terça-feira, 29 de outubro de 2013

LIVROS & LIVROS

Agradecemos aos autores o envio de seus maravilhosos livros.



"(...) o poeta Pereira de Albuquerque encontra, em todos os detalhes da vida, sobejos motivos para, deles, extrair poesia. Nada lhe escapa à observação: o amor, a crítica social, a felicidade,  a educação, o (des)governo, a religião, a paz, o futebol,os falsos profetas, e tudo o mais.
Afirmar essas verdades é para ele apenas a maneira que escolheu para nos brindar com as suas redondilhas - os notáveis heptassílabos onde dá largas à sua aguçada percepção do mundo, enxergando, inclusive, o que outros não veem.
(...) Tem razão Dimas Macedo, poeta e crítico literário, quando o reputa um dos nossos melhores escritores".
(Vicente Alencar)



 "(...) Arquiteto a Posteriori reúne textos acerca de obras cuidadosamente eleitas sob o rigor da qualidade, nos quais descreve olhar e sentimento, exercendo atitude crítica pura, incólume às práticas menores dos achaques, dos desnegrimentos gratuitos e das desmerecidas lisonjas.
Assenhoreia-se, ao traçar os conceitos e considerações, da admirável benquerença que lhe merecem os amigos e os bons textos, mas não se afasta da atitude severa dedicada à análise erudita, que modestamente chama de comentário".
(Geraldo Jesuíno da Costa)




"(...) Verdade: pelas janelas invisíveis do ÚLTIMO TREM PARA PASÁRGADA, Eduardo Fontes estira, ao longe, um olhar bifronte: é o poeta obcecado pelo simples, verdadeiro e distraído pelo Belo. E o leitor vai-se enriquecendo de Poesia, de emoção e de mistério, de conhecimento e de ideias. Diga-se frutífera a mistura de imaterial e material, de emoção e razão.
Embarque, leitor, nesse último trem: você vai em companhia de 'um poeta constantemente emocionado diante da vida e dos mistérios da morte'."
(Dias da Silva)




"(...) Talentoso e culto, desliza ao sabor de diferentes estilos literários, com muita propriedade, da mesma forma como atua dentro da área médica. E agora nos traz "Isso é coisa do Pessoa - em Prosa e Verso" para nos deleitar com suas rimas inteligentes em trovas líricas ou satíricas e com a prosa gostosa, de mesa de boteco, ao som dos copos e grugrulejo das cervejas, onde somos capazes de passar horas e horas batendo papo e gargalhando sem nos lembrarmos de que existem colesterol, inflação, dieta, imposto de renda..."
(Celina Côrte Pinheiro)



"(...) Aqui, estamos diante de um compêndio de sabedoria. São poemas sob os mais variados temas. E não pense o leitor que vai encontrar versos rebuscados, herméticos. Não! São versos simples, rolados da grande correnteza da vida.
(...) Os conceitos morais, religiosos, são trabalhados pela Autora com a mesma simplicidade e leveza, por meio  de sua aguçada visão interior, a nos chamar para as suas verdades.
(...) Quem conhece Terezinha Bedê sabe de sua riqueza espiritual, de sua dignificante postura diante dos fatos imutáveis da vida. Dentro de sua visão humanizada, ela sabe (e comunga com o pensamento de Aristóteles) que a existência é uma dádiva concedida pela natureza, mas uma vida bela somente a sabedoria nos pode proporcionar."
(Giselda Medeiros)




"(...) Li a História desses povos, dessas gentes. Mas li também Camões, a Bíblia, Alencar, Machado, cordel, Moreira Campos. E me pus a escrever também. Mais para relembrar aquele povo e seus descendentes. Para recriá-los. Ou mesmo criá-los, porque talvez nada exista. O que existe é obra de arte, que é ficção. Nada é real. Quanto mais antigo mais irreal."
(Nilto Maciel)

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Luiz Felipe Pondé - Revista Literatura



Literatura como cura

Hoje quero falar de dois sintomas que marcam nossa época. O primeiro sintoma é a falação ruidosa de nosso mundo; o segundo é a ideia de que o mundo sofre porque não nos amamos e que tudo se resolveria se nos abraçássemos e parássemos de sermos gananciosos.
Fala-se demais hoje. Todos têm opinião. Até jovens de 20 anos são chamados a dar opinião sobre o mundo e a sociedade, quando mal sabem arrumar o quarto. E quando se elegem crianças de 25 anos como arautos da sociedade (adulto que faz isso, o faz, normalmente, para ter discípulos fiéis e fanáticos, ou porque é bobo mesmo), o resultado é que acaba se pensando que o mundo começou, como diz um amigo meu muito esquisito, em "Woodstock".
Quando se pensa isso, acaba-se imaginando que o problema do mundo é mesmo aprendermos que "all you need is love"... Infelizmente, a humanidade é mais complicada do que pensa nossa vã inteligência woodstockiana. Contra essa visão infantil da realidade (este é o segundo sintoma do qual falei acima), proponho a leitura da obra do grande crítico norte-americano Edmund Wilson. Vou a ele já; antes, quero voltar ao problema do ruído mais especificamente (o primeiro sintoma do qual falei acima).
Somos um grande mundo ridículo e falastrão. Decorrente dessa falação, um ruído infernal toma conta do dia a dia. O silêncio, às vezes, é um dos maiores indicativos de maturidade, não só de uma pessoa, mas de uma civilização.
Estou falando isso por conta de um breve ensaio que caiu na minha mão esses dias, parte integrante do volume "Best American Essays 2013", editado por Cheryl Strayed.
O ensaio ao qual me refiro foi escrito pela prêmio Nobel Alice Munro e chama-se "Night". Nele, a autora conta a operação que fez quando criança para tirar o apêndice e uma "coisa do tamanho de um ovo de peru". Munro compara o comportamento atual diante de casos como o dela e o comportamento de seus pais na época. A conclusão é que hoje se falaria como o diabo do risco que ela corria na época. Mas, ao contrário, pouco se falou do assunto, "respeitando o medo" sem falação. Conta Munro que, nessa época, ela dormia num beliche com sua irmã mais nova (moravam numa espécie de granja), e que numa noite olhou para a irmã e pensou em sufocá-la.
A partir daí, não conseguia mais dormir, pensando no ímpeto que tivera de matar sua irmã. Numa das manhãs seguintes a suas noites de insônia, encontrou com seu pai, todo vestido chique, saindo de casa de manhã muito cedo. Contou para ele o que pensara e o horror que sentira.
Seu pai simplesmente lhe disse que esquecesse aquilo e que essas coisas passam. Depois, adulta, lembra como o modo simples de falar do pai a acalmou profundamente. A pequena Alice nunca mais teve insônia.

Na sequência, a prêmio Nobel comenta que nunca perguntara ao pai para onde ele ia tão cedo e tão elegante. Perguntou-se se ele ia ao banco renegociar a dívida da família ou ver a mulher que amava, mas com quem não podia ficar porque amava sua família... Silêncio. Nem uma linha de rancor. Hoje, escreveriam uma tese sobre como seu pai poderia ter sido um homem desatento ou, quem sabe, infiel. Ao lembrar do seu pai no momento do reconhecimento em que recebera o prêmio, Munro pensa em como ele teria ficado orgulhoso de sua pequena filha insone.
Nessas horas, tenho saudade do passado e lamento como nos transformamos em adolescentes barulhentos que se levam demasiadamente a sério.
O segundo autor que quero comentar é Edmund Wilson, um dos últimos críticos literários, segundo Paulo Francis, a enfrentar a literatura sem se esconder atrás de grandes teorias abstratas (que se querem "concretas").
No volume editado por Francis pela Companhia das Letras em 1991, "Onze Ensaio - Literatura, Política, História", esgotado, aparece sua "visão de mundo": a história é um longo processo através do qual as civilizações se devoram, criando e destruindo, em círculos, indo para lugar nenhum. Concordo.
Pura coragem intelectual, que tanto faz falta hoje, nesta época de líderes adolescentes que creem em Woodstock como modelo de sociedade.

Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, "Contra um mundo melhor" (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".


Artigo publicado  Folha de S.Paulo

sábado, 19 de outubro de 2013

100 ANOS DE VINICIUS DE MORAES.



Soneto de separação
 (Vinicius de Moraes)

 De repente do riso fez-se o pranto
 Silencioso e branco como a bruma
 E das bocas unidas fez-se a espuma
 E das mãos espalmadas fez-se o espanto

 De repente da calma fez-se o vento
 Que dos olhos desfez a última chama
 E da paixão fez-se o pressentimento
 E do momento imóvel fez-se o drama

 De repente não mais que de repente
 Fez-se de triste o que se fez amante
 E de sozinho o que se fez contente

 Fez-se do amigo próximo, distante
 Fez-se da vida uma aventura errante

 De repente, não mais que de repente.

domingo, 13 de outubro de 2013

UM POEMA DE SÉRGIO MACEDO



QUANTO MAIS, NADA! POEMA PRA MULHER AMADA
Sérgio Macedo

Quanto menos te vejo,
Mais tenho medo de perder a saudade,
Mais tenho medo da quarta feira de cinzas,
Deposta em minhas fantasias.

Quanto mais te perco,
Menos tempo tenho a perder
A ti,
Quanto mais envolvo à alma em teus fantasmas,
Mas procuro o lenço e o lençol,
Manchado do que eu queria fosse teu, tu.

Mais o pensamento vagueia perdido no dia,
Mais a noite alonga a fila de fantasmas desesperançados,
Mais afina a estrada, a entrada, a saída.

Mais a sensação de perda se apresenta,
Mais o terror me espanta,
Mais o terror me serve de acalanto,
Perceba o pranto d´alma.

Quanto mais te perco, menos me encontro.
Quanto mais ando, mais ando e não chego
Quanto mais o dia amanhece, mais anoiteço,
Quanto mais o dia amanhece, mais finda o espaço.

Quanto mais te vejo, mais cresce a distância
Mais meus olhos e braços encurtam o alcance
Mais teus olhos míopes a mim me cegam.

Tempos caminham em diferentes estradas
Passam em dias ou milênios,

Canso-me verdadeiramente com o pouso do rebelde
De peito aberto e arma em punho,
Apenas um ator de raras cenas


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

12 de OUTUBRO - Dia das Crianças e dos que se Recusam a Deixar de Ser Criança!


 LAMENTO AO VENTO
 Diogo Fontenelle
 Para Mirian Carlos, a mestra que não se esqueceu de ser menina.

 A Infância passou pelos moinhos de sombras dos meus olhos tristonhos
 Em rendilhas e arabescos de luz pelos telhados do antigo casarão...
 Eu fui à Espanha buscar o meu chapéu azul e branco de sonhos!...
 Era uma vez, um menino marujo preso numa bolha dourada de sabão,
 Era uma vez, um soldadinho de chumbo em marcha pelo caderno escolar,
 Era uma vez, um pequeno flautista a dançar pelos jardins de abril,
 Era uma vez, um carrossel de lata a voejar pelo céu anil de Calcutá,
 Era uma vez, uma doce e distante canção de ninar para um órfão febril,
 Era uma vez, um circo oriental a tilintar por um domingo em prece,
 Era uma vez, uma Noite de Natal esquecida num livro de poesia,
 Era uma vez, uma aventura a escorrer por um folhetim de quermesse,
 Era uma vez, uma tarde bordada por fios de sol numa praia em sinfonia,
 Era uma vez, um grão-vizir de Alexandria a velejar um barquinho de papel,
 Era uma vez, o Pirata dos Tempos que roubou a arca da minha Infância...
 Ergueu muralhas de solidão pelos marulhos do meu peito menestrel,
 E vestiu-me de gente grande a inundar meu coração de infinda ânsia... 


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA 2013


A canadense Alice Munro venceu nesta quinta-feira (10) o Prêmio Nobel de Literatura 2013, informou a Academia Sueca, que a classificou como "mestre do relato curto contemporâneo". Munro, destacou a Academia em sua decisão, é consagrada por seu "harmonioso estilo de relatar, que se caracteriza por sua clareza e realismo psicológico".
Considerada por alguns críticos como "a Tchecov canadense", a escritora, nascida em 1931 em Wingham, na província de Ontário, é conhecida por suas histórias breves e publicou várias coleções ao longo dos últimos anos.
Munro, que chegou a estudar jornalismo e inglês, abandonou a universidade ao se casar. A escritora escreveu suas primeiras histórias na adolescência, mas publicou sua primeira obra, Dance of the Happy Shades (Dança das Sombras Felizes, em tradução livre), em 1968. No Brasil, a Companhia da Letras publicou seus livros Amor de uma boa mulher, Felicidade demais e Fugitiva, e a Editora Globo lançou Ódio, amizade, namoro, amor, casamento.
Suas obras costumam ter como cenário pequenas cidades onde a luta por condições de vida aceitáveis provoca em algumas ocasiões conflitos morais. O valor do prêmio é de milhões de coroas suecas (R$ 2,8 milhões) e o vencedor do ano passado foi o chinês Mo Yann.

sábado, 5 de outubro de 2013

DE "SENDAS DO SACRÁRIO



ADAGA - HERMÍNIA LIMA

 Ah! Essa adaga em riste
 a retalhar-me as carnes.
 E o estorvo de erguê-la
 pensando em tuas mãos ensanguentadas.

 Ah! O dissabor de saber
 o azul da tarde tingido
 pelo carmim do golpe
 e pelo talhe no sonho.

 Ah! A alegria insistente
 que traz da mesma adaga outra imagem,
 a retalhar-me o grito do espasmo cintilante
 chovendo sobre almofadas.

 Ah! Esse poder fálico revelado,
 trazendo o riso e a gratidão da alma...
 E o prazer de vê-la,
 pousada, em repouso,

 após a glória do bom-combate.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

UM OLHAR SOBRE CARLOS D'ALGE - GISELDA MEDEIROS



O Objeto Ausente

                    O prestigiado Escritor, Ensaísta, Poeta, Jornalista e Professor Carlos D’Alge vem de lançar, em elegantíssima noite no Centro Cultural Oboé, mais um de seus livros. Trata-se, agora, de O Objeto Ausente (Fortaleza, Editora ABC, 2003), obra que nos chega não para provocar polêmica, mas para provar e comprovar o talento desse homem que, sendo grande, bem maior se tornou pela coragem de levar a público seus dramas pessoais, desnudando-se completamente, deixando sobre si apenas a túnica da verdade, esta que o conduz durante todo o processo narrativo da obra.
                   Quem teve ou ainda tem o prazer de compartilhar da amizade de Carlos D’Alge, e beber dele a sabedoria e a experiência advindas do manancial de sua inteligência, pode julgar-se verdadeiramente um privilegiado. 
                   Sendo ser humano em toda a extensão do termo, não poderia ele, porém, passar incólume sobre este chão pedregoso da vida, sem ferir-se e, em assim sendo, ferir também, embora de maneira involuntária, aqueles que lhe estiveram ou lhe estão ao redor. Entretanto, jamais permitiu que ninguém ultrajasse com gestos ou palavras as pessoas que ama, pois o seu caráter, a sua formação ética falam muito mais alto que toda a pequenez dos invejosos.
                   Neste livro, Carlos D’Alge afirma, mais uma vez, que a sua escrita é uma verdadeira epifania, na qual ele se vai doando, em festa, ao banquete do leitor. E quanto mais se o vai lendo mais gostoso vai sendo o ato da leitura, isto por que o seu texto viabiliza o conhecimento de si, do outro e do mundo. Profundamente cuidadoso na linguagem, que aparece supimpamente trabalhada, ele demonstra ainda maior a discrição em não revelando nome das pessoas envolvidas em sua trama amorosa, evitando desse modo qualquer constrangimento para as personagens.
                   Seu drama não é menor nem maior que o de muita gente. Por isso, o leitor vai, aqui e ali, identificando-se com particularidades das vivências do autor, mesmo por que quem nunca se deixou levar pela ardência de uma paixão? Quem nunca teve de tomar decisões que a outrem pareceriam pura loucura? Se ainda não, certamente fá-lo-ão um dia. Eis por que concordamos com ele quando diz: Sem paixão não existimos, deambulamos, e só.
                   Mas, o livro não trata apenas da narrativa de seus amores, de suas paixões,  das crises de depressão que o atormentaram, das doenças, da dissolução matrimonial. Há a história de uma vida coroada de êxito, de uma vida dedicada ao trabalho, à literatura, ao jornalismo, aos amigos que fez nesta terra de Iracema, à família. É uma maneira que ele encontrou para dar satisfações suas ao leitor, dentro daquele princípio que sempre lhe norteou a vida, ou seja, o de fugir à mentira, ao fingimento, às especulações dos que alardeiam um falso moralismo. Carlos D’Alge é transparente e, de conformidade com Adélia Prado, coloca o sentimento “como a coisa mais fina do mundo”. Como artista que o é, não poderia ser diferente. Escrever é um ato de verdadeira entrega ao sentimento, e é este que move as pessoas, que dá colorido ao mundo, que torna poética a vida. Só a beleza salvará o mundo, diz Dostoievski.
                   Enfim, Carlos D’Alge, munido do prazer aliciante da palavra, constrói em O Objeto Ausente um mundo onde a sinceridade se faz presente em todos os sentidos, e a verdade se planta em todos os ventos que, alvissareiros, vão-lhe invadindo o coração numa canção de amor à vida, buscando o objeto amado que se fez ausente na fúria dos desencontros e conflitos humanos.
                   E, para concluir esta modesta apreciação, lembramos-lhe o patrício Fernando Pessoa: “Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes”. Assim é Carlos D’Alge.

Giselda Medeiros - in Crítica Reunida


domingo, 22 de setembro de 2013

SONETO PARA MEU PAI - GISELDA MEDEIROS



(à memória de meu pai, Jorge Francisco de Medeiros)


                        Era pequena, pai, mas te recordo
                        A voz bondosa como me falasse...
                        Ah, com que gosto, ainda, quando acordo,
                        Tua carícia sinto em minha face.

                        Não me viste crescer, ó pai! Não viste
                        Em minha vida a primavera abrir-se...
                        Te foste muito antes, e foi triste
                        Crescer sem teu amparo definir-se.

                        Cresci, é bem verdade, e, hoje, poeta
                        Da lágrima, do amor abençoado,
                        Quero fazer-te um verso. E, assim, repleta

                        De inspiração, de amor, de suavidade,
                        Genuflexa, te entrego, ó pai amado,

                        Este meu verso cheio de saudade!

domingo, 15 de setembro de 2013

A CRÍTICA DE GISELDA MEDEIROS - DIMAS MACEDO



                         A expressão da crítica literária cearense e a sua inserção na cultura brasileira é uma das nossas tradições mais afortunadas. O pioneirismo de Rocha Lima (1855-1878) e do seu clássico Crítica e Literatura (São Luiz/MA, Typografia do Paiz, 1878) me parecem exemplos que se bastam a remarcar essa tradição e essa tenacidade, próprias da nossa inteligência criadora.
E como se isso não bastasse, Araripe Júnior, ainda no século dezenove, se encarregaria de dar à literatura brasileira o seu definitivo estatuto no terreno da crítica. E bem assim os rumos que esse gênero literário tomaria entre nós.
Depois, eu colocaria o papel relevante das Cartas Literárias (Rio, 1895) de Adolfo Caminha, o engenho crítico e a argúcia intelectiva de Frota Pessoa (Crítica e Polêmica, 1902), a essencialidade do exercício crítico de Braga Montenegro, as intuições estruturalistas de F. S. Nascimento e o recorte estético de acento indiscutivelmente teórico que permeia a produção de Pedro Paulo Montenegro.
A chamada crítica literária de formação acadêmica tem no Ceará se desenvolvido com algum desassombro. Lembro, aqui, os nomes de Linhares Filho, Batista de Lima, Lemos Monteiro e Sânzio de Azevedo, e ponho em destaque mais especificamente o nome deste último, que é, como sabemos, o maior historiador da nossa literatura. E trago à discussão também os nomes de alguns poetas que exerceram ou exercem, entre nós, a crítica literária de uma forma mais acentuada. Aluisio Medeiros, Francisco Carvalho e José Alcides Pinto entre esses nomes a que me refiro.
Agora, quem aspira a inscrever-se nessa tradição afortunada, é a escritora Giselda Medeiros, uma das mais argutas expressões da nossa intelectualidade e do nosso tirocínio cultural e acadêmico. E aspira a inscrever-se nessa tradição com a reunião, em livro, dos seus artigos de crítica, escritos nos últimos anos e pulverizados em diversos veículos da imprensa e em espaços outros onde se fez presente com a sua inteligência iluminada e a sua sensibilidade indiscutivelmente criativa.
Giselda já firmou definitivamente o seu nome como poetisa e já se revelou, de permeio, como uma das nossas contistas mais imaginosas. Contista da condição humana e do imponderável, onde Eros e Tanatos se abraçam. Poetisa também de escol, que paga tributo à lírica e à arte literária de qualidade estética relevante. Crítica Reunida é o livro da sua diversidade e do seu engenho sofisticado e mais ambicioso. Sei que falar em ambição, no caso de Giselda, é agredir um pouco à sua sensibilidade e à sua leveza. Mas a sua ambição literária se fez exatamente contra a sua vontade, e se fez exatamente a partir da sua discussão e da sutilidade com que dissemina no texto que elabora as marcas inconfundíveis do seu tirocínio teórico.
Não raro nos seus textos, faz-se presente o sistema literário e o contexto teórico em que insere o postulado das suas recensões, as quais saltam aos olhos do leitor como testemunho da erudição da autora. Não faz Giselda política de jornalismo literário tão-somente. Mais do que isso, ela nos mostra o seu viés estético e as suas linhas maiores de pesquisa em busca das formas supremas da arte literária.
A leitura para Giselda é um pretexto e não uma contingência aleatória. E o texto de crítica que a autora elabora é mais que uma instância comunicativa de acento verbal, pois nele se agrega igualmente um valor e, não raro, um sentido filosófico e uma perspectiva ontológica muito proveitosa. E esses traços, me parece, é tudo o que remarca o seu estilo e a sua discussão, a sua engenharia lingüística e a sua busca incessante de conhecimento.
Para Giselda Medeiros, a crítica literária é metacriação e não apenas desvelamento e argúcia para com a intelecção do texto literário. E dessa forma a autora nos vai revelando a poética da crítica literária que empreende, isto é, faz da estética do seu texto o pano de fundo das suas intenções e dos seus grandes acertos no campo literário.
O que destacar no seu novo livro? Creio que tudo em Crítica Reunida está sincrônico com o pensamento literário de Giselda e com a expectativa do leitor que dele se acerca. O livro condensa um conjunto de recensões e ensaios de diversas épocas e oportunidades. Mas em todos os textos reunidos, é possível vislumbrar a maturidade de Giselda Medeiros, a sua argúcia literária, a sua austeridade acadêmica, o seu vigor criativo e, acima de tudo, a sua possessão estilística e as marcas inconfundíveis do seu talento e da sua indiscutível leveza, em busca das formas puras da comunicação.
O rigor metodológico está presente em Crítica Reunida como em nenhum outro livro de crítica publicado no Ceará nos últimos anos. Existem no livro referências bibliográficas de monta, alinhamento de uma bibliografia no final do volume e um índice onomástico que facilita em muito a consulta de cada um dos textos ou a localização do discurso teórico no qual Giselda apoiou as suas conclusões e ou seus pontos-de-vista.
Louvo, por fim, a decisão da autora de assumir, de público, a maternidade desse novo gênero literário, e a decisão também de incorporá-lo, definitivamente, ao estuário da sua multifacetada visão. Giselda não é escritora de poucos recursos literários. É proprietária de sonhos e de um patrimônio literário que todo o Ceará já aprendeu a cultuar. Que seja assim também o destino e a recepção deste indispensável Crítica Reunida.

Dimas Macedo

Membro da Academia Cearense de Letras

domingo, 1 de setembro de 2013

HOMENAGEM A ARTUR EDUARDO BENEVIDES, NA SOCIEDADE AMIGAS DO LIVRO



As anfitriãs deste mês de agosto, Giselda Medeiros e Neide Azevedo Lopes, da Sociedade Amigas do Livro, prestaram uma significativa homenagem a Artur Eduardo Benevides, Príncipe dos Poetas Cearenses, em razão de seu nonagésimo aniversário.
Inicialmente, Neide Azevedo leu sua biografia (resumida). Em seguida, Giselda Medeiros apresentou uma apreciação sua sobre o livro "Elegia Setentã e Outros Poemas de Entardecer".

Neide Azevedo Lopes

BIOGRAFIA DE ARTUR EDUARDO BENEVIDES

ARTUR Eduardo BENEVIDES - Nasceu em Pacatuba, 25 de julho de 1923, filho de Artur Feijó Benevides e Maria do Carmo Eduardo Benevides. Fez os preparatórios no Colégio São Luís e no Liceu, bacharelando-se em 1947 pela Faculdade de Direito do Ceará. Bacharel em Letras (1970). Presidiu o Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua e a Sociedade Acadêmica de Cultura Iniciou-seno jornalismo (“Correio do Ceará”, “Unitário”, “O Povo”, “O Nordeste”). Um dos fundadores do Grupo Clã, de cuja revista foi assíduo colaborador. Também escreveu em “Valor”. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia do Ceará. Diretor da Faculdade Católica de Filosofia. Professor titular da Universidade Federal do Ceará. Dirigiu o Departamento Regional do SENAC (Serviço de Aprendizagem Comercial) e o Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Rosário (Argentina). Príncipe dos poetas cearenses, a partir de 1985. Foi Diretor da José de Alencar. Ocupou o cargo de Chefe da Procuradoria da extinta LBA (Legião Brasileira de Assistência) no Ceará. Visitou grandes universidades européias (Oxford, Colônia, Bonn, Sorbonne, Lisboa), em todas colhendo observações práticas sobre currículos e orientação pedagógica. Participou do 1 Congresso Internacional de Escritores, do II Congresso Brasileiro de Escritores, dos Congressos Cearenses de Escritores e de Poesia.

Titular da cadeira n° 40 (patrono: Visconde de Sabóia), coube-lhe a honra de presidir a instituição no seu centenário, fazendo realizar programação comemorativa de alto nível. Portador de numerosas condecorações e medalhas, entre elas a do Mérito Cultural da Universidade Federal do Ceará, a Justiniano de Serpa (por serviços prestados à educação), a José de Alencar (pelos serviços prestados às letras e artes cearenses), a de Honra ao Mérito do SENAC (por sua colaboração à melhoria do ensino técnico-profissional no Brasil) e a Cidade de Fortaleza (concedida pela Câmara Municipal da capital cearense). Da Academia Cearense de Língua Portuguesa, da Academia Cearense de Retórica.
Membro correspondente da Academia Cearense de Ciências, Letras e Artes do Rio de Janeiro. Sua bibliografia é valiosa, reunindo importantes premiações; estreou em 1944 com os poemas de Navio da Noite; vieram depois Os Hóspedes (1946, em parceria com Aluísio Medeiros, Antônio Girão Barroso e Otacílio Colares). Outros livros de poesia: A Valsa e a Fonte (1950); Cancioneiro da Cidade de Fortaleza (1953); O Habitante da Tarde (1958); O Tempo; O Caçador e as Cousas Longamente Procuradas (1966); Canção da Rosa dos Ventos (1966);-O Viajante da Solidão (1969); Vida de Andarilho (1974); Elegias de Outono e Canção de Muito Amar e de Adeus (1974); Arquitetura da Névoa (1979); A Rosa do tempo ou o Intérmino Partir (1981); Sonetos à Beira-Mar e Elegias do Espaço Imaginário (1981), e Inventário da Tarde (1983), afora outros. Como ensaísta, publicou: A Lâmpada e os Apóstolos (1982); Universidade e Humanismo (1971); Uma Vida a Serviço da Cultura (1973); Idéias e Caminhos (1974); Evolução da Poesia e do Romance Cearense (1976); O Tema da Saudade na Poesia Luso-Brasileira (1979); Literatura do Povo: Alguns Caminhos (1980), e Camões - Um Tema Brasileiro (1983). Também se incluem na sua produção os contos de Caminho sem Horizonte (1958), a Antologia de Poetas Bissextos do Ceará (1970) e obras sobre educação. Detentor dos prêmios “Cassiano Ricardo”, de São Paulo; “Filgueiras Lima, do Ceará; “Farias Brito”, da Prefeitura Municipal de Fortaleza; “José Albano”, da Universidade Federal do Ceará, e “José Veríssimo”, da Academia Brasileira de Letras.Fonte:1001 Cearenses Notáveis-F. Silva Nobre.
Data de Nascimento:25/07/1923

Giselda Medeiros


Artur Eduardo Benevides
Um Artista Humano e Divino

              Heschel, em bela página do volume “Deus em Busca do Homem” (São Paulo: Ed. Paulinas, 1975), assim se expressa: “Poucos são capazes de se elevar em raros momentos sobre o próprio nível da terra. Mas é nesse momento que descobrimos que a essência da existência humana consiste em estar suspenso entre o céu e a terra”.
              Toca-nos esse pensamento definidor do poder encantatório da natureza, essência intrínseca do ser, quando terminamos de ler Artur Eduardo Benevides em “Elegia Setentã e Outros Poemas de Entardecer” (Fortaleza: Editora ABC, 1996).
              Com efeito, sentimos aflorar-nos a essência, suscitada pelo êxtase da Poesia, porque o Autor tem esse dom: o de nos colocar entre o céu do poema e a terra fecundada pelo sêmen da metáfora. Sabe ele nos conduzir a esse intermezzo, a esse paraíso suspenso, aonde vamos abeberar-nos do vinho sagrado e do pão, consubstanciados no Belo.
              Pelas trilhas de “Elegia Setentã”, visualizamos, com os olhos cheios de admiração, a vereda da poesia, onde nos deparamos com um guardador de metáforas e navegações ou um pobre D. Quixote a imitar a esperança de uns olhos de criança, enquanto ao longe, ouve-se o som da última parvana.
              Falar de Artur Eduardo Benevides é falar da própria poesia, pois é nele que ela encontra seu nascedouro e sua foz. É ela que o mantém em juventude para enlear-se à Amada, confundindo-se, inteiro, corpo e alma, n’uma lágrima pendente ou na divina tolice dos que amam, enfrentando, contudo, o plúmbeo tom do outono, quando os cabelos já tomam a cor das despedidas, pois seu maior temor é o de morrer longe dos olhos da Mulher Amada. E, embora reconhecendo os efeitos da marcha inexorável do tempo, que flui sobre tudo com fúria indomável, poeta que é, desabafa em seu “Segundo Soneto dos Setent’Anos”: Recuso-me, contudo, a envelhecer. / Um grande amor chegou. Por que morrer? / Por que sentir as cousas terminadas?, para, em seguida, aceitar a brutal realidade ontológica: “Não posso ser eterno. Sou tão pouco!
              O sonho, um dos temas sempre presente no universo criacional de Artur, ganha relevo especial no “Soneto dos Sonhos”, em que o poeta se define um ser onírico, reincidente, e, por força disso, eles (os sonhos) sempre voltam belos como as aves, a recompor os rumos mais perdidos. E o poeta sabe que sonhar é preciso, como reforça no “Soneto Autobiográfico” que, pela beleza sugestiva das imagens, chega-nos como uma tela fotográfica de si mesmo. E quem o conhece, sabe-a verdadeira e autêntica. Vejamos estes versos: O meu modo solene, o jeito vago, / A melódica forma de enfrentar / Os problemas, as lutas, o desar / E as outras cousas que em silêncio trago, / Nasceram quais nenúfares no mar, / Ou serenas visões de um grande lago. /.../ Habito etérea torre em decadência, / Mas essa é minha marca de existência. / O meu destino. Ou sorte. Ou meu fanal.
              A presença de Thanatos também é constante e traz ao “Elegia Setentã” um certo tom de desalento, pondo em evidência a condição indigente dos seres. No entanto, é ao pé do Amor e nos braços da Amada que ele se refaz e canta altíssono, como nestes versos de “Utopia”: Poeta e amante sendo, em mim o sentimento / Deixou de ser maré ou ímpeto de rio. / Mas sigo altivo e lanço longo desafio / A tudo o que em tristeza vem na voz do vento”. E arremata em “Improviso”: Ainda assim, Amada, ainda assim, / A Deus, agradecido, louvarei, / Porque, ao te encontrar, eu me encontrei.
              Aliás, a inelutabilidade da morte é para Artur um dos temas mestres, como o é para o universo de Rilke, que assevera: A Morte é grande. / Nós somos suas bocas ridentes: / se fala a Vida por nossa voz, / Ela, atrevida, soluça em nós. E é esse universo desconhecido da Morte, que nos oprime, o que nos faz pensá-la como infame criatura cheia de iras, a nos tolher inapelavelmente. E, quando mais queremos viver, eis que, de dentro de nós, ela salta com sua surda foice e nos interdita.
              Hegel considera a arte como um produto da fantasia e a vê como um dos fenômenos mais típicos do homem, sugeridos pela sua natureza espiritual. Portanto, para a expressão do Belo, é necessária, sobretudo, uma síntese de imaginação e sentimento, sob uma boa dose de talento, como é o caso de Artur Eduardo Benevides. Ele sabe, com mestria, transpor a arte do plano abstrato para o concreto. É um poeta fecundo, superdotado de inteligência, e sua arte é, por isso, autotranscendente. Sua poesia é um vértice de luz a projetar-se na eternidade dos tempos, superando a finitude do espaço físico. É um artista humano e divino, pois, efetivamente, sabe despertar em nós a “essência”, pondo-nos suspensos entre o céu e a terra.
              “Elegia Setentã e Outros Poemas de Entardecer” é, pois, genuína expressão da arte, ipsis litteris, constituindo-se um verdadeiro canto outonal, cujas notas marcantes são o amor, a saudade, o sonho, a melancolia, a solidão, a morte, o mar. O mar – esse guardião de espantos – que sempre atraiu o poeta e se transfigura nas noites do poema.
              É com essas notas musicais que Artur Eduardo Benevides tece sua canção setentã. E, enlevadas, as musas vêm roubar do tempo a eterna juventude para vertê-la sobre a fronte do Príncipe-Poeta, já ungida pelo beijo vivificante da Amada, que o envolve com sua paz de nuvens e canção.
 
Giselda Medeiros
SAL – 29/8/2013

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A FALA DE MARCELO GURGEL


Estórias Esculapianas
Em janeiro de 2008, animado pelo ímpeto ficcional, recém-estreado com o romance “Maquis: Redenção na França Ocupada”, comecei a escrever contos, um gênero literário bastante atrativo para quem escreve e igualmente atraente ao leitor.
Foi assim que contos, da minha lavra, foram se sucedendo, no conjunto da diversificada produção de um escrevinhador, tido como polígrafo, parte deles recorrendo à temática médica, como lastro das estórias.
Em dezembro de 2011, juntei em um só volume, contos que tratavam de conteúdos ou aspectos da Medicina, todos inéditos, sob o título Estórias Esculapianas, como aqui se mostra, e o apresentei ao VIII Edital de Incentivo às Artes, da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult-CE), inscrevendo-o na categoria de Contos.
Como qualquer produção do gênero, esta obra agrega experiência e criatividade, apontando para o fato de que a escrita traz à tona a emoção do autor, enredada em vivências pessoais, transmitidas ou testemunhadas. Ela reúne 17 contos, todos tendo como cenário a medicina, esta ambientada, principalmente, no Ceará, configurando situações hilárias ocorridas e levadas ao meu conhecimento.
Este livro, avalizado pela Secult-CE, como um dos ganhadores do VIII Edital retro-referenciado, teve o seu financiamento assegurado pelo Governo do Estado do Ceará, ao qual, penhoradamente, agradeço.
As ilustrações inclusas, uma para cada estória, conferem leveza e síntese da trama exposta, foram cuidadosamente desenhadas, a bico de pena, pelo Prof. Jesper, a quem presto o reconhecimento por seus claros méritos.
De princípio, sou muito grato à Profa. Giselda Medeiros, ilustríssima imortal das Academias Cearense de Letras e Fortalezense de Letras, presidente de Honra da AJEB e princesa dos poetas do Ceará, por seu apurado prefácio e por suas tão gentis palavras ao efetuar a apresentação neste lançamento.
Também o meu muito obrigado é dirigido à Expressão Gráfica, que se esmerou na impressão da obra, e, em especial, na estampa da sua capa, exibindo The Four Doctors (Os Quatro Doutores), uma pintura de John Singer Sargent, pertencente ao acervo da The Alan Mason Chesney Medical Archives of The Johns Hopkins Medical Institutions, de Baltimore (EUA).
Quero aqui ainda expressar a minha gratidão à Unicred Fortaleza, em especial aos seus diretores e aos funcionários do serviço de Marketing, que deram suporte ao lançamento da obra, propiciando, do melhor modo possível, espaço, logística e infraestrutura, requisitadas à execução do evento.
Tem-se que realçar aqui a prática pessoal de coibir a espera na costumeira fila de autógrafos, até o recebimento do livro, dispondo de uma etiqueta autografada pelo autor e colada na folha de rosto, contendo os seguintes dizeres: “Manifesto-me agradecido por seu interesse em relação a esta obra, cuja renda será revertida para as ações beneficentes e evangelizadoras da Sociedade Médica São Lucas.” Cordialmente,
Muito Obrigado!
Prof. Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Da Academia Cearense de Medicina e da Sobrames/CE

* Discurso proferido por ocasião do lançamento do livro “Estórias Esculapianas”, na Célula de Arte e Cultura da Unicred Fortaleza, em Fortaleza, em 23 de agosto de 2013.

Requintada, culturalmente, a festa de lançamento do livro "Estórias Esculapianas", do Dr. Marcelo Gurgel.


APRESENTAÇÃO DE ESTÓRIAS ESCULAPIANAS

Marcelo Gurgel, além de médico, economista, professor universitário, polígrafo, doutor em Saúde Pública e pós-doutor em Economia da Saúde, ainda encontra tempo e razões para se dedicar ao exercício da literatura. Isso não nos surpreende, porquanto sabemos que,  desde os primórdios dos tempos, Medicina e Arte se complementam e interagem na busca da beleza e da perfeição. Ambas se imbricam no interesse pela vida e na inquietação do ser humano. Hipócrates já defendia essa verdade, asseverando que a medicina, assim como a literatura, constitui-se uma arte, por envolver sempre três atores: o médico, o paciente e a doença.
Marcelo Gurgel faz parte desse privilegiado grupo, em que se misturam, harmoniosamente, o homem médico – aquele que convive com a realidade inerente à natureza humana: as doenças que põem em risco a vida; a morte, sempre a “indesejada das gentes”, em seus letais momentos, inexoravelmente a nos sugar; a loucura, o sofrimento, a angústia; o milagre do nascimento, tudo isso suscitando sentimentos, - e o homem artista, aquele que, reinventando a vida, recria um mundo em que podem conviver o bem e o mal, o louco e o sábio, o amor e o ódio, cada qual desempenhando o seu papel no teatro da vida, e, através da “arte verbal, passa a comunicar experiências inefáveis”.
Nas lides acadêmicas, Marcelo é sócio titular da Academia de Medicina e da Academia de Médicos Escritores. É membro da SOBRAMES-CE (Sociedade Brasileira de Médicos Escritores) e da Sociedade Médica São Lucas, afora outras instituições culturais. E, agora, vem engrossar as fileiras do conto cearense com Estórias Esculapianas, livro agraciado com o “Prêmio Literário Para Autor Cearense”, realizado pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, e que enfeixa contos, recriados no dia-a-dia médico. São estórias, ora envolvendo o esculápio, ora o próprio paciente, em situações engraçadas, narradas com leveza, correção, personalidade e, sobretudo, com o conhecimento técnico de quem é sabedor dos meandros da narrativa.      
Homem de mente privilegiada, dono de vastos conhecimentos, tanto no plano científico, como no literário, já tendo publicações nos gêneros: crônica, conto, ensaio literário, memorialismo, discurso, romance e teatro,  nesse seu livro busca interpretar a trajetória do ser em sua real condição humana, com suas dores, angústias, medos, sem deixar de ver o lado cômico da vida, intercambiando experiências. Atentemos, também, ao fato de que o médico e professor Marcelo Gurgel corrobora que escreve como uma forma de libertação e de superação desses elementos existencialistas adversos, imprimindo no leitor uma procura de paz e harmonia, manejando tão bem a linguagem, os diálogos, a nos mostrar o poder encantatório de dar às suas personagens de papel o sopro de vida. E, para modelar esta existência sofrida, introduz em suas narrativas uma receita espetacular: o hilário, o cômico que transmutam e transfiguram nosso humor.
Desse modo, Marcelo Gurgel busca aproximar medicina e literatura, porque esta o leva a imergir a águas mais profundas, de onde vem à tona mais humano, mais livre e mais revigorado.
Obrigada

Giselda Medeiros

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

CANÇÃO DA ESPERA - GISELDA MEDEIROS



                Passas.
                Teu vulto é um oásis
                onde quero aprender
                o ofício das areias
                nas longas noites
                em que as estrelas
                fiam fios finos
                de fluida luz.

                Teus passos na tarde
                ecoam ainda
                em minhas manhãs,
                alvacentas e lânguidas,
                como o marulho das vagas
                que ficaram para trás.

                Mas passas,
                indiferente e lento,
                sobre meus anseios
                com mãos enfeitadas de adeuses
                a romper em flores
                de esquecimento.

                E passas tão perto de mim
                e tão distante!
                Não conheces o mapa
                de meus arquipélagos
                nem sabes da beleza
                de meus profundos mares
                onde há conchas e corais
                em êxtase.

                Talvez um dia
                - um dia desses -
                quando pisares as névoas
                do meu tempo
                e sentires pesar o teu tempo,
                talvez, tu resolvas ficar
                no tempo dos meus domínios...

(DO LIVRO TEMPO DAS ESPERAS)

sábado, 10 de agosto de 2013

ESSE MILLÔR É DEMAIS!


Poesia Matemática

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

SALVE O ESCRITOR!


25 de julho - Dia do Escritor.
A ele nossa homenagem neste poema: 

O POEMA E A EMOÇÃO
Giselda Medeiros
  
                   Não quero que o poema que escrevo agora
                   Sacie a fome do poeta devorador de imagens.
                   Que minha palavra, antes que seja poema, mostre pontes,
Indícios, gestos de mãos a esculpi-lo, sangrando, sofrendo
Por entre o tremor do abandono dos dedos.
Quero que mostre o caminho árido das rugas, acelerando-a, ela, a palavra marcada pelo pulsar vermelho das arritmias,
Injetando sangue nas células do meu poema.

Ah, como quereria assistir a esse espetáculo:
emoção versus palavra, em que não há vencido nem vencedor,
apenas a fusão de todas as deidades – o verso universal que nos desperte, com seu ritmo de luz, ante o fascínio da terra, e nos faça ninar, ouvindo a voz náufraga e adormecida
de velhos poetas em suas canções de água e de espelhos.
            

quarta-feira, 24 de julho de 2013

PAPA FRANCISCO PROFERE LINDA HOMILIA EM APARECIDA


Venerados irmãos no episcopado e no sacerdócio,
Queridos irmãos e irmãs!

Quanta alegria me dá vir à casa de cada brasileiro, o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. No dia seguinte à minha eleição como Bispo de Roma fui visitar a Basílica de Santa Maria Maior, para confiar a nossa Senhora o meu ministério como sucessor de Pedro. Hoje, eu quis vir aqui para suplicar à Maria, Nossa Mãe, o bom êxito da Jornada Mundial da Juventude e colocar aos seus pés a vida do povo latino-americano.

Queria dizer-lhes, primeiramente, uma coisa. Neste santuário, seis anos atrás, quando aqui se realizou a 5ª Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, pude dar-me contra pessoalmente de um fato belíssimo: ver como os bispos --que trabalharam sobre o tema do encontro com Cristo, discipulado e missão-- eram animados, acompanhados e, em certo sentido, inspirados pelos milhares de peregrinos que vinham diariamente confiar a sua vida a Nossa Senhora: aquela Conferência foi um grande momento de vida de Igreja. E, de fato, pode-se dizer que o Documento de Aparecida nasceu justamente deste encontro entre os trabalhos dos Pastores e a fé simples dos romeiros, sob a proteção maternal de Maria. A Igreja, quando busca Cristo, bate sempre à casa da Mãe e pede: "Mostrai-nos Jesus". É de Maria que se aprende o verdadeiro discipulado. E, por isso, a Igreja sai em missão sempre na esteira de Maria.

Assim, de cara à Jornada Mundial da Juventude que me trouxe até o Brasil, também eu venho hoje bater à porta da casa de Maria, que amou e educou Jesus, para que ajude a todos nós, os Pastores do Povo de Deus, aos pais e aos educadores, a transmitir aos nossos jovens os valores que farão deles construtores de um País e de um mundo mais justo, solidário e fraterno. Para tal, gostaria de chamar à atenção para três simples posturas: Conservar a esperança; deixar-se surpreender por Deus; viver na alegria. Conservar a esperança. A segunda leitura da Missa apresenta uma cena dramática: uma mulher - figura de Maria e da Igreja - sendo perseguida por um Dragão - o diabo - que quer lhe devorar o filho. A cena, porém, não é de morte, mas de vida, porque Deus intervém e coloca o filho a salvo (cfr. Ap 12,13ª. 15-16ª). Quantas dificuldades na vida de cada um, no nosso povo, nas nossas comunidades, mas, por maiores que possam parecer, Deus nunca deixa que sejamos submergidos. Frente ao desânimo que poderia aparecer na vida, em quem trabalha na evangelização ou em quem se esforça por viver a fé como pai e mãe de família, quero dizer com força: Tenham sempre no coração esta certeza! Deus caminha a seu lado, nunca lhes deixa desamparados! Nunca percamos a esperança! Nunca deixamos que ela se apague nos nossos corações! O "dragão", o mal, faz-se presente na nossa história, mas ele não é o mais forte. Deus é o mais forte, e Deus é a nossa esperança! É verdade que hoje, mais ou menos todas as pessoas, e também os nossos jovens, experimentam o fascínio de tantos ídolos que se colocam no lugar de Deus e parecem dar esperança: o dinheiro, o poder, o sucesso, o prazer. Frequentemente, uma sensação de solidão e de vazio entra no coração de muitos e conduz à busca de compensações, destes ídolos passageiros. Queridos irmãos e irmãs, sejamos luzeiros de esperança! Tenhamos uma visão positiva sobre a realidade. Encorajemos a generosidade que caracteriza os jovens, acompanhando-lhes no processo de se tornarem protagonistas da construção de um mundo melhor: eles são um motor potente para a Igreja e para a sociedade. Eles não precisam de coisas, precisam sobretudo que lhes sejam propostos aqueles valores imateriais que são o coração espiritual de um povo, a memória de um povo. Neste Santuário, que faz parte da memória do Brasil, podemos quase que apalpá-los: espiritualidade, generosidade, solidariedade, perseverança, fraternidade, alegria; trata-se de valores que encontram a sua raiz mais profunda na fé crista.

Deixar-se surpreender por Deus. Quem é homem e mulher de esperança - a grande esperança que a fé nos dá - sabe que, mesmo em meio às dificuldades, Deus atua e nos surpreende. A história deste Santuário serve de exemplo: três pescadores, depois de um dia sem conseguir apanhar peixes, nas águas do Rio Parnaíba, encontram algo inesperado: uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Quem poderia imaginar que o lugar de uma pesca infrutífera, tornar-se-ia o lugar onde todos os brasileiros podem se sentir filhos de uma mesma Mãe? Deus sempre surpreende, como o vinho novo, no Evangelho que ouvimos. Confiemos em Deus! Longe d'Ele, o vinho da alegria, o vinho da esperança, se esgota. Se nos aproximamos d'Ele, se permanecemos com Ele, aquilo que parece água fria, aquilo que é dificuldade, aquilo que é pecado, se transforma em vinho novo de amizade com Ele.

Viver na alegria. Queridos amigos, se caminhamos na esperança, deixando-nos surpreender pelo vinho novo que Jesus nos oferece, há alegria no nosso coração e não podemos deixar de ser testemunhas dessa alegria. O cristão é alegre, nunca está triste. Deus nos acompanha. Temos uma Mãe que sempre intercede pela vida dos seus filhos, por nós, como a rainha Ester na primeira leitura (cf. Est 5,3). Jesus nos mostrou que a face de Deus é a de um Pai que nos ama. O pecado e a morte foram derrotados. O cristão não pode ser pessimista! Não pode ter uma cara de quem parece num constante estado de luto. Se estivermos verdadeiramente enamorados de Cristo e sentirmos o quanto Ele nos ama, o nosso coração se "incendiará" de tal alegria que contagiará quem estiver ao nosso lado. Como dizia Bento XVI: <


Queridos amigos, viemos bater à porta da casa de Maria. Ela abriu-nos, fez-nos entrar e nos aponta o seu Filho. Agora Ela nos pede: "Fazei o que Eles vos disser" (Jo 2,5). Sim, Mãe nossa, nos comprometemos a fazer o que Jesus nos disser! E o faremos com esperança, confiantes nas surpresas de Deus e cheios de alegria. Assim seja.

24 de julho de 2013