terça-feira, 1 de setembro de 2015

HORA DO VERNÁCULO


Prof. Myrson Lima

I. Abortado

Significados:
1. Que abortou. Produzido antes do tempo. Parido antes da gestação. 

2.  Malogrado, frustrado, gorado.
Exemplos:

O negócio foi abortado. O golpe militar foi abortado pelo governo.
Na linguagem nordestina, não é nada disso.

Abortado se chama o indivíduo de sorte, feliz.
Esse cara é um abortado, nasceu com a bunda para a lua.

Estrofe de Anilda Figueredo, da Academia dos Cordelistas do Crato:
Há sujeito que tem sorte

Mesmo um desmantelado
Escapa de endemia

De polícia e delegado
De acidente e perigo

Pois é aí que eu digo:

Só tendo sido abortado!

II. Afobado
Significados:

Pessoa impaciente, agoniada, inquieta, nervosa, apressada. Com raiva. Tipo atrapalhado, avexado, em função de pressa excessiva ou de
impaciência; precipitado.
Exemplos:

O jogador afobado chutou a bola para fora. Quem é afobado come cru ou queima a boca.
Estrofe de Ulisses Germano, cordelista do Crato

Uma pessoa afobada
É nervosa e inquieta

Anda sempre agoniada

E tudo em volta lhe afeta
É no gesto aligeirado

Que o trejeito do afobado
Perde prumo, perde a reta.

III. Baitinga
Vem de baitola. Há uma etimologia talvez fantasiosa que diz que o termo nasceu na construção da primeira estrada de ferro no Ceará. O capataz encarregado do assentamento dos trilhos era de origem inglesa e possuía modos efeminados. Tinha ele a preocupação com o espaçamento padrão entre os trilhos chamado de bitola. Por influência da língua materna em que o i tem o som de ai, gritava com frequência o termo baitola em vez de bitola. Os peões por causa disso começaram a chamar o capataz de baitola.

Significado: baitola, balde, veado, gay, fresco, homossexual, bicha.
Empregado também para xingar alguém.

É termo menos ofensivo que os anteriores. Usa-se muito nas brincadeiras entre amigos. Geralmente, não tem conotação ofensiva. Tudo vai depender da entonação de quem emprega o termo.
Exemplos:

E aí seu baitinga, não vai me emprestar o cavalo não?
Estrofe de Bastinha Job (da Academia de Cordelista do Crato)

Digo com convicção
Nem preciso de mandinga

Pois falo com precisão

O sinônimo de baitinga

é o cara afrescalhado

É o popular veado

Tem na rua e na caatinga.

IV. Birita
Significados:

a) Cachaça, pinga, aguardente, por extensão qualquer bebida alcoólica.
b) Apelido que se acrescenta a um nome de um cachaceiro: Chico Birita. Manel Birita.

Estrofe de Aldemá de Morais, da Academia dos Cordelistas do Crato
“Birita” é o nome dado

A um tipo de cachaça.
O caboclo no engenho

Bebe em cuia de cabaça
É vendida em botequim

Seus clientes: “Papudim”,

“Pé inchado” e “Arruaça”.

V. Escambau
Origem provável: No Brasil Império, era comum os portugueses que aqui viviam fazer o "escambo", que consistia na troca direta de mercadorias sem o uso de moeda corrente, na maioria das vezes, gêneros de última necessidade, em uma grande feira chamada escambau.

Significados
Significa etc e tal. Comprou farinha, rapadura, carne seca e o escambau.

Escambau também se usa para denominar as pessoas de baixa condição social.
Trova

Bater fofo é não cumprir
Etecetera é escambau

Sujar muito é encardir
Quem acusa, cai de pau

Confusão é funaré
Carta curinga é melé

Atacar é só de mau.

VI. Distrenado
Sentido no cearensês: sem graça, encabulado.

Exemplo: Depois que fez esta besteira, ficou todo distrenado.
Trova de Josenir Lacerda, cordelista do Crato.

Se o sujeito tá confuso
Tristonho e encabulado

Com vergonha, constrangido

Feito um cão escorraçado
Tem gente que olha e diz:

- Aquele pobre infeliz
Tá sem graça, "distrenado".

A.C.L.P.  -  28.8.2015.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Português do dia a dia de A a Z - Prof. Valdemir Mourão


Português do dia a dia de A a Z

● Acento diferencial.

A) O acento diferencial pelo acento gráfico (de intensidade) deixa de existir (agudo ou circunflexo) nas palavras homógrafas paroxítonas. Exemplos:
1) coa, coas (verbo coar e subst.: coação, ato de coar) 2) para (verbo parar)  ≠ para ( preposição);
3) pela, pelas (v. pelar e substantivo: jogo, bola de   borracha, ato de pelar) ≠ pela(s){ comb. per + la(s) };
4) pelo (v. pelar), ≠ pelo ( comb. de per + lo); 4) pelo, pelos (subst.: cabelo, fio delgado) ≠ pelo {comb. de per + lo(s)};
5) pera ( subst.: fruta, interruptor elétrico ); pera (subst.: usada no composto pêra-fita: grande pedra fincada no chão; monumento de pedra) ≠ pera ( prep. arcaica, ainda de uso oral popular );
6) pero (subst.:fruta; variedade de maçã; nome dado aos portugueses pelos índios) ≠ pero (conjunção antiga);
7) pola, polas (subst.: sova, pancadaria) ≠ pola, polas {forma antiga de por + la(s) };
8) pola, polas (subst.: broto, galho pequeno) ≠ pola, polas { formas antigas de por + la(s) };
9) polo, polos ( subst.: extremidade, jogo) ≠ polo, polos1 {formas antigas de por + lo(s) };
10) polo, polos (subst.: gavião pequeno) ≠ polo, polos {forma antiga de por + lo(s) }.

EXCEÇÕES: 1) pôde (v. poder, pret. perf..) ≠ pode (v. pres. ind.); 2) pôr (v.) ≠ por (preposição).

CUIDADO!
A) Os monossílabos ás (tônico, carta de baralho) ≠ as (artigo plural, átono) e más (adjetivo, singular de má) ≠ mas (conjunção) se incluem ao grupo dos monossílabos tônicos, portanto não entram na regra das paroxítonas.
B) O acento diferencial morfológico é o que distingue a terceira pessoa do plural dos verbos ter e vir (e seus derivados) da terceira pessoa do singular. Exemplos:
1) ele tem ≠ eles têm;
2) ele vem ≠ eles vêm;
3) ele detém ≠ eles detêm; 4) ele provém ≠ eles provêm.

ATENÇÃO! Nas formas verbais em que acrescenta um pronome oblíquo (ver colocação de pronomes), deve-se ignorar o pronome e enquadrá-las normalmente às regras de acentuação. Exemplo:
1) Fi-lo (não acentuado); escrevê-lo; fá-lo-íamos (com dois acentos); pô-lo-ia; esperá-lo-íamos; amá-la-íeis; fá-lo-ás; pô-lo.


C) O acento diferencial de timbre foi abolido na Reforma Ortográfica desde 1971, com exceção da forma verbal pôde, já explicado e exemplificado no acento diferencial de intensidade.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Conselho de um Geriatra...



Estamos envelhecendo. Não nos preocupemos! De que adianta? É assim mesmo! Isso é um processo natural. É uma lei do Universo conhecida como a 2ª Lei da Termodinâmica ou Lei da Entropia. Essa lei diz que: “A energia de um corpo tende a se degenerar e com isso a desordem do sistema aumenta”. Portanto, tudo que foi composto será decomposto, tudo que foi construído será destruído. Tudo foi feito para acabar.

Como fazemos parte do universo, essa lei também opera em nós. Com o tempo, os membros se enfraquecem, os sentidos se embotam. Sendo assim, relaxe e aproveite. Parafraseando Freud: “A morte é o alvo de tudo que vive”. Se você deixar o seu carro no alto de uma montanha, daqui a 10 anos ele estará todo carcomido. O mesmo acontece a nós. O conselho é: Viva. Faça apenas isso. Preocupe-se com um dia de cada vez. Como disse um dos meus amigos a sua esposa: “me use, estou acabando!”. Hilário, porém realista.

Ficar velho e cheio de rugas é natural. Não queira ser jovem novamente, você já foi. Pare de evocar lembranças de romances mortos, vai se ferir com a dor que a si próprio inflige. Já viveu essa fase, reconcilie-se com a sua situação e permita que o passado se torne passado. Esse é o pré-requisito da felicidade. “O passado é lenha calcinada. O futuro é o tempo que nos resta: finito, porém incerto”, como já dizia Cícero.

Abra a mão daquela beleza exuberante, da memória infalível, da ausência da barriguinha, da vasta cabeleira e do alto desempenho, para não se tornar caricatura de si mesmo. Fazendo isso ganhará qualidade de vida. Querer reconquistar esse passado seria um retrocesso e o preço a ser pago será muito elevado. Serão muitas plásticas, muitos riscos e mesmo assim você verá que não ficou como outrora. A flor da idade ficou no pó da estrada. Então, para que se preocupar?! Guarda os bisturis e toca a vida

Você sabe quem enche os consultórios dos cirurgiões plásticos? Os bonitos. Você nunca me verá por lá. Para o bonito, cada ruga que aparece é uma tragédia, para o feio ela é até bem vinda, quem sabe pode melhorar, ele ainda alimenta uma esperança. Os feios são mais felizes, mais despreocupados com a beleza, na verdade ela nunca lhes fez falta, utilizaram-se de outros atributos e recursos. Inclusive tem uns que melhoram na medida em que envelhecem. Para que se preocupar com as rugas, você demorou tanto para tê-las! Suas memórias estão salvas nelas. Não seja obcecado pelas aparências, livre-se das coisas superficiais. O negócio é zombar do corpo disforme e dos membros enfraquecidos.

Essa resistência em aceitar as leis da natureza acaba espalhando sofrimento por todos os cantos. Advêm consequências desastrosas quando se busca a mocidade eterna, as infinitas paixões, os prazeres sutis e secretos, as loucas alegrias e os desenfreados prazeres. Isso se transforma numa dor que você não tem como aliviar e condena à ruína sua própria alma. Discreto, sem barulho ou alarde, aceite as imposições da natureza e viva a sua fase. Sofrer é tentar resgatar algo que deveria ter vivido e não viveu. Se não viveu na fase devida, o melhor a fazer é esquecer.

A causa do sofrimento está no apego, está em querer que dure o que não foi feito para durar. É viver uma fase que não é mais sua. Tente controlar essas emoções destrutivas e os impulsos mais sombrios. Isso pode sufocar a vida e esvaziá-la de sentido. Não dê ouvidos a isso, temos a tentação de enfrentar crises sem o menor fundamento. Sua mente estará sempre em conflito se ela se sentir insegura. A vida é o que importa. Concentre-se nisso. A sabedoria consiste em aceitar nossos limites.

Você não tem de experimentar todas as coisas, passar por todas as estradas e conhecer todas as cidades. Isso é loucura, é exagero. Faça o que pode ser feito com o que está disponível. Quer um conselho? Esqueça. Para o seu bem, esqueça o que passou. Tem tantas coisas interessantes para se viver na fase em que está. Coisas do passado não te pertencem mais. Se você tem esposa e filhos, experimente vivenciar algo que ainda não viveram juntos, faça a festa, celebre a vida, agora você tem mais tempo, aproveite essa disponibilidade e desfrute. Aceitando ou não, o processo vai continuar. Assuma viver com dignidade e nobreza a partir de agora. Nada nos pertence.

Tive um aluno com 60 anos de idade que nunca havia saído de Belo Horizonte. Não posso dizer que, pelo fato de conhecer grande parte do Brasil, sou mais feliz que ele. Muito pelo contrário. Ele parecia exatamente o oposto. O que importa é o que está dentro de nós, a velha máxima continua atual como nunca: “quem tem muito dentro precisa ter pouco fora”.

Este é o segredo de uma boa vida.

(Geriatra: Dr. Joston Miguel)


terça-feira, 21 de julho de 2015

AJEB-CE PROMOVE ALMOÇO PELO ANIVERSÁRIO DE GISELDA MEDEIROS


A Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil - AJEB-CE - promoveu dia 16 de julho de 2015, no Náutico Atlético Cearense, almoço de adesão, para homenagear sua Presidente de Honra e Ex-Presidente Nacional, Giselda Medeiros.

Ajebianas e ajebianos, amigos e a Família compareceram para levar seu abraço à Escritora Giselda Medeiros, Princesa dos Poetas do Ceará.

Nirvanda Medeiros, Presidente da Coordenadoria do Ceará, exaltou as qualidades da aniversariante, deixando, ao final de sua fala, que cada um dos presentes traduzisse, em uma palavra, sua visão sobre a aniversariante.

A ajebiana Rejane Costa Barros leu um poema dedicado à Giselda Medeiros, enquanto o Sócio Benemérito da AJEB-CE, Vital Arruda, declamou uma trova que fizera em homenagem à escritora aniversariante.

Giselda Medeiros, emocionada, saudou a todos os amigos e Família, agradecendo-lhes a presença com um poema de sua autoria.

Em seguida, foi servido o almoço, requintado, como o são todos os do Náutico Atlético Cearense.


COBERTURA FOTOGRÁFICA


A aniversariante com a Presidente Nirvanda Medeiros


  A saudação da Presidente


Rejane Costa Barros saúda a aniversariante


Vital Arruda, também aniversariante, 
declamando sua trova, homenageando Giselda Medeiros


O agradecimento da aniversariante


Os "Parabéns pra você"


O almoço


O almoço


Homenagem, com flores, de Vládia Mourão.


Gizela Costa, Rejane Costa Barros e Socorro Cavalcanti


Ana Paula e Giselda Medeiros


Giselda Medeiros


Com os amigos da Academia Cearense de Letras: Ernando Uchoa e Batista de Lima


Ladeada pelos amigos: Aldo Melo, Pereira de Albuquerque, 
Vital Arruda, Juliana Melo, Clara Leda e Zenaide Marçal



Com a Família: Rosinha, Rafaela e Ana Paula Medeiros


Com a amiga ajebiana, Gizela Costa


Com Alexandra, Rosinha, Rafaela e Ana Paula



Com os amigos: Zinah Alexandrino, Batista de Lima, 
Fátima Lemos e Ernando Uchoa Lima


Clara Leda, Nirvanda Medeiros, Ernando Uchoa Lima, Heliane Pimentel, 
Vládia Mourão, Batista de Lima, Maria do Carmo Fontenelle, Maria Luísa Bomfim e sua Neta.


Com o amigo Cláudio Queiroz


A aniversariante  agradecida pela presença dos amigos, 
da Família e pelo perfume das flores


quinta-feira, 9 de julho de 2015

GENUÍNO SALES NÃO É SÓ GRANDE PROFESSOR DE PORTUGUÊS. É TAMBÉM GRANDE POETA.



PRESENÇA
Genuíno Sales
(Da Academia Cearense da Língua Portuguesa)

Eu gosto de não te ver
para não sentir em vão
com tua presença esquiva
o pecado inevitável
do desejo impossível
eu gosto de não te encontrar
para não sofrer a tentação
do irrealizável.
Mas mesmo sem querer de vejo
e mesmo sem querer te encontro
e se te vejo peco
e se te encontro sofro
sofro e peco
porque tua presença onírica
é a volúpia de minha solidão
na certeza do impossível

em que pulveriza meu sonho.

domingo, 21 de junho de 2015

MAR ABSOLUTO - CECÍLIA MEIRELES




Mar Absoluto

Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
"Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!"
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-nos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado,
cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

PARA OS NAMORADOS NO SEU DIA ESPECIAL






MOTIVOS

1.       Beijarei o moreno
              de tua face
              se me deixares afagar
              as pétalas do teu sorriso,
              flor de Poesia.

2.      Quero estar sempre
em ti
como o grão na espiga
aos ventos estivais.
Como o azul dos horizontes
no longo abraço
do mar.


3.      Quis aprender
o sentido da vida,
os mistérios que dormem na dor,
a luz que fulgura
nas sombras...
E aprendi
simplesmente
teu nome.


4.      Olho-te
(que já é noite)
imóvel lírio ao luar
e te guardo
intacto
em meu perfume
(que amanhã preciso de ti)
para o voo deste sorriso
implume.


Giselda Medeiros

sábado, 6 de junho de 2015

UM POEMA DE SÉRGIO MACEDO



DESERTO


Pode ser que haja alguma mudança

O deserto está quieto,

Algumas moitas de ferozes arbustos

Negando a morte continuamente,

Sobrevivência consumindo restos de esperanças,

Reduto de heróis esquecidos nas batalhas,

O deserto sobrevive,

No que sobra das carcaças

De jipes e tanques de guerra abandonados, 

Carcomidos pelo tempo

O herói não sabe do fim da guerra 

Continua guerreiro,

Continua na espreita.



Pode ser que haja notícias

Pode ser que haja mudanças

Não ouviu mais tiros

Gritos, melodia desaparecida há tempos

E a bela não lhe sai do alvo

A beleza imortal da musa

Da mulher tão sensual, quanto ausente,

Tão bela quanto enigmática,

Tão desejada quanto desejo.

O tempo se foi como medida de existência 

Nem pode fugir: não se foge do deserto

Deserto é a apoteose das prisões

Seu muro se chama distância

Seu muro se chama nada

Chama-se desesperança, medo

A liberdade está em pensar

Em olhar estrelas, noite após noite 

A liberdade está em esquecer.

From Heaven

domingo, 31 de maio de 2015

POEMA "BUSCA"




busca
Giselda Medeiros


Hoje quero tocar-te,
alcançar as dunas que circundam
a alvura de tuas praias.
Hoje queria ter
dedos insubmissos,
sentinelas destas mãos
que comandam a feroz audácia
de gestos indormidos.
Queria alongar-te pelo dorso manso
a inquietude de desejos secretos
até sentires a quentura gritante
da minha insaciável busca.

Sinto o tempo de amar,
o tempo de entrega.
Entanto, os meus olhos já se enublam
como um sol poente
nas águas sofridas de um rio.
E minha alma, cisne arisco,
já se inclina ante a miragem
do fogo de teus olhos.

Hoje queria tocar-te a superfície,
cadeia enervada de emoções.
Mas, que adianta!
Hoje é apenas um momento...
E o momento é breve como o canto
que te canto.
Depois... Somente a praia submersa
que se inclina
e o sol, pedaços de ânsias afogadas
na mansitude azul das águas...
 

quarta-feira, 13 de maio de 2015

ARTIGO DO PROFESSOR VIANNEY MESQUITA


PERCALÇOS NA FEITURA DE UM LIVRO
Vianney Mesquita*
Grande livro seria aquele em que a metade do gênero humano lesse o que pode e deve oferecer aos demais cinquenta por cento! (SEVERO CATALINA DEL AMO. * Cuenca, 1832; Madrid, 1871 – 39 anos).

Dias atrás, na décima oitava oportunidade na vida, passei pela emoção de ensaiar experiência ditosa: a de recolher o recheio da étagére, abrangendo textos do meu varejo escritural, com data inaugurativa em setembro de 2014 (e previsão de lançamento em julho-2015), quando já houvera pinçado o sortimento textual que encorpou o livro Nuntia Morata – Ensaios e Recensões, publicado em 02 de  outubro do ano imediatamente transato.
Este sucesso dista do primeiro evento exatos 31 anos, quando, em Sobre Livros – Aspectos da Editoração Acadêmica (Brasília:Proed/Fortaleza: Edições UFC – 1984), trouxe ao lume, em avant première autoral, as compreensões acerca da edição de trabalhos no âmbito das casas publicadoras das universidades federais brasileiras, no ensejo em que desenvolvi as atividades de secretário-executivo da citada Editora da Universidade Federal do Ceará, vitoriosa – e ainda persistente – iniciativa do preclaro reitor Prof. Paulo Elpídio de Meneses Neto, hoje sob as mãos diligentes do Professor Antônio Cláudio Lima Guimarães, pessoa desprovida de qualquer defeito.
Os originais transitam sob a desvelada atenção do professor, imortal da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, Geraldo Jesuino da Costa, o mago da editoração cearense, que procede, com arte, graça e profissionalismo, aos provimentos estéticos das modernas artes gráficas, com vistas a conferir aos Guardados da Minha Étagére - Aproximações Literocientíficas - a configuração continental do volume, consentânea em relação às exigências da Modernidade no concernente à manifestação graficovisual do livro de papel. Afortunadamente, pois, não se podendo contar com a qualidade e o alcance do CONTEÚDO das minhas nem sempre assentes concepções, por seguro, pelo menos, remanescerá garantida a essência do CONTINENTE, a ser explícita por tão alteado intelectual e artista coestaduano, como fez com sua pintura excepcional nas capas do mencionado Sobre Livros, bem assim, mais recentemente, do Arquiteto a Posteriori (2013) e de Nuntia Morata (2014).
Já no Posfácio de Impressões – Estudos de Literatura e Comunicação (Fortaleza: Agora, 1989), eu já exprimia a noção de que edificar uma obra, por simples que saiam seus teores, não encerra mera operação gráfica, como pensam, decerto, aqueles ainda à espera de publicar um livro, conquanto já hajam trespassado os outros dois pressupostos ditos para o ente humano estacionar-se feliz: gerar um filho e plantar uma árvore.
Operado por dezenas de mentes, triplicado número de mãos e muitas naturezas em pensamento – inclusos os “arquitetos ao depois” - o livro, malgrado o desembaraço da editoração moderna em computação gráfica, sempre ensejará algo a se pretender, em virtude daquela heterogeneidade operacional, a torná-lo rebento de uma coletividade fundada pelas pessoas que, afetuosamente ou não, o constituíram.
Neste caminho, onde não apenas medram inteligências, mas também prosperam espinhos e calhaus ponteagudos, não sei mais asseverar se quem escreveu ou - mais bem terminante - aquele tangido pela conceição intelectiva, é, na realidade, o componente mais valioso desta complicada, dispendiosa e dulcíssima empresa.
A fim de se alevantar um produto escrito, há vera convergência de forças, para, uma vez juntadas todas as pedras desse quebra-cabeça lúdico-intelectivo, se aportar à consecução da sua finalidade.
 Por conseguinte, no emaranhado de ideações, em teia enredada de intenções, é que podem aparecer os equívocos, máxime para os leitores mais aprestados, como (folgo com isso dizer) ocorrem ser os meus, componentes do “alto clero” do “Vaticano” acadêmico do Ceará.
Sucedem, quase sempre, os vieses do autor, pretensa primeira figura do empreendimento librário. Aparecem suas proposições desacertadas e confusas, assentadas em fontes também falazes, indutoras compulsórias aos enganos. Surde a multiplicidade de procedimentos, uns editoriais, outros plásticos e demais condutas gráficas, muitas vezes carentes de concertos e consertos, sem contar com as reiteradamente descabidas incursões do escritor aos originais, para modificar, mexer, introduzir adendas, transmudar a versão anterior e, mui especialmente, a fim de desequilibrar a paciência dos operadores, os quais, no fim, jamais são reconhecidos, no entanto, restam inculpados pelos desacertos eternamente conduzidos pela publicação, a induzirem à falácia milhares, talvez milhões, de desavisados consultantes.
Acontece de ser, pois, nesta baralhada toda que o modelo enseja o registo de erros não reparáveis - raríssimamente nenhum, nas mais das vezes muitos e reiteradamente alguns.
Descansa no anedotário e no folclore das antigas tipografias, reverberando até hoje na ambiência das gráficas modernas, a mofa segundo a qual editores e operadores tipográficos asseveram – seja isto registado, e com sobrada razão – o fato de ser o autor o que mais atrapalha a obra. Para alguns, melhor seria que as produções a editar não tivessem escritores. Não fosse assim, contudo, não haveria quefazer para os críticos – os mencionados arquitetos ao depois, que desmancham as obras e, ao remontá-las, sobram esses parafusos da capa do Arquiteto a Posteriori (foto), que a diligência e o desvelo profissional do acadêmico Geraldo Jesuino da Costa retrataram na cobertura deste (quiçá) arremedo editorial da minha colheita, lançado em 2013.
Conquanto seja fato latente na execução de qualquer trabalho editorial, ordena-me a consciência evidenciar a coautoria de editor, capista, revisores, prefaciadores, autores de guarnições, bibliotecários, digitadores, amigos e conselheiros - bons muitos, mas insuportáveis outros – para se poder perlustrar ínvios quanto livres caminhos, a fim de cumprir um desiderato: o de a pessoa humana deixar marca por onde transita, como no verso de Ovídio - Non omnia moriar. (1).
De todo modo, também como sucedeu com os demais, ocorre com este nascituro projeto de livro – Guardados da Minha Étagere - Aproximações Literocientíficas – com o qual me afanei, prazerosamente, em dias às centenas e no curso de milhares de horas, subtraídas ao sossego corporal para labor do espírito.
Malgrado possa ele ser objeto dos retrocitados transtornos editoriais, assevero haver sido fomentado com estreme atenção, conquanto, me insertando na posição de mortal, explique, sem a pretensão de justificar, alguns lapsos que poderão nele vir explícitos. Terêncio defende-me: Homo sum. Humani nihil a me alienum cogito (2). E caso, todavia, não tenha logrado que o nascente volume se compadeça à expectação do meu leitorado, sobejou a intenção, decerto, nobilitante de o ter pretendido fazer.
Quid deceat, quid non. (3).


(1) Não morrerei completamente – frase da autoria de Públio OVÍDIO Nasão, poeta romano, retratando o fato de que o homem deixa obras edificadas. Daí, a morte incompleta: vão-se os homens,  permanecendo, porém,  suas obras.
(2) Sou homem e nada reputo a mim alheio do que é humano - sentença célebre da lavra de Públio Terêncio Afro, poeta cômico tunisino (Cartago), tirando a responsabilidade do ser humano naquilo que não pode fazer.
(3) O que convém, o que não convém. Preceito de Quinto Horácio Flaco, poeta latino nascido na Apúlia, expresso na Arte Poética, 308. Corrija-se o que é mau, conserve-se o que é bom; veja-se quid deceat, quid non.