APRENDA COM QUEM JÁ SABE!
quarta-feira, 15 de abril de 2015
quarta-feira, 1 de abril de 2015
APRECIAÇÃO LITEROCIENTÍFICA - pelo Professor Vianney Mesquita
VIOLÊNCIA NAS RELAÇÕES DE GÊNERO E
CIDADANIA*
Vianney Mesquita*
Mostrai-me um homem violento que tenha chegado a bom fim e eu o considerarei meu
Mestre. (LAO-TSÉ. *Tchu,
Prov. Henan – China, + ou – 600 a.a.C).
A unidade de ideias violência, gênero e cidadania, em
particular na atualidade, envolve conceitos a absorver cuidados do lado de
estudiosos, porquanto estes se preocupam frequentemente em explicar seus
entendimentos, ao lume dos diversificados esgalhos do saber ordenado, na
demanda de elucidar suas manifestações, em especial, no trato, nem todas as
vezes pacífico, da vinculação social.
Investigadores de variados estratos,
mormente os partícipes da reflexão sociocomportamental – Sociologia,
Antropologia Social, Psicologia e saberes conexos – compuseram já, em toda a
generalidade da diligência reflexiva, farta literatura concernente às
mencionadas áreas do conhecimento controlado, com focagens distintas, ao ponto
de não ser possível estabelecer domínio absoluto acerca de volume e extensão
racional de tão avultados entendimentos.
Sucede desta maneira, é evidente,
pelo fato de não se cuidar de mera temática, todavia de assuntos para cujo
deslinde são requeridos do investigador máxima acuidade sindicante e depurado
preparo intelectivo na senda de abrangência na qual se inscrevem os léxicons
objeto destas notas, principalmente no que margeia às noções de violência,
atada às ideações de gênero e caráter cidadão feminino.
Eis que a professora doutora Maria do
Socorro Ferreira Osterne não sorveu a taça dessas travosas dificuldades,
normalmente arrostadas pelos pesquisadores catecúmenos.
Já faz algum tempo – na contingência
de revedor de suas composições valiosas para o recheio da ciência e fiel
admirante dos escritos que publica – acolita-se em procissão leitora o
apreciável trajeto universitário e docente da autora de Violência nas Relações de Gênero e Cidadania Femininos, razão por
que é lícito certificar-se, prazerosamente, sua feição de investigadora das
melhores cepas, titulada com refinamento e acurácia em distintos ambientes
acadêmicos stricto sensu do Brasil.
As produções editadas carreiam
sinetes pessoais, contributo de estimação à causa do saber, sem servilismos a
escolas da moda, tampouco subserviência a autores de gosto e nomeada atual,
pois granjeou, de motu próprio, e com
demarcada responsabilidade professoral, a circunstância de investigadora com
clarão interior, não adventício, sem gravitar à órbita de qualquer mentor, modus procedendi com o qual ela não simpatiza.
Ao revés, a despeito de se louvar em
opiniões de valor incontestável – por cujo íntimo se movimenta sem
importunação, pois se aprontou para tal – arroga-se o direito e o dever do bom
pesquisador de operar saber de colheita particular, o qual incorpora descobertas,
consagrando aos seus ensaios o status da
excelência.
O volume que se tem o lance de anotar
constitui, induvidosamente, fato auspicioso, pois aí exprime magistralmente
seus contornos de escritora laureada, onde também manifesta, com nitidez
meridiana, todo o alcance da sua formação acadêmica, fazendo-se, com efeito,
legítima componente do alcunhado Alto
Clero, com assento cativo na exigente Cúria
da Academia, o que, de fato, representa mais uma glória para a inteligência
de sua Pátria.
*Obs.
Texto modificado das guarnições de Violência
da Relação Gênero e Cidadania Femininos. Fortaleza: Edições UECE, 2008.
297p.
domingo, 29 de março de 2015
UM POEMA DE "TEMPO DAS ESPERAS"
CANÇÃO DA ESPERA
Giselda Medeiros
Passas.
Teu
vulto é um oásis
onde
quero aprender
o
ofício das areias
nas
longas noites
em
que as estrelas
fiam
fios finos
de
fluida luz.
Teus
passos na tarde
ecoam
ainda
em
minhas manhãs,
alvacentas
e lânguidas,
como
o marulho das vagas
que
ficaram para trás.
Mas
passas,
indiferente
e lento,
sobre
meus anseios
com
mãos enfeitadas de adeuses
a
romper em flores
de
esquecimento.
E
passas tão perto de mim
e
tão distante!
Não
conheces o mapa
de
meus arquipélagos
nem
sabes da beleza
de
meus profundos mares
onde
há conchas e corais
Talvez
um dia
-
um dia desses -
quando
pisares as névoas
do
meu tempo
e
sentires pesar o teu tempo,
talvez,
tu resolvas ficar
no
tempo dos meus domínios...
(in: Tempo das Esperas)
sexta-feira, 20 de março de 2015
Para quem tem mais de 60 anos ou vai chegar lá daqui a pouco - Ivone Boechat *
Muito interessante a explanação dessa pedagoga, mestre
em educação, também, escritora e conferencista no que tange à forma de se
viver a vida após os 60 anos, tanto para o homem como para a mulher.
|
domingo, 8 de março de 2015
PARABÉNS A TODAS AS MULHERES
MULHER
Olavo Bilac
Na mulher, todas as
perfeições da vida universal se contêm.
Quando menina, ainda
pequenina, já a mulher tem a graça divina, dilúculo de beleza, que deixa adivinhar
na claridade indecisa da madrugada o esplendor do dia que não tarda. Depois, na
idade da révora, há no seu corpo a harmonia de um hino triunfal, cântico de seiva em relâmpagos de
vida. Depois, é o estio, estação fulgente, em que o feitiço ofusca e cega, sol
alto, calor fecundo, apoteose da luz e da força. Depois, é o outono, sazão
bendita, em que a mulher de quarenta anos tem a formosura suave e melancólica dessas tardes longas, em
que a luz ansiosa, querendo fugir e querendo ficar, demora-se no céu e na
terra, e agarra-se às árvores, às nuvens, com pena de morrer... Depois é o
inverno... É a sacrossanta beleza da mulher bela na velhice, uma beleza que
parece imaterializar-se, espiritualizar-se sob a névoa dos cabelos brancos...
Divino feitiço, abençoado
sejas em todas as idades, porque em todas as idades és o maior encanto e o
maior consolo dos nossos olhos e das nossas almas.
TROVA
Ser
mulher é, com certeza,
trazer consigo os poderes
de, na aparente fraqueza,
ser o
mais forte dos seres
Giselda Medeiros
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
Homenagem a Ariano Suassuna
Entrevistas de arquivo e programas especiais são resgatados no portal da Rádio Cultura Brasil e celebram o escritor
Cirley Ribeiro e Felipe Tringoni
Paraibano de língua afiada e alma solidária, tesouro nacional, ícone da cultura brasileira. Entre as tantas definições, talvez a que mais tenha agradado Ariano Suassuna em vida foi ter sido chamado de "guerrilheiro cultural". O slogan, atribuído pelo jornalista José Rezende Júnior, referia-se ao trabalho do escritor ao assumir a Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco, em 1994. À frente da pasta, Suassuna levava a cultura brasileira para o centro do palco, nas famosas aulas-espetáculo, em que improvisava e explorava os recursos da commedia dell'arte. Gostava de provocar a reflexão entre os jovens universitários, a plateia preferida durante todo o período em que lecionou, dos 17 aos 65 anos.
Escritor, dramaturgo, professor e político, Ariano Suassuna se encontrava na arte: na literatura, no teatro nas artes plásticas e na música. Em 1970, fundou o Movimento Armorial, que pretendia construir uma arte erudita autenticamente brasileira, colocando em primeiro plano o universo lúdico e cultural do sertão nordestino. Na definição do próprio Suassuna, a "Arte Armorial Brasileira é aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico da literatura de cordel, a música de viola, rabeca ou pífano e as ilustrações da xilogravura". Com o Quinteto Armorial, liderado pelo compositor Antônio José Madureira, fez shows, gravou discos e levou a proposta para o exterior. Em 1996, ele retomou o projeto, rebatizado de Romançal, incorporou instrumentos tradicionais, como violão, violino, flauta e violoncelo.
Sempre valorizando a cultura nordestina, Ariano transformou o "matuto" do interior em estrela de cinema, com o sucesso da adaptação do Auto da Compadecida, com direção de Guel Arraes. Para o autor, toda grande arte é local. Nasce em determinada região e se universaliza pela boa qualidade e pela divulgação. Costumava citar frase de Tolstói para ilustrar o pensamento: "pinte bem a sua aldeia, que você será universal, mas pinte bem", em referência à qualidade necessária a todo trabalho artístico.
Membro da Academia Brasileira de Letras desde 1989, assumiu a cadeira de número 32 sucedendo Genolino Amado. Ele também se tornou membro da Academia Paraibana de Letras em 9 de outubro de 2000. No mesmo ano, ainda se tornou doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Foi tema de enredo no carnaval carioca, na escola de samba Império Serrano, no Rio de Janeiro, e na Mancha Verde, no carnaval paulista.
Em 2006 ganhou o título de doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará, mas que veio a ser entregue apenas em 10 de junho de 2010, às vésperas de completar 83 anos. Recentemente, Ariano passou por algumas capitais do País com suas aulas espetáculo e o projeto multimídia Ariano Suassuna - Arte Como Missão, realizado em homenagem ao escritor.
Dos arquivos da Cultura Brasil, você pode ouvir três ricas entrevistas de Suassuna concedidas ao programa Estúdio 1200.
Na primeira delas, ele recebe a reportagem da Rádio Cultura em sua casa no Recife. Retraído, Ariano não gostava de dar entrevistas. Como diz Inimá Simões, era "um aristocrata sertanejo". Um tanto desconfortável no início da conversa, o escritor foi se soltando e revelando seu claro raciocínio sobre questões culturais, o ofício da escrita e a mídia.
Dois anos mais tarde, na cidade de São Paulo, o então Secretário de Cultura de Pernambuco lançava seu projeto Pernambuco - Brasil com uma aula-espetáculo. "Sujeito afirmativo", como ele mesmo dizia, Suassuna expõe suas opiniões sobre políticas de cultura e manifestações artísticas brasileiras e estrangeiras sem meias palavras.
Por fim, em 1996, vinte anos depois de lançar o Movimento Armorial, Ariano Suassuna encampou o Romançal, experiência de orquestra erudita a partir do universo popular do nordeste brasileiro. Em depoimento à repórter Cirley Ribeiro também na capital paulista, o escritor detalha a proposta, fala da universalização da arte e explica porque gostava de ser identificado como "guerrilheiro cultural".Confira aqui.
Escritor, dramaturgo, professor e político, Ariano Suassuna se encontrava na arte: na literatura, no teatro nas artes plásticas e na música. Em 1970, fundou o Movimento Armorial, que pretendia construir uma arte erudita autenticamente brasileira, colocando em primeiro plano o universo lúdico e cultural do sertão nordestino. Na definição do próprio Suassuna, a "Arte Armorial Brasileira é aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico da literatura de cordel, a música de viola, rabeca ou pífano e as ilustrações da xilogravura". Com o Quinteto Armorial, liderado pelo compositor Antônio José Madureira, fez shows, gravou discos e levou a proposta para o exterior. Em 1996, ele retomou o projeto, rebatizado de Romançal, incorporou instrumentos tradicionais, como violão, violino, flauta e violoncelo.
Sempre valorizando a cultura nordestina, Ariano transformou o "matuto" do interior em estrela de cinema, com o sucesso da adaptação do Auto da Compadecida, com direção de Guel Arraes. Para o autor, toda grande arte é local. Nasce em determinada região e se universaliza pela boa qualidade e pela divulgação. Costumava citar frase de Tolstói para ilustrar o pensamento: "pinte bem a sua aldeia, que você será universal, mas pinte bem", em referência à qualidade necessária a todo trabalho artístico.
Membro da Academia Brasileira de Letras desde 1989, assumiu a cadeira de número 32 sucedendo Genolino Amado. Ele também se tornou membro da Academia Paraibana de Letras em 9 de outubro de 2000. No mesmo ano, ainda se tornou doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Foi tema de enredo no carnaval carioca, na escola de samba Império Serrano, no Rio de Janeiro, e na Mancha Verde, no carnaval paulista.
Em 2006 ganhou o título de doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará, mas que veio a ser entregue apenas em 10 de junho de 2010, às vésperas de completar 83 anos. Recentemente, Ariano passou por algumas capitais do País com suas aulas espetáculo e o projeto multimídia Ariano Suassuna - Arte Como Missão, realizado em homenagem ao escritor.
Dos arquivos da Cultura Brasil, você pode ouvir três ricas entrevistas de Suassuna concedidas ao programa Estúdio 1200.
Na primeira delas, ele recebe a reportagem da Rádio Cultura em sua casa no Recife. Retraído, Ariano não gostava de dar entrevistas. Como diz Inimá Simões, era "um aristocrata sertanejo". Um tanto desconfortável no início da conversa, o escritor foi se soltando e revelando seu claro raciocínio sobre questões culturais, o ofício da escrita e a mídia.
Dois anos mais tarde, na cidade de São Paulo, o então Secretário de Cultura de Pernambuco lançava seu projeto Pernambuco - Brasil com uma aula-espetáculo. "Sujeito afirmativo", como ele mesmo dizia, Suassuna expõe suas opiniões sobre políticas de cultura e manifestações artísticas brasileiras e estrangeiras sem meias palavras.
Por fim, em 1996, vinte anos depois de lançar o Movimento Armorial, Ariano Suassuna encampou o Romançal, experiência de orquestra erudita a partir do universo popular do nordeste brasileiro. Em depoimento à repórter Cirley Ribeiro também na capital paulista, o escritor detalha a proposta, fala da universalização da arte e explica porque gostava de ser identificado como "guerrilheiro cultural".Confira aqui.
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
ROSAS DA MANHÃ - GISELDA MEDEIROS
Quando vieres
vem
de leve
assim
como a primeira estrela
que
paciente desponta
jogando
sua luz
por
entre as brumas
consciente
da importância
de
sua chegada.
Vem
com dedos de carícias
silenciosas
com
mãos de artista
leves
para
que não me doa
o
poema que fizeres.
Ou
melhor
vem
como quiseres.
Estarei
aqui
em
mim
dentre
outras mulheres,
mas
a única que te sabe
florir
em versos.
Mas
vem como a primavera,
sem
pressa para voltar,
consciente
da beleza das cores
que
em mim deixarás
em
aveludados olores.
Vem
como a tarde
que
espera a noite para adormecer.
Quero
ver-nos florir
em
rosas de alvorada
quando
despertarmos manhã.(do livro "Tempo das Esperas)
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
QUARTA-FEIRA DE CINZAS - REFLEXÃO POR VIANNEY MESQUITA
REFLEXÃO NO
INÍCIO DO
TEMPO QUARESMAL
MEMENTO, HOMO...
Vianney Mesquita*
Estou perto do dia da minha derradeira viagem, um grande salto da terra (THOMAS HOBBES.YWestport, 05.04.1588 –†Derbyshire, 04.12.1679).
Quarta-feira de cinzas é dia de igreja católica lotada, muitas vezes até por pessoas que a frequentam somente nesta data, quer em virtude de superstição, arrependimento pelos seus excessos e transportes durante o carnaval, ou mesmo as duas razões combinadas. Infelizmente, entretanto, tem ressalto o primeiro pretexto manifesto na crendice, retratado na supersticiosidade e no senso de fanatismo religioso.
Propício, todavia, radica o fato de todos evocarem a leitura na Bíblia em Língua Portuguesa, onde está expressa em Gênesis, 3:19, a divisaLembra-te, homem, que és pó e em poeira te tornarás, quando o Criador, perpetrada a falta original,expulsou Adão do Paraíso, prescrevendo-lhe intensos trabalhos, rematados com a morte, ocasião em que o corpo – a carne – de nada mais aproveitará.
De modo diverso do ocorrente na Banda oriental, a cultura do Ocidente nos infundiu a ideia de que o fim pela morte é algo terrível, embaraçoso, porquanto está disposta nos limites do impossível a admissão da nossa finitude, do exício definitivo da vida, de modo a persistirmos no raciocínio irreal e ilusório de que não se efetivará o trespasse da alma para a Outra Dimensão, pois a existência terrena seria sem termo.
Eis, todavia, que balança esta “convicção”, absolutamente equivocada, ao menos uma vez por ano e no primeiro dia da Quaresma, coincidente com a Quarta-Feira de Cinzas. É quando, pois, o padre da Igreja de Roma – cruzando na testa de cada um as cinzas remanescentes das palhas do Domingo de Ramos imediatamente anterior – representa Deus a nos alertar para o fato de que a Humanidade é pó e à poeira retornará em definitivo como matéria.
Então, ao modo como a Igreja procedia antes do Concílio Vaticano II, é substituída a frase latina Memento, homo, quia pulvis, es et in pulverem reverteris, igual a “Lembra-te, homem, que és pó em pó te tornarás”, podendo o sacerdote dizer, alternativamente: “Arrependei-vos e crede no Evangelho”.
Esta verdade é terminante e vale para a Humanidade inteira, seja na velhice, na senescência, esteja o cidadão na circunstância de “preferencial” – como é da moda – vigor, na saúde e bem-estar socioeconômico, na doença e indigência, em particular, na juventude ou nova adultidade, em qualquer estado, se impõe que todos se deem conta de que o reino do céu está perto, sendo crucial que preparemos o caminho do Senhor, endireitando nossas veredas, à maneira como expresso por João Batista, a voz que clamou no deserto.
Então, no dia inaugural da Quaresma, examinemos a consciência e tomemos tento em remover os habituais excessos, apagar as rixas com os circunstantes, viver mais a Palavra, ao procurar a indicação divina, a fim de que delineie a correção dos rumos de cada um, sem simuladas carolices nem devoções aparentes, vedadas as manifestações atitudinais, limitadas ao âmbito do edifício da igreja, porém com eficácia em todo lugar e a qualquer tempo.
De tal maneira, experimentamos a oportunidade de atualizar nossa Contabilidade para demonstrá-la em balanço perfeito aos “órgãos de controle” do Alto, com vistas a deixar nossos registros sempre limpos e nossa ficha sem rasuras nem lacunas que possam se fazer óbices impedientes da nossa intenção salvífica.
Então, completando a reticência do título, está em Gênesis, 3:19, a importantíssima divisa latinaMemento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris, convidando-nos a evocar a noção de que, na qualidade de corpo, somos cinzas, aquelas cruzadas hoje nas cabeças de cada qual.
*Vianney Mesquita
Escritor e Jornalista
(in: academiacearensede jornalismo.blogspot.com.br
(in: academiacearensede jornalismo.blogspot.com.br
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Crônica artesanal - Myrson Lima
Crônica artesanal
Já eram boas seis horas da tarde quando, enfim, atingimos a fazenda Gameleira
com os raios solares esbatendo-se anunciando a hora das Trindades.
Urubus, pousados nos sabiás do curral, crocitavam agoureiramente provocando
cósmico pavor nos caboclos acocorados no pátio da casa-grande.
Encolhidos, encostados uns aos outros, cosiam-se às paredes chãs, enquanto
ruminavam cenas prosaicas do dia, forjicavam projetos, profetizavam o tempo e
narravam delongadas histórias fantásticas cheias de assombração. Com o barulho
do motor, estorceram a vista em direção ao carro.
No pátio, assomavam imponentes pindobas, ainda verdes, bordeando o grande
terreiro, em contraste com a aspereza da paisagem seca, esturricada, sedenta de
chuva. Desolação.
O sol ia celeremente quebrando; ao longe, as rolinhas turturinavam e os
marrecos rentes à lagoa quase seca grasnavam na claridade incerta que aos
poucos se esgarçava. Ouviam-se distantes e lamuriosos os últimos mugidos do
gado magro, ripado pelas costelas, de orelhas mosqueadas, entristecendo mais
ainda a paisagem esturricada. As sombras das mangueiras aos poucos se avultavam
tisnando a claridade evanescente. Escutavam-se o zizir das cigarras e o barulho
infernal de um bando de pássaros retardatários voando apressados em busca de
abrigo.
Na alcova, uma senhora de meia-idade, de estatura mediana, limpava o sarrento
cachimbo sob a luz crua de um singelo candeeiro. O reflexo do fogo vermelho da
trempe alongava-se pela cozinha, cintilando nos rostos macerados das comadres,
que escrutavam a vida alheia. Pela telha vã, a luz refrangida da lua penetrava
indiscreta, alvíssima, caleando as paredes.
Com as almas já pacificadas, as mulheres, tocadas de ternura, debulhavam o
terço, enquanto os homens, sentindo-se a salvo dos pavores crepusculares,
espaireciam a tristura bebendo a branquinha à larga agora com histórias jocosas
e lascivas.
Lançamos um olhar largo em volta e nos recolhemos, fatigados, amolentados pelo
sono. Prenunciava-se uma noite fresca de lua alta no silêncio amplo do sertão.
6/1/2015
domingo, 4 de janeiro de 2015
VALE A PENA LER: OPINIÃO - ANGELA GUTIÉRREZ - JANEIRO 2015
Um manto sobre a
terra
Na
antiga cidade, fechada sobre si mesma por altos e espessos muros de pedra, o
menino cresce como outros meninos que não conhecem a penúria. Nada lhe falta:
nem pão, nem roupa, nem teto, nem mãe, nem pai, nem subida aos montes e nem
correria nos campos que bordeiam a cidade. Amável e amado, faz-se rapaz, sente a
beleza das flores, a harmonia do canto dos pássaros e a graça das meninas que
lhe sorriem.
Um
dia, o rapaz vai à guerra e volta ensimesmado e melancólico. Guarda na memória
as dores que vira e ouvira em longes terras. Para esquecer essas dores ou para
comemorar a vida, o jovem Bernadone, vestido
de veludo, sai com os amigos ao anoitecer, bebe, dança, e volta para casa ao
amanhecer. Vem a cavalo, em passo lento, e talvez porque se sinta farto e bem abrigado,
causa-lhe espanto entrever, na luz avermelhada do sol nascente, as silhuetas escuras de figuras encolhidas,
encostadas umas às outras e coladas às paredes de sua casa. Desce do cavalo e,
pela primeira vez, consegue ouvir o pedido silencioso dos seres desamparados de
Assis. Na noite que parecia igual a todas as outras noites, um rapaz, em gesto
que repercutiria no seu século e nos que viriam depois, desveste-se de seu
próprio manto e com ele cobre o homem que tem frio. Alguns de seus amigos imitam-lhe
o gesto e estendem seus mantos sobre outros homens e mulheres e crianças.
Os
ouvidos do jovem, antes moucos, e seus olhos, antes cegos, ao sofrimento vizinho,
passam a ouvir e a ver a fome, a dor, a vergonha dos irmãos homens e das irmãs
mulheres, dos irmãos velhos e das irmãs crianças que vagam na escuridão das
noites e na claridade dos dias, invisíveis e inaudíveis para os corações
endurecidos das gentes.
E
seu canto de amor a todos os irmãos é tão forte que atravessa séculos, quase
mil anos, e chega a um homem que se despe do próprio nome e assume o nome do poverello de Assisi para convidar a
humanidade a desvestir-se de preconceitos e ostentação, e a estender o manto da paz e da justiça sobre
todos os que sofrem sem amparo sobre a terra.
Angela
Gutiérrez,
Membro da Academia
Cearense de Letras e do Instituto do Ceará
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
Entrevista - Alberto Manguel – por Luiz Costa Pereira Junior
A leitura do mundo
Ensaísta argentino radicado no Canadá, Alberto Manguel lança
novo livro no Brasil e diz que ler é ter memória de uma experiência antes mesmo
que ela aconteça.
O leitor lê o que quer, o escritor escreve o que pode. A
frase de Jorge Luis Borges é usada pelo ensaísta Alberto Manguel como um
mantra: porque não se sabe como será interpretado, deve-se escrever como uma
extensão da leitura.
No fim do ano, o autor argentino radicado no Canadá veio ao
Brasil para a VI Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto),
divulgar A Biblioteca à Noite e Todos os Homens São Mentirosos (Cia. das
Letras). O tema biblioteca lhe é central. Está em A História da Leitura e no
Dicionário dos Lugares Imaginários, que cravaram o nome de Manguel no Brasil.
Filho de embaixador, rodou o mundo. Aos 14 anos, ia à casa
de Borges ler para o autor já cego. Hoje, cita Borges "ao menos três
vezes" por palestra. A citação ajuda o leitor a crer na realidade do texto
e a levar a gente a sério, brinca. Agora, escreve um livro de ensaios ( O
Leitor como Metáfora ) e a segunda novela, Um Amigo de Platão, sobre dois
homens que travam guerra sobre a verdade. Uma fábula. Afinal, para Manguel, nada
é verdadeiro, a não ser o que encontramos nos livros. (O editor foi à Fliporto
a convite da organização do evento)
ENTREVISTA
Ler de fato nos
melhora?
Fiz o secundário no Colégio Nacional de Buenos Aires, em
meio à ditadura. Foi um professor de literatura de lá que me inspirou a
escrever. Ele me fez descobrir a função humanizante da literatura, que a ficção
é uma mentira que conta a verdade e a experiência dos personagens é, no fundo,
a nossa experiência. Veja, os alunos desse colégio fizeram forte oposição aos militares.
Pouco depois eu saí do país, mas soube que muitos de meus colegas foram
denunciados, torturados e mortos. Uns vinte anos depois, voltei à Argentina
para uma festa de ex-colegas. E descobri, chocado, que aquele professor era o
informante dos torturadores. Ler em si mesmo não é mais que uma atividade
essencial. Mas o valor do ato está dado pelo uso que fazemos da leitura.
Para Paul Virilio, o
símbolo do século 20 foi o arvoredo amado por Goethe, intacto num campo
nazista. Um leitor refinado comandara aquela carnificina.
Minha primeira reação foi rechaçar a literatura associada
àquele professor. Mas percebi que a literatura é uma forma de manter atenção
entre duas margens. Há incontáveis exemplos de leituras que conduziram a atos
terríveis. O mais anedótico foi o daquele que leu O Apanhador no Campo de
Centeio , do Salinger, e entendeu pela leitura que havia de matar John Lennon.
Mas há leituras que permitem fazer uso da memória da experiência do mundo.
Nesse caso, ler melhora nossa maneira de atuar.
Se, como você diz,
sabemos que o universo não tem sentido, por que ainda lemos e escrevemos
livros?
Em parte, ler é extensão de uma função biológica. Certos
animais usam de camuflagem e outros criam defesas para atuar no mundo. Nossa
espécie desenvolveu a imaginação, uma forma de construir o mundo antes de
experimentá-lo. Se posso imaginar como é pôr a mão na boca de um tigre, sim,
vou pôr a mão. A imaginação faz com que inventemos histórias para reter nossa
experiência. Para conhecê-las, desenvolvemos a leitura. Lemos e escrevemos para
entender a experiência antes de tê-la e para ativar nossa própria experiência,
para dizer que essa é a forma que sentimos e entendemos, para que as gerações
futuras possam sabê-lo.
Como foi ler para
Borges?
Quando ficou cego nos anos 50 ele se deu conta de que
precisava dos outros para ler. Pedia a qualquer um, pois não lhe interessava
uma leitura interpretativa. Eu trabalhava numa livraria. Um dia, ele me pediu.
Era uma leitura sem entonação, que interrompia para entender como o texto foi
construído. Sobretudo, queria que eu lesse contos porque voltara a fazê-los, e
eles viraram O Informe de Brodie [1970]. Para mim, foi uma experiência
mecânica.
E a convivência com
ele?
Borges tinha grande senso de humor, mas não era afetuoso no
sentido pleno da palavra. Não creio que tivesse amigos. Com Bioy Casares tinha
uma relação particular, mas intelectual. Era amável, mas nunca, nunca houve uma
conversação pessoal, de me perguntar sobre a vida, meus interesses.
Sua obsessão pelo
tema biblioteca veio de Borges?
Sim e não. Tudo meu tem influência dele. Mas meu interesse
em livros e bibliotecas começou aos 4 ou 5 anos. Sempre estive rodeado de
livros, e desde pequeno ordenava as obras de certa maneira. O benefício de ter
conhecido Borges foi ter contato com certos autores e uma forma de pensar a
leitura, mas não diria que foi a partir dele que começou meu interesse no tema.
Por que tomou a
leitura como objeto de pesquisa?
Não me definiria pesquisador, mas alguém que tenta entender
o que faz. Desde os meus 3 ou 4 anos, minha família viajava muito. Não contava
com um lugar fixo, sempre meu. Esse lugar, para mim, foi o livro. Lembro de
sentir um alívio ao chegar em casa e encontrar num livro o mesmo texto, com a
mesma ilustração na mesma página. Essa foi para mim a experiência primária.
Aprendi nos livros o que era a amizade, a morte, o amor, antes de conhecê-los
na vida de carne e osso.
Quais os livros que
considera essenciais?
Mudam todo dia. Os importantes dependem de quem somos quando
os escolhemos. Em certo momento, o mais importante pode ser Alice no País das
Maravilhas , esta manhã A Divina Comédia, esta tarde não sei o que será. Toda
biblioteca é uma autobiografia. A minha é um conjunto de possibilidades de quem
sou. Às vezes essa possibilidade coincide com certo título, me dou conta que um
título é a pessoa que fui há anos e é como visitar uma memória passada.
Qual é o seu método
de pesquisa?
Desordenado e amplo. Quem não sabe precisamente o que
procura, busca em muitos lugares e direções, e isso faz com que a pessoa pareça
erudita, mas seu trabalho nasce da ignorância mais profunda. Se queria escrever
sobre Santo Agostinho, investigava tudo, pois dele nada sabia. Não tenho
metodologia, mas curiosidade e uma forma de pensar distraída e associativa.
Isso confere certa complexidade à produção de ensaios.
Permite criar ensaios
melhores?
A novelista americana Cynthia Ozick dizia que há duas
metodologias para escrever ensaios: uma é recordar o caminho sabendo aonde
chegar e a outra é passear pelo bosque, ir à esquerda, à direita, e é melhor
nem chegar a alguma parte. Minha tendência é a de passear, pois não tenho a
mente rigorosa, mas há ensaístas de uma luminosa claridade, que sabem aonde vão
desde o início. Borges, por exemplo. Não creio que se possa falar qual a melhor
possibilidade. Só do que dá resultado ou não.
"Ler é extensão
de uma função biológica. Certos animais usam de camuflagem e os criam defesas
para atuar no mundo. Nossa espécie desenvolveu a imaginação, uma forma de
construir o mundo antes de vivê-lo"
Qualquer assunto pode
ser tratado dessa forma?
Há ensaios maravilhosos sobre nada. Xavier de Maistre criou
[em 1794] um magistral: Viagem ao Redor do meu Quarto . Qualquer tema se presta
à interrogação e talvez o ponto de partida seja este: fazer uma pergunta e
chegar a uma melhor pergunta.
Como insere seus
livros recentes em sua obra?
Quando comecei a escrever, eu o fiz consciente que estava
escrevendo como leitor, não como um escritor. Mas nos livros que fiz não sei se
há uma progressão, um aumento de complexidade ou um melhor entendimento sobre
algo, mas uma abertura de perguntas.
Aonde levam essas
perguntas?
Percebi, com Uma História da Leitura , que escrevia um livro
com um número específico de capítulos, mas bem poderia ter cem mais. De alguma
maneira, o tema da leitura abarca todas as atividades humanas e os
conhecimentos possíveis. Quando Borges imaginou uma biblioteca contendo o
universo, falava exatamente isso. Ao pensarmos o mundo como livro, como espaço
que lemos, a leitura define todas as atividades. Não posso pensar em nenhum
tema que não esteja relacionado ou incluído no tema da leitura.
Como vê o modo como é
escrito o ensaio hoje?
Não há característica que defina o ensaio em um momento
particular. Como gênero, muda em relação não só aos escritores como aos
leitores. Um da Grécia antiga não se diferencia tematicamente de um diálogo ou
poema filosófico, mas em certo momento há a intenção de tratar um tema de
maneira particular, digamos em Plutarco, em Sêneca ou, nos latinos, em Cícero.
Essa forma vai se definindo até Montaigne dar ao gênero a palavra
"ensaio", como ideia de algo que se está provando, de se tentar algo
a partir de uma voz particular. Não é que fosse a primeira vez em que foi
feito, isso já existia. Mas Montaigne conscientemente diz ao leitor:
"Estou num diálogo com você". Hoje, o ensaísta pode inventar técnicas
ou limitar-se às já sabidas, mas faz o mesmo que todo escritor: estabelece um
acordo. Não creio que haja um estilo particular no ensaio de nossa época.
Quais problemas a
tecnologia coloca ao amante de livros?
A tecnologia é só uma fábrica de instrumentos que usamos de
uma maneira ou outra. Quando falamos de problemas estamos na verdade falando da
indústria eletrônica que leva à compra de aparatos na sua maior parte inúteis.
A indústria distorce a relação entre leitor e texto, impondo instrumentos como
razão para a existência do texto. Logo se inventam razões intelectuais para
justificar o consumo, mas não há de fato motivo para o qual todos tenham
necessidade de comunicação 24 horas todo dia, em toda parte do mundo.
A internet não é a
grande biblioteca atual?
Internet não é biblioteca. É um lugar de acumulação de
informação. É importante e banal. Numa sinagoga do Cairo medieval havia um tipo
de depósito chamado Guenizá, onde era posto tudo o que era escrito. Porque
podia conter o nome de Deus, nada era destruído... Havia cartas, documentos
importantes, e listas de compras, contas, rascunhos. Com a internet há o mesmo.
Em minha biblioteca, encontro a informação que quero, sei seu valor e peso. Mas
na rede, em que poderia achar a mesma informação, não sei o contexto, a relação
entre um texto e sua fonte.
Mas sua função de
acervo não seria inegável?
Há sites úteis, mas falta curadoria. Ao se criar a
biblioteca de Alexandria, que pretendia ter tudo, o problema era que nenhum
leitor poderia fazer uso eficaz de tudo. O que Calímaco, um dos primeiros
bibliotecários, fez foi criar catálogos racionais: "nessa temática, estas
são as obras importantes". Isso criou os primeiros cânones. Mas trouxe
problemas. Implicou um tipo de censura. Se digo que algo é importante, outros
não entram na seleção. Toda ordem significa um tipo de exclusão. Então, quando
a internet oferece as primeiras seleções não é sequer pelas razões intelectuais
que pautaram Calímaco. Há um sistema mecânico, que não tem a ver com a busca
intelectual.
A literatura é uma
forma de vencer o esquecimento. Há o risco de, na era da internet, voltarmos a
esquecer?
Num diálogo de Platão, ele conta ou inventa o mito pelo qual
o deus egípcio Tot oferece ao faraó o presente da escrita. O faraó o recusa. Se
o aceitasse, os homens não mais recordariam, pois a escrita recordaria por
eles. Séculos de literatura mostraram que a literatura serve para fomentar a
memória. A acumulação indiscriminada e o mito de que as coisas caem na rede só
por um período fazem com que a internet exista só num eterno presente. A
história de uma ideia se perde e não há traços nem da correspondência - a maior
parte dos e-mails se perde.
Sem data e contexto,
desorienta-se o leitor...
No computador, toda versão é apagada, a última é o que fica.
Quando Montaigne publica seu Ensaios , leva consigo uma edição para corrigi-la
em casa. Depois que morreu, em 1588, o exemplar com as correções seguiu para
edição. Está na biblioteca municipal de Bordeaux. Um de seus ensaios famosos é
sobre a amizade. Quando fala da amizade com [Etienne de] La Boétie, Montaigne
cunhou uma frase famosa: se lhe perguntam por que o queria como amigo, não
saberia responder, salvo para dizer que ele era ele e eu era eu. Na edição
impressa em vida, a frase era: "Se me perguntam por que o queria, não
saberia o que responder", ponto. No exemplar modificado, com tinta negra,
Montaigne agregou: "Salvo para dizer que ele era ele". E logo depois,
em azul, "e porque eu era eu". Temos aqui a evolução de uma das
frases mais comoventes da França, sabendo que primeiro se pensou uma coisa,
depois outra e em seguida uma terceira. Hoje teríamos só a frase final, ainda
comovente, mas sem história.
Acompanha a
literatura brasileira?
Ela parece crescer de sua própria inspiração. A
norte-americana é encerrada em si mesma, não conhece o resto do mundo. A
brasileira conhece, mas se inspira em si. De Machado de Assis a autores mais
recentes, todos parecem inspirados por suas circunstâncias a partir de uma
língua que vão criando. Vemos isso em Guimarães Rosa, um fenômeno que não
conheço em nenhuma outra língua ou literatura.
Do português, o que
mais lhe chama atenção?
Não falo português, que para mim é como ler através de um
vidro escuro, mas há uma música, uma doçura, um sentido de que é uma língua
respeitosa, que a mim encanta, em particular no uso de "você", de
"senhor". Sempre me pareceu uma língua que respeita constantemente o
interlocutor, coisa que não se sucede no espanhol, por exemplo, e certamente
não com o inglês.
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