
humano".
JOSÉ TELLES
Poeta
Trechos
TEXTO I
O tempo costura a vida com pontos de cruz, / fazendo
desenhos multicores no véu dos dias. / Na tela em que meu destino foi bordado,
/ não há manchas de dedos / nem frouxos alinhavos / desfazendo a harmonia. /
Nasci, certamente, das bordadeiras de sonhos / que tecem lenços azuis todas as
manhãs / para que a realidade, com seu duro fardo, / não pesponte escuridão
onde o traço é de luz.
TEXTO II
Desse olhar esgarçado sobre o poente, / dessa lamúria que é
o vento antes da chuva, / fiz a tarde com seus desvarios de maio. /// Não fosse
hoje um domingo qualquer / eu teria motivos para não ler nada / e veria TV,
bandeira branca a meio-palmo / e mansidão para seguir as procissões de Maria. /
Mas não é assim o meu desenho / tão fácil de distinguir as cores e as linhas /
rascunhadas. /// Surpreendem-me vontades de sesta, / sono profundo ao meio-dia / e saudades que não posso
mais matar. / Tanta abstinência, tantas orações / e o coração não sara... /
continua a sangrar ao menor esforço / e a me matar aos poucos todos os dias.
TEXTO III
Há sempre uma casa / com seu silêncio antigo / e seus
conhecidos fantasmas / a nos habitar. / Há sempre a memória / de um amor
interdito, / a dar a ilusão / de que a felicidade está / apenas / no que
poderia ter sido. /// O tempo vivido desliza, / guardando abismos que / devoram
a carne do tempo. / O que nos pertence / é apenas o presente / e a certeza de
que eterno / é somente o que não se realiza.
TEXTO IV
Essa casa desabitada / perdida no abandono dos ventos / (que
sopram sem direção) / é o corpo que veste a minha alma. / Suas portas batem /
atrás de um adeus sem data, / cavando feridas nas paredes retintas, / guardando
ferrugem nas trancas / e escoriações nos portais. /// Há hera nas vigas e nos
muros, / fechando porteiras, lacrando janelas / até sempre ou nunca mais. ///
No jardim, presente e passado / perdem-se soterrados / pelo musgo que cresceu.
/// Dentro de mim, acordado, / geme um silêncio de muitas eras / e grita a
lembrança de um tempo / que não é o meu.
DIMAS MACEDO
COLABORADOR*
*Da Academia Cearense de Letras
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
quinta-feira, 26 de julho de 2012
ÚLTIMA ENTREVISTA DE CASTRO ALVES
Quem é o poeta Castro Alves?
Sou um homem que escreve e
declama seus poemas. Por amor, por compulsão e por herança. Um poeta brasileiro
nascido em 14 de
março de 18 47 lá na fazenda Cabaceiras, sete léguas distante de
Curralinho. Um baiano do sertão. Meus pais foram o doutor Antônio José Alves e
dona Clélia Brasília da Silva Castro, que também nasceu em um 14 de março.
A família mudou para Salvador
quando eu tinha sete anos de idade. Aqui completei o curso primário e fiz o
ginasial. Aos 15, em 1862, eu e meu irmão José Antônio fomos morar no Recife
para fazer o Curso Anexo, um ano de aulas preparatórias que habilitavam às
provas da Faculdade de Direito, onde fiz o 1º e o 2º ano. Lá, ainda em 62, pela
primeira vez tive um poema publicado pela imprensa, “A destruição de
Jerusalém”, no Jornal do Recife. No ano seguinte saiu no nº 1 de um jornal
acadêmico, chamado A Primavera, o meu primeiro poema contra a escravidão: “A
canção do africano”. Em 68, fui para São Paulo continuar meus estudos
jurídicos. Completei apenas o 3º ano, sem bacharelar-me por conta de problemas
relacionados à saúde.
Mas as publicações se
sucederam, tanto no Recife como em Salvador, no Rio de Janeiro e São Paulo;
muita vez em seqüência às declamações que eu fazia nas ruas, nos saraus e nos
teatros, sempre com grande sucesso, diga-se de passagem. Alguns desses versos,
junto com muitos inéditos, hoje fazem parte do meu livro Espumas flutuantes,
primeiro e único até agora, e que foi lançado em outubro do ano passado, aqui
mesmo na Bahia, para onde voltei no final de 69.
Fale um pouco mais sobre sua família e a infância em
Salvador.
Éramos muitos irmãos: José
Antônio, Zezinho, o primogênito, poeta que se suicidou aos 19 anos; eu, Antônio
Frederico de Castro Alves, era chamado de Cecéu pelos de casa e pelos amigos;
João, que faleceu recém-nascido; Guilherme, o quarto, também poeta; aí vem a
primeira mulher, Elisa; depois Adelaide, a Sinhá, minha preferida, mas que
ninguém nos ouça; e Amélia, uma bela poetisa. Bem mais tarde, Cassianinho,
nascido das segundas núpcias de meu pai.
Papai foi um médico famoso.
Estudou na Europa, foi professor da Faculdade de Medicina, homem de talento
artístico apreciável, com o que conseguiu grupar em nossa casa uma galeria de
pinturas estrangeiras e nacionais de grande fama. Dessa paixão resultou fundar
em 56, aqui na Bahia, a Sociedade das Belas-Artes. No lar, essa influência se
exerceu na nossa educação artística: todos inclinados à música, ao canto, ao
desenho, à pintura, às letras, favorecendo disposições da natureza que seriam
consagradas. Mas papai e mamãe tinham pouca saúde. Perdi-os cedo, ela de
tuberculose, em 1859, com apenas 34 anos de idade, e papai há cinco anos, aos
48.
Voltemos ao ano de 1854,
quando fomos morar na capital, no pequeno sobrado da Rua do Rosário no 1. Essa
casa, que marcaria de forma definitiva a minha vida, era cheia de lendas e
mistérios: uma linda moça, Júlia Feital, nela foi assassinada pelo noivo que,
louco de ciúmes, a fulminou com uma bala de ouro. Eu, menino, imaginava a cena
e tinha muito medo. Ainda bem que logo depois nos mudamos.
Assim que chegamos a
Salvador, fui estudar no Colégio Sebrão, uma escola tradicional, e depois no
Ginásio Baiano, de conceitos pedagógicos avançados para a época: estudávamos
várias matérias ao mesmo tempo, não recebíamos castigos físicos e ainda por
cima éramos incentivados a participar de torneios literários. Para mim, que já trazia
o amor à arte cultivado pela família, foi uma espécie de preliminar, desculpem
a imodéstia, para a glória futura. Celebrávamos principalmente as datas
cívicas, o que me deixava envaidecido, pois meu avô materno, José Antônio da
Silva Castro, foi um dos heróis da independência da Bahia, que só foi
conquistada em 2 de
Julho de 18 23. É que em muitas províncias, como o Senhor sabe, os
portugueses não acataram a proclamação do Sete de Setembro e queriam nos manter
atados à Coroa lusitana. Na Bahia, meu avô ajudou a derrotar as tropas
inimigas, para assim confirmar a independência do Brasil. Ele foi condecorado
por bravura no comando de um batalhão de voluntários, por ele mesmo criado. Vou
lhe contar uma coisa que pouca gente sabe: foi nesse batalhão que, sob suas
ordens, lutou a heroína baiana Maria Quitéria. Ainda vou escrever um poema em
homenagem a essa grande mulher.
Como o Senhor vê a poesia nesta segunda metade do séc.
XIX?
Olhe bem. A poesia na terra
dos Andradas, dos Pedros Ivos, e dos Tiradentes deve ser majestosa como as
matas virgens da América; arrojada como seus rios gigantes; livre como os
ventos que passam gementes por suas várzeas, e que zurzem os costados
pedregosos dos seus gigantes de granito. A poesia enfim deve ser o reflexo
desta terra. Isto no que toca à natureza, é claro.
No que toca às idéias desta
metade de século, eu diria que a poesia deve ser o arauto da liberdade - esse
verbo na redenção moderna - e o brado ardente contra os usurpadores dos
direitos do povo.
Quanto a sua forma, a
literatura, sendo a expressão da humanidade, libertou-se dos preceitos
asfixiadores da escola clássica - essa jaula do pensamento - assim como a
humanidade despedaçara o feudalismo - essa jaula da dignidade popular.
O povo - esse condor gigante
- sacudindo as longas asas pairou na ordem social por sobre a realeza, na ordem
científica por sobre a autoridade. O espírito popular tem sido iluminado pelos
luzires do cometa da civilização.
Tudo tende a idealizar-se. No
entanto, lanço uma censura a dois erros, que em geral permanecem em nossa
literatura, e neles eu sei que a minha poesia não está:
Um - a falta de brasileirismo
nas composições. O segundo erro, que ainda lavra, especialmente na Bahia, é o
classicismo. Deus me livre de maldizer das obras-primas que a antiguidade nos
legou. Não. Homero, Dante, Virgílio e outros hão de ser sempre admirados. Mas
não queirais, homens da atualidade, mandar, como primor de escultura, uma
cabeça de esfinge para a Exposição, nem apresentar nos banquetes de Napoleão
III a paródia dos vasos soterrados de Pompéia... passou esse tempo... A poesia
hoje é Byron, Barthélemy, Lamartine, Victor Hugo - esses Cristos humanos.
De que forma o Senhor situa a sua obra dentro deste
contexto?
É muito difícil a um poeta
situar sua própria obra no contexto de uma literatura. Talvez possa dizer que
segui um caminho que é normal a todo escritor: o de fazer com que a vida e a
obra entrem em acordo e possam viver bem juntas.
Olhe bem. Hoje, a palavra da
poesia, além de ser íntima, também deve ser cívica. Tenho o sangue militar do
meu avô e cheguei até a me alistar no Batalhão Acadêmico de Voluntários que foi
à Guerra do Paraguai, mas nunca fui um apologista da guerra. Amo sim a minha
pátria, luto pela abolição da escravidão, canto os feitos heróicos, as batalhas
vitoriosas contra a opressão e confesso o meu amor em tom vibrante; só em
louvor ao Dois de Julho escrevi cinco poemas. Muitos dizem que minha obra está
composta de uma parte política e de uma parte lírica. Penso que vigora sempre o
mesmo amor à humanidade, sob roupagens diversas: amor coletivo e amor pessoal,
e não saberia dizer qual o mais importante.
Acho que o poeta deve falar
aos corações. Eu falo. Mas, não é com sussurros que se incendeia o público; é
com entusiasmo, dramaticidade, retórica. O poeta é às vezes um corcel sem
freios... Eu tenho consciência de que faço alguns poemas para voz alta, e não
para leitura com um chá, no aconchego das cadeiras de balanço. Algumas vezes,
anoto ao lado do texto: “Não se publica”. Não sei se será publicado, pois tenho
a certeza de que o poeta, quando muito, é o dono dos versos, mas não é nunca o
dono do destino do poema.
Particularmente, acho
exagerado o gosto pelo doentio que os poetas da geração anterior a minha
desenvolveram. Eles estavam voltados para eles mesmos, amavam a musa distante,
idealizada, intocada e etérea. A minha amada é de carne e osso (o poeta sorri).
Eu aposto no amor, na vida; às vezes perco, às vezes ganho... Deixo aos
críticos do futuro o julgamento do meu trabalho.
Que figuras exerceram influência na sua formação de
escritor?
Tudo o que o escritor vê,
vive ou lê o influencia. Assim, sou filho de Horácio, de Byron, Barthélemy,
Lamartine, Musset, do grande Hugo principalmente... Aprecio Gonçalves Dias,
Álvares de Azevedo e Junqueira Freire, mas se tivesse que escolher apenas dois
brasileiros, citaria dos contemporâneos, meu amigo Fagundes Varela e dos
passados, o Casimiro de Abreu.
O Senhor está começando a ser chamado “O poeta dos
escravos”. Como se sente?
Eu me orgulho do epíteto.
Estou, inclusive, na fase final de negociações para a impressão de meu livro Os
escravos, que até o final do ano será publicado. A escravidão é uma das
mazelas, talvez a mais horrenda, que devemos combater em prol da liberdade. É
certo que, desde 1850, instituíram-se pesadas penas para o tráfico negreiro, já
abolido pela legislatura de 31, mas ainda vigente. Há dois anos foi proibida a
venda de seres humanos em pregão público e até o fim deste ano - não sei se o
Senhor sabe - será votada a Lei do Ventre Livre. Mas é pouco. Muito pouco.
Sempre fui devotado às causas
sociais. Fundei, com Rui Barbosa - meu antigo colega do Ginásio Baiano - e
outros alunos da Faculdade de Direito, a Sociedade Abolicionista do Recife.
Esse pendor abolicionista vem do berço. Lembro de papai a reclamar, sempre, do
tratamento cruel que era dado ao negro. O amor que eu tive e tenho pela minha
bá, que já se foi, a negra Leopoldina, minha ama de leite, minha segunda mãe, a
me contar as histórias de senzalas, mucamas e amores proibidos... O meu tio, o
alferes João José, herói da Guerra do Paraguai, brincando comigo de cavalinho,
montado em seus joelhos, dizendo-me: “A liberdade, filho, é o maior bem do
mundo”. Ah! Como essas coisas ainda me comovem...
Ser chamado de “poeta dos
escravos” é uma honra. Acho, porém, que não diz tudo; sempre quis ser “O poeta
da Liberdade”. E para mim, Abolição e República são palavras quase irmãs: uma
puxa a outra, naturalmente. Tanto que, em paralelo à minha luta pela libertação
dos escravos, participei também de alguns comícios republicanos. Lembro-me bem
de um deles, dissolvido pela polícia, quando criei de improviso os versos de “O
povo ao poder” (nesse momento o poeta abre um sorriso e levanta-se, com
esforço, da cadeira de balanço austríaca). A segunda estrofe desse poema começa
com dois versos que agitaram a multidão, aos gritos e assobios (o poeta de pé,
com a voz já rouca e entrecortada por um pigarro renitente):
A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor.
Senhor!... pois quereis a
praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu...
(um acesso de tosse
interrompe a fala; ele se senta novamente, e com dificuldade termina a estrofe)
Ninguém vos rouba os castelos
Tendes palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.
Desculpe-me, Senhor...
Desculpe-me... (aparentemente refeito) Prossiga, prossiga...
Além dos comícios
republicanos e da campanha abolicionista, é sabido que o Senhor tem participado
de debates sobre a liberdade de imprensa e de muitos outros movimentos civis,
como a luta pelo voto feminino. Por outro lado, as discussões literárias também
não foram poucas. Fale-nos sobre sua polêmica com o poeta Tobias Barreto.
O Tobias? Isso é coisa do
passado, não tem mais importância... Nem sei se vale a pena voltar ao assunto.
Mas o que posso dizer?... Vamos ver...
Começamos como amigos -
temos, inclusive, poesias dedicadas um ao outro; passamos a colegas,
tornamo-nos rivais e acabamos inimigos. Intrigas pessoais e literárias.
Discordamos em quase tudo, tanto na poesia quanto no teatro. Olhe que nossos
desencontros se acaloraram a partir de 66, quando ele teve o desplante de, em
público, dizer que a atriz Adelaide Amaral era superior a minha amada D.
Eugênia Câmara, um talento fulgurante que Portugal nos legou; inigualável, como
o Brasil jamais tivera oportunidade de assistir.
O Senhor Tobias Barreto é
feio, velho, escreve mal e declama pior ainda. Não conhece a língua que fala, o
significado das palavras; já o aconselhei a fazer, de quando em quando, uma
viagenzinha ao Morais. Nos recitativos fica nervoso, tem um jeito desastrado,
não controla a voz. Não possui o domínio cênico que eu tenho, se veste mal. Eu
entro no palco vestido de negro, chique, com uma flor na lapela, óleo nos
cabelos, madeixas minuciosamente espontâneas e pó-de-arroz no rosto, para
parecer mais pálido. Começo logo com uma das minhas bombas “O século”, “Pedro
Ivo”, “Visão dos mortos”..., com resultado previsto e certo: a platéia me
ovaciona. Lembro-me de um sarau em São Paulo , organizado pelo Arquivo
Jurídico, no Salão Concórdia. Nessa noite todas as honras foram minhas; o
entusiasmo tocou ao delírio, quando arrematei a última estrofe de “Visão dos
mortos” e, a pedido geral, encetei “O livro e a América”. Se algum dia obtive um
triunfo, não foi noutro lugar. Até a senhora do cônsul inglês Richard Burton
veio entusiasticamente dizer-me: “Mim gostar muito de sua recitativa” (rindo e
imitando um sotaque inglês).
Atualmente não tenho mais
debatido com o Tobias Barreto. Como o Senhor sabe, pouco tenho saído de casa. A
minha última declamação em público foi, se a memória não me falha, em 10 de
fevereiro deste ano, no salão nobre da Associação Comercial da Bahia, quando se
realizava ali um meeting em favor das famílias francesas sacrificadas pela
guerra franco-prussiana. Eu recitei o poema “No meeting du Comité du Pain”,
escrito no dia anterior. Fiz especialmente para a ocasião.
Aproveitando a sua lembrança, o Senhor poderia nos
falar da grande atriz D. Eugênia Câmara?
A minha admiração pela atriz
D. Eugênia Câmara se confundiu com meu amor pela mulher Eugênia. Quando a vi
pela primeira vez, no palco do Teatro Santa Isabel, no Recife, eu tinha 16 anos
e ela 26. De minha parte, amor à primeira vista. Ela era a estrela do drama
Dalila, de Octave Feuillet. Difícil descrever o impacto que a presença dela
exerceu sobre mim. Digo apenas que ela foi a mulher mais importante da minha
vida, a musa celeste que me arrastou, como um turbilhão, ao mais profundo fundo
dos cafundós do inferno. E ainda mais, o que muitos não sabem: é poetisa. Já
tem dois livros publicados.
Escrevi para ela o drama
Gonzaga ou A Revolução de Minas, onde falo de liberdade, escravidão, traição,
paixões... em suma, de tudo que atormentava ou deliciava minha existência, e se
confundia com a própria Eugênia, para quem, é evidente, eu havia reservado o
papel principal. Meu sonho era vê-la em cena interpretando meu texto.
O nosso amor foi sempre
tumultuado. Em 66, após um longo período de indecisões e recuos, que nunca
soube se eram meus ou dela, finalmente consegui arrancá-la do empresário com
quem vivia, e levei-a junto com a filha, para morar comigo num subúrbio do
Recife. Nosso ninho de amor... Dediquei-lhe muitos poemas... Ah! Bons tempos
aqueles...
No ano seguinte, fui para a
Bahia, levando minha mulher e uma certeza: iríamos conseguir encenar o Gonzaga
em Salvador. O que, de fato, aconteceu no dia 7 de setembro, no Teatro São
João, tendo à frente do elenco Eugênia no papel de Maria, a Marília de Dirceu.
Foi uma brilhatura como há poucas! Fui chamado à cena depois de cada ato, sob
estrondosa ovação. Não satisfeita, a multidão carregou-me em triunfo, sobre os
ombros, até minha casa. Tive um triunfo como não consta que alguém tivesse na
Bahia. Era a glória, mas era a glória baiana. Até aí a alegria do sucesso e o
amor de Eugênia me completavam, mas eu queria a consagração nacional...
Foi por isso que o Senhor resolveu ir para São Paulo?
Sim, sim. Foi com essa
intenção que decidi continuar os estudos de Direito em São Paulo ,
interrompidos quando viemos para Salvador. Eugênia foi comigo. Incluí no
roteiro de viagem uma visita ao Rio de Janeiro, onde conheci o grande escritor
José de Alencar. Chegamos a São Paulo em março de 68, a terra de Azevedo,
cidade das névoas e mantilhas, ainda acanhada e provinciana, onde não há senão
frio, mas frio da Sibéria; cinismo, mas cinismo da Alemanha, um tédio infinito.
Entretanto prefiro São Paulo ao Recife, apesar das péssimas recordações daquele
tempo, pois foi lá que o nosso amor chegou ao fim. O meu objetivo era terminar
os estudos na Faculdade do Largo de São Francisco e o de D. Eugênia retornar
aos palcos. No início retomamos a vida intelectual e boêmia, freqüentando
saraus e salões, sempre com muito sucesso. Porém, rapidamente, o nosso relacionamento
se deteriorou. Eram cada vez mais constantes as nossas desavenças. Cenas
violentas, ciúmes, brigas, precárias reconciliações. Sopravam-me histórias de
adultério. No entanto, sei que ela me amou, como sei que, talvez, meu amor
tenha sido insuficiente para sua paixão. Não a recrimino. Em determinado
momento, largou a carreira para me seguir. Depois, me largou para seguir a si
própria. Rompemos em 68 e a última vez que a vi foi no ano seguinte
apresentando-se no Teatro Fênix Dramática, no Rio de Janeiro, quando pude lhe
oferecer meus derradeiros aplausos. Despedi-me de Eugênia com a poesia “Adeus”,
que termina assim (acomodando-se na cadeira):
Quis te odiar, não pude. -
Quis na Terra
Encontrar outro amor. -
Foi-me impossível.
Então bendisse a Deus que no
meu peito
Pôs o germe cruel de um mal
terrível.
Sinto que vou morrer! Posso,
portanto,
A verdade dizer-te santa e
nua:
Não quero mais teu amor!
Porém minh'alma
Aqui, além, mais longe, é
sempre tua.
E Eugênia me respondeu com
uma outra e que sei de cor. Vou dizer-lhe a primeira e a derradeira das 14
estrofes (a voz um pouco mais baixa):
Adeus, irmão desta alma,
digo-te Adeus!
Mas deixa que eu evite esse -
jamais! -
Que o céu se compadeça aos
rogos meus
E um dia cessarão teus e meus
ais!
Adeus! Se um dia o Destino
Nos fizer ainda encontrar
Como irmã ou como amante
Sempre! Sempre me hás de
achar.
Como foi seu contato com José de Alencar?
Ah! Esse foi um dia
inesquecível: 17 de
fevereiro de 18 68. Levei uma carta de apresentação do estadista
baiano Dr. Joaquim Fernandes da Cunha, amigo de meu pai e padrinho da minha
irmã Amélia. Visitei Alencar no Rio, como já lhe disse. Ele residia lá nos
cerros da Tijuca. Segundo suas palavras, lugar puro e são, montanha encantadora
que a natureza colocou a duas léguas da Corte, como um ninho para as almas
cansadas de pousar no chão. E foi lá que o primeiro literato brasileiro
provou-me que a ninguém cedia em cavalheirismo e urbanidade.
Sabendo que tocava numa corda
sensível do mestre, além de declamar alguns poemas, li para ele o Gonzaga. Meu
anfitrião era um obcecado pela construção de um teatro brasileiro, mesmo tendo
fracassado na tentativa. Ele pregava um teatro baseado em nossa História -
exatamente o que eu fizera, ao invocar em meu drama a Inconfidência Mineira. A
receptividade foi muito boa, a ponto de Alencar recomendar-me a outro talento
que se firmava na literatura fluminense: o jovem Machado de Assis, que me
visitou no domingo de carnaval. O resultado desses encontros se traduziu nas
crônicas publicadas no Correio Mercantil, a de Alencar em 22 de fevereiro e a
de Machado em 1o de março, ambas muito favoráveis ao Gonzaga. Saiba que ainda
guardo comigo esses exemplares do Correio.
Quando e por que o Senhor decidiu deixar o sul do país
e retornar à Bahia?
Devido a meus problemas de
saúde; não ia nada bem. Quando me separei de Eugênia, a minha sorte piorou. Não
sai da minha mente o fatídico dia 11 de novembro de 68 , em que para espairecer
minha solidão dirigi-me ao Brás, onde costumava caçar; era um mato cerrado,
animais em abundância. Fui saltar uma pequena valeta e um disparo da espingarda
atingiu-me o pé. Como todos sabem, surgiram complicações no ferimento e os
antigos padecimentos pulmonares acordavam, impressionantes. Então busquei ajuda
médica no Rio de Janeiro e o diagnóstico foi implacável: teria que amputar a
perna esquerda no seu terço inferior. Devido ao meu estado debilitado, a
intervenção cirúrgica se daria sem anestesia, pois a cloroformização seria
perigosa. Se não operasse poderia morrer; então reuni todas as minhas forças e
dei a autorização aos médicos, em tom de blague, disfarçando sob o riso, a dor
física e moral da mutilação que deveras sentia. Ainda lembro de minhas
palavras: “Corte-o, corte-o doutor... ficarei com menos matéria que o resto da
humanidade”.
A convalescença foi demorada,
agravada pela tísica renitente. Após alguns meses consegui levantar-me com a
ajuda de um pé de madeira e apoiado em muletas. Porém , não me entreguei ao
infortúnio. Nesse período de recuperação, estive hospedado na casa de meu
grande amigo Luís Cornélio, cercado de carinho e atenção. Não deixei de
escrever e recitar meus poemas para o pessoal da casa e para as bonitas moças
que me visitavam e inspiravam. É... Não foram tão maus aqueles tempos (risos).
No entanto, os meus pulmões não iam nada bem; acessos de tosse e febre
deixavam-me constrangido. A saudade da minha pátria e a necessidade de cura em
outro ambiente me fizeram retornar ao aconchego da família. Em novembro de 69,
deixei o Rio de Janeiro. A travessia, transposta a enseada maravilhosa da
Guanabara, sugeriu-me, com a saudade e o desengano, a idéia de reunir os meus
poemas num volume que denominei Espumas flutuantes. Os meus versos eram as
espumas que se formavam, flutuando à volta do navio. Essa lembrança está
relatada no Prólogo do meu livro.
Quais são seus planos para o futuro?
Como já lhe disse, estou com
Os escravos pronto, deve sair até o final do ano ou, no máximo, no princípio do
ano que vem. A cachoeira de Paulo Afonso, livro de poemas, também já está
acabado. E quero publicar o texto do meu Gonzaga, que já viajou por todo o
Brasil, e, como o Senhor sabe, com grande sucesso de público e de crítica.
Infelizmente nos últimos tempos não tenho trabalhado muito, a minha saúde não
anda boa, e os médicos e as manas não querem que eu faça esforço. Para dar-lhe
esta entrevista, tive que impor a minha autoridade de irmão mais velho (risos).
Mas Deus vai me dar ânimo, pois tenho planos de voltar a declamar em público,
no máximo daqui a um mês. Já encomendei até um novo terno preto, bem cortado,
pois estou um pouco mais magro e quero me apresentar bem. Se Deus quiser.
NOTA: O poeta Castro Alves faleceu às 15h30 min do dia 6 de julho de 18 71, um mês
após esta entrevista.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
domingo, 22 de julho de 2012
segunda-feira, 16 de julho de 2012
PARA REFLETIR - colaboração de Martinho Rodrigues
O HOMEM SEM SAPATO
Um homem já de
certa idade entrou no ônibus.
Enquanto subia, um de seus sapatos escorregou para o lado de fora.
Mas a porta se fechou e o ônibus saiu, e não foi possível recuperá-lo.
Tranquilamente, o homem retirou seu outro sapato e jogou-o pela janela.
Um rapaz, vendo o que acontecera, perguntou: notei o que o senhor fez.
Por que jogou fora seu outro sapato?
Eu agi de forma que quem o encontrar seja capaz de usá-los.
Provavelmente, apenas alguém necessitado dará importância a um sapato usado encontrado na rua.
E de nada lhe adiantará apenas um pé de sapato.
Assim, o homem mostrava ao jovem que não vale à pena agarrar-se a algo simplesmente por possuí-lo, nem por que você não deseja que outro o tenha.
Perdemos coisas o tempo todo.
A perda pode nos parecer penosa e injusta inicialmente, mas a perda só acontece de modo que mudanças, na maioria das vezes positivas, possam ocorrer em nossa vida.
Como o homem da história, nós temos que aprender a nos desprender.
Alguma força decidiu que era hora daquele homem perder seu sapato.
Talvez isso tenha acontecido para iniciar uma série de outros acontecimentos bem melhores para o homem do que aquele par de sapatos.
Talvez a procura por outro par de sapatos tenha levado o homem a um grande benfeitor.
Talvez uma nova e forte amizade com o rapaz do ônibus.
Talvez aquele rapaz precisasse presenciar aquele acontecimento para adotar uma ação semelhante.
Talvez a pessoa que encontrou os sapatos tenha, a partir daí, a única forma de proteger os pés.
Seja qual for a razão, não podemos evitar perder coisas.
A propósito, algumas perdas são até necessárias… O homem sabia disso.
Um de seus sapatos tinha saído de seu alcance.
O sapato restante não mais o ajudaria, mas seria um ótimo presente para uma pessoa desabrigada, precisando desesperadamente de proteção do chão.
Acumular posses não nos faz melhores nem faz o mundo melhor.
Enquanto subia, um de seus sapatos escorregou para o lado de fora.
Mas a porta se fechou e o ônibus saiu, e não foi possível recuperá-lo.
Tranquilamente, o homem retirou seu outro sapato e jogou-o pela janela.
Um rapaz, vendo o que acontecera, perguntou: notei o que o senhor fez.
Por que jogou fora seu outro sapato?
Eu agi de forma que quem o encontrar seja capaz de usá-los.
Provavelmente, apenas alguém necessitado dará importância a um sapato usado encontrado na rua.
E de nada lhe adiantará apenas um pé de sapato.
Assim, o homem mostrava ao jovem que não vale à pena agarrar-se a algo simplesmente por possuí-lo, nem por que você não deseja que outro o tenha.
Perdemos coisas o tempo todo.
A perda pode nos parecer penosa e injusta inicialmente, mas a perda só acontece de modo que mudanças, na maioria das vezes positivas, possam ocorrer em nossa vida.
Como o homem da história, nós temos que aprender a nos desprender.
Alguma força decidiu que era hora daquele homem perder seu sapato.
Talvez isso tenha acontecido para iniciar uma série de outros acontecimentos bem melhores para o homem do que aquele par de sapatos.
Talvez a procura por outro par de sapatos tenha levado o homem a um grande benfeitor.
Talvez uma nova e forte amizade com o rapaz do ônibus.
Talvez aquele rapaz precisasse presenciar aquele acontecimento para adotar uma ação semelhante.
Talvez a pessoa que encontrou os sapatos tenha, a partir daí, a única forma de proteger os pés.
Seja qual for a razão, não podemos evitar perder coisas.
A propósito, algumas perdas são até necessárias… O homem sabia disso.
Um de seus sapatos tinha saído de seu alcance.
O sapato restante não mais o ajudaria, mas seria um ótimo presente para uma pessoa desabrigada, precisando desesperadamente de proteção do chão.
Acumular posses não nos faz melhores nem faz o mundo melhor.
Todos temos de decidir
constantemente se algumas coisas devem manter seu curso em nossa vida, ou se é
melhor seguir sem elas.
domingo, 24 de junho de 2012
ESPERAS AZUIS
Giselda Medeiros
minha voz silencia ante o cristal
de teus olhos – espelhos de esperas silenciosas.
Há em minha voz
caminhos e madrugadas,
mesmo assim, é sonolento
o olho do tempo
que se embriaga ante o esplendor das alvoradas
a espraiarem-se em tua alma,
bergantim de afoitos mares.
Teus olhos – espelhos de esperas silenciosas,
anilaram-se,
e o reflexo azul – de águas claras e tranqüilas – derrama-se
em nós como um pálio de vigílias estelares.
Por isso, minha voz silencia
e, apenas, perscruta o azul
– espelho de esperas silenciosas –
grandeza d’alma, miosótis,
a irromper dos desvãos do tempo,
(do livro ÂNFORA DE SOL)
segunda-feira, 4 de junho de 2012
MOTIVOS - VI
GISELDA MEDEIROS
Sobre o texto da vida... quem saberá entendê-lo? Em quais metáforas decifraremos nossas dúvidas ruminantes, se nós mesmos somos metáforas indecifráveis, geratrizes de vontades órfãs? Imensos de espanto são o rio em que navegamos e o tempo que nos rouba a eternidade. Porém, navegar é preciso... diz o poeta lusitano, mesmo sabendo que, cedo ou tarde, nossas dúvidas nos consumirão e que seremos pó da vida, pó de nossas ilusões.
Da letra do que fomos talvez nem reste o símbolo inscrito sobre a pedra.
GISELDA MEDEIROS
Sobre o texto da vida... quem saberá entendê-lo? Em quais metáforas decifraremos nossas dúvidas ruminantes, se nós mesmos somos metáforas indecifráveis, geratrizes de vontades órfãs? Imensos de espanto são o rio em que navegamos e o tempo que nos rouba a eternidade. Porém, navegar é preciso... diz o poeta lusitano, mesmo sabendo que, cedo ou tarde, nossas dúvidas nos consumirão e que seremos pó da vida, pó de nossas ilusões.
Da letra do que fomos talvez nem reste o símbolo inscrito sobre a pedra.
domingo, 6 de maio de 2012
CANÇÃO ALVISSAREIRA
Tua
palavra, de asas e luares,
branca palavra, branda,
é uma canção
na pauta alvoroçada que
repõe
o sol, que reverdece
nossas heras.
Tua voz – rumor de
pétalas – é luz
que ensina à
alvissareira madrugada
cantigas de esperanças e
de orvalhos.
Tua mão, de círios e de
lírios,
Borrifa mansamente nossa
vida
de aljôfares, de
sândalos e mirra.
E teus olhos,
guardadores de silêncios,
desnudam-nos os males
mais danosos,
por isso, ó bem-amado,
te trazemos
estas mãos cheias de
amor e de poemas.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
FELIZ PÁSCOA PARA TODOS OS MEUS AMIGOS!
Há dois mil anos, um homem veio ao mundo disposto a ser o maior exemplo de amor e verdade que a humanidade conheceria.
Sua proposta de vida não foi entendida por muitos e, então, condenaram este homem e crucificaram-no, ignorando todos os seus propósitos de um mundo melhor.
Houve dor, angústia e escuridão.
Por três dias, o sol se recusou a brilhar, a lua se negou a iluminar a Terra, até que no terceiro dia algo aconteceu...
Houve a ressurreição!
A Páscoa existe para nos lembrar deste espetáculo inigualável chamado ressurreição!
Páscoa...
Ressurreição do sorriso...
Ressurreição da alegria de viver...
Ressurreição do amor...
Ressurreição da amizade...
Ressurreição da vontade de ser feliz!
Ressurreição dos sonhos, das lembranças e de uma verdade que está acima dos ovos de chocolate:
Cristo morreu, mas ressuscitou, e fez isso somente para nos ensinar a matar os nossos piores defeitos e ressuscitar as maiores virtudes sepultadas no íntimo de nossos corações.
Que esta seja a verdade da nossa Páscoa.
Com gratidão e carinho desejo que o Cristo renasça em sua vida, em seu coração.
Paz profunda
Tempos felizes a você.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
CAMINHOS - GISELDA MEDEIROS
(para Thereza Leite)
Não sei por onde ir...
Sou trêmula rosa
pendente da haste
ou pássaro implume
esquecido da trajetória.
Os caminhos abrem-se em labirintos,
e não tenho o mapa do destino
nem o fio de Ariadne.
Há muito estou aqui
no meio deste tempo sem história.
Cansa-me procurar a saída
nestes vales úmidos de espanto.
A fuga açula-me a solidão,
esta companheira
sempre à minha espreita
com quem divido meus medos,
minhas angústias inexoráveis.
Vou e retorno sobre meus próprios passos,
tímidos e lassos,
sobre a minha própria busca...
Sei que seguir é imperativo,
ficar é presente,
retornar é passado.
... E o futuro? Deverei buscá-lo?
Será ele um tempo? Ou um vento?
Mas, preciso seguir mesmo sabendo
que, ao fim de tudo, acabarei pendente,
pétalas caídas, sob a frágil haste
que me sustentou a efêmera vida,
que era apenas tu.
Não sei por onde ir...
Sou trêmula rosa
pendente da haste
ou pássaro implume
esquecido da trajetória.
Os caminhos abrem-se em labirintos,
e não tenho o mapa do destino
nem o fio de Ariadne.
Há muito estou aqui
no meio deste tempo sem história.
Cansa-me procurar a saída
nestes vales úmidos de espanto.
A fuga açula-me a solidão,
esta companheira
sempre à minha espreita
com quem divido meus medos,
minhas angústias inexoráveis.
Vou e retorno sobre meus próprios passos,
tímidos e lassos,
sobre a minha própria busca...
Sei que seguir é imperativo,
ficar é presente,
retornar é passado.
... E o futuro? Deverei buscá-lo?
Será ele um tempo? Ou um vento?
Mas, preciso seguir mesmo sabendo
que, ao fim de tudo, acabarei pendente,
pétalas caídas, sob a frágil haste
que me sustentou a efêmera vida,
que era apenas tu.
domingo, 25 de dezembro de 2011
FELIZ NATAL PARA TODOS OS AMIGOS COM ESSA CRÔNICA DE CECÍLIA MEIRELES
Compras de Natal
Cecília Meireles
A cidade deseja ser diferente, escapar às suas fatalidades. Enche-se de brilhos e cores; sinos que não tocam, balões que não sobem, anjos e santos que não se movem, estrelas que jamais estiveram no céu.
As lojas querem ser diferentes, fugir à realidade do ano inteiro: enfeitam-se com fitas e flores, neve de algodão de vidro, fios de ouro e prata, cetins, luzes, todas as coisas que possam representar beleza e excelência.
Tudo isso para celebrar um Meninozinho envolto em pobres panos, deitado numas palhas, há cerca de dois mil anos, num abrigo de animais, em Belém.
Todos vamos comprar presentes para os amigos e parentes, grandes e pequenos, e gastaremos, nessa dedicação sublime, até o último centavo, o que hoje em dia quer dizer a última nota de cem cruzeiros, pois, na loucura do regozijo unânime, nem um prendedor de roupa na corda pode custar menos do que isso.
Grandes e pequenos, parentes e amigos são todos de gosto bizarro e extremamente suscetíveis. Também eles conhecem todas as lojas e seus preços — e, nestes dias, a arte de comprar se reveste de exigências particularmente difíceis. Não poderemos adquirir a primeira coisa que se ofereça à nossa vista: seria uma vulgaridade. Teremos de descobrir o imprevisto, o incognoscível, o transcendente. Não devemos também oferecer nada de essencialmente necessário ou útil, pois a graça destes presentes parece consistir na sua desnecessidade e inutilidade. Ninguém oferecerá, por exemplo, um quilo (ou mesmo um saco) de arroz ou feijão para a insidiosa fome que se alastra por estes nossos campos de batalha; ninguém ousará comprar uma boa caixa de sabonetes desodorantes para o suor da testa com que — especialmente neste verão — teremos de conquistar o pão de cada dia. Não: presente é presente, isto é, um objeto extremamente raro e caro, que não sirva a bem dizer para coisa alguma.
Por isso é que os lojistas, num louvável esforço de imaginação, organizam suas sugestões para os compradores, valendo-se de recursos que são a própria imagem da ilusão. Numa grande caixa de plástico transparente (que não serve para nada), repleta de fitas de papel celofane (que para nada servem), coloca-se um sabonete em forma de flor (que nem se possa guardar como flor nem usar como sabonete), e cobra-se pelo adorável conjunto o preço de uma cesta de rosas. Todos ficamos extremamente felizes!
São as cestinhas forradas de seda, as caixas transparentes os estojos, os papéis de embrulho com desenhos inesperados, os barbantes, atilhos, fitas, o que na verdade oferecemos aos parentes e amigos. Pagamos por essa graça delicada da ilusão. E logo tudo se esvai, por entre sorrisos e alegrias. Durável — apenas o Meninozinho nas suas palhas, a olhar para este mundo.
Texto extraído do livro "Quatro Vozes", Editora Record - Rio de Janeiro, 1998, pág. 80.
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