quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

ENSAIO - POR VIANNEY MESQUITA



ESTESIA DA COMPOSIÇÃO – Professor Maurício Moreira, estilista da palavra

Vianney Mesquita*


Um monte de livros não vale um bom mestre (Provérbio chinês).

De conformidade com a taxinomia consagrada nos compêndios de versificação, como a própria denominação tenciona indicar, o verso decassilábico é aquele que encerra dez sílabas métricas, contadas do seu início até o último grupo de fonemas, e constitui, em conjunto com outras estâncias poéticas, à extensão de seu nome, o poema decassílabo ou decassilábico.
Na Poética, convém repetir por, ser oportuno, a contagem das sílabas consonadas não coincide com a dos iguais conjuntos de letras gramaticais, não apenas pelo fato de se ir até a tônica derradeira, porquanto há outros elementos a considerar – conforme evoca Sânzio de Azevedo, no seu admirável  Para uma teoria do verso (Fortaleza: Edições UFC, 1997).
De igual modo ocorre com os metagramas, palavra do léxico da Retórica – representativa do desvio da correta composição fonética vocabular, admitida em virtude da métrica e da estética poética – bem como outros elementos figurativos responsáveis, complementariamente, pela formosura da poesia.
Em virtude desta não concordância silábica da composição ordinária com a elaboração poemática em todas as suas classificações e tendências de afiliação, talvez não seja de todo inócuo refrigerar a memória do leitor para um fato de relevo.
Reporto-me ao emprego, quando da estrofação, das diversas resoluções figurais de adição, subtração e fusão silábicas, como apócopes, síncopes, sinéreses etc, antes que ele, equivocamente, ache de argumentar que o número de ictos (acentos fortes incidentes sobre determinada sílaba de um pé) está defeituoso, porém admiravelmente correto e distinto e nobre e vigoroso – conforme as qualificadas composições enfeixadas neste volume póstumo (Expressões de uma Vida Fértil) do enorme poeta e desmedida personalidade intelectual e humana que foi o Professor Maurício Moreira.
No Brasil e, quiçá, em outros pagos lusófonos, o decassíliabo é, ainda, bastante apreciado, a despeito do prestígio modal e da necessidade de atualização diacrônica das produções modernas em verso branco, aliás também exercitadas com perfeição pelo Autor comentado, em pleno fastígio do Modernismo no Brasil, alguns pares de anos após a histórica Semana da Arte Moderna, em fevereiro de 1922.
Rogo vênia ao meu leitor a fim de reproduzir, a modo de exemplo, um soneto decassilábico, oferecido a um garoto filho de um amigo, o qual, à semelhança de Bilac (este dodecassílabo, como veremos à frente), tem nome decassilábico perfeito – Lucas Vinicius de Carvalho Cruz.
FATO ALVISSAREIRO

Janeiro, dia doze deste mês,
A mãe, dona Rejane trouxe à luz,
Em decassilábico português,
Lucas Vinicius de Carvalho Cruz.

Segundo originário do casal,
Broto gentil, da união mais bela,
Pois que havia anos – bom sinal !
Houvera já surgido Rafaela.

Desta cepa de Cruz e de Carvalho,
Com o nome de Médico Evangelista,
Nasce o sarmento cuja estrela brilha.

E este garoto de elegante talho,
De Régis procedente, encerra a lista
Em arremata à festa da família.

Malgrado o citado moto modernista haja quase desterrado a forma soneto das publicações brasileiras, ao ponto de Cassiano Ricardo lobrigar nesta configuração provençal antiga o antes pandêmico “Sonetococcus brasiliensis” (AZEVEDO, opus citatum) – esta grade fixa de catorze versos (dois quartetos e dois trísticos) jamais deixou de ser cultuada entre nós, tanto pela cadência, musicalidade e outros componentes estéticos de seu uso, quanto pela relativa facilidade de compô-la, hajam vistas a fixidez e a imutabilidade do seu arranjo estrófico siciliano, somente à espera de quem, com alguma inspiração e certo conhecimento do léxico – dirão alguns – lhe recheie os espaços.
Sânzio de Azevedo, em Otacílio Colares e a Coroa de Sonetos (Fortaleza: Edições UFC, 1985), remete o leitor ao também seu O Soneto Moderno (In Poesia de Todo o Tempo. Fortaleza: Edições Clã, 1970), onde se refere ao redisciplinamento poético e recuperação de antigas composições, por parte da Geração de 1945, entre as quais se encontra o soneto, conforme adiantamos há pouco, “[...] quase banido da literatura nacional, ao ponto de, em 1930, a coletânea de Andrade Murici A Nova Literatura Brasileira não abrigar um só desses poemas de forma fixa”(AZEVEDO, ID.IBIDEM), como se nota, no começo da produção de Maurício Moreira, em parte publicada no seu livro ora sob comento. Ele próprio, bem se vê, aggiornou-se, compondo peças de rara beleza modernista, como Saudade e Calor e O Ébrio, nas quais comprova, de sobejo, sua adesão ao ímpeto artístico de 1922, com insuperável aptidão plástica.
Em estudo acerca da obra do escritor piauiense Santiago Vasques Filho, Folhas Mortas. Sobral: Edições UVA, 2000), eu expressava que a ideia de “[...] regeneração dos padrões fixos, certamente aqui operada com a assistência da Geração 1945, teve efeitos em poetas mais novos [...] (MESQUITA, Vianney. Fermento na Massa do Texto.Sobral: Edições UVA, 2001), como, certamente, ocorreu com Maurício Moreira, a julgar pela manifestação de sua atualidade literária expressa nas duas composições retromencionadas, sitas na III Parte daquele volume.
A forma do redondilho maior (ou verso de arte menor, que é o setessílabo, hetero ou homorrítmico), com segurança, é a mais empregada em todas as correntes estéticas, maiormente porque esteia grande parte das composições populares do Nordeste do Brasil, não deixando, também, de ser aplicada na feitura do sonetilho – mesma grade dos demais polissilábicos, mas com apenas sete ictos em todos os seus catorze versos – e outras composições classificadas.
Certamente, logo após essas estâncias – de aplicação profusa na nossa literatura de cordel – é o decassílabo, ou verso heroico, o mais apreciado, no Brasil, em particular. Noventa e quatro sonetos nesta feitura fazem parte do volume a que se dedicam estas notas, em seleção procedida pela família do autor que, aliás, demonstrando o equilíbrio e a felicidade sem igual do seu grupo sociológico primário, a este alude, na maioria das suas cadenciadas e belíssimas composições, fato demonstrativo do aparato intelectual deste professor, que fez história em Sobral, onde viveu muito boa parte do seu tempo corporal, semeando o conhecimento e fazendo o bem aos seus circunstantes, perpetuando seu exemplo per omnia tempora.
Relativamente ao chamado verso alexandrino, com o qual Maurício Moreira brinda o leitor em catorze composições no seu livro, este se refere ao poema dodecassilábico, pelo qual, dentre outras razões, restou conhecido e popularizado o poeta parnasiano Olavo Bilac, exatamente em razão de o seu nome completo modelar um “alexandrino perfeito”, com os doze acentos deste verso – Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac – a igual do ocorrente com o menino,”decassilábico perfeito”, Lucas Vinicius de Carvalho Cruz, há pouco mencionado.
O soneto alexandrino, geralmente com cesura na sexta sílaba (como em Martins) e na décima (Bilac), indicando a divisão rítmica (hemistíquios) no caso do alexandrino clássico, pode também, por modificação procedida pelo Romantismo, trazer acento noutras sílabas.
Consoante informação de domínio público, a ideia da denominação – alexandrino – apareceu no século XII, nas canções da gesta francesa, de modo que o nome procede do título do poema, ou até da alusão ao seu autor, Alexandre de Bernay (ou de Paris), trovador, o qual estruturou a composição O Romance de Alexandre, em doze pés, dando origem aos versos com tal medida.
Conforme é dado ao consulente verificar, é admirável o veio do Autor, ao expressar-se nesta craveira compositiva, a qual solicita,  como o fazem (porém, menos) outras medidas poéticas, total império do metro e senhorio amplo do assunto a ser coberto, geralmente evocando elementos figurais das Artes, da Filosofia e das Ciências em geral e invitando fatos e feitos da História e de suas personagens, o que exige, mencionando ideia de sociólogos, como Pierre Bourdieu, v.g., o máximo de capital cultural possível.
Na Parte III, há uma seleta de composições em língua-prosa, vazadas em faustoso, porém frugal, Português, mesmo no tempo em que foram escritas, desenlaçadas da fastienta mania verborrágica, dos substantivos e verbos excessivamente enfáticos, dos adjetivos sobejantes e das circunlocuções que, via de regra, aportam no truísmo tautológico, traduzindo perfeitamente a paulificância da elocução.
Fácil é divisar, na grandiosidade estética do Professor Maurício Moreira, sua preocupação diacrônica em atualizar os valores históricos da Língua, para não mostrá-la arteriosclerótica aos seus teúdos e manteúdos culturais. Basta, por conseguinte, se ler seus escritos, do final dos anos 1930, para comprovar o zelo elocutório, o desprezo pelos modismos e o gosto estético nos seus propósitos comunicativos, o que só é possível àquele que entesourou, de estudo, as gemas valiosíssimas do preparo intelectual que preside ao mister do extraordinário docente que foi, mas cuja obra professoral contém desdobramentos e haverá de ser irradiada para todo o sempre.
    

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

APONTAMENTOS SOBRE A TROVA - ZENAIDE BRAGA MARÇAL



Apontamentos sobre a Trova
(Palestra proferida na Academia Cearense de Médicos Escritores)


  Segundo Artur Eduardo Benevides, saudoso Príncipe dos Poetas Cearenses, “na taxonomia poética trova é poesia lírica, com normas preestabelecidas e que não devem ser alteradas; vem de fontes eruditas e medievais. (...) Parece ter havido um consenso tácito sobre a consagração dos quatro versos de sete sílabas, o que deixa a trova mais forte. Ao longo do tempo foi ficando mais popular, mas não é subliteratura. Pede simplicidade, beleza e poesia. Se for muito literária, torna-se artificial”.

A Trova, quanto ao seu tamanho, inspirou muitos trovadores:

  De Ferreira Nobre:                                       
“A trova, segundo a norma                       
 da mais sábia experiência,                                              
é pequenina na forma,                                 
porém gigante na essência.”                       

De Batista Soares
“Num simples verso se prova
este mistério profundo:
na pequenez de uma trova
cabe a grandeza do mundo!...”
  
Agora vejamos algumas normas a serem observadas pelos que compõem trovas.  Estudemos as trovas seguintes:

No sertão, se a noite desce ___1° verso (A)          
e cobre o verdor dos campos,_2° verso ( B)          
a beleza permanece ________ 3° verso (A)          
no piscar dos pirilampos. ___ 4° verso ( B)          

Quando vejo teu sorriso       (A)
iluminando teu rosto            (B)
esqueço qualquer desgosto   (B)
e  antevejo o Paraíso...          (A)

Vejamos:
1 - A trova tem quatro versos (linhas);
2- Tem 7 sílabas poéticas por verso;
3- Tem rima;
4- Tem um tema – assunto principal contido na trova – (palavra)
5- Tem sentido completo.

Observemos:

 2-   A contagem das sílabas poéticas é diferente da das sílabas gramaticais.
Na metrificação poética, quando acontece o encontro de duas ou mais vogais, estas se unem formando uma só sílaba. Também precisamos saber que no verso não se contam as sílabas que vierem depois da última sílaba forte (tônica).

Ex: No/ ser/tão, /se/ a/ noi/te/ des/ce, (contagem gramatical: 9 sílabas)
      No/ ser/tão, /se a/ noi/te/ des/ce,  (contagem poética: 7 sílabas)
      E /co/bre/ o/ ver/dor/dos/cam/pos (9 sílabas)
      E / co/ bre o/ ver/ dor/ dos/ cam/pos (7 sílabas)

3 – Rima é igualdade de sons no final de dois ou mais versos.

Na trova acima,  desce - rima com permanece –1° e 3° versos.
                           Campos - rima com pirilampos - 2° e 4° versos. 

Disposição das rimas: ABAB, ABBA, ABCB, etc. A forma ABAB é a mais usada e aceita pela UBT- União brasileira de Trovadores, principalmente em concursos.

Exemplo de rimas de escrita diferente e sons iguais:

Sorrateiro, sem fumaça,                                 
Arrasador, inclemente,                                   
É aquele fogo que passa                                 
queimando os sonhos da gente!                     
   (Neide Rocha Portugal – PR)                           

Que eu te esqueça não me peças...
Não me obrigues a fingir
e a fazer falsas promessas
que jamais irei cumprir...
  ( Marina Bruna- SP)

4 – O tema neste caso é beleza  (dos campos).

5 – Tem sentido completo, isto é, a permanência da beleza nos campos apesar do escuro da noite.

Exemplo de trova com assunto incompleto e rima desigual:

Eu sinto ser trovadora                            
a cada hora bendita;                                 
a toda flor que descora,                            
choro com ela a desdita.                          
              ( D.N.Castro - SP)                               

Para revelar a beleza, a Trova tem como fator primordial a Poesia; não necessita de palavras rebuscadas, de difícil compreensão. O que importa é que possamos acomodar aquilo que desejamos exprimir nos limites um tanto apertados que a Trova nos oferece. Temos que captar o seu sentido como nesta trova que é uma das primeiras que fiz:

A trova é tão pequenina...
mas venço seu desafio:
dentro dela, na surdina,
sofro, choro, canto e rio!

A Trova transmite o amor, o riso, o pranto, enfim, o nosso jeito de pensar e, segundo o que expressa, tem várias classificações:
Lírica, Filosófica, Educativa, Humorística, Satírica, etc.

Não devemos complicar estudando logo no início todas as normas para a composição de uma trova perfeita. O que aqui foi explicado é suficiente para o trovador iniciante.

Algumas recomendações:

- Não é aconselhável fazer trovas de improviso.

- Antes de tudo, escolha um tema; anote possíveis rimas; tenha em mente a simplicidade; faça várias trovas sob o mesmo tema  e escolha a melhor.

Ex: Diante do tema – Perdão – fiz inicialmente duas trovas:

1-    Quero esquecer as ofensas,     
quero dar-te o meu perdão.            
É mais difícil que pensas               
perdoar de coração.                       

2 – Quem não sabe perdoar
não merece ter perdão;
é bom parar e pensar
em perdoar seu irmão...

Olhei as trovas e refleti que elas poderiam ter um pouco mais de poesia e talvez um melhor vocabulário. Assim, formulei mais duas trovas, tendo escolhido esta que mostro agora:

      O perdão é tão sublime
      que, por mais que a ofensa doa,
      põe uma paz que redime
      o coração que perdoa.

Alguns exemplos de trovas quanto à classificação:

Filosófica                                                                 
Saudade, tear sutil                                                  
que não se vê, mas se sente                                    
tecendo com fios mil                                               
o passado no presente.                                             
            Luiz G. de Arruda   
                                                   
Educativa
Sê como o mar, grandioso,
cujo esplendor estonteia,
mas, humilde e generoso,
vem bordar rendas na areia!
                 Giselda Medeiros

Lírica                                                                               
Daquele amor do passado                                      
Tu não escutas o grito                                            
Mas, o destino é traçado                                       
E eu te espero no Infinito.                                       
             César Coelho                                                         

Humorística
Uma mulata fogosa
mais quente que dez fogueiras
deixa a galera nervosa
ao balançar as cadeiras.
             Moreira Lopes

A Trova e os Trovadores

                              Canto meu canto de Amor,
                              Canto meu canto de Paz,
                              É próprio do Trovador
                              Pôr no verso o que lhe apraz...

Trovador: 

1- Designação dos poetas líricos dos séculos XII e XIII, que se expressavam na chamada língua d’Oc, falada no sul da França, especialmente na Provença. 

2- Designação dos poetas líricos portugueses que nos últimos séculos da Idade Média seguiam o estilo dos poetas provençais.

     Sabemos que na I. M. apenas os clérigos e alguns nobres tinham acesso à cultura, ao estudo das letras, e havia mesmo reis que não sabiam ler ou escrever. Os livros eram escritos à mão e, por isto mesmo, peças raras e de alto custo. A poesia era ligada à música. Os poetas cantavam seus poemas ao som de instrumentos musicais e tinham sempre como tema as Canções de Gesta – que eram poemas épicos, isto é, narrativas de feitos heróicos, das lutas sangrentas muito comuns na realidade daqueles tempos.

     No ano de 1096, Guilherme IX, Duque de Aquitânia e Conde de Poitiers, que era um dos poderosos da época, um homem cortês, sabia fazer versos, porém era reconhecidamente conquistador de mulheres. Procurando achar uma forma de chegar aos seus corações, encontrou, criando um poema onde falava de amor, da sinceridade do sentimento amoroso e da sua intensidade.  Esta forma de poema passou a ser chamada “Le trobar” na língua d’Oc que correspondia em francês ao verbo “trouver”, encontrar.  Daí, os que cantavam o “trobar”  - o Canto de Amor – passaram a ser chamados “troubadours”, isto é, aqueles que acham.

     Assim, Guilherme IX fez o primeiro  “canto cortês”, que falava de amor, na maioria das vezes de amores impossíveis, o que fazia eco nos corações apaixonados, enchendo de animação as noites nos castelos da chamada “idade das trevas”.

    Nasceu, então, a Cantiga Trovadoresca que representou o despertar da cultura leiga, desvinculada da cultura teocêntrica imposta pela Igreja.

     Hoje Guilherme IX é considerado o primeiro Trovador e o mais antigo poeta da língua d’Oc, a língua falada na Aquitânia, região que passou a pertencer à França, na região Sul, a Provença.  Na região norte, onde era falada a língua d’Oil,  os poetas  eram denominados “Trouveres”.  A Língua Romana, que era o latim vulgar falado pelo povo, originou  algumas formas regionais de falar, as quais, com o tempo, deram origem às chamadas línguas neolatinas – Português, Francês, Italiano e Espanhol.

     Não podemos desconhecer a figura de Aliénor de Aquitânia, neta e herdeira de Guilherme IX, que introduziu na Corte do reino da França quando Rainha de Luís VII e, também, na do reino da Inglaterra,quando Rainha de Henrique II Plantageneta, a cultura da língua d’Oc na qual se exprimiam os trovadores.

     Nos seus poemas o trovador cantava para a amada e pela amada, isto é, no seu canto ele fazia declarações de amor às quais ele mesmo respondia em nome dela. Os versos eram inspirados em acontecimentos da corte ou, na maioria das vezes, em romances fictícios.

     Os trovadores iam de castelo em castelo onde eram recebidos com cortesia porque, além dos seus cantos, eles eram fonte de notícias de outras cortes, naquele tempo de tão difícil comunicação. Os versos eram cantados ao som de instrumentos musicais, e aqui vale lembrar os nossos cantadores ou violeiros nordestinos.

    A Cantiga Trovadoresca, cultura dos poetas provençais, era o gênero mais popular naquela época medieval e espalhou-se além-fronteiras. Em Portugal, somente após 100 anos, no final do século XII, foi escrito o texto considerado o mais antigo canto galego-português. O movimento trovador ganhou espaço em Portugal e na Espanha e foi denominado Trovadorismo.

Tempos depois, D. Dinis, sexto rei de Portugal, o Rei poeta, promove a cultura e transforma a Corte num dos mais fecundos centros literários da Península Ibérica. Não somente incentivou os trovadores na sua corte promovendo saraus palacianos, como era, ele mesmo, um grande trovador.  A poesia, sob a forma de cantigas, foi, nessa época, a principal expressão literária de Portugal, embora tenha havido também uma pequena produção em prosa e teatro.  D. Dinis substituiu o latim pela língua vulgar portuguesa nos documentos oficiais. O Português chamado moderno surgiu somente no século XVI.

      As cantigas chegaram até nós por meio dos Cancioneiros, que eram coletâneas de poemas de vários autores.

     A literatura portuguesa exerceu grande influência sobre a literatura brasileira desde o período colonial.  A trova passou a ser cultivada a partir de 1950. O poeta J.G.de Araújo Jorge denominou Trovismo o movimento que deu lugar de destaque à trova nos meios literários brasileiros.  Em 1966, pela liderança de Luiz Otávio, foi fundada a União Brasileira de Trovadores - Nacional. O “Dia do trovador” foi fixado para 18 de julho, e São Francisco de Assis foi escolhido o patrono dos trovadores.

 A UBT de Fortaleza foi criada em 1969, em reunião que aconteceu na Casa de Juvenal Galeno, e por ela passaram trovadores da mais alta expressividade. É atualmente presidida pelo trovador e jornalista Vicente Alencar e tem como Presidente de Honra Gutemberg Liberato de Andrade.  Em suas reuniões mensais, às 10h00 do 1° sábado de cada mês,  conta com a participação de excelentes trovadores que amam verdadeiramente a trova e a fazem com maestria.
                           
                           Doce feitiço de amor
                           tem a trova, bem guardado,
                           porque todo trovador
                          é, por ela, apaixonado!

                                             Zenaide Braga Marçal – UBT-Fortaleza
                                             Fortaleza, 26 de janeiro de 2017 

Fontes de pesquisa:
La Poesie Occitane – René de Nelli
Documentos – Gutemberg Liberato de Andrade
Literature Française Pour les Nuls – Jean Joseph Julau
Panorama da Literatura Portuguesa – Roberto Cereja e Thereza Magalhães


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

PENSAMENTO DO DIA



"A Dignidade e a democracia de um país passam pelas críticas e observações de sua Imprensa". 
(Jornalista e Radialista Vicente Alencar, Fortaleza-CE).

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

FERREIRA GULLAR: SÓ AQUILO QUE NÃO SE SABE PODE SER POESIA



“Ferreira Gullar morreu e a mídia nacional deu muito destaque a ele. Mas deu um destaque parcial e distorceu os conceitos políticos que esse grande poeta brasileiro amadureceu ao longo de sua vida... Pouco foi dito da mudança radical que ele experimentou, abandonando, mesmo, a ideologia comunista...

 Vejam por que ele abandonou a esquerda e sua experiência vivida nos países comunistas...

Ferreira Gullar foi militante do Partido Comunista Brasileiro e, exilado pelo regime militar, viveu na União Soviética, na Argentina e Chile.

 Gullar dizia que “bacharelou em subversão” em Moscou durante o seu exílio, mas que devido a uma maior reflexão e experiência de vida se desiludiu com o socialismo.

Em homenagem a esse grande poeta brasileiro, resgatamos a visão de Ferreira Gullar sobre o capitalismo, o socialismo, o governo e o mundo em que vivemos por meio de 10 textos proferidos por ele em entrevistas e artigos.”
.
Sobre a esquerda: “Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é.”

Sobre o capitalismo: “O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível. A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro. É óbvio que um governo central com seis burocratas dirigindo um país não vai ter a capacidade de ditar rumos a esses milhões de pessoas. Não tem cabimento”.

Sobre a “exploração” capitalista: “A luta dos trabalhadores, o movimento sindical, a tomada de consciência dos direitos, tudo isso fez melhorar a relação capital-trabalho. O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produz a riqueza é o trabalhador, e o capitalista só o explora. É bobagem. Sem a empresa, não existe riqueza. Um depende do outro. O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas. A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só explora é radical, sectária, primária. A partir dessa miopia, tudo o mais deu errado para o campo socialista”.

Sobre a desigualdade social: “A própria natureza é injusta e desigual. A justiça é uma invenção humana. Um nasce inteligente e o outro burro. Um nasce inteligente, o outro aleijado. Quem quer corrigir essa injustiça somos nós. A capacidade criativa do capitalismo é fundamental para a sociedade se desenvolver, para a solução da desigualdade, porque é só a produção da riqueza que resolve isso”.

Sobre a militância no Partido Comunista durante a ditadura militar: “Eu fui do Partido Comunista, mas era moderado. Nunca defendi a luta armada. A luta armada só ajudou mesmo a justificar a ação da linha dura militar, que queria aniquilar seus oponentes. (As pessoas do partido Comunista) não lutavam por democracia, mas pela ideologia Comunista, e estavam sinceramente equivocadas. Você tem de ter uma visão crítica das coisas, não pode ficar eternamente se deixando levar por revolta, por ressentimentos. A melhor coisa para o inimigo é o outro perder a cabeça. Lutar contra quem está lúcido é mais difícil do que lutar contra um desvairado”.

Sobre o socialismo: “O socialismo fracassou. Quando o Muro de Berlim caiu, minha visão já era bastante crítica. A derrocada do socialismo não se deu ao cabo de alguma grande guerra. O fracasso do sistema foi interno. Voltei a Moscou há alguns anos. O túmulo do Lênin está ali na Praça Vermelha, mas, pelo resto da cidade, só se veem anúncios da Coca-Cola. Não tenho dúvida nenhuma de que o socialismo acabou, só alguns malucos insistem no contrário. Se o socialismo entrou em colapso quando ainda tinha a União Soviética como segunda força econômica e militar do mundo, não vai ser agora que esse sistema vai vencer. O socialismo acabou, estabeleceu ditaduras, não criou democracia em lugar algum e matou gente em quantidade”.

Sobre a ideologia marxista:“Frequentemente me pergunto por que certas pessoas indiscutivelmente inteligentes insistem em manter atitudes políticas indefensáveis, já que, na realidade, não existem mais. Estou evidentemente me referindo aos que adotaram a ideologia marxista, que, de uma maneira ou de outra, militaram em partidos de esquerda, fosse no Partido Comunista, fosse em organizações surgidas por inspiração da Revolução Cubana”.

Sobre Cuba: “Não posso defender um regime sob o qual eu não gostaria de viver. Não posso admirar um país do qual eu não possa sair na hora que quiser. Não dá para defender um regime em que não se possa publicar um livro sem pedir permissão ao governo. Apesar disso, há uma porção de intelectuais brasileiros que defendem Cuba, mas, obviamente, não querem viver lá de jeito nenhum. É difícil para as pessoas reconhecer que estavam erradas, que passaram a vida toda pregando uma coisa que nunca deu certo”.

Sobre a política de “psiquiatria democrática” adotada pelo governo (Ferreira Gullar teve dois filhos com esquizofrenia): “Existe uma política que o governo adotou, chamada ‘psiquiatria democrática’, que é um absurdo. Impede a internação. Eles acabaram com mais de quatro mil leitos. Por que chama “psiquiatria democrática”? Porque não interna. Mas é uma bobagem, ideológica, cretina, que não tem nada a ver com essa doença real. Eu, que lidei com essa doença, sei muito bem que não tem nada disso. Quando uma médica veio com essa conversa, perguntei: É a sociedade que adoece o doente mental? A doença mental não existe? É a sociedade que faz ficar doente? O fígado adoece e o cérebro não adoece? Por quê? É o único órgão divino?”


Sobre o mundo atual e a poesia: “O mundo aparentemente está explicado, mas não está. Viver em um mundo sem explicação alguma ia deixar todo mundo louco. Mas nenhuma explicação explica tudo, nem poderia. Então de vez em quando o não explicado se revela, e é isso que faz nascer a poesia. Só aquilo que não se sabe pode ser poesia”.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

UM POEMA DE MARIA ODILA MENEZES




PASSAPORTE DO TEMPO

Com o passaporte da vida
Permito-me viajar
Envelheço, ponteiro anda
Acusando chegadas e partidas
Portos desconhecidos
Momentos passageiros
Tripulação não para
Sigo com humildade
A memória reverencia
Meu mundo antigo
Absoluto, permanente
Até que no convés
Espero a hora da partida.

(do livro Iluminuras)

sábado, 7 de janeiro de 2017

UM POEMA DE VICENTE ALENCAR



LIBERDADE
Vicente Alencar

A liberdade de criar
pertence ao coração.

Ele chama, conversa,
dita o que quer
e o que deseja.

Todo seu corpo
atende ao chamado.

Ali naquele momento
és apenas um ser
que ama.

Nada impedirá
seus pensamentos,
sua paixão,
o seu conforto de querer.

A liberdade de criar
faz seu coração dizer
tudo o que quer.

E você se encanta
e até se espanta
com tanto amor.


 (in "POESIAS ENTRANDO PELA NOITE")

sábado, 31 de dezembro de 2016

FELIZ ANO NOVO! - POEMA DE GISELDA MEDEIROS


Feliz Ano Novo!
Giselda Medeiros


O ano começa...
Uma nova luz te chegará
pela primeira aurora.
E teus sonhos serão sóis,
que hás de conservar ardendo,
sempre em chamas.
Eles te impulsionarão,
da aurora ao arrebol de cada dia
da tua vida!
A felicidade, então, te sorrirá,
em asas e plumas,
mesmo na languescência
dos poentes...
E A LUZ!
A luz do teu sonho
virá, sempre,
pela madrugada sangrenta,
e desabrochará,
linda e majestosa,
em pétalas!
Faça-se a Luz!
Feliz Ano Novo!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

MENSAGEM DE NATAL - PAPA FRANCISCO


  O Natal costuma ser sempre uma ruidosa festa; entretanto se faz necessário o silêncio, para que se consiga ouvir a voz do Amor.
      Natal é você, quando se dispõe, todos os dias, a renascer e deixar que Deus penetre em sua alma.
      O pinheiro de Natal é você, quando com sua força, resiste aos ventos e dificuldades da vida.
      Você é a decoração de Natal, quando suas virtudes são cores que enfeitam sua vida.
      Você é o sino de Natal, quando chama, congrega, reúne.
      A luz de Natal é você quando com uma vida de bondade, paciência, alegria e generosidade consegue ser luz a iluminar o caminho dos outros.
     Você é o anjo do Natal quando consegue entoar e cantar sua mensagem de paz, justiça e de amor.
     A estrela-guia do Natal é você, quando consegue levar alguém, ao encontro do Senhor.
     Você será os Reis Magos quando conseguir dar, de presente, o melhor de si, indistintamente a todos.
      A música de Natal é você, quando consegue também sua harmonia interior.
      O presente de Natal é você, quando consegue comportar-se como verdadeiro amigo e irmão de qualquer ser humano.
      O cartão de Natal é você, quando a bondade está escrita no gesto de amor, de suas mãos.
      Você será os “votos de Feliz Natal” quando perdoar, restabelecendo de novo, a paz, mesmo a custo de seu próprio sacrifício.
      A ceia de Natal é você, quando sacia de pão e esperança, qualquer carente ao seu lado.
      Você é a noite de Natal quando consciente, humilde, longe de ruídos e de grandes celebrações, em silêncio recebe o Salvador do Mundo.
      Um Feliz Natal a todos que procuram assemelhar-se com esse Natal.
                                                                                                                     Papa Francisco


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

INAUGURAÇÃO DA BIBLIOTECA MARCELO LINHARES, DA ACADEMIA FORTALEZENSE DE LETRAS

FOTOS DA ASSINATURA DE CONTRATO DE COMODATO ENTRE FARIAS BRITO E ACADEMIA FORTALEZENSE DE LETRAS.
INAUGURAÇÃO DA BIBLIOTECA MARCELO LINHARES E DO ESPAÇO DA PALAVRA.









domingo, 4 de dezembro de 2016

MORRE, AOS 86 ANOS, O POETA FERREIRA GULLAR



Indicado ao Nobel de Literatura e detentor de dois Jabutis e do Prêmio Camões, escritor maranhense é conhecido por obras como "Muitas Vozes" e "Poema Sujo", considerado sua obra-prima. Ele morreu de pneumonia.

Gullar, cujo nome verdadeiro era José de Ribamar Ferreira, era membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2014. Ele nasceu em São Luís do Maranhão em 10 de setembro de 1930.
O maranhense descobriu a poesia moderna aos 19 anos de idade, ao ler Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Segundo perfil no site da ABL, de início, o jovem ficou escandalizado, mas logo se tornou um poeta experimental radical.

"Eu queria que a própria linguagem fosse inventada a cada poema", disse ele. Em 1954, o livro A Luta Corporal o lançou no cenário literário. Os últimos poemas do livro provocariam o surgimento na literatura brasileira da "poesia concreta", de que Gullar foi um dos participantes. Mais tarde, ele passou a integrar o grupo neoconcreto, formado por artistas e poetas do Rio de Janeiro.
Gullar levou suas experiências poéticas ao limite da expressão, criando o Livro-Poema, o Poema Espacial e o Poema Enterrado. Este consiste numa sala no subsolo a que se tem acesso por uma escada; após penetrar no poema, deparamo-nos com um cubo vermelho; ao levantarmos este cubo, encontramos outro, verde, e sob este ainda outro, branco, que tem escrito numa das faces a palavra "rejuvenesça".

Luta política
Depois do Poema Enterrado, Gullar partiu para a luta política revolucionária. Ele aderiu ao Partido Comunista e passou a escrever sobre política e participar da luta contra a ditadura militar. Teve, então, de recorrer ao exílio em Moscou, Santiago do Chile, Lima e Buenos Aires.
Durante o exílio na capital argentina, ele escreveu o Poema Sujo, que com quase cem páginas é considerado sua obra-prima, tendo sido traduzido para várias línguas e publicado em vários países.
No campo do teatro, após o golpe militar de 1964, o escritor e um grupo de dramaturgos fundaram o Teatro Opinião, que teve importante papel na resistência à ditadura. Com Oduvaldo Vianna Filho, Gullar escreveu as peças Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come e A saída? Onde fica a saída?

Retorno ao Brasil e prêmios
O poeta voltou ao Brasil em 1977, e foi preso e torturado. Libertado por pressão internacional, ele voltou a atuar na imprensa carioca e, depois, como roteirista de televisão. Em 1980, Gullar publicou Na vertigem do dia e Toda Poesia, livro que reuniu toda sua produção poética até então.
Em 1999, ele publicou Muitas Vozes, que recebeu os principais prêmios de literatura daquele ano. Três anos depois, foi indicado para o Prêmio Nobel de Literatura.

Ele foi agraciado com o Prêmio Jabuti duas vezes, em 2007 e 2011, por Resmungos e Em Alguma Parte Alguma, respectivamente. Em 2010, Gullar recebeu o Prêmio Camões, o mais importante prêmio literário dos países de língua portuguesa.

POEMA DE FERREIRA GULLAR


Traduzir-se
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?