domingo, 26 de março de 2017
sábado, 25 de março de 2017
ANA PAULA DE MEDEIROS APRESENTA LIVRO - "DOCÊNCIA, SABERES E PRÁTICAS"
Gostaria de iniciar destacando a grande alegria
que senti pelo convite que me foi feito para apresentar a obra DOCÊNCIA:
SABERES E PRÁTICAS, organizada
por Francisco Ari de Andrade, Alba Patrícia Passos de Sousa e Dayana Silva de
Oliveira. O livro apresenta aos leitores do mundo acadêmico e amantes dos
assuntos educacionais, um acervo muito interessante de artigos científicos que
abordam a docência em sua dimensão teórico-prática.
Essa especificidade da obra remete-me
ao pensamento de Adolfo Vasquez,
o qual assevera que “A teoria em si não transforma o mundo”. Tal assertiva nos
leva a refletir sobre a necessidade da ação e da existência do homem como ser
ativo dotado de intenções reais e efetivas para desencadear a verdadeira
transformação no mundo. É certo que o papel da teoria é de servir como
embasamento, como pano de fundo em que se efetiva a prática. Sem a assimilação
da teoria, a prática pode resumir-se em atividades anacrônicas e
assistemáticas, não contribuindo significativamente para a real transformação
da realidade.
A ontologia de Heidegger esclarece
que estamos no mundo, e o mundo é mais velho que nós, e que somos capazes de
dar sentido a ele, conhecê-lo e transformá-lo. É nessa lógica que entendemos o
propósito dessa coletânea, que se oferece ao leitor para potencializar seus
conhecimentos acerca da busca da essência do Ser professor como alguém que,
transformando o outro, transforma-se a si mesmo.
O livro compõe-se de um volume com
326 páginas, graficamente bem apresentadas com editoração da CRV Editora, ano
2017. O conteúdo traz 23 artigos de professores e pesquisadores da UFC e de
outras Instituições de Ensino Superior brasileiras, estudantes de graduação e
de pós-graduação da UFC e professores da rede pública do Ceará e de outros
estados. Apesar da ampla diversidade de perfis dos autores e da abordagem da
docência nas mais variadas áreas do conhecimento, os artigos apresentam uma característica
comum: a tônica do alinhamento teórico-prático na essência de cada texto.
Ao longo da leitura, o leitor
encontrará reflexões sobre a interação entre a educação formal e a não formal,
sobre formação de professores, evasão escolar, gestão do estágio
supervisionado, juventude, currículo, educação inclusiva e educação para o
desenvolvimento sustentável, além de um amplo acervo de artigos que tratam de
reflexões teórico-práticas na educação infantil e no ensino fundamental com
destaque para as áreas da Língua Portuguesa, Matemática, História, Ciências,
Música e Religião.
Na discussão dessas temáticas, os autores
buscam reforçar que a prática docente deve ser essencialmente pedagógica. De
acordo com Libanêo, “[...] o que define algo – um conceito, uma ação, uma
prática como pedagógico é a direção de sentido, o rumo que se dá às
práticas educativas”. Assim, o que vai, então, orientar a prática docente é a Pedagogia,
a qual está bem definida nas palavras de Gaston Mialaret como “[...] uma
reflexão sobre as finalidades da educação e uma análise objetiva de suas
condições de existência e de funcionamento”.
A Pedagogia, assim entendida, é,
portanto, a teoria norteadora da prática educativa. Dessa forma, a prática docente deve estar
orientada por uma teoria que possibilite aos alunos, mediante suas próprias
forças intelectuais e práticas, o domínio de conhecimentos, habilidades e
convicções, com o objetivo de promover uma leitura crítica da realidade. Desse
modo, a docência se efetiva adequadamente quando tem uma pedagogia que orienta a
prática para uma direção definida. Esse é um aspecto bastante presente nos
artigos desta obra.
Na mesma direção dos teóricos
contemporâneos, os quais recomendam que se eduque para a criticidade e a autonomia,
está a essência de cada trabalho que compõe o livro. Libâneo recomenda que o
trabalho docente na abordagem dos conteúdos deva ser conduzido de forma que “[...]
auxilie os alunos no domínio sólido e duradouro dos conhecimentos, levando-os a
ter pensamento autônomo, coragem de duvidar e interrogar a realidade e
capacidade de dar respostas criativas a problemas práticos”.
A ação docente, vista por este
ângulo, remete ao seu caráter intencional e à reflexividade que é bem definida por
Pérez Gómez como “a capacidade de voltar sobre si mesmo [...], de utilizar o
conhecimento à medida que vai sendo produzido, para enriquecer e modificar não
somente a realidade e suas representações, mas também as próprias intenções e o
próprio processo de conhecer”.
É assim, no intuito de provocar
essas reflexões no leitor, que a presente obra se mostra ao público! Desfrutemos,
pois, sua leitura!
Muito obrigada!
Ana Paula de Medeiros Ribeiro
Faculdade de Educação – FACED/UFC
MEMÓRIA FOTOGRÁFICA
sexta-feira, 17 de março de 2017
AFFONSO TABOZA - CONSELHEIRO NATO - E SEU POEMA "A MÍSTICA DO NÁUTICO"
A MÍSTICA DO NÁUTICO
Algo especial dali emana:
magia? encanto?
Não sei. Mas
ali um fascínio real acontece
e a todos contagia.
De fato,
há viço na bela arquitetura,
brilho nas colunas, no
nome, no culto à tradição;
como se dali brotasse um
halo etéreo e se expandisse,
banhando o entorno de esplêndida
luz.
Berço humilde, história
gloriosa,
binômio que exalta e
enobrece
a ação e a visão de
pioneiros
e de abnegados que lhes
seguiram os passos.
Código de ética não
escrito
lhe rege vida,
fruto do exemplo de
dirigentes
e da retidão de
propósitos coletiva.
Árvore generosa,
sua sombra acolhedora
abriga e alegra,
diverte e instrui,
seus frutos alimentam.
Não há quem não se encante
com a magia que flui
desse organismo vivo e
vibrante.
É bonito, é nobre,
chega a ser grandioso.
Nossa devoção, nossa paixão, nosso orgulho,
NÁUTICO.
ETERNO.
sexta-feira, 10 de março de 2017
UM POEMA DE AFFONSO TABOZA
ALDEIA UNIVERSAL[i]
Affonso Taboza
Nosso
Universo é feito de aldeias,
mini,
pequenas, médias e ingentes,
onde
vive ou vegeta o ente humano.
Culturas
e raças? Bem diferentes...
Nesse
cadinho humano que é a Terra,
regem
a vida as emoções pessoais,
amor
e ódio, frustrações e anseios,
sentimentos
de fato universais.
Peca,
portanto, quem desconsidera
verdade
de tamanha relevância:
Se
os sentimentos dão o tom da vida,
cada
aldeia tem sua importância
pois
é nela que a vida acontece.
E a
vida na Terra não é mais
que
a soma das vidas nas aldeias,
com
seus erros e acertos naturais.
Por
isso, um romance ali vivido
não
se anula no confim regional.
Verdade!
Desde que retrate a alma,
todo
romance é universal.
[i] Estes versos foram
por mim escritos
a propósito da frase de Dostoiévski:
“Se
quer ser universal, cante sua aldeia”.
A
frase famosa e os versos ilustram as
páginas
iniciais do meu romance
Ventos da Fortuna, 2006, 356 páginas.
sexta-feira, 3 de março de 2017
LEITURA PARA QUARTA-FEIRA DE CINZAS - VIANNEY MESQUITA
“LEMBRA-TE, HOMEM, QUE ÉS PÓ”...
Vianney
Mesquita*
O fraco teme a morte; o infeliz a chama; o
temerário a provoca; e o sensato a espera. (BENJAMIN FRANKLIN).
É hoje
um dia de igreja católica lotada, muitas vezes até por pessoas que a frequentam
somente nesta data, quer por superstição, arrependimento pelos seus transportes
durante o carnaval, ou mesmo as duas razões combinadas. Infelizmente,
entretanto, é ressaltado o primeiro pretexto, manifesto na crendice, retratado
na superstição e no fanatismo religioso.
Oportuna,
porém, é a ideia de todos evocarem a leitura na Bíblia em Língua Portuguesa,
onde está expressa, em Gênesis, 3:19, a divisa Lembra-te, homem, que és pó e em poeira te tornarás, quando o
Criador, perpetrada a falta original, expulsou Adão do Paraíso,
prescrevendo-lhe intensos trabalhos, rematados com a morte, ocasião em que o
corpo - a carne – de nada mais aproveitará.
De
modo diverso do ocorrente no lado oriental, a cultura do Ocidente nos infundiu
a ideia de que o fim pela morte é algo terrível, embaraçoso, porquanto está
disposta nos limites do impossível a admissão da nossa finitude, do termo
definitivo da vida, de modo a persistirmos no raciocínio irreal e ilusório de
que não se efetivará a condução da alma para a Outra Dimensão, pois a
existência terrena seria sem fim.
Eis,
entretanto, que balança esta “convicção”, absolutamente equivocada, ao menos
uma vez por ano e no primeiro dia da Quaresma, coincidente com a Quarta-Feira
de Cinzas. É quando, pois, o sacerdote da Igreja de Roma – cruzando na testa de
cada um as cinzas remanescentes das palhas do Domingo de Ramos imediatamente
anterior - representa Deus a nos alertar para o fato de que a Humanidade é pó e
à poeira retornará em definitivo como matéria.
Então,
ao modo como a Igreja procedia antes do Concílio Vaticano II, é substituída a
frase latina Memento, homo, quia pulvis,
es et in pulverem reverteris, igual a “Lembra-te, homem, que és pó em pó te
tornarás”, podendo o celebrante dizer, alternativamente: “Arrependei-vos e
crede no Evangelho”.
Esta
verdade é terminante e vale para a Humanidade inteira, esteja a pessoa na
velhice, quando madura, na condição de preferencial
– como é da moda – com vigor na saúde e gozando de bem-estar socioeconômico, na
doença e indigência, e, em particular, na juventude ou como adulta nova, em
qualquer estado, se impõe que todos se deem conta de que “o reino do céu está
perto”, sendo crucial que preparemos o caminho do Senhor, endireitando nossas
veredas, à maneira como expresso por João Batista, a voz que clamou no deserto.
Então,
no dia inaugural da Quaresma, examinemos a consciência e intentemos remover os
habituais excessos, apagar as rixas com o próximo, viver mais a Palavra, ao
procurar a indicação divina, a fim de que seja delineada a correção dos rumos,
sem simuladas carolices nem devoções aparentes, vedadas as manifestações de
atitudes, limitadas ao âmbito do edifício da igreja, porém com eficácia em todo
lugar e a qualquer tempo.
De tal maneira, experimentemos a chance de
atualizar nossa Contabilidade para demonstrá-la em balanço perfeito aos órgãos de controle do Alto, com vistas a
deixar nossos registros sempre limpos e nossa ficha sem rasuras nem lacunas que
se façam obstáculos impeditivos do nosso intento de salvação.
Assim,
completando a reticência do título, está em Gênesis, 3:19, a importantíssima
divisa latina Memento, homo, quia pulvis
es et in pulverem reverteris, convidando-nos a evocar a noção de que, na
qualidade de corpo, somos cinzas, aquelas cruzadas hoje na testa de cada um.
*Vianney
Mesquita é professor da Universidade Federal do Ceará. Acadêmico Titular da
Academia Cearense da Língua Portuguesa e Academia Cearense de Literatura e
Jornalismo. Imortal-fundador da Arcádia Nova Palmaciana – Cadeira número um.
Escritor e jornalista. Membro da Associação Internacional de Jornalistas
(Bruxelas – Bélgica – U.E.).
ZENAIDE MARÇAL HOMENAGEIA, COM SONETO, GISELDA MEDEIROS PELA OUTORGA DO TÍTULO DE "PRINCESA DOS POETAS DO CEARÁ"
Templo
À Princesa dos Poetas do Ceará – Giselda
Medeiros
Quando
terão meus versos a beleza
que
cinge teus poemas preciosos
nos
quais os temas têm tal sutileza
que
soam leves, ricos, primorosos?!
Quando
terão meus versos o poder
de
transmitir nas rimas o valor
dos
lindos versos que fazes nascer
como
se fora um terno ato de amor?!
Pois
é assim, a amar cada palavra,
que
cada linha que tua pena lavra
transmite
sempre um mundo de emoções...
E
penso, até, que fazes da Poesia
um
grande templo em que a sabedoria
versos
te dita em forma de orações!
Zenaide
Marçal (04/2002)
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
UM POEMA DE GISELDA MEDEIROS - CANÇÃO DA ENTREGA
CANÇÃO DA ENTREGA
Deixa-me
assim,
pequenina
entre teus braços,
nesta
paz de pedras adormecidas
a
esperar as águas que virão
do
teu mar.
Quero
esta paz imensa de madrugada
que
faz tremer meu verso,
mais
nada.
Depois,
o extremo...
Quero
o fremir, o grito
que
acenderá as luzes de poemas,
lírios
despetalados.
Abrir-te-ei
minha alma
- a corola -
e
nela pousarás qual afoito colibri
na
rosa
ao
sopro da canção que te escrevi.
Aí
seremos água e fonte
e
asas riscando os horizontes.
(do livro "Tempo das Esperas")
ESPALHEMOS A BELEZA DA POESIA DE ARTUR EDUARDO BENEVIDES
POEMA DE CONFISSÃO
Sou teu soldado-clarim.
Tens o segredo milenar da fonte.
E sei que estás, imensamente, em mim
como a linha do azul em cima do horizonte.
Teu jogral e andarilho,
vejo a tarde a descer de teu cabelo
tocando a solidão do tombadilho
à luz do Sete-Estrelo.
De repente, qual se a força do vinho me tomasse,
percebi-te na árvore em que nasce
a tâmara da vida.
E encontro em teu olhar minha nave perdida.
Nesse olhar de albores e flamboyants,
guardando os resedás e os rios das manhãs!
Quanto o esperei, desde longínquas datas,
mas as cousas me foram bem ingratas
passando por mim quais fantasmas num espelho.
Então, como num Canto de endormir criança,
chegaste com leveza de esperança
e ficaste em mim
- ó vilancete de luz ouvido num jardim,
- ó chuvas de infância cantando sobre as telhas,
despertando o balir alegre das ovelhas!
Ai, com tua escada de estrelas me salvaste
de frios iatagãs
Com teu jeito de lã no inverno me amaste.
E vi a teus pés rosas e avelãs.
E eu, com velhas mágoas como domicílio,
ficando junto a ti, não morrerei no exílio.
de frios iatagãs
Com teu jeito de lã no inverno me amaste.
E vi a teus pés rosas e avelãs.
E eu, com velhas mágoas como domicílio,
ficando junto a ti, não morrerei no exílio.
(do livro POEMAS DE MESA - 2012)
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
ENSAIO - POR VIANNEY MESQUITA
ESTESIA DA
COMPOSIÇÃO – Professor Maurício Moreira, estilista da palavra
Vianney
Mesquita*
Um monte de
livros não vale um bom mestre (Provérbio chinês).
De conformidade com a taxinomia
consagrada nos compêndios de versificação, como a própria denominação tenciona
indicar, o verso decassilábico é aquele que encerra dez sílabas métricas,
contadas do seu início até o último grupo de fonemas, e constitui, em conjunto
com outras estâncias poéticas, à extensão de seu nome, o poema decassílabo ou
decassilábico.
Na Poética, convém repetir por, ser
oportuno, a contagem das sílabas consonadas não coincide com a dos iguais
conjuntos de letras gramaticais, não apenas pelo fato de se ir até a tônica
derradeira, porquanto há outros elementos a considerar – conforme evoca Sânzio
de Azevedo, no seu admirável Para uma teoria do verso (Fortaleza:
Edições UFC, 1997).
De igual modo ocorre com os metagramas,
palavra do léxico da Retórica – representativa do desvio da correta composição
fonética vocabular, admitida em virtude da métrica e da estética poética – bem
como outros elementos figurativos responsáveis, complementariamente, pela
formosura da poesia.
Em virtude desta não concordância
silábica da composição ordinária com a elaboração poemática em todas as suas classificações
e tendências de afiliação, talvez não seja de todo inócuo refrigerar a memória
do leitor para um fato de relevo.
Reporto-me ao emprego, quando da
estrofação, das diversas resoluções figurais de adição, subtração e fusão
silábicas, como apócopes, síncopes, sinéreses etc, antes que ele,
equivocamente, ache de argumentar que o número de ictos (acentos fortes
incidentes sobre determinada sílaba de um pé) está defeituoso, porém
admiravelmente correto e distinto e nobre e vigoroso – conforme as qualificadas
composições enfeixadas neste volume póstumo (Expressões de uma Vida Fértil) do enorme poeta e desmedida
personalidade intelectual e humana que foi o Professor Maurício Moreira.
No Brasil e, quiçá, em outros pagos
lusófonos, o decassíliabo é, ainda, bastante apreciado, a despeito do prestígio
modal e da necessidade de atualização diacrônica das produções modernas em
verso branco, aliás também exercitadas com perfeição pelo Autor comentado, em
pleno fastígio do Modernismo no Brasil, alguns pares de anos após a histórica
Semana da Arte Moderna, em fevereiro de 1922.
Rogo vênia ao meu leitor a fim de
reproduzir, a modo de exemplo, um soneto decassilábico, oferecido a um garoto
filho de um amigo, o qual, à semelhança de Bilac (este dodecassílabo, como veremos
à frente), tem nome decassilábico perfeito – Lucas Vinicius de Carvalho Cruz.
FATO ALVISSAREIRO
Janeiro,
dia doze deste mês,
A
mãe, dona Rejane trouxe à luz,
Em
decassilábico português,
Lucas
Vinicius de Carvalho Cruz.
Segundo
originário do casal,
Broto
gentil, da união mais bela,
Pois
que havia anos – bom sinal !
Houvera
já surgido Rafaela.
Desta
cepa de Cruz e de Carvalho,
Com
o nome de Médico Evangelista,
Nasce
o sarmento cuja estrela brilha.
E
este garoto de elegante talho,
De
Régis procedente, encerra a lista
Em
arremata à festa da família.
Malgrado o citado moto modernista haja
quase desterrado a forma soneto das publicações brasileiras, ao ponto de
Cassiano Ricardo lobrigar nesta configuração provençal antiga o antes pandêmico “Sonetococcus brasiliensis” (AZEVEDO, opus citatum) – esta grade fixa de catorze versos (dois quartetos e
dois trísticos) jamais deixou de ser cultuada entre nós, tanto pela cadência,
musicalidade e outros componentes estéticos de seu uso, quanto pela relativa
facilidade de compô-la, hajam vistas a fixidez e a imutabilidade do seu arranjo
estrófico siciliano, somente à espera de quem, com alguma inspiração e certo
conhecimento do léxico – dirão alguns – lhe recheie os espaços.
Sânzio de Azevedo, em Otacílio Colares e a Coroa de Sonetos
(Fortaleza: Edições UFC, 1985), remete o leitor ao também seu O Soneto Moderno (In Poesia de Todo o Tempo. Fortaleza: Edições Clã, 1970), onde se
refere ao redisciplinamento poético e recuperação de antigas composições, por
parte da Geração de 1945, entre as quais se encontra o soneto, conforme
adiantamos há pouco, “[...] quase banido da literatura nacional, ao ponto de,
em 1930, a coletânea de Andrade Murici A
Nova Literatura Brasileira não abrigar um só desses poemas de forma
fixa”(AZEVEDO, ID.IBIDEM), como se nota, no começo da produção de Maurício
Moreira, em parte publicada no seu livro ora sob comento. Ele próprio, bem se
vê, aggiornou-se, compondo peças de
rara beleza modernista, como Saudade e
Calor e O Ébrio, nas quais comprova, de sobejo, sua adesão ao ímpeto artístico
de 1922, com insuperável aptidão
plástica.
Em estudo acerca da obra do escritor
piauiense Santiago Vasques Filho, Folhas
Mortas. Sobral: Edições UVA, 2000), eu expressava que a ideia de “[...]
regeneração dos padrões fixos, certamente aqui operada com a assistência da
Geração 1945, teve efeitos em poetas mais novos [...] (MESQUITA, Vianney. Fermento na Massa do Texto.Sobral:
Edições UVA, 2001), como, certamente, ocorreu com Maurício Moreira, a julgar
pela manifestação de sua atualidade literária expressa nas duas composições
retromencionadas, sitas na III Parte daquele volume.
A forma do redondilho maior (ou verso de
arte menor, que é o setessílabo, hetero ou homorrítmico), com segurança, é a
mais empregada em todas as correntes estéticas, maiormente porque esteia grande
parte das composições populares do Nordeste do Brasil, não deixando, também, de
ser aplicada na feitura do sonetilho – mesma grade dos demais polissilábicos,
mas com apenas sete ictos em todos os seus catorze versos – e outras
composições classificadas.
Certamente, logo após essas estâncias –
de aplicação profusa na nossa literatura de cordel – é o decassílabo, ou verso
heroico, o mais apreciado, no Brasil, em particular. Noventa e quatro sonetos
nesta feitura fazem parte do volume a que se dedicam estas notas, em seleção
procedida pela família do autor que, aliás, demonstrando o equilíbrio e a
felicidade sem igual do seu grupo sociológico primário, a este alude, na
maioria das suas cadenciadas e belíssimas composições, fato demonstrativo do
aparato intelectual deste professor, que fez história em Sobral, onde viveu
muito boa parte do seu tempo corporal, semeando o conhecimento e fazendo o bem
aos seus circunstantes, perpetuando seu exemplo per omnia tempora.
Relativamente ao chamado verso
alexandrino, com o qual Maurício Moreira brinda o leitor em catorze composições
no seu livro, este se refere ao poema dodecassilábico, pelo qual, dentre outras
razões, restou conhecido e popularizado o poeta parnasiano Olavo Bilac,
exatamente em razão de o seu nome completo modelar um “alexandrino perfeito”,
com os doze acentos deste verso – Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac – a
igual do ocorrente com o menino,”decassilábico perfeito”, Lucas Vinicius de
Carvalho Cruz, há pouco mencionado.
O soneto alexandrino, geralmente com
cesura na sexta sílaba (como em Martins) e na décima (Bilac), indicando a
divisão rítmica (hemistíquios) no caso do alexandrino clássico, pode também,
por modificação procedida pelo Romantismo, trazer acento noutras sílabas.
Consoante informação de domínio público,
a ideia da denominação – alexandrino –
apareceu no século XII, nas canções da gesta francesa, de modo que o nome
procede do título do poema, ou até da alusão ao seu autor, Alexandre de Bernay
(ou de Paris), trovador, o qual estruturou a composição O Romance de Alexandre, em doze pés, dando origem aos versos com
tal medida.
Conforme é dado ao consulente verificar,
é admirável o veio do Autor, ao expressar-se nesta craveira compositiva, a qual
solicita, como o fazem (porém, menos)
outras medidas poéticas, total império do metro e senhorio amplo do assunto a
ser coberto, geralmente evocando elementos figurais das Artes, da Filosofia e
das Ciências em geral e invitando fatos e feitos da História e de suas
personagens, o que exige, mencionando ideia de sociólogos, como Pierre
Bourdieu, v.g., o máximo de capital
cultural possível.
Na Parte III, há uma seleta de
composições em língua-prosa, vazadas em faustoso, porém frugal, Português,
mesmo no tempo em que foram escritas, desenlaçadas da fastienta mania
verborrágica, dos substantivos e verbos excessivamente enfáticos, dos adjetivos
sobejantes e das circunlocuções que, via de regra, aportam no truísmo
tautológico, traduzindo perfeitamente a paulificância da elocução.
Fácil é divisar, na grandiosidade
estética do Professor Maurício Moreira, sua preocupação diacrônica em atualizar
os valores históricos da Língua, para não mostrá-la arteriosclerótica aos seus
teúdos e manteúdos culturais. Basta, por conseguinte, se ler seus escritos, do
final dos anos 1930, para comprovar o zelo elocutório, o desprezo pelos
modismos e o gosto estético nos seus propósitos comunicativos, o que só é
possível àquele que entesourou, de estudo, as gemas valiosíssimas do preparo
intelectual que preside ao mister do extraordinário docente que foi, mas cuja
obra professoral contém desdobramentos e haverá de ser irradiada para todo o
sempre.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
APONTAMENTOS SOBRE A TROVA - ZENAIDE BRAGA MARÇAL
Apontamentos
sobre a Trova
(Palestra proferida na Academia Cearense de Médicos Escritores)
Segundo
Artur Eduardo Benevides, saudoso Príncipe dos Poetas Cearenses, “na
taxonomia poética trova é poesia lírica, com normas preestabelecidas
e que não devem ser alteradas; vem de fontes eruditas e medievais.
(...) Parece ter havido um consenso tácito sobre a consagração dos quatro
versos de sete sílabas, o que deixa a trova mais forte. Ao longo do tempo foi
ficando mais popular, mas não é subliteratura. Pede simplicidade, beleza e
poesia. Se for muito literária, torna-se artificial”.
A Trova,
quanto ao seu tamanho, inspirou muitos trovadores:
De Ferreira Nobre:
“A trova,
segundo a
norma
da
mais sábia experiência,
é pequenina
na forma,
porém
gigante na
essência.”
De Batista Soares
“Num simples verso se prova
este mistério profundo:
na pequenez de uma trova
cabe a grandeza do mundo!...”
Agora vejamos
algumas normas a serem observadas pelos que compõem trovas. Estudemos as
trovas seguintes:
No sertão, se a noite desce ___1° verso (A)
e cobre o verdor dos campos,_2° verso ( B)
a beleza permanece ________ 3°
verso (A)
no piscar dos pirilampos. ___ 4° verso ( B)
Quando vejo teu sorriso (A)
iluminando teu rosto
(B)
esqueço qualquer desgosto (B)
e antevejo o Paraíso... (A)
Vejamos:
1 - A
trova tem quatro versos (linhas);
2- Tem
7 sílabas poéticas por verso;
3- Tem
rima;
4- Tem
um tema – assunto principal contido na trova – (palavra)
5- Tem
sentido completo.
Observemos:
2-
A contagem das sílabas poéticas é
diferente da das sílabas gramaticais.
Na
metrificação poética, quando acontece o encontro de duas ou mais vogais, estas
se unem formando uma só sílaba. Também precisamos saber que no verso não
se contam as sílabas que vierem depois da última sílaba forte (tônica).
Ex: No/ ser/tão,
/se/ a/ noi/te/ des/ce,
(contagem
gramatical: 9 sílabas)
No/ ser/tão,
/se a/ noi/te/ des/ce, (contagem
poética: 7 sílabas)
E /co/bre/ o/ ver/dor/dos/cam/pos (9
sílabas)
E / co/ bre
o/ ver/ dor/ dos/ cam/pos
(7
sílabas)
3 – Rima é igualdade de sons no
final de dois ou mais versos.
Na trova
acima, desce - rima com permanece –1°
e 3° versos.
Campos
- rima com pirilampos - 2°
e 4° versos.
Disposição
das rimas: ABAB,
ABBA, ABCB, etc. A forma ABAB é a mais usada e aceita pela
UBT- União brasileira de Trovadores, principalmente em concursos.
Exemplo de
rimas de escrita diferente e sons iguais:
Sorrateiro,
sem fumaça,
Arrasador,
inclemente,
É aquele fogo
que passa
queimando os
sonhos da gente!
(Neide Rocha Portugal –
PR)
Que eu te
esqueça não me peças...
Não me
obrigues a fingir
e a fazer
falsas promessas
que jamais
irei cumprir...
(
Marina Bruna- SP)
4 – O tema neste caso é beleza
(dos campos).
5 – Tem sentido
completo, isto é, a permanência da beleza nos campos apesar do escuro
da noite.
Exemplo de
trova com assunto incompleto e rima desigual:
Eu sinto ser
trovadora
a cada hora
bendita;
a toda flor
que descora,
choro com ela
a
desdita.
( D.N.Castro - SP)
Para revelar
a beleza, a Trova tem como fator primordial a Poesia; não necessita de palavras
rebuscadas, de difícil compreensão. O que importa é que possamos acomodar
aquilo que desejamos exprimir nos limites um tanto apertados que a Trova nos
oferece. Temos que captar o seu sentido como nesta trova que é uma das
primeiras que fiz:
A trova é
tão pequenina...
mas venço
seu desafio:
dentro
dela, na surdina,
sofro,
choro, canto e rio!
A Trova
transmite o amor, o riso, o pranto, enfim, o nosso jeito de pensar e, segundo o
que expressa, tem várias classificações:
Lírica,
Filosófica, Educativa, Humorística, Satírica, etc.
Não devemos
complicar estudando logo no início todas as normas para a composição de uma
trova perfeita. O que aqui foi explicado é suficiente para o trovador
iniciante.
Algumas
recomendações:
- Não é
aconselhável fazer trovas de improviso.
- Antes de
tudo, escolha um tema; anote possíveis rimas;
tenha em mente a simplicidade; faça várias trovas sob
o mesmo tema e escolha a melhor.
Ex: Diante do tema – Perdão –
fiz inicialmente duas trovas:
1- Quero
esquecer as ofensas,
quero dar-te
o meu perdão.
É mais
difícil que
pensas
perdoar de
coração.
2 – Quem não
sabe perdoar
não merece
ter perdão;
é bom parar e
pensar
em perdoar
seu irmão...
Olhei as
trovas e refleti que elas poderiam ter um pouco mais de poesia e talvez um
melhor vocabulário. Assim, formulei mais duas trovas, tendo escolhido esta que
mostro agora:
O perdão é tão sublime
que, por mais que a ofensa doa,
põe uma paz que redime
o coração que perdoa.
Alguns
exemplos de trovas quanto à classificação:
Filosófica
Saudade, tear
sutil
que não se
vê, mas se
sente
tecendo com
fios
mil
o passado no
presente.
Luiz
G. de Arruda
Educativa
Sê como o
mar, grandioso,
cujo
esplendor estonteia,
mas, humilde
e generoso,
vem bordar
rendas na areia!
Giselda Medeiros
Lírica
Daquele amor
do passado
Tu não
escutas o
grito
Mas, o
destino é
traçado
E eu te
espero no Infinito.
César Coelho
Humorística
Uma mulata
fogosa
mais quente
que dez fogueiras
deixa a
galera nervosa
ao balançar
as cadeiras.
Moreira Lopes
A
Trova e os Trovadores
Canto meu canto de Amor,
Canto meu canto de Paz,
É próprio do Trovador
Pôr no verso o que lhe apraz...
Trovador:
1- Designação dos poetas líricos dos séculos XII e XIII, que se expressavam na chamada língua d’Oc, falada no sul da França, especialmente na Provença.
2- Designação dos poetas líricos portugueses que nos últimos séculos da Idade Média seguiam o estilo dos poetas provençais.
Sabemos que na I. M. apenas os clérigos e alguns nobres tinham acesso à
cultura, ao estudo das letras, e havia mesmo reis que não sabiam ler ou
escrever. Os livros eram escritos à mão e, por isto mesmo, peças raras e de
alto custo. A poesia era ligada à música. Os poetas cantavam seus poemas ao som
de instrumentos musicais e tinham sempre como tema as Canções de Gesta – que
eram poemas épicos, isto é, narrativas de feitos heróicos, das lutas sangrentas
muito comuns na realidade daqueles tempos.
No ano de 1096, Guilherme IX, Duque de Aquitânia e Conde de Poitiers, que era
um dos poderosos da época, um homem cortês, sabia fazer versos, porém era
reconhecidamente conquistador de mulheres. Procurando achar uma forma de chegar
aos seus corações, encontrou, criando um poema onde falava de amor, da
sinceridade do sentimento amoroso e da sua intensidade. Esta forma de
poema passou a ser chamada “Le trobar” na língua d’Oc que correspondia em
francês ao verbo “trouver”, encontrar. Daí, os que cantavam o
“trobar” - o Canto de Amor – passaram a ser chamados “troubadours”, isto
é, aqueles que acham.
Assim, Guilherme IX fez o primeiro “canto cortês”, que falava de amor, na
maioria das vezes de amores impossíveis, o que fazia eco nos corações
apaixonados, enchendo de animação as noites nos castelos da chamada “idade das
trevas”.
Nasceu, então, a Cantiga Trovadoresca que representou o despertar da cultura
leiga, desvinculada da cultura teocêntrica imposta pela Igreja.
Hoje Guilherme IX é considerado o primeiro Trovador e o mais antigo poeta da
língua d’Oc, a língua falada na Aquitânia, região que passou a pertencer à
França, na região Sul, a Provença. Na região norte, onde era falada a
língua d’Oil, os poetas eram denominados “Trouveres”. A
Língua Romana, que era o latim vulgar falado pelo povo, originou algumas
formas regionais de falar, as quais, com o tempo, deram origem às chamadas
línguas neolatinas – Português, Francês, Italiano e Espanhol.
Não podemos desconhecer a figura de Aliénor de Aquitânia, neta e herdeira de
Guilherme IX, que introduziu na Corte do reino da França quando Rainha de Luís
VII e, também, na do reino da Inglaterra,quando Rainha de Henrique II
Plantageneta, a cultura da língua d’Oc na qual se exprimiam os trovadores.
Nos seus poemas o trovador cantava para a amada e pela amada, isto é, no seu
canto ele fazia declarações de amor às quais ele mesmo respondia em nome dela.
Os versos eram inspirados em acontecimentos da corte ou, na maioria das vezes,
em romances fictícios.
Os trovadores iam de castelo em castelo onde eram recebidos com cortesia
porque, além dos seus cantos, eles eram fonte de notícias de outras cortes,
naquele tempo de tão difícil comunicação. Os versos eram cantados ao som de
instrumentos musicais, e aqui vale lembrar os nossos cantadores ou violeiros
nordestinos.
A Cantiga Trovadoresca, cultura dos poetas provençais, era o gênero mais
popular naquela época medieval e espalhou-se além-fronteiras. Em Portugal,
somente após 100 anos, no final do século XII, foi escrito o texto considerado
o mais antigo canto galego-português. O movimento trovador ganhou espaço em
Portugal e na Espanha e foi denominado Trovadorismo.
Tempos
depois, D. Dinis, sexto rei de Portugal, o Rei poeta, promove a cultura e
transforma a Corte num dos mais fecundos centros literários da Península
Ibérica. Não somente incentivou os trovadores na sua corte promovendo saraus
palacianos, como era, ele mesmo, um grande trovador. A poesia, sob a
forma de cantigas, foi, nessa época, a principal expressão literária de
Portugal, embora tenha havido também uma pequena produção em prosa e teatro.
D. Dinis substituiu o latim pela língua vulgar portuguesa nos documentos
oficiais. O Português chamado moderno surgiu somente no século
XVI.
As cantigas chegaram até nós por meio dos Cancioneiros, que eram coletâneas de
poemas de vários autores.
A literatura portuguesa exerceu grande influência sobre a literatura brasileira
desde o período colonial. A trova passou a ser cultivada a
partir de 1950. O poeta J.G.de Araújo Jorge denominou Trovismo o movimento que
deu lugar de destaque à trova nos meios literários brasileiros. Em 1966,
pela liderança de Luiz Otávio, foi fundada a União Brasileira de Trovadores -
Nacional. O “Dia do trovador” foi fixado para 18 de julho, e São Francisco de
Assis foi escolhido o patrono dos trovadores.
A UBT
de Fortaleza foi criada em 1969, em reunião que aconteceu na Casa de Juvenal
Galeno, e por ela passaram trovadores da mais alta expressividade. É atualmente
presidida pelo trovador e jornalista Vicente Alencar e tem como Presidente de
Honra Gutemberg Liberato de Andrade. Em suas reuniões mensais, às 10h00
do 1° sábado de cada mês, conta com a participação de excelentes
trovadores que amam verdadeiramente a trova e a fazem com maestria.
Doce
feitiço de amor
tem a trova, bem guardado,
porque
todo trovador
é,
por ela, apaixonado!
Zenaide
Braga Marçal – UBT-Fortaleza
Fortaleza, 26 de janeiro de 2017
Fontes de pesquisa:
La Poesie Occitane – René de
Nelli
Documentos – Gutemberg Liberato de Andrade
Literature Française Pour les Nuls –
Jean Joseph Julau
Panorama
da Literatura Portuguesa –
Roberto Cereja e Thereza Magalhães
Assinar:
Postagens (Atom)















