sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
O mundo sem mulheres! - Arnaldo Jabor
O cara faz um esforço desgraçado para ficar rico pra quê?
O sujeito quer ficar famoso pra quê?
O indivíduo malha, faz exercícios pra quê?
A verdade é que é a mulher o objetivo do homem.
Tudo que eu quis dizer é que o homem vive em função da mulher.
Vivem e pensam em mulher o dia inteiro, a vida inteira.
Se a mulher não existisse, o mundo não teria ido pra frente.
Homem algum iria fazer alguma coisa na vida para impressionar outro
homem, para conquistar sujeito igual a ele, de bigode e tudo.
Um mundo só de homens seria o grande erro da criação.
Já dizia a velha frase que 'atrás de todo homem bem-sucedido existe uma
grande mulher'.
O dito está envelhecido. Hoje eu diria que 'na frente de todo homem
bem-sucedido existe uma grande mulher'.
É você, mulher, quem impulsiona o mundo.
É você quem tem o poder, e não o homem.
É você quem decide a compra do apartamento, a cor do carro, o filme a
ser visto, o local das férias.
Bendita a hora em que você saiu da cozinha e, bem-sucedida, ficou na
frente de todos os homens.
E, se você que está lendo isto aqui for um homem, tente imaginar a sua
vida sem nenhuma mulher.
Aí na sua casa, onde você trabalha, na rua. Só homens.
Já pensou?
Um casamento sem noiva?
Um mundo sem sogras? (Essa daqui eu gostei...)
Enfim, um mundo sem metas.
ALGUNS MOTIVOS PELOS QUAIS OS HOMENS GOSTAM TANTO DE MULHERES:
1- O cheirinho delas é sempre gostoso, mesmo que seja só xampu.
2- O jeitinho que elas têm de sempre encontrar o lugarzinho certo em
nosso ombro, nosso peito.
3- A facilidade com a qual cabem em nossos braços
4- O jeito que tem de nos beijar e, de repente, fazer o mundo ficar
perfeito.
5- Como são encantadoras quando comem.
6- Elas levam horas para se vestir, mas no final vale a pena.
7- Porque estão sempre quentinhas, mesmo que esteja fazendo trinta graus
abaixo de zero lá fora
8- Como sempre ficam bonitas, mesmo de jeans com camiseta e
rabo-de-cavalo.
9- Aquele jeitinho sutil de pedir um elogio.
10- O modo que tem de sempre encontrar a nossa mão.
11- O brilho nos olhos quando sorriem.
12- O jeito que tem de dizer 'Não vamos brigar mais, não..'
13- A ternura com que nos beijam quando lhes fazemos uma delicadeza.
14- O modo de nos beijarem quando dizemos 'eu te amo'.
15- Pensando bem, só o modo de nos beijarem já basta.
16- O modo que têm de se atirar em nossos braços quando choram.
17- O fato de nos darem um tapa achando que vai doer. (Ha Ha Ha Ha!!! É
verdade; mas às vezes doi sim...)
18- O jeitinho de dizerem 'estou com saudades'.
19- As saudades que sentimos delas.
20- A maneira que suas lágrimas tem de nos fazer querer mudar o mundo
para que mais nada lhes cause dor.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
ANÁLISE SOCRÁTICA DOS TEMPOS ATUAIS - Frei Betto
Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei:
"Não foi à aula?" Ela respondeu: "Não, tenho aula à tarde".
Comemorei: "Que bom; então, de manhã, você pode brincar, dormir até mais
tarde"
"Não", retrucou ela, "tenho tanta coisa de manhã..." "Que
tanta coisa?", perguntei. "Aulas de inglês, de balé, de pintura,
piscina", e começou a elencar seu programa de garota robotizada.
Fiquei pensando: "Que pena", a Daniela não disse: "Tenho aula de
meditação!"
Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados,
mas emocionalmente infantilizados.
Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis
livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de
ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me
preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito.
Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: "Como estava o defunto? "Olha uma
maravilha, não tinha uma celulite!" Mas como fica a questão da
subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
A palavra hoje é "entretenimento"; domingo, então, é o dia nacional da
imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se
apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela.
Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que
felicidade é o resultado da soma de prazeres: "Se tomar este refrigerante,
vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!" O
problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira
o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem
resiste, aumenta a neurose.
O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse
condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver
melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis:
amizades, autoestima, ausência de estresse.
Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as
cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil,
constrói-se um shopping Center. É curioso: a maioria dos shoppings centers
tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de
qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro
sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira
pelas calçadas...
Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela
musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas
capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas
sacerdotisas.
Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar
cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no
purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno...
Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma
mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald...
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: "Estou
apenas fazendo um passeio socrático." Diante de seus olhares espantados,
explico: "Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça
percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o
assediavam, ele respondia:"
- "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser
feliz !"
"Não foi à aula?" Ela respondeu: "Não, tenho aula à tarde".
Comemorei: "Que bom; então, de manhã, você pode brincar, dormir até mais
tarde"
"Não", retrucou ela, "tenho tanta coisa de manhã..." "Que
tanta coisa?", perguntei. "Aulas de inglês, de balé, de pintura,
piscina", e começou a elencar seu programa de garota robotizada.
Fiquei pensando: "Que pena", a Daniela não disse: "Tenho aula de
meditação!"
Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados,
mas emocionalmente infantilizados.
Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis
livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de
ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me
preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito.
Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: "Como estava o defunto? "Olha uma
maravilha, não tinha uma celulite!" Mas como fica a questão da
subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
A palavra hoje é "entretenimento"; domingo, então, é o dia nacional da
imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se
apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela.
Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que
felicidade é o resultado da soma de prazeres: "Se tomar este refrigerante,
vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!" O
problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira
o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem
resiste, aumenta a neurose.
O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse
condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver
melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis:
amizades, autoestima, ausência de estresse.
Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as
cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil,
constrói-se um shopping Center. É curioso: a maioria dos shoppings centers
tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de
qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro
sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira
pelas calçadas...
Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela
musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas
capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas
sacerdotisas.
Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar
cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no
purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno...
Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma
mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald...
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: "Estou
apenas fazendo um passeio socrático." Diante de seus olhares espantados,
explico: "Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça
percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o
assediavam, ele respondia:"
- "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser
feliz !"
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
MUTAÇÃO - Giselda Medeiros
(para Ana, leitora assídua de meus versos)
Pé, antepé, chegaste em minha vida.
Trouxeste flores, trouxeste sol, trouxeste amor.
Interessante! Tantas coisas se perderam,
tantas outras misturaram-se neste amálgama da vida!
E, à proporção que as flores perdiam seu perfume e cor,
o sol se desfazia no ocaso das lembranças.
E o amor... Ah, o amor! - este raspou da terra
suas últimas raízes
e foi plantar-se onde havia sol.
(do meu primeiro livro ALMA LIBERTA)
Pé, antepé, chegaste em minha vida.
Trouxeste flores, trouxeste sol, trouxeste amor.
Interessante! Tantas coisas se perderam,
tantas outras misturaram-se neste amálgama da vida!
E, à proporção que as flores perdiam seu perfume e cor,
o sol se desfazia no ocaso das lembranças.
E o amor... Ah, o amor! - este raspou da terra
suas últimas raízes
e foi plantar-se onde havia sol.
(do meu primeiro livro ALMA LIBERTA)
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
FELIZ NATAL A VOCÊS QUE ME VISITAM
NATAL - Auta de Sousa
É meia noite ... O sino alvissareiro,
Lá da igrejinha branca pendurado,
Como num sonho místico e fagueiro,
Vem relembrar o tempo do passado.
Ó velho sino, ó bronze abençoado,
Na alegria e na mágoa companheiro!
Tu me recordas o sorrir primeiro
De menino Jesus imaculado.
E enquanto escuto a tua voz dolente,
Meu ser que geme dolorosamente
Da desventura, aos gélidos açoites ...
Bebe em teus sons tanta alegria, tanta!
Sino que lembras uma noite santa,
Noite bendita mais que as outras noites!
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
POLICROMIAS – um collorarium de peças literárias
Boa noite a todos, senhores e senhoras presentes, a quem saúdo na pessoa da presidente da AJEB, Maria Luísa Bonfim.
Foi com satisfação que recebi e aceitei o convite da poeta Giselda Medeiros, presidente de honra e diretora de publicação da Associação de Jornalistas e Escritoras Brasileiras – AJEB – para apresentar este 6º volume da Coletânea Policromias, uma edição comemorativa do 40º aniversário da Associação.
Não poderia haver nome mais adequado do que Policromias para traduzir a multiplicidade de textos que compõem o volume. São variadas nuanças, numa diversidade de gêneros e estilos, como a compor um quadro de tonalidades e matizes, não de cores, mas de palavras que analisam, perquirem, contam, recontam, bordam histórias, falam de glórias e tecem sentimentos, encantos e desencantos, segredos e esperas.
O cronista angolano Carmo Neto diz que criar é um exercício de liberdade. De fato, quando se juntam experiências diversas desse exercício, tem-se o texto como fruição, como projeto estético ou como apenas catarse. Pouco importam intenções ou rótulos, a necessidade de quem escreve é também a de quem lê.
Nesse mesmo raciocínio sobre a criação, Walter Benjamim, ao referir-se a textos narrativos, disse: “O narrador conta o que ele extrai da experiência – sua própria ou aquela contada por outros. E, de volta, ele a torna experiência daqueles que ouvem a sua história”. O filósofo parece ter proferido essas palavras pensando na crônica; ou, talvez, pensasse na epístola, gênero praticamente desaparecido, que, não despretenciosamente, abre essa miscelânea literária. Falo da Carta de Beatriz Alcântara, cuja emoção nos arrebata e faz seguirmos com a narradora o tempestuoso percurso para enterrar os ossos dos avôs. Com ela, enfrentamos a procela e respiramos gratificados quando a missão é cumprida e resta a trivial realidade de um computador deixado ligado na tomada. Heloísa Barros Leal também incursiona pelo mesmo gênero, como Haroldo Lyra, com outras proposições.
A crônica, o mais simples e sublime exercício de partilha de experiências e observações, possibilita rápidas viagens aos universos criados pelos dedos de Evan Bessa, Zenaide Marçal, Nirvanda Medeiros, Ione Arruda, Ilnah Soares, Germano Muniz, Margarida Alencar, Rosa Firmo, Stella Furtado, Zinah Alexandrino, João de Deus, Vicente Alencar e Rosa Virgínia Carneiro, muitas vezes se confundindo com prosa poética. Talvez seja essa a forma de composição mais praticada na atualidade, “porque nós temos consciência da extraordinária violência com que o tempo vai levando as coisas e as gentes, daí a necessidade de registrar, de alguma forma, o que se passou e passa no âmbito pessoal e intransferível”, como afirma Ivan Lessa. Vou além: a crônica satisfaz nossa ânsia de comunicação com o outro, não requer recursos estéticos, não enseja belicosos trabalhos de linguagem, constrói-se na simplicidade da nossa própria visão de mundo e nos dá a oportunidade de ser pessoais, sem sermos piegas, de celebrar o instante que passa, sem deixá-lo ir completamente.
O conto é outro exercício ficcional praticado pelos ajebianos e, nesta coletânea, vem representado pela criação de Regina Barros Leal, Evan Bessa, Ednilo Soárez e Celina Côrte Pinheiro. O ensaio também ocupa espaço nestas páginas; poetas e contistas saem da sua condição de criadores do texto literário para analisá-los ou discorrerem sobre a realidade circundante. Ebe Braga Frota fala sobre a educação como fator de progresso social; Giselda discorre sobre a trova; Maria Luisa Bonfim escreve sobre os poemas de Pablo Neruda; Francisco Carvalho analisa a poesia de Neide Azevedo; Maria Amélia Barros Leal investiga o universo ficcional de Moreira Campos e Claudio Queiroz percorre a ficção de Dostoiévski. O discurso, gênero essencialmente oratório, tem registro com peças de autoria de José Augusto Bezerra, João de Deus, Maria do Carmo Fontenelle e Eduardo Fontes.
Já a poesia, a composição escrita que mais se comunica com a alma, domina as páginas da coletânea, em versos de muitos contistas, cronistas e ensaístas já citados, bem como na inspiração de Rejane Costa Barros, Nilze Costa e Silva, Argentina Andrade, Lúcia Helena Pereira, Ana Paula de Medeiros, Manoel César, Regine Limaverde, Salete Passos Urano, Tereza Porto, Bernadete Sampaio, Clara Leda, Mary Ann Leitão Karan, Sabrina Melo, Viviane Fernandes, Maria Helena Macedo, Pereira de Albuquerque, Vital Arruda, J. Udine, Moacir Gadelha, Sérgio Macedo, Sílvio dos Santos Filho e Waldir Rodrigues. A eles se agregam os Poemas vencedores do IV Concurso Literário Professora Edith Braga, realizado pela AJEB-CE, em 2009, especialmente os três primeiros lugares conquistados por Sabrina Melo, Arleni Portelada e Francisco Bento Leitão Filho. Todos sabem, como Valtaire, que “O esplendor da relva só pode mesmo ser percebido pelo poeta. Os outros pisam nela”, ou seja, sabem da missão de descortinar o mundo que não se mostra a qualquer um, somente àqueles que trazem nos olhos a poesia que dorme nos seres e nas coisas.
Nesse corollarium de peças literárias, não há hierarquia nem juízo de valor. A moeda é a criação advinda da necessidade de confirmar a própria existência. Escrever sempre será um ato de liberdade e afinação com a vida; sempre será a projeção de um grito de dor ou prazer... ou apenas um grito que se quer ouvido. Parabéns à poeta Giselda pela organização da coletânea e a todos os participantes que, não tenho dúvida, entendem a vida pelo diálogo entre as palavras e os silêncios.
Obrigada!
Aíla Sampaio
Foi com satisfação que recebi e aceitei o convite da poeta Giselda Medeiros, presidente de honra e diretora de publicação da Associação de Jornalistas e Escritoras Brasileiras – AJEB – para apresentar este 6º volume da Coletânea Policromias, uma edição comemorativa do 40º aniversário da Associação.
Não poderia haver nome mais adequado do que Policromias para traduzir a multiplicidade de textos que compõem o volume. São variadas nuanças, numa diversidade de gêneros e estilos, como a compor um quadro de tonalidades e matizes, não de cores, mas de palavras que analisam, perquirem, contam, recontam, bordam histórias, falam de glórias e tecem sentimentos, encantos e desencantos, segredos e esperas.
O cronista angolano Carmo Neto diz que criar é um exercício de liberdade. De fato, quando se juntam experiências diversas desse exercício, tem-se o texto como fruição, como projeto estético ou como apenas catarse. Pouco importam intenções ou rótulos, a necessidade de quem escreve é também a de quem lê.
Nesse mesmo raciocínio sobre a criação, Walter Benjamim, ao referir-se a textos narrativos, disse: “O narrador conta o que ele extrai da experiência – sua própria ou aquela contada por outros. E, de volta, ele a torna experiência daqueles que ouvem a sua história”. O filósofo parece ter proferido essas palavras pensando na crônica; ou, talvez, pensasse na epístola, gênero praticamente desaparecido, que, não despretenciosamente, abre essa miscelânea literária. Falo da Carta de Beatriz Alcântara, cuja emoção nos arrebata e faz seguirmos com a narradora o tempestuoso percurso para enterrar os ossos dos avôs. Com ela, enfrentamos a procela e respiramos gratificados quando a missão é cumprida e resta a trivial realidade de um computador deixado ligado na tomada. Heloísa Barros Leal também incursiona pelo mesmo gênero, como Haroldo Lyra, com outras proposições.
A crônica, o mais simples e sublime exercício de partilha de experiências e observações, possibilita rápidas viagens aos universos criados pelos dedos de Evan Bessa, Zenaide Marçal, Nirvanda Medeiros, Ione Arruda, Ilnah Soares, Germano Muniz, Margarida Alencar, Rosa Firmo, Stella Furtado, Zinah Alexandrino, João de Deus, Vicente Alencar e Rosa Virgínia Carneiro, muitas vezes se confundindo com prosa poética. Talvez seja essa a forma de composição mais praticada na atualidade, “porque nós temos consciência da extraordinária violência com que o tempo vai levando as coisas e as gentes, daí a necessidade de registrar, de alguma forma, o que se passou e passa no âmbito pessoal e intransferível”, como afirma Ivan Lessa. Vou além: a crônica satisfaz nossa ânsia de comunicação com o outro, não requer recursos estéticos, não enseja belicosos trabalhos de linguagem, constrói-se na simplicidade da nossa própria visão de mundo e nos dá a oportunidade de ser pessoais, sem sermos piegas, de celebrar o instante que passa, sem deixá-lo ir completamente.
O conto é outro exercício ficcional praticado pelos ajebianos e, nesta coletânea, vem representado pela criação de Regina Barros Leal, Evan Bessa, Ednilo Soárez e Celina Côrte Pinheiro. O ensaio também ocupa espaço nestas páginas; poetas e contistas saem da sua condição de criadores do texto literário para analisá-los ou discorrerem sobre a realidade circundante. Ebe Braga Frota fala sobre a educação como fator de progresso social; Giselda discorre sobre a trova; Maria Luisa Bonfim escreve sobre os poemas de Pablo Neruda; Francisco Carvalho analisa a poesia de Neide Azevedo; Maria Amélia Barros Leal investiga o universo ficcional de Moreira Campos e Claudio Queiroz percorre a ficção de Dostoiévski. O discurso, gênero essencialmente oratório, tem registro com peças de autoria de José Augusto Bezerra, João de Deus, Maria do Carmo Fontenelle e Eduardo Fontes.
Já a poesia, a composição escrita que mais se comunica com a alma, domina as páginas da coletânea, em versos de muitos contistas, cronistas e ensaístas já citados, bem como na inspiração de Rejane Costa Barros, Nilze Costa e Silva, Argentina Andrade, Lúcia Helena Pereira, Ana Paula de Medeiros, Manoel César, Regine Limaverde, Salete Passos Urano, Tereza Porto, Bernadete Sampaio, Clara Leda, Mary Ann Leitão Karan, Sabrina Melo, Viviane Fernandes, Maria Helena Macedo, Pereira de Albuquerque, Vital Arruda, J. Udine, Moacir Gadelha, Sérgio Macedo, Sílvio dos Santos Filho e Waldir Rodrigues. A eles se agregam os Poemas vencedores do IV Concurso Literário Professora Edith Braga, realizado pela AJEB-CE, em 2009, especialmente os três primeiros lugares conquistados por Sabrina Melo, Arleni Portelada e Francisco Bento Leitão Filho. Todos sabem, como Valtaire, que “O esplendor da relva só pode mesmo ser percebido pelo poeta. Os outros pisam nela”, ou seja, sabem da missão de descortinar o mundo que não se mostra a qualquer um, somente àqueles que trazem nos olhos a poesia que dorme nos seres e nas coisas.
Nesse corollarium de peças literárias, não há hierarquia nem juízo de valor. A moeda é a criação advinda da necessidade de confirmar a própria existência. Escrever sempre será um ato de liberdade e afinação com a vida; sempre será a projeção de um grito de dor ou prazer... ou apenas um grito que se quer ouvido. Parabéns à poeta Giselda pela organização da coletânea e a todos os participantes que, não tenho dúvida, entendem a vida pelo diálogo entre as palavras e os silêncios.
Obrigada!
Aíla Sampaio
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
NOSSOS PARABÉNS À REJANE COSTA BARROS PELA CONQUISTA DO PRÊMIO COSTA MATOS DE POESIA
Eis o poema classificado em 1º Lugar:
ENIGMAS
Rejane Costa Barros
Saber-se assim, solta no vento,
é ter a sensação de que o pó da estrada
voou para longe.
Tenho chaves no peito que deságuam
minhas solidões
e vão abrindo os portões do meu celeiro.
O momento em que estou diante de ti
vem me destemperando a alma
e fazendo com que eu ouça o silêncio
aquele que amadurece as frutas
que vingam em meu corpo.
O mapa dos meus olhos
radiografa teus caminhos
e despe a cidade rasgando as pétalas do desejo.
Querer-te próximo
é roçar uma plantação de enigmas
ávidos caçadores de palavras
escrevendo poemas e soltando às estrelas
as desalinhadas promessas.
A noite se inscreve nessa história
como se o vinho temperasse a solidão
e abandonasse as escrituras,
jogasse ao chão as folhas mortas,
e rasgasse os absurdos, a falta de nexo, o desconsolo.
Minhas sombras estão impregnadas nas areias da memória
por ela vivo e dela me socorro.
Nas dúvidas do caminho interrompido e sem amarras
às vezes brotam em mim urtigas.
Na maioria das vezes, nascem em mim gerânios
que refletem imagens nas lâminas de vidro
pequenos depositários dos meus anseios.
Abrigo as estrelas e estendo as mãos
com melancólicos versos de cantigas do amor distante,
assim, aponto ao horizonte mirando os pássaros
do meu destino, em curvas delineadas pela fragilidade
com que o amor nos dilacera a alma, sangrando
os musgos da nossa existência!
ENIGMAS
Rejane Costa Barros
Saber-se assim, solta no vento,
é ter a sensação de que o pó da estrada
voou para longe.
Tenho chaves no peito que deságuam
minhas solidões
e vão abrindo os portões do meu celeiro.
O momento em que estou diante de ti
vem me destemperando a alma
e fazendo com que eu ouça o silêncio
aquele que amadurece as frutas
que vingam em meu corpo.
O mapa dos meus olhos
radiografa teus caminhos
e despe a cidade rasgando as pétalas do desejo.
Querer-te próximo
é roçar uma plantação de enigmas
ávidos caçadores de palavras
escrevendo poemas e soltando às estrelas
as desalinhadas promessas.
A noite se inscreve nessa história
como se o vinho temperasse a solidão
e abandonasse as escrituras,
jogasse ao chão as folhas mortas,
e rasgasse os absurdos, a falta de nexo, o desconsolo.
Minhas sombras estão impregnadas nas areias da memória
por ela vivo e dela me socorro.
Nas dúvidas do caminho interrompido e sem amarras
às vezes brotam em mim urtigas.
Na maioria das vezes, nascem em mim gerânios
que refletem imagens nas lâminas de vidro
pequenos depositários dos meus anseios.
Abrigo as estrelas e estendo as mãos
com melancólicos versos de cantigas do amor distante,
assim, aponto ao horizonte mirando os pássaros
do meu destino, em curvas delineadas pela fragilidade
com que o amor nos dilacera a alma, sangrando
os musgos da nossa existência!
sábado, 27 de novembro de 2010
CONVITE
A Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, Coordenadoria do Ceará, convida para o lançamento de Policromias - 6º Volume, livro que traz a participação de 50 Autores.
A apresentação da obra e de seus participantes será feita pela Escritora Aíla Sampaio, da Academia Cearense da Língua Portuguesa.
Local: Academia Cearense de Letras - Rua do Rosário, nº 1, Centro.
Data: 7 de dezembro de 2010 (terça-feira)
Horário: 19h
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
DO LIVRO ÂNFORA DE SOL - GISELDA MEDEIROS
O AZUL SILENCIOSO DOS ESPINHOS EM TRÊS MOVIMENTOS
Movimento 1
(para Lúcia Helena Pereira)
Quando a noite amanhece em tuas heras,
e o tempo reverdece-me a saudade,
sou sílaba suspensa sobre o medo,
cartilha ancestral de meus degredos.
Reinvento-me vogal, faço-me rima
para acender-te um verso em arco-íris,
sob os cílios de um céu feito de ânsias.
O caminho das águas são espelhos
que refletem ferrugem, desespero,
e onde uma andorinha fia esperas.
Assusta-me esse azul silencioso
posto sobre o fantasma de mim mesma,
artéria em que rumina uma saudade
com seu hálito de espinhos suicidas.
Movimento 2
(para Gisele Bueno Pinto)
Entre o silêncio e a festa da paisagem,
há um pássaro bicando meus fantasmas,
sob a silhueta da canção das pálpebras,
porcelana azul de minhas inquietudes.
O silêncio rendilha as esperanças
que minha alma tricotou na infância.
A festa da paisagem célere avança
com seus silentes olhos de crepúsculo.
Fio a dor do silêncio... A dor é tudo
que minha arte sente, que extravasa
nos sombrios espelhos da memória.
Ah, deixem-me cantar minha canção
na dor silenciosa dos espinhos,
porquanto a aurora ainda é paisagem em mim!
Movimento 3
(para Sylvia Helena Tocantins)
Sob o olhar sombroso dos alpendres,
refaço-me em letras e apascento
o azul silencioso dos espinhos
que o medo me enxertou com seus ancinhos.
Na parede da sala, insone espelho
aprisiona o meu olhar vermelhoe tinge de ocre meu lábio calado,
há muito pelo tempo embalsamado.
O pálido relógio marca a sombra
das horas líquidas que ontem deixaram
seus rastros de procela nas alfombras.
A cortina dos medos se descerra...
E vejo dedos, céleres, que aram
novo jardim de amores sobre a terra.
sábado, 13 de novembro de 2010
Inspiração Tecida em Fá Maior (para Giselda Medeiros)
Tu és a musicista das palavras,
tal qual Hermeto em seu acorde
dissonante. A busca do espectro
perdido em um flash indefectivo.
O sol morrente derrama-se em brasas
sobre o prelúdio como uma canção
alencarina. Mas do que um canto
circunstancial, és atemporal.
O voo rasante e preciso de teus versos
se espalha sobre um oceano parnasiano
ainda restará alguém, que além-mar
poderá lê-la e apreciá-la.
Nem o vento do Aracaty e o verde
mar atlântico poderá almejá-la, pois,
és tu a saudosa musa;
princesa dos poetas cearenses.
Saulo Emanuel
AMIGOS...SIMPLESMENTE AMIGOS... - José Wagner de Paiva Queiroz Lima
Precisa-se urgentemente de amigos para jogar conversa fora...
Que não queiram ser melhores ou piores do que Você...
Que sejam Amigos... simplesmenmte Amigos...
Que te telefonem agradecendo os chocolates e flores recebidas...
Que Você ao lhes confidenciar os seus mais profundos segredos...
Eles possam guardá-los, por mais irressestível que sejam,
no silêncio do seu coração...
Que, sabendo dos teus defeitos e qualidades,
Possam ter por ti um profundo sentimento de respeito...
E, que, agradecidos, façam uma poesia pela tua amizade sincera,
E você, sensivelmente encantada, se sinta a mais bela de todas as Musas...
Amigos com quem você possa dividir sonhos e desejos de realização...
Amigos que acreditem na vida... no que há de mais nobre no ser humano...
Amigos que sonhem juntos por um mundo melhor para nós e nossos filhos...
Amigos que sonhem grande e queiram deixar algo de bom e belo
Para a humanidade e para as gerações que nos sucedem...
Precisa-se urgentemente desses... destes Amigos...
Amigos, simplesmente Amigos...
José Wagner de Paiva Queiroz Lima
Psicólogo & Jornalista (colaborador)
domingo, 31 de outubro de 2010
EVAN BESSA ANIVERSARIA E BRINDA CONVIDADOS COM SEU LIVRO "VIVÊNCIAS DO COTIDIANO"
Com bela e aconchegante recepção no Dallas Gril, ela recebeu seus convidados, ofertando a cada um deles um exemplar de "Vivências do Cotidiano", livro que traz crônicas sobre variados assuntos. Sempre respeitando as características da crônica, ou seja, brevidade, subjetividade, ambiguidade, diálogo, estilo entre o coloquial e o literário e temática do cotidiano, Evan Bessa transita nesse gênero com desenvoltura, estilo próprio, certa dose de humor, enfim, com um conjunto de ingredientes que deixa sua escrita aberta ao gosto do leitor. Podemos dizer que Evan Bessa é uma ficcionista do cotidiano, com uma porção de realidade e fantasia.
Parabéns, Evan. Toda a AJEB se envaidece por tê-la em suas fileiras.
Giselda Medeiros
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
PEREGRINAÇÃO - Fernanda Benevides
Entre ser e não ser,
vou pelos labirintos da vida
desconhecendo o motivo do meu peregrinar.
Entre razão e intuição,
quedo-me ante a lucidez e a loucura.
Eis que o destino cruel pune-me,
submetendo-me à penúria e à desgraça.
Contorço-me em meio às chamas,
depois tudo cessa.
Vencida a dor, o sofrimento recomeça...
E vou rumando à pátria que sonhei ser minha!
(De Quando as Musas Cantam)
domingo, 24 de outubro de 2010
REFLEXÃO DA SEMANA
SER INTELIGENTE SAIU DE MODA?
"Que fazer para que A ALTA CRIAÇÃO INTELECTUAL , CIENTÍFICA OU ARTÍSTICA continue sendo mais importante do que a sola vermelha do último sapato desenhado por Christian Louboutin? Ou que o mais recente ENSINAMENTO ESPIRITUAL de Dalai Lama seja considerado mais valioso e intertessante do que o último escândalo de Paris Hilton?" (...)
"TALVEZ fosse o caso, lá (na Inglaterra) como aqui, de pressionar as autoridades para que comecem a afirmar que CULTURA e INTELIGÊNCIA são coisas boas, e delas a gente gosta. E procurar as verdadeiras razões desse perigosa inversão de valores que caracteriza nosso atual momento histórico, no qual os grandes são esquecidos e os medíocres são elevados ao olimpo dos deuses de curta duração."
(...) "Ou seja, não são mais os grandes escritores e compositores, os cientistas e filósofos, não mais os grandes empreendedores, nem sequer os megagaviões da bolsa de valores e dos bancons constituem OS PADRÕES DE SUCESSO E DE AFIRMAÇÃO SOCIAL A SEREM PERSEGUIDOS. A culpa deve ser atribuída , sobretudo, aos atuais modelos e cânones de "celebridade" que contribuem para bloquear os jovens, afastando-os (algumas vezes) do SUCESSO ACADÊMICO."
(Trechos da reportagem in REVISTA PLANETA - COMPORTAMENTO, outubro/2010).
Com desejos de Feliz Final de semana!
José Wagner de Paiva Queiroz Lima, psic/jorn/esc
terça-feira, 19 de outubro de 2010
DUAS ALMAS - Alceu Wamosy/RS
"Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
entra, e sob este teto, encontrarás carinho;
eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho!
Vives sozinha sempre e nunca foste amada...
A neve anda a branquear, lividamente, a estrada
e minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.
E amanhã quando a luz do sol doirar radiosa
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir de novo, ó nômade formosa!
Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha..."
terça-feira, 12 de outubro de 2010
PARA ESTE 12 DE OUTUBRO
Trovas de Tarcísio Fernandes / RN
Nestes tempos atuais,
o que mais vem-me à lembrança
é o exemplo de meus pais
e meus tempos de criança.
Nesta trova, em oração,
que, por Deus, será ouvida,
agradeço a proteção
da Senhora Aparecida.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
CONVITE
Dia 26 de outubro, às 19h, no Ideal Clube, ocorrerá o lançamento do meu livro ÂNFORA DE SOL.
Espero você lá, ok?
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
CONTEÚDO E CONTINENTE - Giselda Medeiros
Poeta,
de que barro,
de que águas,
de que matéria
vem tua rima,
se ela é tão rara
e embriaga as retinas
ávidas de pérolas,
e de luz, e de canções?!
Chove emoção com teu verso...
E tua poesia é azeite e lâmpada,
fio e teia, corda e harpa,
asa e vôo, luz e estrela,
água e rio,
pássaro que pousa
sobre o azedume da vida
soterrando espantos
e despertando mitos.
Tua poesia escorre sobre nós
como o orvalho sobre a pétala,
tão leve e cristalina...
Poeta, responde-nos:
de que barro,
de que águas,
de que matéria
vem tua rima,
se tua mão guia, no invisível espaço matinal,
o ritmo e a palavra
que começam a dançar nas madrugadas
envoltos no ciciar da brisa,
a explodir em versos sobre tua fronte?!
Tu cantas, Poeta,
a amargura da vida
com a mesma singeleza com que choras
o amor sonhado, encravado nas estrelas.
Teu é o território do sentimento.
Teu é o infinito que se abre para conter o sonho.
Teu é o canto da saudade
evolando nas asas do pássaro do amor.
Por isso, poeta, vem e dize-nos:
de que barro,
de que águas,
de que matéria, enfim, vem tua primorosa rima?!...
(de ÂNFORA DE SOL)
domingo, 5 de setembro de 2010
Histórias C7S - Ex-alunos
UM VATICÍNIO COMPROVADO
Giselda Medeiros
Àquela época, eu cursava no, então, Ginásio 7 de Setembro, o curso de admissão.
Era aquele um dia especial. A turma toda aguardava (alguns apreensivos, outros despreocupados) a entrada triunfal do Dr. Edilson Brasil Soárez.
Aula de Matemática. Professor Nertan. Assoma à porta da sala, com seu costumeiro gesto de rodar levemente a cabeça, o Diretor. Numa atitude cavalheiresca, pede licença ao professor. Abraçando, como que carinhosamente o enorme livro preto que sempre conduzia, aproxima-se da mesa. Faz a preleção costumeira aos alunos. Em seguida, inicia a entrega das redações. Ah, aquele era um momento muito aguardado! A curiosidade por saber a nota e, principalmente, receber das mãos do Diretor e ganhar dele qualquer elogio era um céu para nós, alunos.
E ele ia distribuindo, uma a uma, pelo número e pelo nome (sim, porque ele fazia questão de chamar seus alunos pelo nome).
Eu, timidamente, aguardava a minha vez de ser chamada. Os nomes iam-se sucedendo, e o meu não era chamado. Eu já suava frio e me debatia em angústias: tirei uma nota ruim – dizia baixinho para mim mesma.
Espichei o olhar para o livro preto e vi que havia, ainda, uma redação. E era a que ele pegava naquele momento. Tremi: só pode ter sido a pior da classe!
Foi quando ouvi o Diretor: “Número 1388, Giselda”. Levantei-me, entre assustada e ansiosa. Ele continuou: “Após a aula, vá ao meu gabinete”. E não me entregou a redação.
Não prestei mais atenção à aula que continuara. Mil pensamentos me rondavam, insistentemente. Nunca tirara nota abaixo da média. Seria aquela a primeira?
Ao término da aula, apanhei minha bolsa e saí rumo à Diretoria. O caminho, que era curto, pareceu-me uma eternidade.
Entrei e sentei-me timidamente, à sua frente. E qual não foi minha alegria quando vi estampar-se no rosto do Diretor um sorriso amigo e confiante. Relaxei. Ninguém abre um sorriso para dar notícia ruim. Foi quando ouvi elogios à minha redação.
Do que ele falou ficou em mim, forte e muito nítida, uma frase que me norteou vida afora e que me levou a me exercitar mais na leitura e na escrita.
Ainda hoje lembro-lhe o tom da voz e o olhar sorridente, não mais de um Diretor, mas de um pai, feliz, ante a vitória de um filho:
Um dia, você será escritora!
domingo, 29 de agosto de 2010
SE EU PUDESSE... - Giselda Medeiros
Ah! se eu pudesse ir além das estrelas,
atravessar a nado o oceano inteiro,
sorver os néctares abundantemente
e me tornar a rosa mais viçosa...
Se eu pudesse entrar no teu enigma,
vasculhar teus horizontes submersos,
cantar tua canção
e me inspirar nas rimas do teu coração.
Se eu pudesse...
Ah, se eu pudesse arrancar de mim estes tédios longos,
beber as fantasias que de teus olhos fluem...
Ah! Seria eu a eterna voz dos ventos,
o frescor deliciante das campinas verdes,
o brilho incomunal dos etéreos astros,
a mais romântica canção de amor.
Assim, então, eu poderia te alcançar um dia,
e tu saberias do porquê destes meus versos,
da minha ansiedade, das minhas inquietudes,
das minhas fruições, dos meus desejos reprimidos,
e, em explosões de notas místicas, dir-te-ia meu coração:
"Como eu te amo! Ah! Como eu te amo ainda!"
(do livro Alma Liberta)
terça-feira, 17 de agosto de 2010
AS PRIMEIRAS LÁGRIMAS - J. Udine - 15-08-2010
Logo ao nascer, para esse mundo adverso,
Levei palmadas p'ra abrir os pulmões:
O Choro foi o meu primeiro verso,
Em dor e lágrimas, aos borbotões...
Minhas primeiras lágrimas, copiosas,
Inundaram o meu rosto edemaciado
Como se fossem perfumadas rosas
Em seu orvalho brilhante e irisado...
Hoje, com o passar do tempo auroral,
Secou a fonte de água, lacrimal,
Que jorrava dos meus piedosos olhos...
O mundo pérfido, com seus horrores,
Roubou-me as lágrimas, e infundiu-me dores,
Ao coração, que sangra em seus abrolhos.
Levei palmadas p'ra abrir os pulmões:
O Choro foi o meu primeiro verso,
Em dor e lágrimas, aos borbotões...
Minhas primeiras lágrimas, copiosas,
Inundaram o meu rosto edemaciado
Como se fossem perfumadas rosas
Em seu orvalho brilhante e irisado...
Hoje, com o passar do tempo auroral,
Secou a fonte de água, lacrimal,
Que jorrava dos meus piedosos olhos...
O mundo pérfido, com seus horrores,
Roubou-me as lágrimas, e infundiu-me dores,
Ao coração, que sangra em seus abrolhos.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
TROVAS DE GISELDA MEDEIROS
Partiste... e aquele momento,
no tempo, tornou-se eterno
conflito do pensamento
num céu, que se fez inferno...
Beijar-te os olhos quisera,
naquele instante de amor,
no entanto a doce quimera
fez-se um dilúvio de dor.
Nesta existência sofrida
triste certeza me invade:
o sonho ardendo na vida,
e a vida a arder na saudade.
Diante do altar, rezando,
minha mãe chorava e ria...
Era a ternura aflorando
no cálice da Poesia!
Minha saudade, tem pena
deste meu verso tristonho...
Mas não me seques a pena
com que burilo meu sonho!
No cais da vida, à distância,
eu vislumbrei, na verdade,
doce, acenando-me a infância,
com o lenço azul da saudade!
Teus olhos, ardentes círios,
meus dias tornam risonhos;
e tuas mãos, brancos lírios,
vão modelando os meus sonhos!
Entre as águas deslizando,
sem direção definida,
eu vou, qual pedra, rolando
nas correntezas da vida...
Tu voltaste... e a tarde finda
em rubra aurora se fez...
E a velha lembrança, ainda,
acendeu tudo outra vez...
Tu me pediste um sorriso;
eu, somente uma canção...
Te dei mais que um paraíso;
tu me deste a ingratidão!
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
CANÇÃO DA ENTREGA
Deixa-me assim,
pequenina entre teus braços,
nesta paz de pedras adormecidas
a esperar as águas que virão
do teu mar.
Quero esta paz imensa de madrugada
que faz tremer meu verso,
mais nada.
Depois, o extremo...
Quero o fremir, o grito
que acenderá as luzes de poemas,
lírios despetalados.
Abrir-te-ei minha alma
- a corola -
e nela pousarás qual afoito colibri
na rosa
ao sopro da canção que te escrevi.
Aí, seremos água e fonte
e asas riscando os horizontes.
(do livro Tempo das Esperas)
sexta-feira, 30 de julho de 2010
sábado, 24 de julho de 2010
Um soneto e um poeta da Vanguarda Modernista, no Ceará
DESTINOS
Franklin Nascimento
Você gosta de mim e eu por você
Somente por você ao mundo vim.
E sofremos, amor... Não sei por que
O destino nos faz sofrer assim!...
No seu dúlcido olhar a gente lê
Uma tristeza atroz que não tem fim.
E no meu pobre olhar existe um quê
Que bem traduz a mágoa que há em mim...
E vamos pela vida assim seguindo,
À busca de um Ideal risonho e lindo,
Que, enfim, nem sei se havemos de tocar.
Mas se eu nunca for seu, nem você minha,
Velhinho, hei de pensar numa velhinha,
E você num velhinho há de pensar...
...João Abreu Franklin Nascimento. Nasceu em Fortaleza a 21 de abril de 1901.
Foi funcionário do Ministério da Viação, com exercício na Rede de Viação Cearense.
BIBLIOGRAFIA
Publicou, em 1927, em colaboração com Jáder de Carvalho, Sydney Neto e Mozart Firmeza, CANTO NOVO DA RAÇA, livro que foi bem acolhido pela crítica, tendo externado a seu respeito, dentre outros: Tristão de Ataíde, Antônio Sales, Ildefonso Falcão, Gastão Justa, Paulo Sarasate, as revistas Excelsior, Fon-Fon, e várias outras, do Ceará, do Rio e dos Estados.
Colaborou nas revistas Movimento, do Rio, sob a direção de Jorge Amado, e Revista Antropofágica, de São Paulo, onde pontificavam Raul Bopp, Mário de Andrade, Cassiano Ricardo.
Fundou, em Fortaleza, com Demócrito Rocha, Jáder de Carvalho, Mário de Andrade, Heitor Marçal e outros intelectuais novos e de valor, as revistas Maracá e Cipó de Fogo, vanguardeiras do movimento modernista.
Franklin Nascimento
Você gosta de mim e eu por você
Somente por você ao mundo vim.
E sofremos, amor... Não sei por que
O destino nos faz sofrer assim!...
No seu dúlcido olhar a gente lê
Uma tristeza atroz que não tem fim.
E no meu pobre olhar existe um quê
Que bem traduz a mágoa que há em mim...
E vamos pela vida assim seguindo,
À busca de um Ideal risonho e lindo,
Que, enfim, nem sei se havemos de tocar.
Mas se eu nunca for seu, nem você minha,
Velhinho, hei de pensar numa velhinha,
E você num velhinho há de pensar...
...João Abreu Franklin Nascimento. Nasceu em Fortaleza a 21 de abril de 1901.
Foi funcionário do Ministério da Viação, com exercício na Rede de Viação Cearense.
BIBLIOGRAFIA
Publicou, em 1927, em colaboração com Jáder de Carvalho, Sydney Neto e Mozart Firmeza, CANTO NOVO DA RAÇA, livro que foi bem acolhido pela crítica, tendo externado a seu respeito, dentre outros: Tristão de Ataíde, Antônio Sales, Ildefonso Falcão, Gastão Justa, Paulo Sarasate, as revistas Excelsior, Fon-Fon, e várias outras, do Ceará, do Rio e dos Estados.
Colaborou nas revistas Movimento, do Rio, sob a direção de Jorge Amado, e Revista Antropofágica, de São Paulo, onde pontificavam Raul Bopp, Mário de Andrade, Cassiano Ricardo.
Fundou, em Fortaleza, com Demócrito Rocha, Jáder de Carvalho, Mário de Andrade, Heitor Marçal e outros intelectuais novos e de valor, as revistas Maracá e Cipó de Fogo, vanguardeiras do movimento modernista.
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