sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

ARTUR EDUARDO BENEVIDES, EM "POEMA DE CONFISSÃO"


Sou teu soldado-clarim.
... Tens o segredo milenar da fonte.
E sei que estás, imensamente, em mim
como a linha do azul em cima do horizonte.
Teu jogral e andarilho,
vejo a tarde a descer de teu cabelo
tocando a solidão do tombadilho
à luz do Sete-Estrelo.
De repente, qual se a força do vinho me tomasse,
percebi-te na árvore em que nasce
a tâmara da vida.
E encontro em teu olhar minha nave perdida.
Nesse olhar de albores e flamboyants,
guardando os resedás e os rios das manhãs!
Quanto o esperei, desde longínquas datas,
mas as cousas me foram bem ingratas
passando por mim quais fantasmas num espelho.
Então, como num Canto de endormir criança,
chegaste com leveza de esperança
e ficaste em mim
- ó vilancete de luz ouvido num jardim,
- ó chuvas de infância cantando sobre as telhas,
despertando o balir alegre das ovelhas!

Ai, com tua escada de estrelas me salvaste
de frios iatagãs
Com teu jeito de lã no inverno me amaste.
E vi a teus pés rosas e avelãs.
E eu, com velhas mágoas como domicílio,
ficando junto a ti, não morrerei no exílio.
(do livro POEMAS DE MESA - 2012)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

MORRER DE AMOR - Giselda Medeiros


Deixa, amor, que eu repouse nos teus braços,
E durma um instante apenas neste abraço.
Deixa que eu me sinta um pouco criança,
Para sonhar meus sonhos de esperança.

Deixa, amor, aquecer-me ao teu regaço,
Tirar o enfado do meu corpo lasso.
Deixa, num instante só, as minhas ânsias
Dormirem soltas, sem desesperanças.

Deixa, amor, pois, no corpo, eu sinto o frio
Da solidão agasalhar minha alma,
E tremo e choro e, em vão, me suplicio.

E quanto mais eu tremo, maior a calma
Que encontrarei em ti, no teu regaço!
Deixa, amor, que eu morra, enfim, no teu abraço!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A CIGANA - SÉRGIO MACEDO






Cigana sem canto
Sereia de muitos leitos, (bancos de areia)
Espuma de muitos mares
Transita serena,
Transforma
Serena sereia
De verdes ( vermelhos) e profundos oceanos,
Na face.
Transporta labirintos que seriam
Simplesmente caminhos.
Caminhos exigem tráfego,
Pensas, ( e) logo, trans-itas,
Trans-gole
Trans-nós,
Num senão transformado
Ou recém destruído em seu cerne.

Um cesto com pedaços do universo
Foi-me dado.
Eu, deus de meus limites,
Respeitado o Deus do ilimitado,
Passo pelas pontes,
Escritas pela velocidade da passagem.
Não lerei escritas antigas.

Há rostos obtusos
Ou obscenos
Nessa guerra, há pausas e moças
Há tempo correndo atrás do passado e moças
Há moças de carne e osso e alma e espírito.
Que choram e sorriem e clamam e desesperam
E morrem.
A guerra do dia só soma, só soma.

MOTIVOS - III (para Dr. Martinho Rodrigues)



MOTIVOS - III
Giselda Medeiros


                            A vida é um barco de espantos... e sei
                            que nos damos a ele, muitas vezes, lépidos, fagueiros,
                            rios que somos de nós mesmos.
                            Gemendo tempestades, ensaiamos nossas memórias
                            imortalizando-nos no limo de nossas várzeas
                            ou a esperar o cio do luar.

                            Mas...
                            (como o mas é inevitável!)
                            ardemos em ventos de paixão e, eufóricos,
                            cantamos etéreas canções azuis
                            no cais de nossas ilhas emersas
                            do infinito mar por onde escorre o barco,
                            que nos levará ao porto da solidão.

domingo, 27 de janeiro de 2013

FABRÍCIO CARPINEJAR


  • "Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça.
    A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do... Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta.
    Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa.
    A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013.
    As chamas se acalmaram às 5h30, mas a morte nunca mais será controlada.
    Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa.
    Morri porque já entrei em uma boate pensando como sairia dali em caso de incêndio.
    Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda.
    Morri porque já confundi a porta de banheiro com a de emergência.
    Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa.
    Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram.
    Morri sufocado de excesso de morte; como acordar de novo?
    O prédio não aterrissou da manhã, como um avião desgovernado na pista.
    A saída era uma só e o medo vinha de todos os lados.
    Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro.
    Mais de duzentos e cinquenta jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos.
    Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal."
    As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso.
    Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu.
    As palavras perderam o sentido."

    Fabrício Carpinejar

sábado, 26 de janeiro de 2013

MOMENTO DE REFLEXÃO


"Não te indignes por causa dos malfeitores, nem tenhas inveja dos que praticam a iniqüidade. Pois eles dentro em breve definharão como a relva e murcharão como a erva verde.
Confia no SENHOR e faze o bem; habita na terra e alimenta- te da verdade. Agrada-te do SENHOR, e ele satisfará os desejos do teu coração.

Entrega o teu caminho ao SENHOR, confia nele, e o mais ele fará." Salmo 37
"Vejam como crescem as flores do campo: elas não trabalham, nem fazem roupas para si mesmas. Mas eu afirmo a vocês que nem mesmo Salomão, sendo tão rico, usava roupas tão bonitas como essas flores. É Deus quem veste a erva do campo, que "hoje dá flor e amanhã desaparece, queimada no forno. Então é claro que ele vestirá também vocês." Mateus 6:28

(Colaboração de Henrique Soárez)

domingo, 20 de janeiro de 2013

QUISERA... Giselda Medeiros



                           Quisera que esse olhar silencioso,
                           olhar de neve sobre a madrugada,
                            pudesse penetrar, ah, com que gozo,
                            esta minha alma triste, abandonada!

                            O teu olhar, amor, círio luzente,
                            quisera vê-lo arder, todas as horas,
                            na noite silenciosa e languescente
                            do meu olhar de chuva e de demoras.

                            Assim, tu poderias entender
                            a solidão da luz nas galerias
                            e a tristeza que vem do entardecer.

                            Assim, amor, também, entenderias
                            que o beijo ansiado, aquele que mais queres,
                            só eu tenho entre todas as mulheres!

                            (do livro "Ânfora de Sol)



segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

OS TRÊS REIS MAGOS


  • Hoje é 6 de Janeiro de 2013 - Comemora-se o Dia de Reis ♥

    Os Reis Magos são personagens que vieram do Oriente, guiados por uma estrela, para adorar o ...Deus Menino, em Belém (Mateus 2:1-12).
    Ignora-se a procedência dos Reis Magos, este episódio foi apenas relatado no Evangelho de S. Mateus e, mesmo assim, de forma muito resumida e vaga. Só com o passar do tempo, se foram acrescentando detalhes, para se sanarem as lacunas deixadas no Evangelho em relação a esta história.
    A designação “Mago” era dada, entre os Orientais, à classe dos sábios ou eruditos, contudo esta palavra também era usada para designar os astrólogo. Isto fez com que, inicialmente, se pensasse que estes magos eram sábios astrólogos, membros da classe sacerdotal de alguns povos orientais, como os caldeus, os persas e os medos.
    Posteriormente, a Igreja atribuiu-lhes o apelido de “Reis”, em virtude da aplicação liberal que se lhes fez do Salmo 71,10.
    Quanto ao número e nomes dos Reis Magos são tudo suposições sem base histórica, aliás algumas pinturas dos primeiros séculos mostram 2, 4 e até mesmo 12 Reis Magos adorando Jesus. Foi uma tradição posterior aos Evangelhos que lhes deu o nome de Baltasar, Gaspar e Belchior (ou Melchior), tendo-se também atribuído a cada um características próprias.
    Belchior (ou Melchior) seria o representante da raça branca (europeia) e descenderia de Jafé; Gaspar representaria a raça amarela (asiática) e seria descendente de Sem; por fim, Baltasar representaria todos os de raça negra (africana) e descenderia de Cam. Estavam assim representadas todas as raças bíblicas (e as únicas conhecidas na altura: os semitas, os jafetitas e camitas. Pode então dizer-se que a adoração dos Reis Magos ao Menino Jesus simboliza a homenagem de todos os homens na Terra ao Rei dos reis, mesmo os representantes do tronos, senhores da Terra, curvam-se perante Cristo, reconhecendo assim a sua divina realeza.
    Esta ideia só surgiu no século XVI, assim só a partir deste século é que se começou a considerar que Baltasar era negro, de forma a que se pudesse abranger todas as raças.
    Nota: Jafé, Sem e Cam são os 3 filhos de Noé, que segundo o Antigo testamento representavam as 3 partes de mundo e as 3 raças que o povoavam naquele tempo.
    Para além desta simbologia, pela cultura a cristã, os Reis Magos simbolizam que os que os poderosos e abastados devem curvar-se perante os humildes, despojando-se dos seus bens e colocando-os aos pés dos demais seres humanos, ou seja, devem partilhar a sua fortuna com os mais pobres.
    Também em relação às idades dos Reis Magos tudo são suposições sem nenhuma base histórica. Só no século XV, se fixou que Belchior teria 60 anos, Gaspar estaria com 40 anos e Baltasar 20 anos.
    Tem de se ter em atenção que as características físicas e as idades dos Reis Magos variam consoante o autor.
    O dia de Reis celebrava-se a 6 de Janeiro, partindo-se do princípio que foi neste dia que os Reis Magos chegaram finalmente junto ao Menino Jesus. Em alguns países é no dia 6 de Janeiro que se entregam os presentes.
    Ao chegarem ao seu destino, os Reis Magos deram como presentes ao Menino Jesus:
    Ouro (oferecido por Belchior): este representa a Sua nobreza;
    Incenso (oferecido por Gaspar): representa a divindade de Jesus;
    Mirra (oferecido por Baltasar): a mirra é uma erva amarga e simbolizava o sofrimento que Cristo enfrentaria na Terra, enquanto salvador da Humanidade, também simbolizava Jesus enquanto homem.
    Assim, os Reis Magos homenagearam Jesus como rei (ouro), como deus (incenso) e como homem (mirra).
    Coloca-se a questão de saber como é que os Reis Magos associaram o aparecimento da Estrela com o nascimento de Jesus. A verdade é que existem várias teorias, mas não há como saber qual delas é a correta. Uma dessas teorias considera que os Reis Magos descobriram a relação entre o novo astro e o nascimento de Cristo.
    Mais explicações sobre esta questão e outras relacionadas com os Reis Magos são dadas através de textos apócrifos, isto é, textos não reconhecidos pela Igreja.
    Contudo estes textos foram, de um modo geral, escritos nos séculos II e III da era cristã, para preencherem lacunas sobre a vida de Jesus e de outras personagens do Novo Testamento, assim objetivo destes era saciar a curiosidade religiosa, transformando o vago em concreto, independentemente da veracidade dos fatos, daí não estarem incluídos nos chamados Livros Canônicos.
    Simbologia dos Presentes (Ouro, Incenso e Mirra)
    Como já foi dito, o incenso simboliza o sacerdócio, o ouro a realeza e a mirra o sofrimento de Jesus na Terra. Contudo, também se tem entendido que estes produtos simbolizavam as várias idades do Homem: a juventude e fecundidade do trabalhador; a maturidade do guerreiro; e, por fim, a velhice do sacerdote.
    O imaginário medieval (época muito propicia à criação de lendas) considera que o incenso, o ouro e a mirra, levados pelos Reis Magos a Jesus, eram provenientes das terras lendário Preste João, que ficavam ao lado do Paraíso Terreno. Esta lenda do Preste João relaciona-se com a ideia de uma Sociedade Ideal, a criação de um Mundo Utópico, um mundo justo, sem carências e sem violências.
    Estes três presentes também faziam lembrar o entendimento que n Idade Média se tinha da Santíssima Trindade: o Pai era visto como o sacerdote, o Filho como o rei, e, finalmente, o Espírito Santo como produtor.

    Colaboração de Fernanda Benevides

sábado, 5 de janeiro de 2013

CARTA DE DIMAS À LÚCIA - uma das mais belas cartas de amor

Lúcia,
Segundo uma sabedoria oriental, a vida é um rio, cujo curso não podemos deter. Acredito, pessoalmente, que devemos ter serenidade suficiente para aceitar o que não podemos modificar, e que o projeto de vida (no plano pessoal) compreende a afirmação (e a confirmação) da energia vital que se interpõe em nossa existência e que nos convida para o exercício maduro da beleza. A vida, em essência, é isto: movimento, desvelo da liberdade pessoal, decisão e persistência nas rotas do caminho.

Assumo, nesse texto, diante do teu coração e da tua alma, a minha decisão de te amar, de te buscar, de te assumir como a miragem e o grande projeto de fé, amor e esperança que nos cabe viver a partir de agora. Nada tenho para te oferecer senão o meu amor, a minha atenção, a minha proteção e o meu cuidado diuturnos. Entrego-te também a minha carne, o meu sangue, o meu coração e a minha língua. E em te amando assim de forma tão terna e transparente, sei que nada tenho a perder e tudo tenho a ganhar.

Recebo-te como uma graça e também como um prêmio que Deus me entregou como prolongamento da minha vida (afortunada e útil) e para testemunho da minha fé e da minha eternidade.

Tudo o que tenho será teu a partir de agora. E tudo o que tens eu anseio e quero para mim, essencialmente como forma de aliviar aquilo que em ti constitui sensação de peso e desconforto. Os teus limites, as tuas fraquezas, a tua imperfeição e a tua queda serão para mim sementes de vitória. E tão valioso será tudo isso quanto aquilo que já é o sinal da tua grandeza e da tua beleza interior: a ternura, o afeto maior, a autonomia de sentir, a decisão de viver, a indestrutível capacidade de amar e de exercitar o ato de entrega: pleno, total, maduro, incondicionado.

A nossa experiência, a nossa comunhão, a nossa identidade, bela e totalmente translúcida, tal a verdade na face do espelho, dizem de perto a respeito de tudo o que nos cabe e de tudo o que nos foi reservado.

Não há o que temer. Não há o que duvidar. Os desafios são muitos. As tentações, mais cedo ou mais tarde, chegarão. As dores, ainda que atenuadas, irão persistir. A minha convicção, porém, é que o amor é tudo e que o amor é a única coisa real. Eu te amo, aceito o teu amor e estou convencido de que vamos nos amar da forma mais harmônica possível, da forma mais pura e sincera, da forma mais absoluta e fiel, até onde for possível transcender, até onde for possível chegar, pois o nosso rio já começa a correr: nos nossos corações e nas nossas bocas.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

POEMA DE ANO NOVO - VINICIUS DE MORAES


É preciso que nos encontremos diante do amor como as árvores fêmeas cuja raiz é a mesma e se perde na terra profana
... É preciso... a tristeza está no fundo de todos os sentimentos como a lágrima no fundo de todos os olhos
Sejamos graves e prodigiosos, ó minha amada, e sejamos também irmãos e amigos.
É preciso que levemos diante de nós o retrato das nossas almas como se fôssemos a um tempo a Verônica e o Crucificado
Eu sou o eterno homem e hoje que a dor fecunda o tempo eu sinto mais que nunca a vontade de fechar os braços sobre a minha miséria.
Fiquemos como duas crianças pensativas sentadas numa escada - todos serão os peregrinos e apenas nós os contemplados.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

domingo, 16 de dezembro de 2012

É TEMPO DE NATAL! VIVAMO-LO!!!



Natal
Dimas Macedo


Os Sinos de Natal

são cristalinos

testemunhos de Deus

e fazem bem.

Os Sinos de Natal

nas Torres de Belém

tocam matinas de luz

para um menino.

Nos Sinos de Natal

bronzes divinos

se fundem

e fazem hinos de amor

ao Santo Graal.

Nos Sinos de Natal

a minha infância adolesce

e em seus badalos de ouro

eu ponho a minha prece.

Ouço Jesus falando

em suas partituras.

Teço escrituras de luz

às notas musicais

dos Sinos de Belém.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

POESIA


                           

                             MOTIVOS

                                            Giselda Medeiros   

                            Sinto-me renascer, se te contemplo,

                            ó poeta, mesmo quando finges
                            esse pasmo indefinível suspenso em tua  fronte
                            – espelho que te mostra a lágrima
                            geratriz de incansáveis solidões.
                            Inútil o gesto, inútil o grito e a tristeza de Narciso:
                            o espelho não reflete nada senão a lágrima.

                            A face te revela o que não queres decifrar:
                            a inexorável corrida do tempo à espera de ninguém.
                            Lembra-te, no entanto, poeta,
                            de que há cânticos celebrando a passagem dos sóis
                            e o lento alvoroço das auroras
                            despencadas das paredes onde as puseste
                            ou o sono dos ocasos dormindo em teus lençóis.
                             
                                                        
                                      (do livro ÂNFORA DE SOL)_

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

JOSÈ ALVES FERNANDES REVERENCIADO NA ACADEMIA CEARENSE DA LÍNGUA PORTUGUESA



Noite de muita emoção pra nós que testemunhamos hoje a imortalidade do caráter, da terna coragem, da inteligência e do compromisso do nosso amado José Alves Fernandes com a língua pátria e com a educação. Sei que estava conosco hoje nos corredores da mais antiga Academia de Letras do Brasil, a nossa, Cearense, na posse das novas acadêmicas da Academia Cearense da Língua Portuguesa (Maria Luísa Bonfim, Regine Limaverde e Ana Paula Medeiros) . Muito choro de saudade e emoção, mas sobretudo de alegria por saber que a cadeira de meu pai agora é ocupada pela filha de sua grande amiga Giselda Medeiros, a valorosíssima também Profª. Dra. Ana Paula Medeiros. Eu e minha filha Camila testemunhamos esse grande momento há poucas horas e compartilhamos com carinho. No cemitério não fiquei tão emocionada porque ali estava sendo enterrado o corpo do meu pai, mas hoje minha alma feliz e saudosa reencontrava seu espírito impregnado naquele ambiente de tantas lembranças felizes, de cultura, de arte e na presença viva dos amigos e companheiros de tantas jornadas pelo encantado reino das palavras e da intelectualidade cearense.

KARLA KARENINA ALVES FERNANDES
22/11/2012

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

GISELDA MEDEIROS EM "ÂNFORA DE SOL"


                         
                           O ENCONTRO DAS MÃOS

                            Postas sobre o silêncio da mesa,
                            nossas mãos são como pássaros
                            querendo bicar o azul de um sonho adormecido.
                            A melodia do ar açoita-lhes as plumas,
                            macios desejos de voar.
                           
                            Qual pássaro, tua mão pousa sobre a minha
                            e grita o silêncio que há em mim.
                            E eu querendo dizer-te da beleza das auroras...
                            Mas meu lábio mudo geme fagulhas de palavras,
                            para a lavratura do incêndio iminente.
                            De súbito, elas se erguem imantadas
                            e, atraídas, nossas mãos se juntam,
                            ajustam-se entrelaçadas.
                            Como pálpebras, vão-se fechando, lentamente,
                            conchas silentes,
                            na agonia do instante entre o gesto e o olhar
                            suspensos na palavra que não é dita,
                            mas sentida,
                            nos fragmentos dos espelhos
                            de nossa memória.
                  
                            Então, trêmulas, uma na outra,
                            atiçam-nos as vértebras, músculos e nervos,
                            e sangram desejos
                            na geometria de nossos dedos unidos.
                  
GISELDA MEDEIROS

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Clarice Vianna Silva, 26, estudante da Faculdade de Direito da UFRJ, Premiada em Concurso pela UNESCO,


SERÁ QUE A GLOBO VAI FAZER UMA ENTREVISTA COM ESSA ESTUDANTE? SERÁ QUE A NOSSA PRESIDENTE VAI LHE DAR ALGUMA CONDECORAÇÃO? ELA IRÁ GANHAR BOLSA DE ESTUDOS? VAMOS VER...

REDAÇÃO DE ESTUDANTE CARIOCA VENCE CONCURSO DA UNESCO COM 50.000 PARTICIPANTES
Tema:'Como vencer a pobreza e a desigualdade'
Por Clarice Zeitel Vianna Silva
UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - RJ

'PÁTRIA MADRASTA VIL'

Onde já se viu tanto excesso de falta?
Abundância de inexistência...
Exagero de escassez...
Contraditórios?
Então aí está!
O novo nome do nosso país!
Não pode haver sinônimo melhor para BRASIL.
Porque o Brasil nada mais é do que o excesso de falta de caráter, a abundância de inexistência de solidariedade, o exagero de escassez de responsabilidade.
O Brasil nada mais é do que uma combinação mal engendrada - e friamente sistematizada - de contradições.
Há quem diga que 'dos filhos deste solo és mãe gentil', mas eu digo que não é gentil e, muito menos, mãe.
Pela definição que eu conheço de MÃE, o Brasil, está mais para madrasta vil.
A minha mãe não 'tapa o sol com a peneira.'
Não me daria, por exemplo, um lugar na universidade sem ter-me dado uma bela formação básica.
E mesmo há 200 anos atrás não me aboliria da escravidão se soubesse que me restaria a liberdade apenas para morrer de fome. Porque a minha mãe não iria querer me enganar, iludir.
Ela me daria um verdadeiro Pacote que fosse efetivo na resolução do problema, e que contivesse educação + liberdade + igualdade. Ela sabe que de nada me adianta ter educação pela metade, ou tê-la aprisionada pela falta de oportunidade, pela falta de escolha, acorrentada pela minha voz-nada-ativa.
A minha mãe sabe que eu só vou crescer se a minha educação gerar liberdade e esta, por fim, igualdade.
Uma segue a outra...
Sem nenhuma contradição!
É disso que o Brasil precisa: mudanças estruturais, revolucionárias, que quebrem esse sistema-esquema social montado; mudanças que não sejam hipócritas, mudanças que transformem!
A mudança que nada muda é só mais uma contradição.
Os governantes (às vezes) dão uns peixinhos, mas não ensinam a pescar.
E a educação libertadora entra aí.
O povo está tão paralisado pela ignorância que não sabe a que tem direito.
Não aprendeu o que é ser cidadão.
Porém, ainda nos falta um fator fundamental para o alcance da igualdade: nossa participação efetiva; as mudanças dentro do corpo burocrático do Estado não modificam a estrutura.
As classes média e alta - tão confortavelmente situadas na pirâmide social - terão que fazer mais do que reclamar (o que só serve mesmo para aliviar nossa culpa)...
Mas estão elas preparadas para isso?
Eu acredito profundamente que só uma revolução estrutural, feita de dentro pra fora e que não exclua nada nem ninguém de seus efeitos, possa acabar com a pobreza e desigualdade no Brasil.
Afinal, de que serve um governo que não administra?
De que serve uma mãe que não afaga?
E, finalmente, de que serve um Homem que não se posiciona?
Talvez o sentido de nossa própria existência esteja ligado, justamente, a um posicionamento perante o mundo como um todo. Sem egoísmo.
Cada um por todos.
Algumas perguntas, quando auto-indagadas, se tornam elucidativas.
Pergunte-se: quero ser pobre no Brasil?
Filho de uma mãe gentil ou de uma madrasta vil?
Ser tratado como cidadão ou excluído?
Como gente... Ou como bicho?

Clarice Zeitel Vianna Silva, 26, estudante que termina Faculdade de Direito da UFRJ em julho, concorreu com outros 50 mil estudantes universitários. Ela acaba de voltar de Paris, onde recebeu um prêmio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) por uma redação sobre 'Como vencer a pobreza e a desigualdade.' A redação de Clarice intitulada 'Pátria Madrasta Vil' foi incluída num livro, com outros cem textos selecionados no concurso. A publicação está disponível no site da Biblioteca Virtual da UNESCO.

É FESTA NA UBT - IZO GOLDMAN COMEMORA 80 ANOS


  • OITENTA ANOS DO MESTRE!

06 de novembro de 2012 é uma data mais do que especial, porque marca os oitenta anos de vida de Izo Goldman. Torna-se impossível, no Brasil, falarmos de trova sem associarmos a imagem do Mestre Izo. Como autor, esplêndido! Como trabalhador pela Trova, indescritível!
Figura contestada por muitos? Sim! E ele sabe disso, mais do que qualquer um. Porque seu estilo é único. Intransigente a respeito do que considera o melhor para a UBT e a Trova, esse seu jeito polêmico já lhe valeu muitas quizílias. Por outro lado, é idolatrado por outra parte de trovadores que veem nele um “Papa da Trova”.
As histórias sobre ele são muitas. Uma delas eu presenciei. Foi em um dos últimos Jogos Florais realizados em Amparo/SP, sob a coordenação da poeta Eliana Dagmar. Izo perguntou-lhe: “Eliana, vai ter palestra em trovas?” Eliana respondeu que não, pois não houvera tempo hábil para preparar uma. Izo sugeriu: “Se quiser, posso apresentar a palestra pra você”. Ao que ela retrucou, perguntando qual seria o tema. Resposta do Izo: “O tema que você quiser. Basta escolher”.
À noite, durante a solenidade, ele apresentou uma belíssima palestra em trovas (uma de suas marcas registradas), de improviso, fazendo uso de sua prodigiosa memória para enriquecer a apresentação com trabalhos de autores os mais diversos, cada qual mais primoroso que o outro. Resumo: a apresentação foi tão bem sucedida que a direção da Unimed Amparo (que patrocinava o evento) convidou-o a voltar, semanas depois, à cidade, para proferir outra palestra, aos membros da instituição.
Mas… quem é Izo Goldman, afinal? IZO GOLDMAN, filho de Alberto e Esperança, nascido em Porto Alegre em 06 de novembro de 1932, está na Trova desde 1972, levado por Magdalena Léa, em Niterói. Em 1976 transferiu-se para a capital paulista, onde reativou a Seção da UBT/SP e criou o tradicional “Boletim Informativo”. “Magnífico Trovador” por Nova Friburgo, “Notável Trovador” por Pouso Alegre, também já foi presidente estadual da UBT São Paulo, e Secretário da UBT Nacional, entre outros cargos. Padrinho de fundação da UBT, seção de Pindamonhangaba, a cujos festejos tem comparecido quase todos os anos. Lançou em 2008 o livro “Trovas de quem ama a Trova”, cujo título, por si, é o cartão de    apresentação do autor. Amado por uns, odiado por outros, pouco importa: seu estilo contundente é inconfundível, em defesa daquela que é sua maior paixão na vida: a TROVA! Juntamente com os cumprimentos deste colunista, transcrevemos, abaixo, para deleite dos leitores, algumas de suas obras-primas:

TROVAS

A vida pôs, por maldade,
tanta distância entre nós,
que, quando eu canto, é a saudade
que faz a segunda voz…

A esperança é uma resposta
com malícia de mulher:
– Sabendo o que a gente gosta,
promete o que a gente quer…

Para mantê-los me empenho,
porque penso sempre assim:
tendo os amigos que tenho,
eu nem preciso de mim!

Ele trouxe ao seu rebanho
muito amor e muita luz.
Barqueiro de um barco estranho
Talhado em forma de cruz!

Neste mundo que se exprime
através de mãos armadas,
chega a parecer que é crime
a gente andar de mãos dadas!!!

(José Ouverney é "Magnífico Trovador" em Nova Friburgo, desde 2008 e ocupa a cadeira nº 33 na Academia Pindamonhangabense de Letras)

sábado, 3 de novembro de 2012

APRENDA SOBRE A VIDA COM ESSA ENTREVISTA !

Coma os morangos
Regis Filho / Valor
Rubem Alves: "Jovem não fala retrato, fala foto.
Tenho que escrever rápido porque não
sei quando vou partir"

- “Tempus fugit”. Portanto, “carpe diem”. O tempo voa. Então, colhamos o dia. Vivamos o momento, pois envelhecer é só canseira e enfado. É como a luz do crepúsculo, que vai se transformando rápida e melancolicamente, até o mergulho final na escuridão da noite. O pior da velhice, entretanto, é que as pessoas passam a nos tratar por diminutivos, como fazem com as crianças. “Você está doentinho?” “Quer um docinho?” É humilhante.

Essas imagens sobre o envelhecer são descritas pelo escritor, psicanalista e teólogo Rubem Alves em seu livro “Pimentas - Para Provocar Um Incêndio Não É Preciso Fogo” (Planeta), no qual trata dessa “fase crepuscular” da vida com poesia, ironia e melancolia. São 74 fragmentos sobre temas variados — educação, política, poesia, céu e inferno e passagens curiosas do Antigo Testamento — de um autor que completou 79 anos em setembro.

Ele soa um pouco triste ao telefone, falando da varanda de seu apartamento, na cidade de Campinas. “O tempo me foge. Não tenho mais tempo para escrever um romance. Não tenho mais tempo para escrever uma coisa com começo, meio e fim. ‘Pimentas’ é uma coleção de fragmentos - sou um retratista. Outra palavra que revela idade.”

Leia abaixo a entrevista na íntegra.

Valor: O senhor conta no livro um episódio engraçado sobre um “flerte” no metrô que não terminou como gostaria. Como foi isso?
Rubem Alves: Eu descobri que estava velho numa situação surpreendente. Isso foi há vinte anos. Estava em São Paulo, peguei o metrô, estava lotado. Eu era jovem, pernas fortes, segurei no balaústre e comecei a olhar para os rostos das pessoas. Rostos contam histórias. Olhando para as pessoas você pode imaginar contos, muitas coisas. Eu estava ali, imaginando as crônicas que poderia escrever, quando vi uma moça me olhando com mansidão, quase com ternura. Eu fiquei comovido com aquele olhar. Eu olhava para ela, ela olhava para mim. Percebi que ela devia estar comovida com a minha presença. Houve um momento de suspensão romântica. Pensei: manchete do meu conto — ‘Rubem Alves encontra inesperadamente no metrô o grande amor de sua vida’. Comecei a ter fantasias. Foi nesse momento que ela me fez um gesto de carinho. Ela se levantou e me ofereceu o lugar. Quando ela fez isso, é como se dissesse para mim: o senhor (certamente ela estava pensando em senhor, não em você) não pertence ao meu mundo. O senhor deve ter pernas bambas. Naquele instante eu percebi que estava perto dela, mas estava muito longe dela. Ela era uma moça e eu era um velho. A partir dali o tema da velhice começou a ser importante para mim. Comecei a prestar atenção no que acontece com as pessoas quando elas se descobrem velhas. Fiz então uma série de observações sobre isso.

"A percepção é que a hora de partir está chegando.
O crepúsculo é essa consciência de
que o tempo passa rapidamente,
a vida passa rapidamente."

Valor: Cite algumas.
Alves: A gente é velho quando as moças nos oferecem lugar no metrô. A gente é velho quando uma moça lhe dá o braço para ajudar a subir a escada e você tem que aceitar a delicadeza. Eu agora tenho que ter cuidado, tenho que olhar pro chão e medir os meus passos. Coisas que eram naturais - andar, subir escada, descer escada - coisas simples passam a não ser mais.

Valor: Mas o senhor não está se concentrando muito no aspecto físico do envelhecimento?
Alves: É, mas o olhar das pessoas também muda.

Valor: O que muda nesse olhar?
Alves: Você deixa de ser o homem másculo, viril, objeto de contemplação das jovens, e passa a ser um ser crepuscular. O que é o crepúsculo? Nele, o tempo passa muito mais rápido. Neste instante, eu estou sentado aqui na minha varanda, o céu está muito azul, o tempo está parado. Assim é a juventude — na juventude, o tempo para. Mas quando chega o crepúsculo, começa a haver transformações rápidas no céu. Rapidamente, as cores vão se alterando, o azul fica verde, o verde fica amarelo, amarelo fica abóbora, abóbora fica vermelho, o sol está se pondo, tudo fica roxo e logo o céu está mergulhado na escuridão. A percepção é que a hora de partir está chegando. O crepúsculo é essa consciência de que o tempo passa rapidamente, a vida passa rapidamente.

"Uma das coisas da velhice é o cansaço.
Dá uma canseira de viver, sabe?
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Mas a gente não tem mais disposição
para fazer a obra nascer."

Valor: O senhor cita numa das crônicas o livro de Eclesiastes, quando fala do envelhecer como os anos nos quais o homem não encontra mais prazer nenhum.
Alves: Sim, a gente descobre que o tempo é curto. Aqui na minha varanda tem duas frases que mandei gravar em madeira - Tempus Fugit. Se o tempo foge, eu preciso correr. Então mandei gravar Carpe Diem, colha o dia. Viva o momento. Mas isso dá uma tristeza na gente.

Valor: Envelhecer também não é sobre perder a capacidade de sonhar? A sua escrita, contudo, revela uma pessoa que não perdeu essa capacidade. Que sonhos o senhor tem cultivado?
Alves: Tem uma frase de Fernando Pessoa que diz assim - Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Talvez essa pressa em produzir tenha a ver com essa sensação de que os dias passam muito rapidamente . Comecei a ler esses dias um livro enorme de John dos Passos, um livro monumental. Eu não tenho mais tempo para escrever livros enormes. O tempo me foge. Não tenho mais tempo para escrever um romance. Não tenho mais tempo para escrever uma coisa com começo, meio e fim. “Pimentas” é uma coleção de fragmentos - sou um retratista. Olha aí, eu já disse uma palavra que revela a idade. Jovem não fala retrato, fala foto. Eu tenho que escrever rápido porque não sei quando é que vou partir.

"Agora, a felicidade aqui da minha varanda
é ver os ipês, que teimam em florescer.
Para florescer eles têm que perder todas as folhas.
Árvore pelada, na cabeça da gente,
está se preparando para morrer.
Mas em vez de morrer o que os ipês fazem?
Eles florescem."

Valor: O senhor parece cansado.
Alves: Uma das coisas da velhice é o cansaço. Dá uma canseira de viver, sabe? Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Mas a gente não tem mais disposição para fazer a obra nascer. A gente tem que agarrar o que resta. Gosto de contar a história de um homem que ia caminhando pela floresta, a mata estava escura. De repente, ele ouve o rugido de um leão e sai correndo, mas como está escuro ele cai num precipício. Ele se agarra a um galho preso no abismo, olha para cima, o leão, para baixo, o abismo; então ele nota que bem à sua frente está brotando um galho com uma fruta vermelha. É um morango. Ele estende o braço e come o morango e se delicia. As pessoas perguntam - qual o final da história? O homem caiu? E eu respondo, não tem final, é só isso mesmo. Você não entendeu? Quem está pendurado sobre o abismo sou eu, é você , todos estamos sobre o abismo, portanto, o que nos resta a fazer é comer os morangos.

Valor: E quais são os morangos que o senhor tem apreciado atualmente?
Alves: São coisas pequenas, simples. Ontem, por exemplo, ouvi pela internet a Pour Elise, de Beethoven, tocada num órgão feito de taças de cristal, um som inesperado, que vai surgindo aos poucos. Qual é a importância disso? Nenhuma! Mas me feliz naquele momento.

Valor: Na realidade, não deveríamos viver sempre desse jeito, ter essa capacidade de tirar alegria de coisas pequenas?
Alves: O Guimarães Rosa tem uma frase verdadeira: alegria, só em raros momentos de distração. Agora, a felicidade aqui da minha varanda é ver os ipês, que teimam em florescer. Para florescer eles têm que perder todas as folhas. Árvore pelada, na cabeça da gente, está se preparando para morrer. Mas em vez de morrer o que os ipês fazem? Eles florescem. No livro conto a história de uma escola que organizou uma exposição de desenhos dos alunos sobre coisas que escrevi. A professora perguntou para as crianças: quem é Rubem Alves? E uma menina respondeu: Rubem Alves é um homem que gosta de ipês amarelos. Isso é muito comovente.
Valor: Algumas crônicas falam sobre educação, de uma maneira crítica, e da proximidade entre velhos e crianças. “As crianças nos salvam de um envelhecimento triste.”
Alves: Os avós estão mais próximos dos netos que os pais. Os pais ficam preocupados em colocar o filho em escola forte, para passar no maldito vestibular. É uma perda de tempo isso, as escolas não ensinam a sabedoria da vida, e os avós não têm tanto essa preocupação com desempenho. A alma dos velhos é muito parecida com a alma das crianças.

"Quem tem muitas vinganças a realizar
faz mosaicos de infernos, diz o
[filósofo Gaston] Bachelard.
Deus não tem vingança
nenhuma a realizar.
Se é que Deus existe.
Deus não pune nada,
vai punir o quê?"

Valor: Nos fragmentos, o senhor fala também sobre céu e inferno. Uma frase que me chamou a atenção é: “É inimaginável que um Deus de amor castigue com sofrimentos eternos pecados que foram cometidos no tempo”. Qual a sua ideia de inferno?
Alves: São Tomás de Aquino tem uma frase horrenda que diz que “Deus e os salvos contemplam, dos céus, os condenados, dos estertores da sua agonia, para que sua alegria se cumpra”. Quem foi que criou o inferno? Não foi o diabo. Se Deus é onipotente, então o inferno é produto da vontade de Deus. Eu já acreditei nisso, sabe? Já perdi o sono por causa disso. Quem tem muitas vinganças a realizar faz mosaicos de infernos, diz o [filósofo Gaston] Bachelard. Deus não tem vingança nenhuma a realizar. Se é que Deus existe. Deus não pune nada, vai punir o quê? Um pobre mortal que foi enrolado pelas artimanhas da estupidez humana? Acreditar que o universo tem essa dimensão de vingança? Deus não está se vingando de seus desafetos. Além disso, os pecados humanos são cometidos no tempo — por uma pessoa que vai viver setenta, oitenta anos. E o inferno é por toda a eternidade, é para sempre. Se eu fosse Deus mandaria um castigo para todas as pessoas que pensaram essas coisas horríveis de mim. O mesmo castigo que aconteceu entre o povo de Israel e os filisteus lá no Velho Testamento. Ele castigou com uma praga terrível — todos os filisteus ficaram tomados de hemorróidas. Numa região que não tinha nem um riachinho onde pudessem se refrescar.

Valor: O senhor cita esse e outros episódios muito esquisitos do Antigo Testamento. Um deles é sobre o profeta Eliseu, amigo de Elias.
Alves: O que tem de maluquice no Velho Testamento, de maldade... O profeta Eliseu era discípulo de Elias. Eliseu era vaidoso e tinha muita raiva por ser careca. Mas ele era muito poderoso. Um dia, Eliseu estava caminhando pela estrada e vinham em sua direção 42 crianças, que começaram a rir dele. Sabe o que ele fez? Ele invocou o poder de Jeová, que fez sair do mato duas ursas que devoraram as crianças. E o profeta, sem se comover com isso, simplesmente continuou a sua caminhada. Não fez nada para defendê-las. Tá lá na Bíblia.

"As mudanças vêm de dentro, quando alguma coisa começa a operar dentro da gente e a gente
começa a perceber os absurdos."

Valor: É difícil convencer as pessoas que o Deus do Antigo Testamento é o mesmo do Novo Testamento?
Alves: Ah, eu não tento mais convencer ninguém de nada. As pessoas acreditam no que querem acreditar. As mudanças vêm de dentro, quando alguma coisa começa a operar dentro da gente e a gente começa a perceber os absurdos. Tem que separar o trigo do joio. Na Bíblia tem coisas lindas - o Senhor é meu pastor, nada me faltará, conduz-me por águas tranquilas.. Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte não temerei mal algum porque tu estás comigo ...

Valor: Pura poesia.
Alves: Poesia. Veja o que aconteceu bem agora. Aqui na minha varanda, acabo de ouvir um barulho. Olhei e vi que tinha entrado uma cigarra pela janela. Você sabe que as cigarras são seres subterrâneos, elas vivem nas raízes das árvores. Elas não veem nada. Mas há um momento em que alguma coisa diz para esses seres subterrâneos: cigarra, está na hora de se transformar num ser alado. Então elas saem da terra, sobem o tronco das árvores, tiram a casca dura que as envolve e ganham asas. Daí elas cantam, cantam, cantam. Cantam para quê? Para celebrar o amor, para chamar os machos. Depois de realizar o amor, elas esperam a morte.

Valor: Por que razão o senhor terminou um livro tão poético com um assunto tão árido quanto a diabetes?
Alves: Para chamar a atenção dos diabéticos para o fato de que eles e eu estamos pendurados sobre o abismo e vai chegar a nossa hora. E por isso a gente precisa tomar cuidado, a menos que você queira morrer. Para dizer às pessoas que vivam bem. Cuidem da vida, não vão comer bombom, porque bombom é bom, mas melhor é ficar vivo.
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Reportagem Por Marília Camargo Cesar | Valor