terça-feira, 9 de agosto de 2016

POESIA



MINIPOEMAS
Giselda Medeiros

1.

Anoitece...
Acendem-se em meus olhos
as pálidas sombras
de tuas formas
inexatas
em asas de cimento
lento crepitar
de círios mortos.

2.

A lua teve fome.
e devorou os nossos sonhos.
]Depois apareceu no céu
esplendidamente
cheia.

3.

Em meu último momento
que se cumpra este desejo:
receber o sacramento
da extrema-unção do teu beijo.

4.

Há esperanças navegando
nas rugas
de meu rosto.
E há caminhos
navegados
nas linhas de minhas mãos.

5.

Hoje
quero apenas
o perfume das canções
que aprendi
de minha mãe
quando o amor
plantou um lindo sol
em minha longa manhã
de inverno.

6.

Quis aprender
o sentido da vida,
os mistérios que dormem na dor,
a luz que fulgura
nas sombras...
E aprendi
simplesmente
teu nome.

7.

Se te fores de mim
não murmures palavras
de adeus.
Vai como a primavera
que deixa
no tempo
a beleza das rosas.

8.

O homem caminha
sol a sol
sobre as águas
da vida
até que, de repente,
naufraga.
E os outros lhe tecem canto
de saudade
à espera do próximo náufrago.

9.

Oh... as mães...
são catedrais de amor,
salmos de fé.
O pão e o vinho.
Mar e continente
em eterno crescimento
na sagração do fruto...
dia a dia.

10.

Assim como um grito,
teus dedos alongaram-se
sobre as minhas dunas.

E houve festa no silêncio das areias.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

SAUDADE, DRA. CELINA CÔRTE PINHEIRO!



A Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – AJEB-CE, por intermédio de sua Presidente, Dra. Gizela Nunes da Costa, vem externar sua tristeza pela perda irreparável, acontecida hoje, dia 3 de agosto de 2016, de sua sócia efetiva, Dra. Celina Côrte Pinheiro, mulher de grande talento, médica e escritora, conceituada entre seus pares.
Desse modo, estamos todos de luto e profundamente consternados pelo passamento dessa mulher forte,  amiga verdadeira, ser humano solidário, profissional competente, mãe devotada, esposa cuidadosa e avó estremecida.
Para que fique sempre em nossa memória a vida de nossa associada, deixamos essas pinceladas  da história de sua vida.


Celina nasceu na cidade de Ribeirão Preto, Estado de São Paulo, em 24 de julho de 1949. Filha do casal Cândido  Côrte e Maria  Conceta Bianco Côrte. Formou-se em Medicina e concluiu sua especialização na mesma cidade. Casou-se aos 26 anos com o médico Francisco Wilson Pinheiro de Sousa, também ortopedista, com quem teve três filhos: Fernando, Fabrício e Flávio, todos já casados. Tem três netos: Gabriel, Giulia e Felipe.
Graduou-se pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto  da  Universidade de São Paulo (USP) no ano de 1973.   Médica Residente do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) - Área de Ortopedia e Traumatologia no período de 1974 a 1976.  Estagiária na área de Ortopedia e Traumatologia do Pavilhão “Fernandinho Simonsen” da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo no período de fevereiro a julho de 1976. Membro Titular da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) - desde 1976.     Especialista em Ortopedia e Traumatologia pela Associação Médica Brasileira (AMB) - 1977.  Membro titular da Sociedade Latino-Americana de Ortopedia e Traumatologia (SLAOT) - desde 1979. Preceptora de residentes na Clínica de Acidentes  – de 1977 a 1980.  Preceptora de residentes no IJF  de 1977 a 1990.   Preceptora de residentes no HGF de 1980 a 1990. Servidora pública no Instituto Dr. José Frota desde 1977. Servidora pública concursada pelo INAMPS, lotada no Hospital Geral de Fortaleza, de 1980 a 2004. Membro Titular da Sociedade Brasileira de Medicina Física e Reabilitação Regional do Ceará desde 1980.  Chefe do Centro Cirúrgico da Emergência do HGF no período de 1994 a 1996.  Chefe da Emergência do HGF em 1997. Recertificação pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) – 2003. Membro do Comitê de Osteoporose da SBOT.  Supervisora das Residências Médicas dos hospitais da rede pública estadual (CERME/ESP-CE) de julho de  2004 a setembro de 2009.  Assessora do Secretário da Saúde para desenvolvimento das Residências Médicas na rede estadual (SESA/BID) desde 2009. Proprietária da Clínica Ortopédica e Traumatológica S/C Ltda. (CLINORT) desde 1976. 
OUTRAS ATIVIDADES: Colaboradora do DN Infantil (semanário do jornal Diário do Nordeste) no período de 1984 a 1990. Colaboradora do Fort News (semanário do jornal Tribuna do Ceará) de 1986 a 1988, além de outros cadernos literários e jornais espíritas em alguns Estados do Brasil, além do Ceará.Colaboradora do periódico Gazeta Espírita. Membro do Conselho Editorial dos jornais Fortaleza Espírita e Ceará Espírita. Membro do Conselho Editorial do Jornal da SBOT – Regional do Ceará. Membro Titular da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores (SOBRAMES) desde 1987. Secretária da SOBRAMES no biênio 1988-1990 e Vice-Presidente no biênio 1990-1992. Membro da Academia Feminina de Letras do Ceará (AFELCE) desde 2002. Membro da Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará (ALMECE) desde 2003 – representante do município de Aquiraz. Secretária-geral da ALMECE no período de 2006 a 2008. Sócia efetiva da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil- coordenadoria do Ceará. Membro eleito do Conselho de Leitores do Jornal O POVO em 2008. Membro reeleito do Conselho de Leitores do Jornal O POVO em 2009. Colaboradora do DN Infantil – convidada pela editoria em 2008. Colaboradora do Jornal O POVO e DIÁRIO DO NORDESTE. Executa alguns instrumentos musicais desde a infância. 

PREMIAÇÕES: 3º lugar no Concurso do Centro Médico Cearense em outubro de 1984. 1º lugar no Concurso de Prosa e Poesia da SOBRAMES – Regional de Alagoas em 1990. 3º lugar no Concurso Terça-Feira em Prosa e Verso em dezembro de 2002. Diploma de Mérito Cultural pela ALMECE em 2002 e da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – CE, em 2016. Diploma de Sócio Emérito da ALMECE em 2004; 3º lugar no Concurso Internacional “Escrevendo para a Infância”, realizado pela Editora Aliança (SP) em 2004.  Menção honrosa no 4º Concurso Terça-Feira em Prosa e Verso em 2004.  Menção honrosa em Concurso de Pintura realizado pela UNIMED;  1º lugar na I Jornada Literária de Camocim, realizada pela SOBRAMES-CE, no período de 24 a 26 de outubro de 2008.  Menção honrosa no Concurso Mensal de Trovas da União Brasileira de Trovadores (UBT) – regional do Ceará, em 2009. Faleceu em 3 de agosto de 2016, em Fortaleza-CE.

sábado, 23 de julho de 2016

CRÔNICA DE VIANNEY MESQUITA




CABOTINISMO
 COMPORTAMENTO ABOMINÁVEL

                                                            Vianney Mesquita*

                                    O orgulho que almoça vaidade janta desprezo. (BENJAMIN FRANKLIN, cientista, diplomata, inventor e intelectual eclético dos Estados Unidos. 1706-1790).


            O nome cabotino, adjetivo e substantivo de ambos os gêneros, significa, em acepção original, mau comediante, ator histrião, personagem bufo, cômico teatralmente desqualificado. Consoante sugere Antônio Geraldo da Cunha, no seu Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa (2. ed., Rio de Janeiro, 2001), “parece” aludir ao nome de um ator burlesco de categoria inferior (Cabotin), o qual teria atuado no tempo de Luís XIII, em França.
            Figurativamente, entretanto – e esta é a significação preferida e mais conhecida no Brasil – denota a ideia de [...] indivíduo presumido, afetado, que procura chamar a atenção, ostentando qualidades reais ou fictícias (CUNHA, 2001), com registo lexicográfico no século XIX (1807), sendo controversa a origem dos seus sentidos expressos em glossários, segundo gizado no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2001), de Mauro Salles Villar e Antônio Houaiss.
            Este escrito é a continuação de viagem feita na boleia de matéria aqui veiculada recentemente, sob o título de Em qual cabeça assenta este chapéu? - onde expressei indignação com os autores autoproclamados mentores da sociedade, os quais se louvam no expediente da apologia aos protagonistas de suas obras, sem desvinculá-los dos nomes reais como escritores, com vistas à obtenção do aplauso, atitude repreensível, mesmo se o louvor restar merecido, e – pior ainda – caso não sobeje o elogio justo.
            A desqualificada significação desta unidade de ideia – cabotinismo - experimenta trajeto bastante comum no decurso na sociedade dos mais diversificados lugares e em tempos totais, conforme, amiudemente, a História relata, submetendo ao risco de sua instalação todos aqueles que não se vacinaram contra a picada da mosca azul - consoante a reflexão de Frei Beto, no livro do mesmo nome -  expondo-se, dadivosos, ao seu voraz apetite.
             A soberba, a importância e a indispensabilidade quase patológicas dos afagos ao ego sugestionado por Sigmund Freud parecem invadir o controle da volição, determinante da vontade de cada qual, neste caso, concernente a orientar as pessoas na trilha certa, conduzindo-as ao comportamento adequado no âmbito moral, na contextura da decência e no contorno das atitudes saudáveis que devem presidir aos nossos procederes. A isto a sociedade inteira almeja, porém, se descuida de armar anteparos e, com frequência, se descortina subordinada a um inimigo oculto, o qual se arrima até na nossa inteligência, como, por exemplo, na capacidade de escrever bons textos, a fim de operar seu desiderato e nos exibir aos pares com defeito de tanta monta, configurado no recurso nefasto do exibicionismo, sinônimo de ostentação, correspondente a encômio barato e presunção despropositada.
            É determinante, por conseguinte, um cuidado redobrado, a fim de as pessoas não se subordinarem às investidas constantes do cabotinismo, mormente quando são alçadas a posições de destaque, por via da Política, Religião, manifestações artísticas e demais haveres dotais impressos pela Providência Divina, como, exempli gratia, a Literatura, a Pintura e as outras quatro artes.
             Estas expressões da indústria humana, por efetivo, consuetudinariamente, concedem visão pública e midiática aos produtores e intérpretes, granjeando para seus palcos de shows e outros ambientes de assistência, em catarse aristotélica – de cariz estético - uma multidão apaixonada, desorganizada e desprovida de pensamento racional, condutora do artista aos apogeus da glória, circunstância fácil de ligeiramente enviesar para o senhorio da cabotinagem, de atuação ligeira junto aos que não se abasteceram de defesas rápidas contra opositor de exercício tão desembaraçado e veloz.
            O complexo inteiro da Humanidade está sujeito aos tentáculos dos comportamentos charlatães, de tal sorte que se deve permanecer em atalaia contínua contra suas arremetidas. Há que se postar avesso, entretanto, aos pruridos exagerados de simplicidade, como, por exemplo, o autor deixar de assinar uma produção, resignar-se perante a omissão de seu nome de uma ficha técnica, calar-se ante a supressão de referência por parte de alguém em evento cuja efetividade dependeu de sua participação etc., fatos que somente atestam a bobice e a sujeição infantil, também doentias, no polo oposto da ideação do teor cabotino.
            Guardo, constantemente, sobrado cuidado com as acometidas desse vilão moral, deontológico e ético, para não ser vergado moralmente pelos seus impulsos poderosos (Flexo, sed non frango = envergo, mas não quebro). Ele circula à solta em meio aos desavisados, mormente na ambiência dos inocentes e pretensos credores do reconhecimento e presumidos donos de uma arte maior, definitiva, quando, em muitos lances, representam apenas jejunos e claudicantes aprendizes, visitantes de assuntos sobre os quais estão ainda bastante apartados do domínio.
            Estas pessoas merecem de seus próximos – parentes, amigos e circunstantes com quem tenham alguma ligação - os corretivos oportunos, as regulagens apropriadas, a fim de que não habitem o patamar dos deserdados morais artistas, os quais, mesmo sendo bons, ainda acham necessário aparecer, conforme expressei na matéria indicada no terceiro parágrafo desta escrita, como os primeiros entre os pares, feitos luminares refalsados do preparo intelectual e notáveis ilusórios da sabedoria.

            Lamentavelmente, não conhecem, ou jamais divisaram, a ideia do cientista de Österreich, naturalizado inglês, Carlos Raimundo Popper (Viena, 28.07.1902 – Kenley, 17.09.1994), para quem todos somos cegos convencidos de que saber e ignorância são vizinhos.

sábado, 16 de julho de 2016

ANIVERSÁRIO DE GISELDA MEDEIROS - 2016




A Presidente de Honra da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil - CE, Giselda Medeiros, recebeu bela homenagem pelo transcurso de seu aniversário.

Ajebianas e ajebianos compareceram ao almoço, dia 13 de julho, no Náutico Atlético Cearense para cantar os parabéns.

A Presidente Gizela Nunes da Costa passou a condução dos trabalhos à cerimonialista, escritora Francinete Azevedo, antes, porém, prestando uma homenagem póstuma, com um minuto de silêncio, à Lúcia Helena Pereira, pelos seus feitos à AJEB-RN, como presidente dessa coordenadoria e pelo seu dinâmico trabalho como Presidente Nacional da AJEB.

A cerimonialista exaltou a pessoa e a escritora, Giselda Medeiros, com belas palavras. Em seguida, passou a palavra à secretária, Rejane Costa Barros, responsável pela louvação à aniversariante. Com um discurso poético, Rejane traçou a personalidade da escritora homenageada (transcrito mais abaixo).

Em nome da família de Giselda, seu filho, Jorge Francisco de Medeiros, fez os agradecimentos pela homenagem à sua mãe.

A aniversariante, em rápidas palavras, mostrou sua visível emoção, agradecendo a todos os amigos ali presentes com um poema.

O jornalista Vicente Alencar  fez a leitura das notícias culturais.

Ao final, as fotos, imagens da bela recepção.


Giselda Medeiros e a celebração da vida

          O Ceará, terra bem-aventurada que produz bons frutos, permitiu que Prata se transformasse em ouro. Fortaleza recebeu uma menina, que cresceu, virou mulher, estudou, tornou-se professora, casou, construiu uma bela família, talentosa, que decifrou os mistérios da literatura, tornou-se poetisa de primeira linhagem e também a Princesa dos Poetas do Ceará. Intelectual de provada e admirada sabedoria, descobriu com perfeito discernimento o saber e o sabor da poesia, sua grata companheira, usando-a como fonte vital de sua produção. Destaca-se ainda, no conto, na trova, na crônica, na crítica literária.
          Giselda Medeiros é mulher simples, sensível, bem-intencionada e que ama Fortaleza, pois por ela foi recebida e adotada como filha. Sabe ser moderada na medida em que não é submissa e sabe ser audaz, se fazendo nobre, sem soberba. Tem um jeito franco e cordial de ser, naturalmente, sem precisar fazer tipo, sem nunca fingir ou negar sua personalidade. Sua alma é ampla e aberta como o sol que brilha a cada dia. Seu coração, assim como o nosso mar, é belo de se ver e navegar. Sua vida é assim, sem mistério ou disfarces, desfraldada como uma bandeira, sugerindo esperanças e convidando-nos a acompanhá-la. É feita de pura paixão. De ânsia de trabalho e de vitória. De luz e fé. Como todo o bom povo nordestino.
          Nascida no dia 14 de julho, onde ainda hoje se comemora, na França, a vitória da liberdade, com a Tomada da Bastilha, filha do casal Jorge Francisco de Medeiros e Raimunda de Sousa Fernandes Medeiros, tem muitas histórias a nos contar e muitas lições de vida a nos repassar.
          Um dia o destino tratou de nos aproximar e de nos fazer amigas. Assim, permanecemos. Desfrutamos de uma cumplicidade literária e afetiva, e agradecemos sempre por esse encontro, pleno de respeito, admiração e reciprocidade. Essa mulher de marca esplêndida de dignidade não tem frustrações e sente-se uma pessoa feliz com o mundo em que vive e com sua família; é um ótimo exemplo a ser seguido.
          Giselda honra-me a sua fidelidade e o tratamento afetivo que me dispensa diariamente. Procuro também dedicar a ti o meu desvelo, minha solidariedade, e um amor altaneiro e sincero, de amiga, com a felicidade de nesse recente Dia das Mães de 2016, ter recebido de ti um recadinho muito carinhoso no qual me adotavas como filha em seu sensível coração materno. Obrigada!
          O poeta Alberto de Oliveira, num de seus poemas diz que a boa idade é a da maturidade, porque é o tempo da sabedoria e da serenidade. E realmente, é.
          Amiga, que Deus, que a fez com toda essa capacidade de não envelhecer, a conserve desse mesmo jeito: companheira de todos os momentos, boa e leal em todas as circunstâncias, com essa lucidez poética incrível e esse espírito de menina-mulher plena de jovialidade interior.
          Receba de todos nós, seus amigos, os votos de parabéns, por mais um ano de vida, por seu bom exemplo, sua conduta, sua família, pela missão que vem cumprindo com tanta consciência e dignidade.
 
          Muito obrigada por você existir em nossas vidas!
          Parabéns por seu aniversário!!!!
Rejane Costa Barros

Fortaleza, 13 de julho de 2016

FOTOS



















































sábado, 9 de julho de 2016

UM CONTO DE ANA PAULA MEDEIROS



CONTO DE UMA NOITE DE ABRIL

Os ponteiros pareciam passear vagarosamente sob o vidro do relógio de pulso, enquanto ela aguardava a definição do lugar do encontro.

Há poucas horas, havia recebido um convite para jantar. Deveria estar feliz, mas uma avalanche de emoções escorregava-lhe pela espinha. Há dias, o relacionamento não estava muito bem. Existia algo, uma energia forte, contrária à dos amantes, que se espalhava como uma erva daninha. Uma sombra pairava sobre os dois, amornando a euforia do amor. Ela sabia que estava por vir mais um daqueles momentos de contabilidade... Contas de coisas que ela fizera e o desagradou. Contas postas friamente sobre a mesa de jantar. Era sal na sobremesa...

Finalmente, chegou a mensagem com o local e hora do encontro. Ela levantou-se da cama e foi se banhar. Deixou, por longos instantes, a água escorrer pelo seu corpo e sumir através do ralo. Parecia que a água levava embora um pouco de sua desilusão... Respirou fundo e recompôs-se. Perfumou-se e vestiu uma roupa nova, como era de costume nos encontros que tinha com ele. E foi. Chegou cedo e explorou o lugar. Havia um jardim grande com muitas plantas e luminárias. Sentou-se e, ao recordar alguns momentos, percebeu o quanto o amava e o admirava e se orgulhava de ser... ser... ser o quê?... Não conseguiu se definir em relação ao que era para ele. Levantou-se e andou inquieta por entre as mesas vazias do jardim até que o avistou entrando pelo portão. Seu coração disparou e um soluço inesperado lhe aparecera naquela hora. Ele aproximou-se e a cumprimentou formalmente. Era um homem de poucas palavras, mas de muitos pensamentos. Ela queria pular em seus braços, morder sua orelha e dizer: olá, meu amor! Mas, o jeito sisudo e grave, com o qual ele a recebeu, embargou a ebulição dos gestos que ela desejava fazer naquela hora.

Foram ao salão e se assentaram. Havia uma dormência nela e uma estranha tranquilidade nele. Ele examinou o cardápio, solicitou sugestões e fez o pedido ao garçom. Enquanto isso, ela sofria silenciosamente... Até que, depois de um longo suspiro, ele iniciou a conversa. A sensação que ela tinha era que as palavras dele a aprisionavam em uma caverna escura e a faziam ficar lá: triste e acuada. Recebeu tudo de peito aberto. Nunca teve escudos, trincheiras, abrigos de defesa. E tinha um grave defeito: total inabilidade para brigar e contra argumentar em situações que envolviam seus afetos.

Ele lhe disse coisas que chegaram nela como um tsunami. Ela chorou muito e foi embora só. Ele não a quis. Sequer lhe retribuiu o abraço na despedida. Permaneceu inflexível como um carvalho na tempestade.


Naquela noite, ao chegar em casa, enquanto tremia acometida por uma febre emocional, ela ouviu aquela mesma sombra, que pairava sobre os dois, dar muitas gargalhadas. Depois dali, ela mergulhou num torturante vazio que lhe roubou o viço e o doce da vida. Não há mais tâmaras nem damascos nas manhãs de domingo.  

segunda-feira, 27 de junho de 2016

NEOLOGIA NECESSÁRIA

NEOLOGIA NECESSÁRIA
Vianney Mesquita*


Pouca necessidade de pensar experimentam aqueles que nunca precisam de palavras novas.

Com assento na sentença epigrafada, de autoria do literato italiano Arturo Graf, de tripla nacionalidade, procedente de alemães, nascido em Atenas e com registro de óbito em Turim (19.01.1848 – 31.05.1913), firo este comentário acerca de um pequeno busílis, por mim topado, sempre que se me depara algum escrito acerca da produção, comercialização, cultivo e movimentação agrícola e econômica do coco-da-baía, principalmente, e outros componentes palmáceos alimentares, amanhados como produtos para circulação no mercado, classificados como pertencentes a um só gênero Coco  – catulé, bocaiúva, macaúba, coco-espinho etc – os três derradeiros, notadamente, para natural sustento alimentaranima vili.

Não custa referir, pois é ensejado, ao fato de que o babaçu, que no Nordeste do Brasil é tomado pelo vulgo como “coco-babaçu”, não é parte do gênero Coco, mas pertence ao Orbygnia phalerata, além de constituir bem econômico de regular monta no âmbito do comércio de produtos de procedência agrícola no País.

Mencionados estudos, cujos textos relatoriados são por mim transitados para revista, procedem de programas brasileiros de pós-graduação em Agricultura, stricto sensu (com exame extensivo aos outros dois setores da produção), por exemplo, da Universidade Federal de Viçosa, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz – ESALQ (USP-Piracicaba), Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA-Mossoró) e, nomeadamente, oriundos do Curso de Economia Rural, da Universidade Federal do Ceará, Campus do Pici, aqui em Fortaleza, um dos melhores programas de pós-láurea em curso no Brasil.

O embaraço reside exatamente em determinar um substantivo para bem retratar, nos relatos de suas investigações, a atividade agrícola-econômica representada pelo Coco nucifera – Linn.1757, uma das dezenas de espécies, da família Arecaceae, inserta no gênero único de taxinomia do coco, o coco-da-baía, principal cultivar dessa classificação, estudado em nossas escolas sob o prisma científico, na conjunção dos vários ramos do disciplinamento ordenado a envolverem seu exame.

Este impedimento não sucede, v.g., com a cultura do café, à qual, sem qualquer percalço de ordem gramatical, linguística e elocutória, se concedeu o nome cafeicultura, com o “i” do meio fazendo a ponte com os dois substantivos para formar o asserto híbrido, a fim de não retratar ideação diferente (café-cultura, estabelecimento onde se toma café e se cultivam temas em geral,café-livraria), bem assim – e, principalmente – com vistas a obedecer às regras de formação vocabular da Língua Portuguesa, cujo trato, por não ser asado o ensejo, não há de vir agora à colação.

A igual acontece com citricultura, relativamente a cítricos (gênero Citrus, família das rutáceas), plantação, cultura e exploração econômica, por exemplo, de laranja e limão. E, assim, com sericicultura – criação do bicho-da-seda (Bombryx mory), beneficiamento, industrialização e comercialização da seda; comolericultura – cultivo e acrescentamentos econômicos de legumes; mangiferacultura – plantação, acompanhamento dos cultivares de manga (Mangica indica); rizicultura ouorizicultura – cultura e economia do arroz (Oriza sativa); e tantas outras ações agroeconômicas de ofício dos três setores produtivos.

O problema não subsistiria, caso a dicção coco não sugerisse, colada à sequente, a formação de expressões cacofônicas, o registo de cacófato - palavra de som feio, desagradável, discorde ou com sentido errado, advinda dos sons de dois termos juntos; e de unidade de ideia obscena, grotesca ou descontextualizada, proveniente da sílaba final de um vocábulo e a inicial do outro. Isto se dá em decurso de um termo seu homógrafo imperfeito, parônimo – cocô – representativo de excremento e coisa de má qualidade.

Desta sorte, convenhamos, é defesa, por absolutamente descabida, a referência a “cococultura” (aqui como a sugestionar um exame parasitológico de material excrementício), ou a “cocoicultura”, cujo “i” certa pessoa já sugeriu como ligação, a fim de reduzir o efeito da cacofonia, no entanto (me parece), ideia desprovida de sucesso. No tentame de aportar a uma solução, outras insinuações vocabulares apareceram, entretanto, deseixadas de ideação lógica e revéis às normas de formação glossológica em Português, como nos casos de coquicultura, ecocucultura – este que me ressoa ainda mais desarrazoado.

Louvado, com efeito, na configuração latina da denominação taxinômica efetivada pelo célebre e operoso naturalista sueco Carlos de Lineu, em 1757 – Coco nucifera – penso haver encontrado uma proposição verossimilhante, consistente em ajuntar, como primeiro elemento do hibridismo ora sugerido, a palavra nucifera, (+ cultura) com esteio nas razões aduzidas na sequência.

Impende-me, então, elucidar, considerando, em primeiro lugar, o fato de que alguém aventou – e os lexicógrafos, inadvertidamente, aceitaram, introduzindo o verbete nas obras de referência – a expressão nucicultura, como representativa da intenção de “cultura de nozes”, todavia procedente apenas das diversas ocorrências de nogueira, como, por exemplo, nogueira-americana ou nogueira-pecã (carya illynoensis), nogueira-brasileira ou nogueira-de-iguape (Aleurites mollucana), nogueira comum (Juglans regia), nogueira-da-austrália ou macadâmia (Macadamia ternifolia) et reliqua.

Conquanto, sob o prisma da evolução histórica, nuci se reporte a nogueira, a inserção definitiva e oficial da unidade de ideianucicultura, especificamente para nogueira, nos dicionários é, sem dúvida, no mínimo, apressada, porquanto nuci, como antepositivo, do Latim, alcança todo fruto com amêndoa, castanha, noz e outros, como o são, exempli gratia, a castanha-de-caju, fruto do cajueiro (Anacardium occidentale) – pegada ao pedicelo comestível (caju), bem como todas as espécies do gêneroCoco (único).

De tal maneira, pelo fato de estar permanentemente sob registro lexicográfico, é interdito se empregar nucicultura, a não ser para o bem originário das diversas espécies dessas árvores produtoras de nozes – ficando de fora coco-da-baía, catulé ou babão, macaúba, macaíba e quaisquer outras palmáceas.

A sugestão, por conseguinte, é a de se cunhar a palavraNUCIFERACULTURA, a fim de descrever, para emprego nos textos de exame científico, a plantação, o cultivo e seus desdobres econômicos – evidentemente com os inerentes nexos sociais – uma vez que a palavra é bem formada, de nuci – envolvendo todo fruto com noz – somada a fera, também Latim, elemento pospositivo, representativo de “que traz”, “conduz” – isto é, feito de nozes.

Malgrado em detrimento das demais espécies do gênero Coco, as quais praticamente não possuem representatividade econômica, sendo parcas, por tal pretexto, referências mais alentadas na literatura da Economia Agrícola, sobra, pois, como alvitre a expressão neológicanuciferacultura, para aplicação em textos de manifestação do saber parcialmente ordenado relativo a coco-da-baía (Coco nucifera).

Minha expectativa é de que, dentro em poucos anos, os glossários das ciências ditas aziendais, ligadas ao ecúmeno rural, incorporem a sugestão, restando, também, a probabilidade de, em poucos decênios, ou mesmo antes, os dicionários oficiais da Língua Portuguesa, circulantes nos nove países lusofônicos, apropriarem a elocução, ao jeito como procederam com relação à unidade de ideia nucicultura, devidamente em si consignada em tempo relativamente curto.

sábado, 25 de junho de 2016

NOTA JORNALÍSTICO-LITERÁRIA



NOVO LIVRO DE VIANNEY MESQUITA

     Estão sob editoração nas oficinas da Expressão Gráfica, casa publicadora de Fortaleza, os originais do vigésimo livro do imortal e titular das Academias Cearenses da Língua Portuguesa e de Literatura e Jornalismo, Vianney Mesquita, o qual ficará pronto ao cabo de trinta dias (25 de julho de 2016), conforme programado pela Editora.
          O volume Esboços e Arquétipos (Língua, Ciência e Literatura) encerra quatro módulos: um de Língua, com três capítulos, outro de Ciência, reunindo, também, três segmentos temáticos; o terceiro tem como recheio assuntos literários – nomeadamente crítica, com doze capítulos; a quarta seção compreende Literatura Passiva, envolvendo apreciações acerca da obra do Escritor, em quatro partes, assinadas pelos escritores coestaduanos Dimas Macedo, Edmar Ribeiro, Batista de Lima e Régis Kennedy G. Cruz.
          As guarnições são da lavra do Prof. Régis Kennedy, o qual abre os comentários com a opinião do Prof. Dr. João Bosco Feitosa, da Universidade Estadual do Ceará, para quem Mesquita, [...] além de um arquiteto a posteriori, é um restaurador de ousadias, um educador de inspirações para quem teima em se comunicar por textos, em meio a contextos que desafiam e expõem nossa emoção e esforços de produzir ciência.
          Régis Kennedy, a seu turno, expressa a ideia de que [...] Aprecio o elo por ele procedido da palavra com a Palavra, agora com este trabalho – Esboços e Arquétipos – Língua, Ciência e Literatura – ao trazer ensaios literários multivariados, porém alargando o temário de sua prosa, para cobrir conceitos, também, de teores da Língua Portuguesa e Filosofia da Ciência [...].
          A capa, elemento que concede o ensejo de se apreciar a arte desemparelhada do professor, escritor, artista plástico e acadêmico cearense Geraldo Jesuino, homenageia três ícones do conhecimento mundial em todos os tempos – Isaac Newton (Ciência), Luiz Vaz de Camões (Língua) e James Joyce (Literatura) - ao lado de seus pares, em alcance intelectivo, constituídos por outro trio de próceres do saber – estes, cearenses:
          - Doutor Manassés Claudino Fonteles, docente da Faculdade de Medicina da UFC, ex-reitor da Universidade Estadual do Ceará e da Universidade Mackenzie, de São Paulo, imortal-titular das Academias Brasileira e Cearense de Medicina, pesquisador de crase internacional e autor de centenas de textos científicos editados em magazines da área em todo o Mundo, no livro representando, com seu par Isaac Newton, o segmento da Ciência, no plano internacional, ali privilegiado;
          - Professor Myrson Melo Lima, da UECE e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará - IFCE, docente dos mais latos conhecimentos e ilimitados recursos no que respeita ao Código Linguistico Lusitano, autor didático de renome (vejam O Essencial do Português - 6. ed., Fortaleza: ABC, 2007), posando com Luiz Vaz de Camões como embaixadores mundiais do módulo Língua, em Esboços e Arquétipos; e
- Escritora Giselda Medeiros, lídima representante, em matéria de qualidade, dos gêneros ficção, poesia e crítica, é componente imortal das Academias Cearenses de Letras e da Língua Portuguesa, das Academias Fortalezense de Letras e de Letras e Artes do Nordeste – ALANE, e da União Brasileira de Trovadores. Registra, entre outros trabalhos publicados, Alma Liberta (1986), Tempo das Esperas (2000), Sob Eros e Thanatos (2002) e Crítica Reunida (2007). É detentora de muitos prêmios literários, pois escritora de fino veio, além de pessoa – a igual dos dois outros cearenses homenageados na capa - de alçada baliza moral e apurado traço amistoso e social. Giselda Madeiros está ao lado do romancista, contista e poeta irlandês (expatriado) James Joyce, investida, no novo trabalho de Mesquita, como representante global da Arte de Escrever.
          O escritor agente destas notas, consoante expresso na quarta capa de Esboços e Arquétipos - Língua, Ciência e Literatura, recebeu da Professora Doutora Joseneide Franklin Cavalcante (in memoriam), o sequente comentário, reproduzido de Repertório Transcrito (MESQUITA, 2000) e respeitante ao trabalho do mesmo autor, sob o titulo de Resgate de Ideias (1996):
          [...] Sobre o Vianney Mesquita escritor, agora mais maduro e profundo, repito minhas palavras de ontem: à semelhança de Michelangello, esculpe cada frase, cada construção. As palavras são seu mármore, a pena (agora, o computador) seu cinzel, a pureza das formas seu modelo, a busca da perfeição sua exigência. Seus escritos são Moisés que adquiriram a própria voz e dele se libertaram, ganharam autonomia. As palavras, artesanalmente trabalhadas, vão ganhando formas, muito suas, e que poderão ser tão variadas quanto ele as queira variar, mantendo, entretanto, a elegância e a pureza de uma língua nacional que, agonizante, deveria suplicar, em favor da sua sobrevivência, por um Vianney Mesquita que já quase não se consegue encontrar [...].
          Esboços e Arquétipos – Língua, Ciência e Literatura (Expressão Gráfica), do escritor palmaciano, fundador e ocupante da Cadeira número 1, da Arcádia Nova daquela Cidade (Palmam qui meruit ferat), terá lançamento festivo em agosto deste ano, nas dependências da Universidade Federal do Ceará.         

domingo, 12 de junho de 2016

HOMENAGEM AOS NAMORADOS



Aos namorados, no seu dia, a homenagem da POESIA, para que, hoje e sempre, vivam felizes, com a doçura do sorriso terno e a energia vivificante do abraço. Parabéns!


CANÇÃO DA ENTREGA
Giselda Medeiros

Deixa-me assim,
pequenina entre teus braços,
nesta paz de pedras adormecidas
a esperar as águas que virão
do teu mar.
Quero esta paz imensa de madrugada
que faz tremer, mais nada.
Depois, o extremo...
Quero o fremir, o grito
que acenderá as luzes de poemas,
lírios despetalados.
Abrir-te-ei minha alma
- a corola -
e nela pousarás qual afoito colibri
na rosa
ao sopro da canção que te escrevi.
Aí, seremos água e fonte
e asas riscando os horizontes.