terça-feira, 19 de outubro de 2010
DUAS ALMAS - Alceu Wamosy/RS
"Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
entra, e sob este teto, encontrarás carinho;
eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho!
Vives sozinha sempre e nunca foste amada...
A neve anda a branquear, lividamente, a estrada
e minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.
E amanhã quando a luz do sol doirar radiosa
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir de novo, ó nômade formosa!
Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha..."
terça-feira, 12 de outubro de 2010
PARA ESTE 12 DE OUTUBRO
Trovas de Tarcísio Fernandes / RN
Nestes tempos atuais,
o que mais vem-me à lembrança
é o exemplo de meus pais
e meus tempos de criança.
Nesta trova, em oração,
que, por Deus, será ouvida,
agradeço a proteção
da Senhora Aparecida.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
CONVITE
Dia 26 de outubro, às 19h, no Ideal Clube, ocorrerá o lançamento do meu livro ÂNFORA DE SOL.
Espero você lá, ok?
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
CONTEÚDO E CONTINENTE - Giselda Medeiros
Poeta,
de que barro,
de que águas,
de que matéria
vem tua rima,
se ela é tão rara
e embriaga as retinas
ávidas de pérolas,
e de luz, e de canções?!
Chove emoção com teu verso...
E tua poesia é azeite e lâmpada,
fio e teia, corda e harpa,
asa e vôo, luz e estrela,
água e rio,
pássaro que pousa
sobre o azedume da vida
soterrando espantos
e despertando mitos.
Tua poesia escorre sobre nós
como o orvalho sobre a pétala,
tão leve e cristalina...
Poeta, responde-nos:
de que barro,
de que águas,
de que matéria
vem tua rima,
se tua mão guia, no invisível espaço matinal,
o ritmo e a palavra
que começam a dançar nas madrugadas
envoltos no ciciar da brisa,
a explodir em versos sobre tua fronte?!
Tu cantas, Poeta,
a amargura da vida
com a mesma singeleza com que choras
o amor sonhado, encravado nas estrelas.
Teu é o território do sentimento.
Teu é o infinito que se abre para conter o sonho.
Teu é o canto da saudade
evolando nas asas do pássaro do amor.
Por isso, poeta, vem e dize-nos:
de que barro,
de que águas,
de que matéria, enfim, vem tua primorosa rima?!...
(de ÂNFORA DE SOL)
domingo, 5 de setembro de 2010
Histórias C7S - Ex-alunos
UM VATICÍNIO COMPROVADO
Giselda Medeiros
Àquela época, eu cursava no, então, Ginásio 7 de Setembro, o curso de admissão.
Era aquele um dia especial. A turma toda aguardava (alguns apreensivos, outros despreocupados) a entrada triunfal do Dr. Edilson Brasil Soárez.
Aula de Matemática. Professor Nertan. Assoma à porta da sala, com seu costumeiro gesto de rodar levemente a cabeça, o Diretor. Numa atitude cavalheiresca, pede licença ao professor. Abraçando, como que carinhosamente o enorme livro preto que sempre conduzia, aproxima-se da mesa. Faz a preleção costumeira aos alunos. Em seguida, inicia a entrega das redações. Ah, aquele era um momento muito aguardado! A curiosidade por saber a nota e, principalmente, receber das mãos do Diretor e ganhar dele qualquer elogio era um céu para nós, alunos.
E ele ia distribuindo, uma a uma, pelo número e pelo nome (sim, porque ele fazia questão de chamar seus alunos pelo nome).
Eu, timidamente, aguardava a minha vez de ser chamada. Os nomes iam-se sucedendo, e o meu não era chamado. Eu já suava frio e me debatia em angústias: tirei uma nota ruim – dizia baixinho para mim mesma.
Espichei o olhar para o livro preto e vi que havia, ainda, uma redação. E era a que ele pegava naquele momento. Tremi: só pode ter sido a pior da classe!
Foi quando ouvi o Diretor: “Número 1388, Giselda”. Levantei-me, entre assustada e ansiosa. Ele continuou: “Após a aula, vá ao meu gabinete”. E não me entregou a redação.
Não prestei mais atenção à aula que continuara. Mil pensamentos me rondavam, insistentemente. Nunca tirara nota abaixo da média. Seria aquela a primeira?
Ao término da aula, apanhei minha bolsa e saí rumo à Diretoria. O caminho, que era curto, pareceu-me uma eternidade.
Entrei e sentei-me timidamente, à sua frente. E qual não foi minha alegria quando vi estampar-se no rosto do Diretor um sorriso amigo e confiante. Relaxei. Ninguém abre um sorriso para dar notícia ruim. Foi quando ouvi elogios à minha redação.
Do que ele falou ficou em mim, forte e muito nítida, uma frase que me norteou vida afora e que me levou a me exercitar mais na leitura e na escrita.
Ainda hoje lembro-lhe o tom da voz e o olhar sorridente, não mais de um Diretor, mas de um pai, feliz, ante a vitória de um filho:
Um dia, você será escritora!
domingo, 29 de agosto de 2010
SE EU PUDESSE... - Giselda Medeiros
Ah! se eu pudesse ir além das estrelas,
atravessar a nado o oceano inteiro,
sorver os néctares abundantemente
e me tornar a rosa mais viçosa...
Se eu pudesse entrar no teu enigma,
vasculhar teus horizontes submersos,
cantar tua canção
e me inspirar nas rimas do teu coração.
Se eu pudesse...
Ah, se eu pudesse arrancar de mim estes tédios longos,
beber as fantasias que de teus olhos fluem...
Ah! Seria eu a eterna voz dos ventos,
o frescor deliciante das campinas verdes,
o brilho incomunal dos etéreos astros,
a mais romântica canção de amor.
Assim, então, eu poderia te alcançar um dia,
e tu saberias do porquê destes meus versos,
da minha ansiedade, das minhas inquietudes,
das minhas fruições, dos meus desejos reprimidos,
e, em explosões de notas místicas, dir-te-ia meu coração:
"Como eu te amo! Ah! Como eu te amo ainda!"
(do livro Alma Liberta)
terça-feira, 17 de agosto de 2010
AS PRIMEIRAS LÁGRIMAS - J. Udine - 15-08-2010
Logo ao nascer, para esse mundo adverso,
Levei palmadas p'ra abrir os pulmões:
O Choro foi o meu primeiro verso,
Em dor e lágrimas, aos borbotões...
Minhas primeiras lágrimas, copiosas,
Inundaram o meu rosto edemaciado
Como se fossem perfumadas rosas
Em seu orvalho brilhante e irisado...
Hoje, com o passar do tempo auroral,
Secou a fonte de água, lacrimal,
Que jorrava dos meus piedosos olhos...
O mundo pérfido, com seus horrores,
Roubou-me as lágrimas, e infundiu-me dores,
Ao coração, que sangra em seus abrolhos.
Levei palmadas p'ra abrir os pulmões:
O Choro foi o meu primeiro verso,
Em dor e lágrimas, aos borbotões...
Minhas primeiras lágrimas, copiosas,
Inundaram o meu rosto edemaciado
Como se fossem perfumadas rosas
Em seu orvalho brilhante e irisado...
Hoje, com o passar do tempo auroral,
Secou a fonte de água, lacrimal,
Que jorrava dos meus piedosos olhos...
O mundo pérfido, com seus horrores,
Roubou-me as lágrimas, e infundiu-me dores,
Ao coração, que sangra em seus abrolhos.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
TROVAS DE GISELDA MEDEIROS
Partiste... e aquele momento,
no tempo, tornou-se eterno
conflito do pensamento
num céu, que se fez inferno...
Beijar-te os olhos quisera,
naquele instante de amor,
no entanto a doce quimera
fez-se um dilúvio de dor.
Nesta existência sofrida
triste certeza me invade:
o sonho ardendo na vida,
e a vida a arder na saudade.
Diante do altar, rezando,
minha mãe chorava e ria...
Era a ternura aflorando
no cálice da Poesia!
Minha saudade, tem pena
deste meu verso tristonho...
Mas não me seques a pena
com que burilo meu sonho!
No cais da vida, à distância,
eu vislumbrei, na verdade,
doce, acenando-me a infância,
com o lenço azul da saudade!
Teus olhos, ardentes círios,
meus dias tornam risonhos;
e tuas mãos, brancos lírios,
vão modelando os meus sonhos!
Entre as águas deslizando,
sem direção definida,
eu vou, qual pedra, rolando
nas correntezas da vida...
Tu voltaste... e a tarde finda
em rubra aurora se fez...
E a velha lembrança, ainda,
acendeu tudo outra vez...
Tu me pediste um sorriso;
eu, somente uma canção...
Te dei mais que um paraíso;
tu me deste a ingratidão!
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
CANÇÃO DA ENTREGA
Deixa-me assim,
pequenina entre teus braços,
nesta paz de pedras adormecidas
a esperar as águas que virão
do teu mar.
Quero esta paz imensa de madrugada
que faz tremer meu verso,
mais nada.
Depois, o extremo...
Quero o fremir, o grito
que acenderá as luzes de poemas,
lírios despetalados.
Abrir-te-ei minha alma
- a corola -
e nela pousarás qual afoito colibri
na rosa
ao sopro da canção que te escrevi.
Aí, seremos água e fonte
e asas riscando os horizontes.
(do livro Tempo das Esperas)
sexta-feira, 30 de julho de 2010
sábado, 24 de julho de 2010
Um soneto e um poeta da Vanguarda Modernista, no Ceará
DESTINOS
Franklin Nascimento
Você gosta de mim e eu por você
Somente por você ao mundo vim.
E sofremos, amor... Não sei por que
O destino nos faz sofrer assim!...
No seu dúlcido olhar a gente lê
Uma tristeza atroz que não tem fim.
E no meu pobre olhar existe um quê
Que bem traduz a mágoa que há em mim...
E vamos pela vida assim seguindo,
À busca de um Ideal risonho e lindo,
Que, enfim, nem sei se havemos de tocar.
Mas se eu nunca for seu, nem você minha,
Velhinho, hei de pensar numa velhinha,
E você num velhinho há de pensar...
...João Abreu Franklin Nascimento. Nasceu em Fortaleza a 21 de abril de 1901.
Foi funcionário do Ministério da Viação, com exercício na Rede de Viação Cearense.
BIBLIOGRAFIA
Publicou, em 1927, em colaboração com Jáder de Carvalho, Sydney Neto e Mozart Firmeza, CANTO NOVO DA RAÇA, livro que foi bem acolhido pela crítica, tendo externado a seu respeito, dentre outros: Tristão de Ataíde, Antônio Sales, Ildefonso Falcão, Gastão Justa, Paulo Sarasate, as revistas Excelsior, Fon-Fon, e várias outras, do Ceará, do Rio e dos Estados.
Colaborou nas revistas Movimento, do Rio, sob a direção de Jorge Amado, e Revista Antropofágica, de São Paulo, onde pontificavam Raul Bopp, Mário de Andrade, Cassiano Ricardo.
Fundou, em Fortaleza, com Demócrito Rocha, Jáder de Carvalho, Mário de Andrade, Heitor Marçal e outros intelectuais novos e de valor, as revistas Maracá e Cipó de Fogo, vanguardeiras do movimento modernista.
Franklin Nascimento
Você gosta de mim e eu por você
Somente por você ao mundo vim.
E sofremos, amor... Não sei por que
O destino nos faz sofrer assim!...
No seu dúlcido olhar a gente lê
Uma tristeza atroz que não tem fim.
E no meu pobre olhar existe um quê
Que bem traduz a mágoa que há em mim...
E vamos pela vida assim seguindo,
À busca de um Ideal risonho e lindo,
Que, enfim, nem sei se havemos de tocar.
Mas se eu nunca for seu, nem você minha,
Velhinho, hei de pensar numa velhinha,
E você num velhinho há de pensar...
...João Abreu Franklin Nascimento. Nasceu em Fortaleza a 21 de abril de 1901.
Foi funcionário do Ministério da Viação, com exercício na Rede de Viação Cearense.
BIBLIOGRAFIA
Publicou, em 1927, em colaboração com Jáder de Carvalho, Sydney Neto e Mozart Firmeza, CANTO NOVO DA RAÇA, livro que foi bem acolhido pela crítica, tendo externado a seu respeito, dentre outros: Tristão de Ataíde, Antônio Sales, Ildefonso Falcão, Gastão Justa, Paulo Sarasate, as revistas Excelsior, Fon-Fon, e várias outras, do Ceará, do Rio e dos Estados.
Colaborou nas revistas Movimento, do Rio, sob a direção de Jorge Amado, e Revista Antropofágica, de São Paulo, onde pontificavam Raul Bopp, Mário de Andrade, Cassiano Ricardo.
Fundou, em Fortaleza, com Demócrito Rocha, Jáder de Carvalho, Mário de Andrade, Heitor Marçal e outros intelectuais novos e de valor, as revistas Maracá e Cipó de Fogo, vanguardeiras do movimento modernista.
terça-feira, 20 de julho de 2010
A BELEZA HUMANA
A Beleza Humana assim como o Encantamento Amoroso também possuem as suas diversas facetas, que se traduzem de forma própria com a circunstância e/ou com o tempo.
Há a BELEZA FÍSICA tão propagada e assediada na atualidade pela mídia, pelas academias e programas de nutrição...É própria e natural nos jovens e adultos, e buscada pelos "jovens de espírito".
Há a BELEZA QUE A AUTO-ESTIMA traz consigo... de cuidar-se física, afetiva e espiritualmente... de gostar de si mesmo, de suas qualidades e potencialidades... do Amar-se generosamente sem ser narcisista.
Há também a BELEZA DO APAIXONADO que leva consigo uma enorme energia afetiva refletida através do brilho do olhar, do encantamento pelo Outro, pela Vida, pelo trabalho, pela criatividade, pelo novo, enfim, por tudo que o "estado amoroso" pode nos proporcionar.
Há ainda a BELEZA DA MATURIDADE HUMANA, do equilíbrio emocional, da sensibilidade, da sensatez, do senso de justiça, da integridade interior, que ela, a Maturidade, traz como companheira.
Há a BELEZA DA SABEDORIA, Científica, Humana e Divina, que seduz todos que a possuem ou a buscam incansavelmente. Ela é que nem uma fonte d'água inesgotável, profunda, sempre viva e eterna.
E, finalmente, a BELEZA TRANSCENDENTE que os Místicos, os Poetas, os Cronistas, os Artistas trazem na sua aguçada percepção do que existe de encantador, mágico e infinito, na Vida e no Outro, no Mundo e na Humanidade.
JOSÉ WAGNER DE PAIVA QUEIROZ LIMA, Psicólogo/Jornalista/Escritor
domingo, 11 de julho de 2010
ACHEI ESSE TEXTO DE IVAN MARTINS MUITO INTERESSANTE
Ontem eu levei uma bronca da minha prima. Como leitora regular desta coluna, ela se queixou, docemente, de que eu às vezes escrevo sobre “solidão feminina” com alguma incompreensão.
Ao ler o que eu escrevo, ela disse, as pessoas podem ter a impressão de que as mulheres sozinhas estão todas desesperadas – e não é assim. Muitas mulheres estão sozinhas e estão bem. Escolhem ficar assim, mesmo tendo alternativas. Saem com um sujeito lá e outro aqui, mas acham que nenhum deles cabe na vida delas. Nessa circunstância, decidem continuar sozinhas.
Minha prima sabe do que está falando. Ela foi casada muito tempo, tem duas filhas adoráveis, ela mesma é uma mulher muito bonita, batalhadora, independente – e mora sozinha.
Ontem, enquanto a gente tomava uma taça de vinho e comia uma tortilha ruim no centro de São Paulo, ela me lembrou de uma coisa importante sobre as mulheres: o prazer que elas têm de estar com elas mesmas.
“Eu gosto de cuidar do cabelo, passar meus cremes, sentar no sofá com a cachorra nos pés e curtir a minha casa”, disse a prima. “Não preciso de mais ninguém para me sentir feliz nessas horas”.
Faz alguns anos, eu estava perdidamente apaixonado por uma moça e, para meu desespero, ela dizia e fazia coisas semelhantes ao que conta a minha prima. Gostava de deitar na banheira, de acender velas, de ficar ouvindo música ou ler. Sozinha. E eu sentia ciúme daquela felicidade sem mim, achava que era um sintoma de falta de amor.
Hoje, olhando para trás, acho que não tinha falta de amor ali. Eu que era desesperado, inseguro, carente. Tivesse deixado a mulher em paz, com os silêncios e os sais de banho dela, e talvez tudo tivesse andado melhor do que andou.
Ontem, ao conversar com a minha prima, me voltou muito claro uma percepção que sempre me pareceu assombrosamente evidente: a riqueza da vida interior das mulheres comparada à vida interior dos homens, que é muito mais pobre.
A capacidade de estar só e de se distrair consigo mesma revela alguma densidade interior, mostra que as mulheres (mais que os homens) cultivam uma reserva de calma e uma capacidade de diálogo interno que muitos homens simplesmente desconhecem.
A maior parte dos homens parece permanentemente voltada para fora. Despeja seus conflitos interiores no mundo, alterando o que está em volta. Transforma o mundo para se distrair, para não ter de olhar para dentro, onde dói.
Talvez por essa razão a cultura masculina seja gregária, mundana, ruidosa. Realizadora, também, claro. Quantas vuvuzelas é preciso soprar para abafar o silêncio interior? Quantas catedrais para preencher o meu vazio? Quantas guerras e quantas mortes para saciar o ódio incompreensível que me consome?
A cultura feminina não é assim. Ou não era, porque o mundo, desse ponto de vista, está se tornando masculinizado. Todo mundo está fazendo barulho. Todo mundo está sublimando as dores íntimas em fanfarra externa. Homens e mulheres estão voltados para fora, tentando fervorosamente praticar a negligência pela vida interior – com apoio da publicidade.
Se todo mundo ficar em casa com os seus sentimentos, quem vai comprar todas as bugigangas, as beberagens e os serviços que o pessoal está vendendo por aí, 24 horas por dia, sete dias por semana? Tem de ser superficial e feliz. Gastando – senão a economia não anda.
Para encerrar, eu não acho que as diferenças entre homens e mulheres sejam inatas. Nós não nascemos assim. Não acredito que esteja em nossos genes. Somos ensinados a ser o que somos.
Homens saem para o mundo e o transformam, enquanto as mulheres mastigam seus sentimentos, bons e maus, e os passam adiante, na rotina da casa. Tem sido assim por gerações e só agora começa a mudar. O que virá da transformação é difícil dizer.
Mas, enquanto isso não muda, talvez seja importante não subestimar a cultura feminina. Não imaginar, por exemplo, que atrás de toda solidão há desespero. Ou que atrás de todo silêncio há tristeza ou melancolia. Pode haver escolha.
Como diz a minha prima, ficar em casa sem companhia pode ser um bom programa – desde que as pessoas gostem de si mesmas e sejam capazes de suportar os seus próprios pensamentos. Nem sempre é fácil.
Ivan Martins é editor-executivo da ÉPOCA
Ao ler o que eu escrevo, ela disse, as pessoas podem ter a impressão de que as mulheres sozinhas estão todas desesperadas – e não é assim. Muitas mulheres estão sozinhas e estão bem. Escolhem ficar assim, mesmo tendo alternativas. Saem com um sujeito lá e outro aqui, mas acham que nenhum deles cabe na vida delas. Nessa circunstância, decidem continuar sozinhas.
Minha prima sabe do que está falando. Ela foi casada muito tempo, tem duas filhas adoráveis, ela mesma é uma mulher muito bonita, batalhadora, independente – e mora sozinha.
Ontem, enquanto a gente tomava uma taça de vinho e comia uma tortilha ruim no centro de São Paulo, ela me lembrou de uma coisa importante sobre as mulheres: o prazer que elas têm de estar com elas mesmas.
“Eu gosto de cuidar do cabelo, passar meus cremes, sentar no sofá com a cachorra nos pés e curtir a minha casa”, disse a prima. “Não preciso de mais ninguém para me sentir feliz nessas horas”.
Faz alguns anos, eu estava perdidamente apaixonado por uma moça e, para meu desespero, ela dizia e fazia coisas semelhantes ao que conta a minha prima. Gostava de deitar na banheira, de acender velas, de ficar ouvindo música ou ler. Sozinha. E eu sentia ciúme daquela felicidade sem mim, achava que era um sintoma de falta de amor.
Hoje, olhando para trás, acho que não tinha falta de amor ali. Eu que era desesperado, inseguro, carente. Tivesse deixado a mulher em paz, com os silêncios e os sais de banho dela, e talvez tudo tivesse andado melhor do que andou.
Ontem, ao conversar com a minha prima, me voltou muito claro uma percepção que sempre me pareceu assombrosamente evidente: a riqueza da vida interior das mulheres comparada à vida interior dos homens, que é muito mais pobre.
A capacidade de estar só e de se distrair consigo mesma revela alguma densidade interior, mostra que as mulheres (mais que os homens) cultivam uma reserva de calma e uma capacidade de diálogo interno que muitos homens simplesmente desconhecem.
A maior parte dos homens parece permanentemente voltada para fora. Despeja seus conflitos interiores no mundo, alterando o que está em volta. Transforma o mundo para se distrair, para não ter de olhar para dentro, onde dói.
Talvez por essa razão a cultura masculina seja gregária, mundana, ruidosa. Realizadora, também, claro. Quantas vuvuzelas é preciso soprar para abafar o silêncio interior? Quantas catedrais para preencher o meu vazio? Quantas guerras e quantas mortes para saciar o ódio incompreensível que me consome?
A cultura feminina não é assim. Ou não era, porque o mundo, desse ponto de vista, está se tornando masculinizado. Todo mundo está fazendo barulho. Todo mundo está sublimando as dores íntimas em fanfarra externa. Homens e mulheres estão voltados para fora, tentando fervorosamente praticar a negligência pela vida interior – com apoio da publicidade.
Se todo mundo ficar em casa com os seus sentimentos, quem vai comprar todas as bugigangas, as beberagens e os serviços que o pessoal está vendendo por aí, 24 horas por dia, sete dias por semana? Tem de ser superficial e feliz. Gastando – senão a economia não anda.
Para encerrar, eu não acho que as diferenças entre homens e mulheres sejam inatas. Nós não nascemos assim. Não acredito que esteja em nossos genes. Somos ensinados a ser o que somos.
Homens saem para o mundo e o transformam, enquanto as mulheres mastigam seus sentimentos, bons e maus, e os passam adiante, na rotina da casa. Tem sido assim por gerações e só agora começa a mudar. O que virá da transformação é difícil dizer.
Mas, enquanto isso não muda, talvez seja importante não subestimar a cultura feminina. Não imaginar, por exemplo, que atrás de toda solidão há desespero. Ou que atrás de todo silêncio há tristeza ou melancolia. Pode haver escolha.
Como diz a minha prima, ficar em casa sem companhia pode ser um bom programa – desde que as pessoas gostem de si mesmas e sejam capazes de suportar os seus próprios pensamentos. Nem sempre é fácil.
Ivan Martins é editor-executivo da ÉPOCA
quinta-feira, 8 de julho de 2010
PARA GISELDA, NA DATA DO SEU ANIVERSÁRIO - Lúcia Helena Pereira
VOCÊ, MINHA DILETA AMIGA, MINHA IRMÃ DO CORAÇÃO,
PARABENIZO PELO SEU ANIVERSÁRIO, DIA 14 PRÓXIMO.
BEM MAIS DO QUE UM ANIVERSÁRIO - A FESTA DA POESIA!
A POESIA LUMINOSA DA SUA INTELIGÊNCIA.
PARABÉNS AO CEARÁ DA SUA ILUSTRE ESCRITORA
A PRINCESA DOS POETAS DO CEARÁ,
AQUELA QUE JÁ IMORTALIZOU AS LETRAS FEMININAS DA TERRA.
PARAGÉNS, GISELDA MEDEIROS.
PARABÉNS MIL VEZES, POR SUA GRANDEZA E BELEZA,
POR SUAS VIRTUDES E ELEVADO CARÁTER.
EU TE AMO, GIGI!
LÚCIA HELENA PEREIRA
POETISA DAS FLORES
quarta-feira, 7 de julho de 2010
"te amarei eternamente e, depois..."
de ti, serei inteiro
sempre
corpo de tulipas
amoroso tigre
como tu apenas viu.
poeira
cinza
eu hei de estar ali
te aquecendo
anônimo
&
calado
dizendo para o amor triste
que teima que não mais existe,
que inda é
sem nunca ter estado.
há um olhar de mim
dois passos. seguindo
vasto campo de amor que vi.
sigo,
no descompasso da morte rara,
esse estar vivo e morrer em ti.
daufen bach.
(Blog: Omnia Vincit Amor)
domingo, 4 de julho de 2010
CONTEMPLAÇÃO
Acaso escutas um tropel insano,
que vai desvirginando as alvoradas,
e desce pelas tardes languescentes
até romper o útero da noite?!
Repara, olha, vê as alvas crinas
desse ginete posto em cavalgadas
indômitas e assaz apavorantes
diante de nós, humanos, e perplexos!
Pára um instante, sai de teu casulo,
contempla, tudo, tudo ao teu redor
como se fora tua última imagem.
Então compreenderás: é tão pequeno
e tão efêmero esse contemplar...
Por isso, sorve a vida inteiramente!
(De "Ânfora de Sol")
que vai desvirginando as alvoradas,
e desce pelas tardes languescentes
até romper o útero da noite?!
Repara, olha, vê as alvas crinas
desse ginete posto em cavalgadas
indômitas e assaz apavorantes
diante de nós, humanos, e perplexos!
Pára um instante, sai de teu casulo,
contempla, tudo, tudo ao teu redor
como se fora tua última imagem.
Então compreenderás: é tão pequeno
e tão efêmero esse contemplar...
Por isso, sorve a vida inteiramente!
(De "Ânfora de Sol")
domingo, 27 de junho de 2010
É TEU DESTINO... - Giselda Medeiros

Permanecerá em ti
o meu eu
com seus refrões de silêncio
cruzando o mítico reino
dos fantasmas.
Alongado sobre ti
estará meu olho de poeta,
indecifrável
e esquecido archote,
nas trevas.
Sobre ti cairá a mão
de pele tão alva
deste meu poema.
E haverás de carregar-me
com meus horizontes
de indefinidas formas
sempre vestida de poeta
na calma completa
de um verso adormecido
(Tempo das Esperas)
sexta-feira, 25 de junho de 2010
UM POEMA DE AMOR DE J. G. DE ARAÚJO JORGE

Exaltação do amor
Sofro, bem sei... Mas se preciso fôr
sofrer mais, mal maior, extraordinário,
sofrerei tudo o quanto necessário
para a estrêla alcançar... colher a flor...
Que seja imenso o sofrimento, e vário!
Que eu tenha que lutar com força e ardor!
Como um louco talvez, ou um visionário
hei de alcançar o amor... com o meu Amor!
Nada me impedirá que seja meu
se é fogo que em meu peito se acendeu
e lavra, e cresce, e me consome o Ser...
Deus o pôs... Ninguém mais há de dispor!
Se êsse amor não puder ser meu viver
há de ser meu para eu morrer de Amor!
(do livro -Bazar de Ritmos- 1935)
Sofro, bem sei... Mas se preciso fôr
sofrer mais, mal maior, extraordinário,
sofrerei tudo o quanto necessário
para a estrêla alcançar... colher a flor...
Que seja imenso o sofrimento, e vário!
Que eu tenha que lutar com força e ardor!
Como um louco talvez, ou um visionário
hei de alcançar o amor... com o meu Amor!
Nada me impedirá que seja meu
se é fogo que em meu peito se acendeu
e lavra, e cresce, e me consome o Ser...
Deus o pôs... Ninguém mais há de dispor!
Se êsse amor não puder ser meu viver
há de ser meu para eu morrer de Amor!
(do livro -Bazar de Ritmos- 1935)
quinta-feira, 17 de junho de 2010
EIS UM TEXTO QUE VALE A PENA SER LIDO!
A COMPLICADA ARTE DE VERRubem Alves
Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto."
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê". Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado.
Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: "Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra". Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido.
Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada "satori", a abertura do "terceiro olho".
Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: "Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram".
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, "seus olhos se abriram".
Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em "Operário em Construção": "De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa _garrafa, prato, facão_ era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção".
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas _e ajustamos a nossa ação.
O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras.
Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as tem na mão e olha devagar para elas".
Por isso _porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver_ eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"...
(Extraído da seção 'Sinapse', jornal 'Folha de S.Paulo', versão on line, publicado em 26/10/2004)
terça-feira, 8 de junho de 2010
MAIS UM POEMA DE "ÂNFORA DE SOL"

DOCE BRISA DE CRISTAL
Não me desacostumes de ti!
Do que me serviriam as estrelas
se eu não pensasse nos teus olhos?
Do que me serviria a aurora
se eu não conhecesse a prata dos teus cabelos?
Não me desacostumes de ti!
Que beleza poderia haver nas tardes
se eu não pensasse nos teus braços me enlaçando?
Que poesia restaria inédita
se não fora aquela falada ao meu ouvido?
Não me desacostumes de ti!
Não negues a palavra que te escrevo,
pois se longe estou, longe de ti,
é tão longo o tempo, o presente tão distante,
e o futuro, assustador!
Sem ti, ó doce brisa minha de cristal,
os dias são fantasmas, nada mais,
gargalhando em minha amarga solidão.
Do que me serviriam as estrelas
se eu não pensasse nos teus olhos?
Do que me serviria a aurora
se eu não conhecesse a prata dos teus cabelos?
Não me desacostumes de ti!
Que beleza poderia haver nas tardes
se eu não pensasse nos teus braços me enlaçando?
Que poesia restaria inédita
se não fora aquela falada ao meu ouvido?
Não me desacostumes de ti!
Não negues a palavra que te escrevo,
pois se longe estou, longe de ti,
é tão longo o tempo, o presente tão distante,
e o futuro, assustador!
Sem ti, ó doce brisa minha de cristal,
os dias são fantasmas, nada mais,
gargalhando em minha amarga solidão.
Giselda Medeiros
quinta-feira, 3 de junho de 2010
O Sono das Águas - Guimarães Rosa

Há uma hora certa,
no meio da noite,
uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono...
(Magma)
no meio da noite,
uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d’água,
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...
Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono...
(Magma)
terça-feira, 1 de junho de 2010
Cecília Meireles - pequena biografia

Poetisa brasileira, nasceu no Rio de Janeiro em 7 de janeiro de 1901. Em 1910, concluiu o curso primário e, sete anos depois, diplomou-se professora primária e passou a desenvolver intensa atividade como educadora. Estudou também línguas, canto, violino. Aos dezoito anos, lançou o livro de poemas Espectros, pelo qual recebeu elogios da crítica especializada. Em 1934, organizou a primeira biblioteca infantil do país. Em 1935, foi nomeada professora de Literatura Luso-brasileira e, depois, de Técnica e Crítica Literária na Universidade do então Distrito Federal. Cecília Meireles faleceu no dia 9 de novembro de 1964, em pleno apogeu de sua atividade literária. Recebeu, post mortem, o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra. De fina espiritualidade, sua poesia, sem deixar de ser moderna, mergulha raízes nas essências do simbolismo, caracterizando-se, no plano formal, pela riqueza de recursos estilísticos. Obras principais: Viagem (1938); Vaga música (1942); Mar absoluto (1945); Romanceiro da Inconfidência (1953); Solombra (1964).
Despedida - Cecília Meireles
Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces ? - me perguntarão. -
Por não ter palavras, por não ter imagem.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que procuras ?
Tudo.
Que desejas ?
Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação ...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão !
Estandarte triste de uma estranha guerra ... )
Quero solidão.
que está onde as outras coisas nunca estão
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces ? - me perguntarão. -
Por não ter palavras, por não ter imagem.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que procuras ?
Tudo.
Que desejas ?
Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação ...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão !
Estandarte triste de uma estranha guerra ... )
Quero solidão.
quinta-feira, 27 de maio de 2010
POEMA DE ÂNFORA DE SOL - LIVRO A SER LANÇADO BREVEMENTE

CONTEÚDO E CONTINENTE
Giselda Medeiros
Giselda Medeiros
Poeta,
de que barro,
de que águas,
de que matéria
vem tua rima,
se ela é tão rara
e embriaga as retinas
ávidas de pérolas,
e de luz, e de canções?!
Chove emoção com teu verso...
E tua poesia é azeite e lâmpada,
fio e teia, corda e harpa,
asa e voo, luz e estrela,
água e rio,
pássaro que pousa
sobre o azedume da vida
soterrando espantos
e despertando mitos.
Tua poesia escorre sobre nós
como o orvalho sobre a pétala,
tão leve e cristalina...
Poeta, responde-nos:
de que barro,
de que águas,
de que matéria
vem tua rima,
se tua mão guia, no invisível espaço matinal,
o ritmo e a palavra
que começam a dançar nas madrugadas
envoltos no ciciar da brisa,
a explodir em versos sobre tua fronte?!
Tu cantas, Poeta,
a amargura da vida
com a mesma singeleza com que choras
o amor sonhado, encravado nas estrelas.
Teu é o território do sentimento.
Teu é o infinito que se abre para conter o sonho.
Teu é o canto da saudade
evolando nas asas do pássaro do amor.
Por isso, poeta, vem e dize-nos:
de que barro,
de que águas,
de que matéria, enfim, vem tua primorosa rima?!...
de que barro,
de que águas,
de que matéria
vem tua rima,
se ela é tão rara
e embriaga as retinas
ávidas de pérolas,
e de luz, e de canções?!
Chove emoção com teu verso...
E tua poesia é azeite e lâmpada,
fio e teia, corda e harpa,
asa e voo, luz e estrela,
água e rio,
pássaro que pousa
sobre o azedume da vida
soterrando espantos
e despertando mitos.
Tua poesia escorre sobre nós
como o orvalho sobre a pétala,
tão leve e cristalina...
Poeta, responde-nos:
de que barro,
de que águas,
de que matéria
vem tua rima,
se tua mão guia, no invisível espaço matinal,
o ritmo e a palavra
que começam a dançar nas madrugadas
envoltos no ciciar da brisa,
a explodir em versos sobre tua fronte?!
Tu cantas, Poeta,
a amargura da vida
com a mesma singeleza com que choras
o amor sonhado, encravado nas estrelas.
Teu é o território do sentimento.
Teu é o infinito que se abre para conter o sonho.
Teu é o canto da saudade
evolando nas asas do pássaro do amor.
Por isso, poeta, vem e dize-nos:
de que barro,
de que águas,
de que matéria, enfim, vem tua primorosa rima?!...
domingo, 23 de maio de 2010
DE MIM - Giselda Medeiros

Sou o que a vida me impõe:
auroras e crepúsculos,
mãos e adeuses,
altar e sacrifícios,
pegadas e caminhos.
Sou o atavio,
o assobio,
a carta que longe vai
em busca de um leitor.
Sou o sol dos que partiram
e não deixaram pegadas
Sou a solidão da espera
dos que jamais regressaram.
Sou esse adeus tatuado
no rosto dos que ficaram.
E sou o azul do teu olho,
maior do que o do oceano,
com o qual enxergas a vida
mais azul do que parece.
E isso me basta!
(Tempo das Esperas)
terça-feira, 18 de maio de 2010
UM POUCO SOBRE AUTA DE SOUZA
Auta de Souza nasceu em Macaíba, no Rio Grande do Norte, no dia 12 de setembro de 1876.
Era filha de Eloy Castriciano de Souza e Henriqueta Leopoldina de Souza, sendo irmã de dois políticos e intelectuais, Henrique Castriciano e Eloy de Souza.
Ficou órfã de mãe, antes de chegar aos 3 anos de idade e, quase dois anos mais tarde, mais perderia também o pai.
Depois da morte dos pais, Auta e os quatro irmãos vão morar em Recife, com os avós maternos, no velho sobrado do Arraial.
Com 10 anos de idade, assiste à morte trágica do irmão Irineu. Era 15 de fevereiro de 1887. O irmão subira ao andar superior do sobrado com uma lamparina de querosene. Houve uma explosão do candeeiro e Irineu foi envolvido e morto pelas chamas.
Estudou no Colégio São Vicente de Paulo, coordenado por religiosas francesas, e no Colégio São Vicente, onde aprendeu o francês, o que lhe possibilitou a leitura no original de Vitor Hugo, Chateaubriand, Fénelon, Lamartine, dentre outros.
Aos 14 anos de idade, surgem os primeiros sinais da tuberculose. A avó Dindinha, após desenganar-se da cura da neta em Recife, retorna com toda a família para Macaíba (RN).
Auta então, abandona os estudos, indo em busca da cura no interior. O avanço da doença obriga-a a buscar cidades do interior de clima mais seco.
Em 20 de junho de 1900, publica O Horto, seu primeiro e único livro de poemas, que foi prefaciado por Olavo Bilac. Foi tamanho o sucesso que, em sessenta dias, a edição esgotara-se.
A tuberculose, no entanto, não arrefece. Aos 24 anos, no dia 7 de fevereiro de 1901, em Natal, morre Auta de Souza.
Nove anos após a morte da poetisa, em 1910, saía a segunda edição, em Paris, com ilustrações artísticas de D. Widhopff. Em 1936, a terceira, no Rio de Janeiro, com prefácio de Alceu de Amoroso Lima.
Na poética de Auta de Souza, observam os críticos um acentuado lirismo e leves traços simbolistas. Temas como a morte e o universo infantil são abundantemente trabalhados.
Segue-se um de seus belos poemas.
Era filha de Eloy Castriciano de Souza e Henriqueta Leopoldina de Souza, sendo irmã de dois políticos e intelectuais, Henrique Castriciano e Eloy de Souza.
Ficou órfã de mãe, antes de chegar aos 3 anos de idade e, quase dois anos mais tarde, mais perderia também o pai.
Depois da morte dos pais, Auta e os quatro irmãos vão morar em Recife, com os avós maternos, no velho sobrado do Arraial.
Com 10 anos de idade, assiste à morte trágica do irmão Irineu. Era 15 de fevereiro de 1887. O irmão subira ao andar superior do sobrado com uma lamparina de querosene. Houve uma explosão do candeeiro e Irineu foi envolvido e morto pelas chamas.
Estudou no Colégio São Vicente de Paulo, coordenado por religiosas francesas, e no Colégio São Vicente, onde aprendeu o francês, o que lhe possibilitou a leitura no original de Vitor Hugo, Chateaubriand, Fénelon, Lamartine, dentre outros.
Aos 14 anos de idade, surgem os primeiros sinais da tuberculose. A avó Dindinha, após desenganar-se da cura da neta em Recife, retorna com toda a família para Macaíba (RN).
Auta então, abandona os estudos, indo em busca da cura no interior. O avanço da doença obriga-a a buscar cidades do interior de clima mais seco.
Em 20 de junho de 1900, publica O Horto, seu primeiro e único livro de poemas, que foi prefaciado por Olavo Bilac. Foi tamanho o sucesso que, em sessenta dias, a edição esgotara-se.
A tuberculose, no entanto, não arrefece. Aos 24 anos, no dia 7 de fevereiro de 1901, em Natal, morre Auta de Souza.
Nove anos após a morte da poetisa, em 1910, saía a segunda edição, em Paris, com ilustrações artísticas de D. Widhopff. Em 1936, a terceira, no Rio de Janeiro, com prefácio de Alceu de Amoroso Lima.
Na poética de Auta de Souza, observam os críticos um acentuado lirismo e leves traços simbolistas. Temas como a morte e o universo infantil são abundantemente trabalhados.
Segue-se um de seus belos poemas.
SAUDADE - AUTA DE SOUZA

Ah! se soubesse quanto sofro e quanto
Longe de ti meu coração padece!
Ah! se soubesses como dói o pranto
Que eternamente de meus olhos desce!
Ah! se soubesses!... Não perguntarias
De onde é que vem esta sombria mágoa
Que traz-me o peito cheio de agonias
E os tristes olhos arrasados d’água!
Querem que a lira de meus versos cante
Mais esperança e menos amargura,
Que fale em noites de luar errante
E não invoque a pobre noite escura.
Mas... como posso eu levar sonhando
A vida inteira n’um anseio infindo,
Se choro mesmo quando estou cantando
Se choro mesmo quando estou sorrindo!
Ouve, ó formosa e doce e imaculada,
Visão gentil de eterna fantasia:
Minh’alma é uma saudade desfolhada
De mãe querida sobre a cova fria.
Ah! minha mãe! Pois tu não sabes, santa,
Que Ela partiu e me deixou no berço?
Desde esse dia a minha lira canta
Toda a saudade que lhe inspira o verso!
Depois que Ela se foi a Mágoa veio
Encher-me o coração de luto e abrolhos.
Eu sofro tanto longe de seu seio,
Eu sofro tanto longe de seus olhos!
Ó minha Eugênia! Estrela abençoada
Que iluminas o horror deste deserto...
De teu afeto a chama consagrada
Lança à minh’alma como um pálio aberto.
Quando beijares teus filhinhos, pensa
O que seria d’eles sem teus beijos;
E, então, compreenderás a dor imensa,
A amargura cruel destes harpejos!
Junta as mãozinhas dos pequenos lírios,
Das criancinhas que tu’alma adora,
E ensina-os a rezar sobre os martírios
E a saudade infinita de quem chora.
Longe de ti meu coração padece!
Ah! se soubesses como dói o pranto
Que eternamente de meus olhos desce!
Ah! se soubesses!... Não perguntarias
De onde é que vem esta sombria mágoa
Que traz-me o peito cheio de agonias
E os tristes olhos arrasados d’água!
Querem que a lira de meus versos cante
Mais esperança e menos amargura,
Que fale em noites de luar errante
E não invoque a pobre noite escura.
Mas... como posso eu levar sonhando
A vida inteira n’um anseio infindo,
Se choro mesmo quando estou cantando
Se choro mesmo quando estou sorrindo!
Ouve, ó formosa e doce e imaculada,
Visão gentil de eterna fantasia:
Minh’alma é uma saudade desfolhada
De mãe querida sobre a cova fria.
Ah! minha mãe! Pois tu não sabes, santa,
Que Ela partiu e me deixou no berço?
Desde esse dia a minha lira canta
Toda a saudade que lhe inspira o verso!
Depois que Ela se foi a Mágoa veio
Encher-me o coração de luto e abrolhos.
Eu sofro tanto longe de seu seio,
Eu sofro tanto longe de seus olhos!
Ó minha Eugênia! Estrela abençoada
Que iluminas o horror deste deserto...
De teu afeto a chama consagrada
Lança à minh’alma como um pálio aberto.
Quando beijares teus filhinhos, pensa
O que seria d’eles sem teus beijos;
E, então, compreenderás a dor imensa,
A amargura cruel destes harpejos!
Junta as mãozinhas dos pequenos lírios,
Das criancinhas que tu’alma adora,
E ensina-os a rezar sobre os martírios
E a saudade infinita de quem chora.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
AFLIÇÃO - Giselda Medeiros

A boca da noite grita
cheia de beijos de estrelas
sobre nossos corpos
engolindo medos.
E aflita
morde nossos desejos.
O sangue que escorre
amarelo
colore os relâmpagos
de nossa alma
que se recolhe
no tumulto dos sonhos
envelhecidos.
Mas o desejo é um lobo, condenado
a mirar-se no lago congelado
do silêncio cristalino,
imóvel pássaro aposentado
de seus voos longínquos.
E a boca da noite grita
aflita
cheia de beijos de estrelas
sobre nossos corpos
lânguidos...
(Tempo das Esperas)
sexta-feira, 7 de maio de 2010
UMA HOMENAGEM À MINHA MÃE

ÂNFORA DE SOL(para Dona Raimundinha)
Na sala
a Ânfora cheia de sol...
Imponente, ao olhar de anjos,
esparge no ar
cheiros dourados
embebidos de lúcida liberdade.
E o meu olfato cego
enche-se do sal cheiroso
de suas entranhas.
Meus chinelos rotos, à porta,
denunciam reverência
à Ânfora imóvel, resplendendo em sol.
Ao contemplá-la,
em sua altivez etérea,
meus olhos vestidos do cansaço humano
transfiguram-se em centelhas,
cativos de seu encantamento,
ametistas em noite de núpcias.
E ela ali, imóvel, cheia de Sol,
Poesia no ar, em asas,
planando sobre minha inutilidade...
Aí, então, desferi meu grito
angustiado
qual um punhal,
e renasci, na aflição de minhas cinzas,
qual fora fria gota cristalina
de orvalho
a deslizar sobre a pétala da saudade.
Giselda Medeiros
Na sala
a Ânfora cheia de sol...
Imponente, ao olhar de anjos,
esparge no ar
cheiros dourados
embebidos de lúcida liberdade.
E o meu olfato cego
enche-se do sal cheiroso
de suas entranhas.
Meus chinelos rotos, à porta,
denunciam reverência
à Ânfora imóvel, resplendendo em sol.
Ao contemplá-la,
em sua altivez etérea,
meus olhos vestidos do cansaço humano
transfiguram-se em centelhas,
cativos de seu encantamento,
ametistas em noite de núpcias.
E ela ali, imóvel, cheia de Sol,
Poesia no ar, em asas,
planando sobre minha inutilidade...
Aí, então, desferi meu grito
angustiado
qual um punhal,
e renasci, na aflição de minhas cinzas,
qual fora fria gota cristalina
de orvalho
a deslizar sobre a pétala da saudade.
Giselda Medeiros
DIA DAS MÃES - Ghiaroni

Mãe! eu volto a te ver na antiga sala
onde uma noite te deixei sem fala
dizendo adeus como quem vai morrer.
E me viste sumir pela neblina,
porque a sina das mães é esta sina:
amar, cuidar, criar, depois... perder.
Perder o filho é como achar a morte.
Perder o filho quando, grande e forte,
já podia ampará-la e compensá-la.
Mas nesse instante uma mulher bonita,
sorrindo, o rouba, e a velha mãe aflita
ainda se volta para abençoá-la
Assim parti, e nos abençoaste.
Fui esquecer o bem que me ensinaste,
fui para o mundo me deseducar.
E tu ficaste num silêncio frio,
olhando o leito que eu deixei vazio,
cantando uma cantiga de ninar.
Hoje volto coberto de poeira
e te encontro quietinha na cadeira,
a cabeça pendida sobre o peito.
Quero beijar-te a fronte, e não me atrevo.
Quero acordar-te, mas não sei se devo,
não sinto que me caiba este direito.
O direito de dar-te este desgosto,
de te mostrar nas rugas do meu rosto
toda a miséria que me aconteceu.
E quando vires a expressão horrível
da minha máscara irreconhecível,
minha voz rouca murmurar:''Sou eu!"
Eu bebi na taberna dos cretinos,
eu brandi o punhal dos assassinos,
eu andei pelo braço dos canalhas.
Eu fui jogral em todas as comédias,
eu fui vilão em todas as tragédias,
eu fui covarde em todas as batalhas.
Eu te esqueci: as mães são esquecidas.
Vivi a vida, vivi muitas vidas,
e só agora, quando chego ao fim,
traído pela última esperança,
e só agora quando a dor me alcança
lembro quem nunca se esqueceu de mim.
Não! Eu devo voltar, ser esquecido.
Mas que foi? De repente ouço um ruído;
a cadeira rangeu; é tarde agora!
Minha mãe se levanta abrindo os braços
e, me envolvendo num milhão de abraços,
rendendo graças, diz:"Meu filho!", e chora.
E chora e treme como fala e ri,
e parece que Deus entrou aqui,
em vez de o último dos condenados.
E o seu pranto rolando em minha face
quase é como se o Céu me perdoasse,
me limpasse de todos os pecados.
Mãe! Nos teus braços eu me transfiguro.
Lembro que fui criança, que fui puro.
Sim, tenho mãe! E esta ventura é tanta
que eu compreendo o que significa:
o filho é pobre, mas a mãe é rica!
O filho é homem, mas a mãe é santa!
Santa que eu fiz envelhecer sofrendo,
mas que me beija como agradecendo
toda a dor que por mim lhe foi causada.
Dos mundos onde andei nada te trouxe,
mas tu me olhas num olhar tão doce
que, nada tendo, não te falta nada.
Dia das Mães! É o dia da bondade
maior que todo o mal da humanidade
purificada num amor fecundo.
Por mais que o homem seja um ser mesquinho,
enquanto a Mãe cantar junto a um bercinho
cantará a esperança para o mundo!
HOMENAGEM A TODAS AS MÃES!!!
terça-feira, 4 de maio de 2010
Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente) - Thiago de Mello

A Carlos Heitor Cony
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
SE EU FOSSE UM HOMEM - Regine Limaverde

(resposta a Dimas Macedo pelo seu poema "Sândalo")
Se eu fosse um homem
beijaria minha mulher
cada vez que a minha lança
nela se escondesse,
para lhe contar da explosão
quando tudo acontecesse.
Se eu fosse um homem
o ventre da minha fêmea
seria um regaço,
e os seus seios
fonte que me saciaria a fome,
leite que me sufocaria anseios
Se eu fosse um homem,
pela mulher me tornaria rei
e, a cada luta que por ela
entrasse, teria uma faca e espada
para cravar no peito dos inimigos
que não amassem a mulher amada.
(Ritos do Entardecer)
quinta-feira, 29 de abril de 2010
INFÂNCIA - Giselda Medeiros

Descoloriram o desenho da minha infância
e pisaram com botas de sete léguas
o canteiro de cirandas
que eu cultivava.
Soltaram da caixinha de sapatos
os sonhos que dormiam
tão tranqüilos.
E uma revoada de asas azuis
abriu-se no espaço das esperas.
Restou a criança grande
no pasmo da vida,
com fome de asas
com fome de cores
com fome de espaço
para o desenho da felicidade.
e pisaram com botas de sete léguas
o canteiro de cirandas
que eu cultivava.
Soltaram da caixinha de sapatos
os sonhos que dormiam
tão tranqüilos.
E uma revoada de asas azuis
abriu-se no espaço das esperas.
Restou a criança grande
no pasmo da vida,
com fome de asas
com fome de cores
com fome de espaço
para o desenho da felicidade.
(Cantos Circunstanciais)
A ESTRUTURA DESMONTADA - Lançamento no Centro Cultural OBOÉ
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