domingo, 1 de setembro de 2013

HOMENAGEM A ARTUR EDUARDO BENEVIDES, NA SOCIEDADE AMIGAS DO LIVRO



As anfitriãs deste mês de agosto, Giselda Medeiros e Neide Azevedo Lopes, da Sociedade Amigas do Livro, prestaram uma significativa homenagem a Artur Eduardo Benevides, Príncipe dos Poetas Cearenses, em razão de seu nonagésimo aniversário.
Inicialmente, Neide Azevedo leu sua biografia (resumida). Em seguida, Giselda Medeiros apresentou uma apreciação sua sobre o livro "Elegia Setentã e Outros Poemas de Entardecer".

Neide Azevedo Lopes

BIOGRAFIA DE ARTUR EDUARDO BENEVIDES

ARTUR Eduardo BENEVIDES - Nasceu em Pacatuba, 25 de julho de 1923, filho de Artur Feijó Benevides e Maria do Carmo Eduardo Benevides. Fez os preparatórios no Colégio São Luís e no Liceu, bacharelando-se em 1947 pela Faculdade de Direito do Ceará. Bacharel em Letras (1970). Presidiu o Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua e a Sociedade Acadêmica de Cultura Iniciou-seno jornalismo (“Correio do Ceará”, “Unitário”, “O Povo”, “O Nordeste”). Um dos fundadores do Grupo Clã, de cuja revista foi assíduo colaborador. Também escreveu em “Valor”. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia do Ceará. Diretor da Faculdade Católica de Filosofia. Professor titular da Universidade Federal do Ceará. Dirigiu o Departamento Regional do SENAC (Serviço de Aprendizagem Comercial) e o Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Rosário (Argentina). Príncipe dos poetas cearenses, a partir de 1985. Foi Diretor da José de Alencar. Ocupou o cargo de Chefe da Procuradoria da extinta LBA (Legião Brasileira de Assistência) no Ceará. Visitou grandes universidades européias (Oxford, Colônia, Bonn, Sorbonne, Lisboa), em todas colhendo observações práticas sobre currículos e orientação pedagógica. Participou do 1 Congresso Internacional de Escritores, do II Congresso Brasileiro de Escritores, dos Congressos Cearenses de Escritores e de Poesia.

Titular da cadeira n° 40 (patrono: Visconde de Sabóia), coube-lhe a honra de presidir a instituição no seu centenário, fazendo realizar programação comemorativa de alto nível. Portador de numerosas condecorações e medalhas, entre elas a do Mérito Cultural da Universidade Federal do Ceará, a Justiniano de Serpa (por serviços prestados à educação), a José de Alencar (pelos serviços prestados às letras e artes cearenses), a de Honra ao Mérito do SENAC (por sua colaboração à melhoria do ensino técnico-profissional no Brasil) e a Cidade de Fortaleza (concedida pela Câmara Municipal da capital cearense). Da Academia Cearense de Língua Portuguesa, da Academia Cearense de Retórica.
Membro correspondente da Academia Cearense de Ciências, Letras e Artes do Rio de Janeiro. Sua bibliografia é valiosa, reunindo importantes premiações; estreou em 1944 com os poemas de Navio da Noite; vieram depois Os Hóspedes (1946, em parceria com Aluísio Medeiros, Antônio Girão Barroso e Otacílio Colares). Outros livros de poesia: A Valsa e a Fonte (1950); Cancioneiro da Cidade de Fortaleza (1953); O Habitante da Tarde (1958); O Tempo; O Caçador e as Cousas Longamente Procuradas (1966); Canção da Rosa dos Ventos (1966);-O Viajante da Solidão (1969); Vida de Andarilho (1974); Elegias de Outono e Canção de Muito Amar e de Adeus (1974); Arquitetura da Névoa (1979); A Rosa do tempo ou o Intérmino Partir (1981); Sonetos à Beira-Mar e Elegias do Espaço Imaginário (1981), e Inventário da Tarde (1983), afora outros. Como ensaísta, publicou: A Lâmpada e os Apóstolos (1982); Universidade e Humanismo (1971); Uma Vida a Serviço da Cultura (1973); Idéias e Caminhos (1974); Evolução da Poesia e do Romance Cearense (1976); O Tema da Saudade na Poesia Luso-Brasileira (1979); Literatura do Povo: Alguns Caminhos (1980), e Camões - Um Tema Brasileiro (1983). Também se incluem na sua produção os contos de Caminho sem Horizonte (1958), a Antologia de Poetas Bissextos do Ceará (1970) e obras sobre educação. Detentor dos prêmios “Cassiano Ricardo”, de São Paulo; “Filgueiras Lima, do Ceará; “Farias Brito”, da Prefeitura Municipal de Fortaleza; “José Albano”, da Universidade Federal do Ceará, e “José Veríssimo”, da Academia Brasileira de Letras.Fonte:1001 Cearenses Notáveis-F. Silva Nobre.
Data de Nascimento:25/07/1923

Giselda Medeiros


Artur Eduardo Benevides
Um Artista Humano e Divino

              Heschel, em bela página do volume “Deus em Busca do Homem” (São Paulo: Ed. Paulinas, 1975), assim se expressa: “Poucos são capazes de se elevar em raros momentos sobre o próprio nível da terra. Mas é nesse momento que descobrimos que a essência da existência humana consiste em estar suspenso entre o céu e a terra”.
              Toca-nos esse pensamento definidor do poder encantatório da natureza, essência intrínseca do ser, quando terminamos de ler Artur Eduardo Benevides em “Elegia Setentã e Outros Poemas de Entardecer” (Fortaleza: Editora ABC, 1996).
              Com efeito, sentimos aflorar-nos a essência, suscitada pelo êxtase da Poesia, porque o Autor tem esse dom: o de nos colocar entre o céu do poema e a terra fecundada pelo sêmen da metáfora. Sabe ele nos conduzir a esse intermezzo, a esse paraíso suspenso, aonde vamos abeberar-nos do vinho sagrado e do pão, consubstanciados no Belo.
              Pelas trilhas de “Elegia Setentã, visualizamos, com os olhos cheios de admiração, a vereda da poesia, onde nos deparamos com um guardador de metáforas e navegações ou um pobre D. Quixote a imitar a esperança de uns olhos de criança, enquanto ao longe, ouve-se o som da última parvana.
              Falar de Artur Eduardo Benevides é falar da própria poesia, pois é nele que ela encontra seu nascedouro e sua foz. É ela que o mantém em juventude para enlear-se à Amada, confundindo-se, inteiro, corpo e alma, n’uma lágrima pendente ou na divina tolice dos que amam, enfrentando, contudo, o plúmbeo tom do outono, quando os cabelos já tomam a cor das despedidas, pois seu maior temor é o de morrer longe dos olhos da Mulher Amada. E, embora reconhecendo os efeitos da marcha inexorável do tempo, que flui sobre tudo com fúria indomável, poeta que é, desabafa em seu “Segundo Soneto dos Setent’Anos”: Recuso-me, contudo, a envelhecer. / Um grande amor chegou. Por que morrer? / Por que sentir as cousas terminadas?, para, em seguida, aceitar a brutal realidade ontológica: “Não posso ser eterno. Sou tão pouco!
              O sonho, um dos temas sempre presente no universo criacional de Artur, ganha relevo especial no “Soneto dos Sonhos”, em que o poeta se define um ser onírico, reincidente, e, por força disso, eles (os sonhos) sempre voltam belos como as aves, a recompor os rumos mais perdidos. E o poeta sabe que sonhar é preciso, como reforça no “Soneto Autobiográfico” que, pela beleza sugestiva das imagens, chega-nos como uma tela fotográfica de si mesmo. E quem o conhece, sabe-a verdadeira e autêntica. Vejamos estes versos: O meu modo solene, o jeito vago, / A melódica forma de enfrentar / Os problemas, as lutas, o desar / E as outras cousas que em silêncio trago, / Nasceram quais nenúfares no mar, / Ou serenas visões de um grande lago. /.../ Habito etérea torre em decadência, / Mas essa é minha marca de existência. / O meu destino. Ou sorte. Ou meu fanal.
              A presença de Thanatos também é constante e traz ao “Elegia Setentã” um certo tom de desalento, pondo em evidência a condição indigente dos seres. No entanto, é ao pé do Amor e nos braços da Amada que ele se refaz e canta altíssono, como nestes versos de “Utopia”: Poeta e amante sendo, em mim o sentimento / Deixou de ser maré ou ímpeto de rio. / Mas sigo altivo e lanço longo desafio / A tudo o que em tristeza vem na voz do vento”. E arremata em “Improviso”: Ainda assim, Amada, ainda assim, / A Deus, agradecido, louvarei, / Porque, ao te encontrar, eu me encontrei.
              Aliás, a inelutabilidade da morte é para Artur um dos temas mestres, como o é para o universo de Rilke, que assevera: A Morte é grande. / Nós somos suas bocas ridentes: / se fala a Vida por nossa voz, / Ela, atrevida, soluça em nós. E é esse universo desconhecido da Morte, que nos oprime, o que nos faz pensá-la como infame criatura cheia de iras, a nos tolher inapelavelmente. E, quando mais queremos viver, eis que, de dentro de nós, ela salta com sua surda foice e nos interdita.
              Hegel considera a arte como um produto da fantasia e a vê como um dos fenômenos mais típicos do homem, sugeridos pela sua natureza espiritual. Portanto, para a expressão do Belo, é necessária, sobretudo, uma síntese de imaginação e sentimento, sob uma boa dose de talento, como é o caso de Artur Eduardo Benevides. Ele sabe, com mestria, transpor a arte do plano abstrato para o concreto. É um poeta fecundo, superdotado de inteligência, e sua arte é, por isso, autotranscendente. Sua poesia é um vértice de luz a projetar-se na eternidade dos tempos, superando a finitude do espaço físico. É um artista humano e divino, pois, efetivamente, sabe despertar em nós a “essência”, pondo-nos suspensos entre o céu e a terra.
              “Elegia Setentã e Outros Poemas de Entardecer” é, pois, genuína expressão da arte, ipsis litteris, constituindo-se um verdadeiro canto outonal, cujas notas marcantes são o amor, a saudade, o sonho, a melancolia, a solidão, a morte, o mar. O mar – esse guardião de espantos – que sempre atraiu o poeta e se transfigura nas noites do poema.
              É com essas notas musicais que Artur Eduardo Benevides tece sua canção setentã. E, enlevadas, as musas vêm roubar do tempo a eterna juventude para vertê-la sobre a fronte do Príncipe-Poeta, já ungida pelo beijo vivificante da Amada, que o envolve com sua paz de nuvens e canção.
 
Giselda Medeiros
SAL – 29/8/2013

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A FALA DE MARCELO GURGEL


Estórias Esculapianas
Em janeiro de 2008, animado pelo ímpeto ficcional, recém-estreado com o romance “Maquis: Redenção na França Ocupada”, comecei a escrever contos, um gênero literário bastante atrativo para quem escreve e igualmente atraente ao leitor.
Foi assim que contos, da minha lavra, foram se sucedendo, no conjunto da diversificada produção de um escrevinhador, tido como polígrafo, parte deles recorrendo à temática médica, como lastro das estórias.
Em dezembro de 2011, juntei em um só volume, contos que tratavam de conteúdos ou aspectos da Medicina, todos inéditos, sob o título Estórias Esculapianas, como aqui se mostra, e o apresentei ao VIII Edital de Incentivo às Artes, da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult-CE), inscrevendo-o na categoria de Contos.
Como qualquer produção do gênero, esta obra agrega experiência e criatividade, apontando para o fato de que a escrita traz à tona a emoção do autor, enredada em vivências pessoais, transmitidas ou testemunhadas. Ela reúne 17 contos, todos tendo como cenário a medicina, esta ambientada, principalmente, no Ceará, configurando situações hilárias ocorridas e levadas ao meu conhecimento.
Este livro, avalizado pela Secult-CE, como um dos ganhadores do VIII Edital retro-referenciado, teve o seu financiamento assegurado pelo Governo do Estado do Ceará, ao qual, penhoradamente, agradeço.
As ilustrações inclusas, uma para cada estória, conferem leveza e síntese da trama exposta, foram cuidadosamente desenhadas, a bico de pena, pelo Prof. Jesper, a quem presto o reconhecimento por seus claros méritos.
De princípio, sou muito grato à Profa. Giselda Medeiros, ilustríssima imortal das Academias Cearense de Letras e Fortalezense de Letras, presidente de Honra da AJEB e princesa dos poetas do Ceará, por seu apurado prefácio e por suas tão gentis palavras ao efetuar a apresentação neste lançamento.
Também o meu muito obrigado é dirigido à Expressão Gráfica, que se esmerou na impressão da obra, e, em especial, na estampa da sua capa, exibindo The Four Doctors (Os Quatro Doutores), uma pintura de John Singer Sargent, pertencente ao acervo da The Alan Mason Chesney Medical Archives of The Johns Hopkins Medical Institutions, de Baltimore (EUA).
Quero aqui ainda expressar a minha gratidão à Unicred Fortaleza, em especial aos seus diretores e aos funcionários do serviço de Marketing, que deram suporte ao lançamento da obra, propiciando, do melhor modo possível, espaço, logística e infraestrutura, requisitadas à execução do evento.
Tem-se que realçar aqui a prática pessoal de coibir a espera na costumeira fila de autógrafos, até o recebimento do livro, dispondo de uma etiqueta autografada pelo autor e colada na folha de rosto, contendo os seguintes dizeres: “Manifesto-me agradecido por seu interesse em relação a esta obra, cuja renda será revertida para as ações beneficentes e evangelizadoras da Sociedade Médica São Lucas.” Cordialmente,
Muito Obrigado!
Prof. Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Da Academia Cearense de Medicina e da Sobrames/CE

* Discurso proferido por ocasião do lançamento do livro “Estórias Esculapianas”, na Célula de Arte e Cultura da Unicred Fortaleza, em Fortaleza, em 23 de agosto de 2013.

Requintada, culturalmente, a festa de lançamento do livro "Estórias Esculapianas", do Dr. Marcelo Gurgel.


APRESENTAÇÃO DE ESTÓRIAS ESCULAPIANAS

Marcelo Gurgel, além de médico, economista, professor universitário, polígrafo, doutor em Saúde Pública e pós-doutor em Economia da Saúde, ainda encontra tempo e razões para se dedicar ao exercício da literatura. Isso não nos surpreende, porquanto sabemos que,  desde os primórdios dos tempos, Medicina e Arte se complementam e interagem na busca da beleza e da perfeição. Ambas se imbricam no interesse pela vida e na inquietação do ser humano. Hipócrates já defendia essa verdade, asseverando que a medicina, assim como a literatura, constitui-se uma arte, por envolver sempre três atores: o médico, o paciente e a doença.
Marcelo Gurgel faz parte desse privilegiado grupo, em que se misturam, harmoniosamente, o homem médico – aquele que convive com a realidade inerente à natureza humana: as doenças que põem em risco a vida; a morte, sempre a “indesejada das gentes”, em seus letais momentos, inexoravelmente a nos sugar; a loucura, o sofrimento, a angústia; o milagre do nascimento, tudo isso suscitando sentimentos, - e o homem artista, aquele que, reinventando a vida, recria um mundo em que podem conviver o bem e o mal, o louco e o sábio, o amor e o ódio, cada qual desempenhando o seu papel no teatro da vida, e, através da “arte verbal, passa a comunicar experiências inefáveis”.
Nas lides acadêmicas, Marcelo é sócio titular da Academia de Medicina e da Academia de Médicos Escritores. É membro da SOBRAMES-CE (Sociedade Brasileira de Médicos Escritores) e da Sociedade Médica São Lucas, afora outras instituições culturais. E, agora, vem engrossar as fileiras do conto cearense com Estórias Esculapianas, livro agraciado com o “Prêmio Literário Para Autor Cearense”, realizado pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, e que enfeixa contos, recriados no dia-a-dia médico. São estórias, ora envolvendo o esculápio, ora o próprio paciente, em situações engraçadas, narradas com leveza, correção, personalidade e, sobretudo, com o conhecimento técnico de quem é sabedor dos meandros da narrativa.      
Homem de mente privilegiada, dono de vastos conhecimentos, tanto no plano científico, como no literário, já tendo publicações nos gêneros: crônica, conto, ensaio literário, memorialismo, discurso, romance e teatro,  nesse seu livro busca interpretar a trajetória do ser em sua real condição humana, com suas dores, angústias, medos, sem deixar de ver o lado cômico da vida, intercambiando experiências. Atentemos, também, ao fato de que o médico e professor Marcelo Gurgel corrobora que escreve como uma forma de libertação e de superação desses elementos existencialistas adversos, imprimindo no leitor uma procura de paz e harmonia, manejando tão bem a linguagem, os diálogos, a nos mostrar o poder encantatório de dar às suas personagens de papel o sopro de vida. E, para modelar esta existência sofrida, introduz em suas narrativas uma receita espetacular: o hilário, o cômico que transmutam e transfiguram nosso humor.
Desse modo, Marcelo Gurgel busca aproximar medicina e literatura, porque esta o leva a imergir a águas mais profundas, de onde vem à tona mais humano, mais livre e mais revigorado.
Obrigada

Giselda Medeiros

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

CANÇÃO DA ESPERA - GISELDA MEDEIROS



                Passas.
                Teu vulto é um oásis
                onde quero aprender
                o ofício das areias
                nas longas noites
                em que as estrelas
                fiam fios finos
                de fluida luz.

                Teus passos na tarde
                ecoam ainda
                em minhas manhãs,
                alvacentas e lânguidas,
                como o marulho das vagas
                que ficaram para trás.

                Mas passas,
                indiferente e lento,
                sobre meus anseios
                com mãos enfeitadas de adeuses
                a romper em flores
                de esquecimento.

                E passas tão perto de mim
                e tão distante!
                Não conheces o mapa
                de meus arquipélagos
                nem sabes da beleza
                de meus profundos mares
                onde há conchas e corais
                em êxtase.

                Talvez um dia
                - um dia desses -
                quando pisares as névoas
                do meu tempo
                e sentires pesar o teu tempo,
                talvez, tu resolvas ficar
                no tempo dos meus domínios...

(DO LIVRO TEMPO DAS ESPERAS)

sábado, 10 de agosto de 2013

ESSE MILLÔR É DEMAIS!


Poesia Matemática

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

SALVE O ESCRITOR!


25 de julho - Dia do Escritor.
A ele nossa homenagem neste poema: 

O POEMA E A EMOÇÃO
Giselda Medeiros
  
                   Não quero que o poema que escrevo agora
                   Sacie a fome do poeta devorador de imagens.
                   Que minha palavra, antes que seja poema, mostre pontes,
Indícios, gestos de mãos a esculpi-lo, sangrando, sofrendo
Por entre o tremor do abandono dos dedos.
Quero que mostre o caminho árido das rugas, acelerando-a, ela, a palavra marcada pelo pulsar vermelho das arritmias,
Injetando sangue nas células do meu poema.

Ah, como quereria assistir a esse espetáculo:
emoção versus palavra, em que não há vencido nem vencedor,
apenas a fusão de todas as deidades – o verso universal que nos desperte, com seu ritmo de luz, ante o fascínio da terra, e nos faça ninar, ouvindo a voz náufraga e adormecida
de velhos poetas em suas canções de água e de espelhos.
            

quarta-feira, 24 de julho de 2013

PAPA FRANCISCO PROFERE LINDA HOMILIA EM APARECIDA


Venerados irmãos no episcopado e no sacerdócio,
Queridos irmãos e irmãs!

Quanta alegria me dá vir à casa de cada brasileiro, o Santuário de Nossa Senhora Aparecida. No dia seguinte à minha eleição como Bispo de Roma fui visitar a Basílica de Santa Maria Maior, para confiar a nossa Senhora o meu ministério como sucessor de Pedro. Hoje, eu quis vir aqui para suplicar à Maria, Nossa Mãe, o bom êxito da Jornada Mundial da Juventude e colocar aos seus pés a vida do povo latino-americano.

Queria dizer-lhes, primeiramente, uma coisa. Neste santuário, seis anos atrás, quando aqui se realizou a 5ª Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, pude dar-me contra pessoalmente de um fato belíssimo: ver como os bispos --que trabalharam sobre o tema do encontro com Cristo, discipulado e missão-- eram animados, acompanhados e, em certo sentido, inspirados pelos milhares de peregrinos que vinham diariamente confiar a sua vida a Nossa Senhora: aquela Conferência foi um grande momento de vida de Igreja. E, de fato, pode-se dizer que o Documento de Aparecida nasceu justamente deste encontro entre os trabalhos dos Pastores e a fé simples dos romeiros, sob a proteção maternal de Maria. A Igreja, quando busca Cristo, bate sempre à casa da Mãe e pede: "Mostrai-nos Jesus". É de Maria que se aprende o verdadeiro discipulado. E, por isso, a Igreja sai em missão sempre na esteira de Maria.

Assim, de cara à Jornada Mundial da Juventude que me trouxe até o Brasil, também eu venho hoje bater à porta da casa de Maria, que amou e educou Jesus, para que ajude a todos nós, os Pastores do Povo de Deus, aos pais e aos educadores, a transmitir aos nossos jovens os valores que farão deles construtores de um País e de um mundo mais justo, solidário e fraterno. Para tal, gostaria de chamar à atenção para três simples posturas: Conservar a esperança; deixar-se surpreender por Deus; viver na alegria. Conservar a esperança. A segunda leitura da Missa apresenta uma cena dramática: uma mulher - figura de Maria e da Igreja - sendo perseguida por um Dragão - o diabo - que quer lhe devorar o filho. A cena, porém, não é de morte, mas de vida, porque Deus intervém e coloca o filho a salvo (cfr. Ap 12,13ª. 15-16ª). Quantas dificuldades na vida de cada um, no nosso povo, nas nossas comunidades, mas, por maiores que possam parecer, Deus nunca deixa que sejamos submergidos. Frente ao desânimo que poderia aparecer na vida, em quem trabalha na evangelização ou em quem se esforça por viver a fé como pai e mãe de família, quero dizer com força: Tenham sempre no coração esta certeza! Deus caminha a seu lado, nunca lhes deixa desamparados! Nunca percamos a esperança! Nunca deixamos que ela se apague nos nossos corações! O "dragão", o mal, faz-se presente na nossa história, mas ele não é o mais forte. Deus é o mais forte, e Deus é a nossa esperança! É verdade que hoje, mais ou menos todas as pessoas, e também os nossos jovens, experimentam o fascínio de tantos ídolos que se colocam no lugar de Deus e parecem dar esperança: o dinheiro, o poder, o sucesso, o prazer. Frequentemente, uma sensação de solidão e de vazio entra no coração de muitos e conduz à busca de compensações, destes ídolos passageiros. Queridos irmãos e irmãs, sejamos luzeiros de esperança! Tenhamos uma visão positiva sobre a realidade. Encorajemos a generosidade que caracteriza os jovens, acompanhando-lhes no processo de se tornarem protagonistas da construção de um mundo melhor: eles são um motor potente para a Igreja e para a sociedade. Eles não precisam de coisas, precisam sobretudo que lhes sejam propostos aqueles valores imateriais que são o coração espiritual de um povo, a memória de um povo. Neste Santuário, que faz parte da memória do Brasil, podemos quase que apalpá-los: espiritualidade, generosidade, solidariedade, perseverança, fraternidade, alegria; trata-se de valores que encontram a sua raiz mais profunda na fé crista.

Deixar-se surpreender por Deus. Quem é homem e mulher de esperança - a grande esperança que a fé nos dá - sabe que, mesmo em meio às dificuldades, Deus atua e nos surpreende. A história deste Santuário serve de exemplo: três pescadores, depois de um dia sem conseguir apanhar peixes, nas águas do Rio Parnaíba, encontram algo inesperado: uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Quem poderia imaginar que o lugar de uma pesca infrutífera, tornar-se-ia o lugar onde todos os brasileiros podem se sentir filhos de uma mesma Mãe? Deus sempre surpreende, como o vinho novo, no Evangelho que ouvimos. Confiemos em Deus! Longe d'Ele, o vinho da alegria, o vinho da esperança, se esgota. Se nos aproximamos d'Ele, se permanecemos com Ele, aquilo que parece água fria, aquilo que é dificuldade, aquilo que é pecado, se transforma em vinho novo de amizade com Ele.

Viver na alegria. Queridos amigos, se caminhamos na esperança, deixando-nos surpreender pelo vinho novo que Jesus nos oferece, há alegria no nosso coração e não podemos deixar de ser testemunhas dessa alegria. O cristão é alegre, nunca está triste. Deus nos acompanha. Temos uma Mãe que sempre intercede pela vida dos seus filhos, por nós, como a rainha Ester na primeira leitura (cf. Est 5,3). Jesus nos mostrou que a face de Deus é a de um Pai que nos ama. O pecado e a morte foram derrotados. O cristão não pode ser pessimista! Não pode ter uma cara de quem parece num constante estado de luto. Se estivermos verdadeiramente enamorados de Cristo e sentirmos o quanto Ele nos ama, o nosso coração se "incendiará" de tal alegria que contagiará quem estiver ao nosso lado. Como dizia Bento XVI: <


Queridos amigos, viemos bater à porta da casa de Maria. Ela abriu-nos, fez-nos entrar e nos aponta o seu Filho. Agora Ela nos pede: "Fazei o que Eles vos disser" (Jo 2,5). Sim, Mãe nossa, nos comprometemos a fazer o que Jesus nos disser! E o faremos com esperança, confiantes nas surpresas de Deus e cheios de alegria. Assim seja.

24 de julho de 2013

domingo, 21 de julho de 2013



Aos amigos que estiveram comigo no jantar de adesão, no restaurante Piaf, por ocasião do meu aniversário, quero homenagear com este 
CANTO DE AGRADECIMENTO

Deixai-me cantar...
               Deixai-me expressar em versos
               a beleza desta hora,   o sorriso da alegria,
               no esplendoroso universo
               do sonho que me alimenta a vida.
               Porque poeta é ser capaz
               de cantar o inacessível,
               de pôr estrelas nas noites mais escuras,
               de traduzir, em rútilos lampejos,
               a imensa dor do mundo, a humana dor,
               na mais esplêndida linguagem: o Amor.

               Deixai-me, então, cantar este momento...
               Deixai-me agradecer com meu humilde verso
               a beleza desta hora,
               a alegria do sorriso
               e esse grande encantamento
               da manifestação do vosso amor!

               Assim, prosseguirei cantando.
               Assim, prosseguirei sonhando
               um sonho estonteantemente belo
               como o mar sob o farol das estrelas.
             
               Assim cantando, agradeço esta homenagem
               Assim cantando, deixo-vos minha mensagem
               A peregrinar no espaço desta hora
               Em que minha alma de alegria exulta
               Na mais querida e esplêndida emoção!

Giselda Medeiros
17/7/2013

GALERIA DE FOTOS


Com Rosa Firmo, Evan Bessa e Nirvanda Medeiros 


Com o casal Bernadete e José Augusto Bezerra


Com os Acadêmicos Regine Limaverde, José Augusto Bezerra e Batista de Lima


Com a amiga Maria Helena Macedo


Com os Acadêmicos Ítalo Gurgel 
 e Vicente Alencar


Com a poetisa Hermínia Lima


Com o Acadêmico Ednilo Soárez


Com a escritora Tereza Porto


Com a amiga Constança Távora


Com o Acadêmico Ernando Uchoa Lima


Com as amigas Rejane Noronha, Conceição Seabra e Euda


Com o casal Vânia e Batista de Lima


Com Dr. Marcelo Gurgel


Com os amigos Aldo Melo e Dra. Sabrina


Ladeada pelos amigos Vicente Alencar, Maria Helena, Maria do Carmo Fontenelle e pelo casal Vilani e Dr. João de Deus.


A homenagem da Presidente Nirvanda Medeiros


Os agradecimentos 


Os parabéns pra você...


A festa dos amigos

terça-feira, 16 de julho de 2013

REGINA BARROS LEAL - CRÔNICA DO DIA



RELATO

                  Madrugada!  Letícia impulsionada pelo desejo de escrever deixa as mãos digitarem com frenesi. Sua cabeça fervilha de ideias e se apodera do tempo rememorando fatos, situações. Surgem recordações imprudentes e impudentes que dão à narrativa o tom do pecado, do proibido, da cobiça camuflada, como se fossem esconderijos das estreitas ruas de cidades exóticas, de labirintos intermináveis. Lembra Hades, o deus grego, em seus intermináveis subterrâneos. Nesse itinerário do não explícito, do invisível, do anônimo, do bizarro, expressa, à sua maneira, anseios, segredos, subjetividade, subjetivação e singularidades. Percorre o imaginário encontrando o passado vivido. Materializa-o, toma forma, ora provisória, lacunar, fragmentada e imprevisível, ora totalizante, holística e plena.
                 Deste modo, sua escrita trilha o caminho da inspiração, da fantasia, do imponderável, das descobertas, escapando dos desvios que surgem inesperados e das ruelas traiçoeiras da vulgaridade. Rememorar a vida a encanta e assim ela o faz sem resvalar para um saudosismo obsessivo. Escrever torna-se um desejo constante, uma atração arrebatadora, uma curiosidade queimante. Através da narrativa, abre fendas no tempo e caminha pelos labirintos sedutores da memória, sem aflição. Persiste em sua aventura, impulsionada pelo desejo de reviver estórias exultantes, fatos simples, pessoas marcantes, os ternos amores e as paixões proibidas. Ah! As paixões que estonteiam, marcam a existência e arrebatam sentimentos incógnitos, abismais. São como brumas densas, penachos de fumaça, bosques virgens, caminhos desconhecidos, soando, às vezes, como borrascas e ou terremotos súbitos e devastadores.

                 Letícia alça voos e, brincando de fada, transforma sapos em príncipes, burros em cavalos alazões, casebres em castelos encantados. Narra estórias sobre o cotidiano, chora partidas, relata episódios e espreita o passado, através do olhar observante do seu presente.  Às vezes, seu coração se avermelha, sangra com a dor do amigo e se regozija pelo sucesso de pessoas que alcançaram seus sonhos e cantam a vida.

sábado, 13 de julho de 2013

INSTANTES - Jorge Luís Borges



Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.

Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.

Seria mais tolo ainda do que tenho sido, na verdade bem poucas coisas levaria a sério.

Seria menos higiênico.

Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.

Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da vida, claro que tive momentos de alegria.

Mas se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.

Porque, se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos, não percas o agora.

Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas. Se voltasse a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono.

Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.

Mas já viram, tenho oitenta e cinco anos e sei que estou morrendo.

sábado, 6 de julho de 2013

FLORBELA ESPANCA - BIOGRAFIA


Mesmo antes de seu nascimento, a vida de Florbela Espanca já estava marcada pelo inesperado, pelo dramático, pelo incomum.
Seu pai, João Maria Espanca era casado com Maria Toscano. Como a mesma não pôde dar filhos ao marido, João Maria se valeu de uma antiga regra medieval, que diz que quando de um casamento não houver filhos, o marido tem o direito de ter os mesmos com outra mulher de sua escolha. Assim, no dia 8 de dezembro de 1894 nasce Flor Bela Lobo, filha de Antónia da Conceição Lobo. João Maria ainda teve mais um filho com Antónia, Apeles. Mais tarde, Antónia abandona João Maria e os filhos passam a conviver com o pai e sua esposa, que os adotam.
Florbela entra para o curso primário em 1899, passando a assinar Flor d’Alma da Conceição Espanca. O pai de Florbela foi em 1900 um dos introdutores do cinematógrafo em Portugal. A mesma paixão pela fotografia o levará a abrir um estúdio em Évora, despertando na filha a mesma paixão e tomando-a como modelo favorita, razão pela qual a iconografia de Florbela, principalmente feita pelo pai, é bastante extensa.
Em 1903, aos sete anos, faz seu primeiro poema, A Vida e a Morte. Desde o início é muito clara sua precocidade e preferência a temas mais escusos e melancólicos.
Em 1908 Antônia Conceição, mãe de Florbela, falece. Florbela então ingressa no Liceu de Évora, onde permanece até 1912, fazendo com que a família se desloque para essa cidade. Foi uma das primeiras mulheres a ingressar no curso secundário, fato que não era visto com bons olhos pela sociedade e pelos professores do Liceu. No ano seguinte casa-se no dia de seus 19 anos com Alberto Moutinho, colega de estudos.
O casal mora em Redondo até 1915, quando regressa à Évora devido a dificuldades financeiras. Eles passam a morar na casa de João Maria Espanca. Sob o olhar complacente de Florbela ele convive abertamente com uma empregada, divorciando-se da esposa em 1921 para casar-se com Henriqueta de Almeida, a então empregada.
Voltando a Redondo em 1916, Florbela reúne uma seleção de sua produção poética de 1915 e inaugura o projeto Trocando Olhares, coletânea de 88 poemas e três contos. O caderno que deu origem ao projeto encontra-se na Biblioteca Nacional de Lisboa, contendo uma profusão de poemas, rabiscos e anotações que seriam mais tarde ponto de partida para duas antologias, onde os poemas já devidamente esclarecidos e emendados comporão o Livro de Mágoas e o Livro de Soror Saudade.
Regressando a Évora em 1917 a poetisa completa o 11º ano do Curso Complementar de Letras, e logo após ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Após um aborto involuntário, se muda para Quelfes, onde apresenta os primeiros sinais sérios de neurose. Seu casamento se desfaz pouco depois.
Em junho de 1919 sai o Livro de Mágoas, que apesar da poetisa não ser tão famosa faz bastante sucesso, esgotando-se rapidamente. No mesmo ano passa a viver com Antônio Guimarães, casando-se com ele em 1921. Logo depois Florbela passa a trabalhar em um novo projeto que a princípio se chamaria Livro do Nosso Amor ou Claustro de Quimeras. Por fim, torna-se o Livro de Soror Saudade, publicado em janeiro de 1923.
Após mais um aborto separa-se pela segunda vez, o que faz com que sua família deixe de falar com ela. Essa situação a abalou muito. O ex-marido abriu mais tarde em Lisboa uma agência, “Recortes”, que enviava para os respectivos autores qualquer nota ou artigo sobre ele. O espólio pessoal de Antônio Guimarães reúne o mais abundante material que foi publicado sobre Florbela, desde 1945 até 1981, ano do falecimento do ex-marido. Ao todo são 133 recortes.

Em 1925 Florbela casa-se com Mário Lage no civil e no religioso e passa a morar com ele, inicialmente em Esmoriz e depois na casa dos pais de Lage em Matosinhos, no Porto.
Passa a colaborar no D. Nuno em Vila Viçosa, no ano de 1927, com os poemas que comporão o Charneca em Flor. Em carta ao diretor do D. Nuno fala da conclusão de Charneca em Flor, e fala também da preparação de um livro de contos, provavelmente O Dominó Preto.
No mesmo ano Apeles, irmão de Florbela, falece em um trágico acidente, fato esse que abalou demais a poetisa. Ela aferra-se à produção de As Máscaras do Destino, dedicando ao irmão. Mas então Florbela nunca mais será a mesma, sua doença se agrava bastante após o ocorrido.
Começa a escrever seu Diário de Último Ano em 1930. Passa a colaborar nas revistas Portugal Feminino e Civilização, trava também conhecimento com Guido Batelli, que se oferece para publicar Charneca em Flor. Florbela então revê em Matosinhos as provas do livro, depois de tentar o suicídio, período em que a neurose se agrava e é diagnosticado um edema pulmonar.
Em dois de dezembro de 1930, Florbela encerra seu Diário do Último Ano com a seguinte frase: “… e não haver gestos novos nem palavras novas.” Às duas horas do dia 8 de dezembro – no dia do seu aniversário Florbela D’Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos, ingerindo dois frascos de Veronal. Algumas décadas depois seus restos mortais são transportados para Vila Viçosa, “… a terra alentejana a que entranhadamente quero”.
FONTES:
http://www.instituto-camoes.pt/cvc/projtelecolab/tintalusa/
numerodois/tl3.html
http://purl.pt/272/2/index.html

http://www.torre.xrs.net/

terça-feira, 2 de julho de 2013

POEMA DO DIA


INSTABILIDADE

                     Vês?

                     Aquela onda a tecer rendas de espanto,
                     na areia,
                     não sou eu.
                     Eu sou o contorno das espumas
                     lavrado como escritura
                     para o abissal exílio dos grãos
                     de areia.
                    
                     Minha essência
                     são esses fragmentos de ausência
                     retidos na voz dos náufragos,
                     no desespero das algas e corais
                     afogados.
                    
                     Entre ti e mim há sombras
                     que devoram horas,
                     que extraviam calendários;
                     há voos que perderam a estabilidade
                     e passos esquecidos nas estradas.
                     Somos paisagens que se despedaçam
                     sob os látegos do tempo.
                    
                     Em nós, apenas os murmúrios cegos
                     de um amor espetado
                     pelos dedos espinhentos do destino.
                    
                     Somos a ânsia dos tardos andarilhos:
                     tu, as pegadas, lentas,
                     irremediavelmente tímidas;
                     e eu, o porto, a chegada final,
                     que espera em vão
                     o assentamento da âncora

                     dos teus andarilhos passos. 

GISELDA MEDEIROS