segunda-feira, 27 de junho de 2016

NEOLOGIA NECESSÁRIA

NEOLOGIA NECESSÁRIA
Vianney Mesquita*


Pouca necessidade de pensar experimentam aqueles que nunca precisam de palavras novas.

Com assento na sentença epigrafada, de autoria do literato italiano Arturo Graf, de tripla nacionalidade, procedente de alemães, nascido em Atenas e com registro de óbito em Turim (19.01.1848 – 31.05.1913), firo este comentário acerca de um pequeno busílis, por mim topado, sempre que se me depara algum escrito acerca da produção, comercialização, cultivo e movimentação agrícola e econômica do coco-da-baía, principalmente, e outros componentes palmáceos alimentares, amanhados como produtos para circulação no mercado, classificados como pertencentes a um só gênero Coco  – catulé, bocaiúva, macaúba, coco-espinho etc – os três derradeiros, notadamente, para natural sustento alimentaranima vili.

Não custa referir, pois é ensejado, ao fato de que o babaçu, que no Nordeste do Brasil é tomado pelo vulgo como “coco-babaçu”, não é parte do gênero Coco, mas pertence ao Orbygnia phalerata, além de constituir bem econômico de regular monta no âmbito do comércio de produtos de procedência agrícola no País.

Mencionados estudos, cujos textos relatoriados são por mim transitados para revista, procedem de programas brasileiros de pós-graduação em Agricultura, stricto sensu (com exame extensivo aos outros dois setores da produção), por exemplo, da Universidade Federal de Viçosa, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz – ESALQ (USP-Piracicaba), Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA-Mossoró) e, nomeadamente, oriundos do Curso de Economia Rural, da Universidade Federal do Ceará, Campus do Pici, aqui em Fortaleza, um dos melhores programas de pós-láurea em curso no Brasil.

O embaraço reside exatamente em determinar um substantivo para bem retratar, nos relatos de suas investigações, a atividade agrícola-econômica representada pelo Coco nucifera – Linn.1757, uma das dezenas de espécies, da família Arecaceae, inserta no gênero único de taxinomia do coco, o coco-da-baía, principal cultivar dessa classificação, estudado em nossas escolas sob o prisma científico, na conjunção dos vários ramos do disciplinamento ordenado a envolverem seu exame.

Este impedimento não sucede, v.g., com a cultura do café, à qual, sem qualquer percalço de ordem gramatical, linguística e elocutória, se concedeu o nome cafeicultura, com o “i” do meio fazendo a ponte com os dois substantivos para formar o asserto híbrido, a fim de não retratar ideação diferente (café-cultura, estabelecimento onde se toma café e se cultivam temas em geral,café-livraria), bem assim – e, principalmente – com vistas a obedecer às regras de formação vocabular da Língua Portuguesa, cujo trato, por não ser asado o ensejo, não há de vir agora à colação.

A igual acontece com citricultura, relativamente a cítricos (gênero Citrus, família das rutáceas), plantação, cultura e exploração econômica, por exemplo, de laranja e limão. E, assim, com sericicultura – criação do bicho-da-seda (Bombryx mory), beneficiamento, industrialização e comercialização da seda; comolericultura – cultivo e acrescentamentos econômicos de legumes; mangiferacultura – plantação, acompanhamento dos cultivares de manga (Mangica indica); rizicultura ouorizicultura – cultura e economia do arroz (Oriza sativa); e tantas outras ações agroeconômicas de ofício dos três setores produtivos.

O problema não subsistiria, caso a dicção coco não sugerisse, colada à sequente, a formação de expressões cacofônicas, o registo de cacófato - palavra de som feio, desagradável, discorde ou com sentido errado, advinda dos sons de dois termos juntos; e de unidade de ideia obscena, grotesca ou descontextualizada, proveniente da sílaba final de um vocábulo e a inicial do outro. Isto se dá em decurso de um termo seu homógrafo imperfeito, parônimo – cocô – representativo de excremento e coisa de má qualidade.

Desta sorte, convenhamos, é defesa, por absolutamente descabida, a referência a “cococultura” (aqui como a sugestionar um exame parasitológico de material excrementício), ou a “cocoicultura”, cujo “i” certa pessoa já sugeriu como ligação, a fim de reduzir o efeito da cacofonia, no entanto (me parece), ideia desprovida de sucesso. No tentame de aportar a uma solução, outras insinuações vocabulares apareceram, entretanto, deseixadas de ideação lógica e revéis às normas de formação glossológica em Português, como nos casos de coquicultura, ecocucultura – este que me ressoa ainda mais desarrazoado.

Louvado, com efeito, na configuração latina da denominação taxinômica efetivada pelo célebre e operoso naturalista sueco Carlos de Lineu, em 1757 – Coco nucifera – penso haver encontrado uma proposição verossimilhante, consistente em ajuntar, como primeiro elemento do hibridismo ora sugerido, a palavra nucifera, (+ cultura) com esteio nas razões aduzidas na sequência.

Impende-me, então, elucidar, considerando, em primeiro lugar, o fato de que alguém aventou – e os lexicógrafos, inadvertidamente, aceitaram, introduzindo o verbete nas obras de referência – a expressão nucicultura, como representativa da intenção de “cultura de nozes”, todavia procedente apenas das diversas ocorrências de nogueira, como, por exemplo, nogueira-americana ou nogueira-pecã (carya illynoensis), nogueira-brasileira ou nogueira-de-iguape (Aleurites mollucana), nogueira comum (Juglans regia), nogueira-da-austrália ou macadâmia (Macadamia ternifolia) et reliqua.

Conquanto, sob o prisma da evolução histórica, nuci se reporte a nogueira, a inserção definitiva e oficial da unidade de ideianucicultura, especificamente para nogueira, nos dicionários é, sem dúvida, no mínimo, apressada, porquanto nuci, como antepositivo, do Latim, alcança todo fruto com amêndoa, castanha, noz e outros, como o são, exempli gratia, a castanha-de-caju, fruto do cajueiro (Anacardium occidentale) – pegada ao pedicelo comestível (caju), bem como todas as espécies do gêneroCoco (único).

De tal maneira, pelo fato de estar permanentemente sob registro lexicográfico, é interdito se empregar nucicultura, a não ser para o bem originário das diversas espécies dessas árvores produtoras de nozes – ficando de fora coco-da-baía, catulé ou babão, macaúba, macaíba e quaisquer outras palmáceas.

A sugestão, por conseguinte, é a de se cunhar a palavraNUCIFERACULTURA, a fim de descrever, para emprego nos textos de exame científico, a plantação, o cultivo e seus desdobres econômicos – evidentemente com os inerentes nexos sociais – uma vez que a palavra é bem formada, de nuci – envolvendo todo fruto com noz – somada a fera, também Latim, elemento pospositivo, representativo de “que traz”, “conduz” – isto é, feito de nozes.

Malgrado em detrimento das demais espécies do gênero Coco, as quais praticamente não possuem representatividade econômica, sendo parcas, por tal pretexto, referências mais alentadas na literatura da Economia Agrícola, sobra, pois, como alvitre a expressão neológicanuciferacultura, para aplicação em textos de manifestação do saber parcialmente ordenado relativo a coco-da-baía (Coco nucifera).

Minha expectativa é de que, dentro em poucos anos, os glossários das ciências ditas aziendais, ligadas ao ecúmeno rural, incorporem a sugestão, restando, também, a probabilidade de, em poucos decênios, ou mesmo antes, os dicionários oficiais da Língua Portuguesa, circulantes nos nove países lusofônicos, apropriarem a elocução, ao jeito como procederam com relação à unidade de ideia nucicultura, devidamente em si consignada em tempo relativamente curto.

sábado, 25 de junho de 2016

NOTA JORNALÍSTICO-LITERÁRIA



NOVO LIVRO DE VIANNEY MESQUITA

     Estão sob editoração nas oficinas da Expressão Gráfica, casa publicadora de Fortaleza, os originais do vigésimo livro do imortal e titular das Academias Cearenses da Língua Portuguesa e de Literatura e Jornalismo, Vianney Mesquita, o qual ficará pronto ao cabo de trinta dias (25 de julho de 2016), conforme programado pela Editora.
          O volume Esboços e Arquétipos (Língua, Ciência e Literatura) encerra quatro módulos: um de Língua, com três capítulos, outro de Ciência, reunindo, também, três segmentos temáticos; o terceiro tem como recheio assuntos literários – nomeadamente crítica, com doze capítulos; a quarta seção compreende Literatura Passiva, envolvendo apreciações acerca da obra do Escritor, em quatro partes, assinadas pelos escritores coestaduanos Dimas Macedo, Edmar Ribeiro, Batista de Lima e Régis Kennedy G. Cruz.
          As guarnições são da lavra do Prof. Régis Kennedy, o qual abre os comentários com a opinião do Prof. Dr. João Bosco Feitosa, da Universidade Estadual do Ceará, para quem Mesquita, [...] além de um arquiteto a posteriori, é um restaurador de ousadias, um educador de inspirações para quem teima em se comunicar por textos, em meio a contextos que desafiam e expõem nossa emoção e esforços de produzir ciência.
          Régis Kennedy, a seu turno, expressa a ideia de que [...] Aprecio o elo por ele procedido da palavra com a Palavra, agora com este trabalho – Esboços e Arquétipos – Língua, Ciência e Literatura – ao trazer ensaios literários multivariados, porém alargando o temário de sua prosa, para cobrir conceitos, também, de teores da Língua Portuguesa e Filosofia da Ciência [...].
          A capa, elemento que concede o ensejo de se apreciar a arte desemparelhada do professor, escritor, artista plástico e acadêmico cearense Geraldo Jesuino, homenageia três ícones do conhecimento mundial em todos os tempos – Isaac Newton (Ciência), Luiz Vaz de Camões (Língua) e James Joyce (Literatura) - ao lado de seus pares, em alcance intelectivo, constituídos por outro trio de próceres do saber – estes, cearenses:
          - Doutor Manassés Claudino Fonteles, docente da Faculdade de Medicina da UFC, ex-reitor da Universidade Estadual do Ceará e da Universidade Mackenzie, de São Paulo, imortal-titular das Academias Brasileira e Cearense de Medicina, pesquisador de crase internacional e autor de centenas de textos científicos editados em magazines da área em todo o Mundo, no livro representando, com seu par Isaac Newton, o segmento da Ciência, no plano internacional, ali privilegiado;
          - Professor Myrson Melo Lima, da UECE e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará - IFCE, docente dos mais latos conhecimentos e ilimitados recursos no que respeita ao Código Linguistico Lusitano, autor didático de renome (vejam O Essencial do Português - 6. ed., Fortaleza: ABC, 2007), posando com Luiz Vaz de Camões como embaixadores mundiais do módulo Língua, em Esboços e Arquétipos; e
- Escritora Giselda Medeiros, lídima representante, em matéria de qualidade, dos gêneros ficção, poesia e crítica, é componente imortal das Academias Cearenses de Letras e da Língua Portuguesa, das Academias Fortalezense de Letras e de Letras e Artes do Nordeste – ALANE, e da União Brasileira de Trovadores. Registra, entre outros trabalhos publicados, Alma Liberta (1986), Tempo das Esperas (2000), Sob Eros e Thanatos (2002) e Crítica Reunida (2007). É detentora de muitos prêmios literários, pois escritora de fino veio, além de pessoa – a igual dos dois outros cearenses homenageados na capa - de alçada baliza moral e apurado traço amistoso e social. Giselda Madeiros está ao lado do romancista, contista e poeta irlandês (expatriado) James Joyce, investida, no novo trabalho de Mesquita, como representante global da Arte de Escrever.
          O escritor agente destas notas, consoante expresso na quarta capa de Esboços e Arquétipos - Língua, Ciência e Literatura, recebeu da Professora Doutora Joseneide Franklin Cavalcante (in memoriam), o sequente comentário, reproduzido de Repertório Transcrito (MESQUITA, 2000) e respeitante ao trabalho do mesmo autor, sob o titulo de Resgate de Ideias (1996):
          [...] Sobre o Vianney Mesquita escritor, agora mais maduro e profundo, repito minhas palavras de ontem: à semelhança de Michelangello, esculpe cada frase, cada construção. As palavras são seu mármore, a pena (agora, o computador) seu cinzel, a pureza das formas seu modelo, a busca da perfeição sua exigência. Seus escritos são Moisés que adquiriram a própria voz e dele se libertaram, ganharam autonomia. As palavras, artesanalmente trabalhadas, vão ganhando formas, muito suas, e que poderão ser tão variadas quanto ele as queira variar, mantendo, entretanto, a elegância e a pureza de uma língua nacional que, agonizante, deveria suplicar, em favor da sua sobrevivência, por um Vianney Mesquita que já quase não se consegue encontrar [...].
          Esboços e Arquétipos – Língua, Ciência e Literatura (Expressão Gráfica), do escritor palmaciano, fundador e ocupante da Cadeira número 1, da Arcádia Nova daquela Cidade (Palmam qui meruit ferat), terá lançamento festivo em agosto deste ano, nas dependências da Universidade Federal do Ceará.         

domingo, 12 de junho de 2016

HOMENAGEM AOS NAMORADOS



Aos namorados, no seu dia, a homenagem da POESIA, para que, hoje e sempre, vivam felizes, com a doçura do sorriso terno e a energia vivificante do abraço. Parabéns!


CANÇÃO DA ENTREGA
Giselda Medeiros

Deixa-me assim,
pequenina entre teus braços,
nesta paz de pedras adormecidas
a esperar as águas que virão
do teu mar.
Quero esta paz imensa de madrugada
que faz tremer, mais nada.
Depois, o extremo...
Quero o fremir, o grito
que acenderá as luzes de poemas,
lírios despetalados.
Abrir-te-ei minha alma
- a corola -
e nela pousarás qual afoito colibri
na rosa
ao sopro da canção que te escrevi.
Aí, seremos água e fonte
e asas riscando os horizontes.

sábado, 4 de junho de 2016

RUY CÂMARA PRESTA HOMENAGEM PÓSTUMA AO POETA JOSÉ TELLES


ELEGIA PÓSTUMA AO MEU AMIGO, POETA JOSÉ TELES.
Ruy Câmara


“Quantos mistérios se ocultam no ato de morrer?”, indaguei-me na chegada e fiz um gesto solene ao ver o vate de Bitupitá, meu amigo de todas as horas, José Telles, deitado com as pálpebras entreabertas sobre um olhar espiritualizado, movendo apenas os braços e os lábios retorcidos, como se aquela impassividade de cadáver fosse o último recurso para suportar resignadamente os incômodos das dores e das suas consequências.

Nenhuma posição no leito era de conforto, mas a sua consciência parece resistir melhor ao caos do que o corpo em ruínas, uma ruína que aparentemente era restaurada pelo silêncio que embotava todos os olhares.

Apesar de tudo, nosso poeta riu às escâncaras ao ouvir a voz do amigo Carlos Augusto Viana, que acabara de sentar ao lado: Ah se nesse saco de soro tivesse uma meiota de whisky! Em seguida sentou-se e pediu a Aninha uma dose de whisky antes de recitar um trecho de “A Sagração dos Ossos”, uma ode à Ivan Junqueira, quem por força das circunstâncias dorme em sua tumba no Cemitério do Rio de Janeiro. Após um breve silêncio a voz trêmula do Carlos Augusto ecoou no quarto:
Os mortos sentam-se à mesa, mas sem tocar na comida; ora fartos, já não comem / senão côdeas de infinito. Quedam-se esquivos, longínquos / como a escutar o estribilho / do silêncio que desliza / sobre a medula do frio. Sei de mortos que partiram / quase vivos, entre lírios / outros sei que, sibilinos, furtaram-se às despedidas.

Eis que o Vate de Bitupitá arregalou os olhos e disse: Aquilo a que em geral chamamos vida nada tem de comum, mesmo na mais feliz das suas expressões, como essa outra banda da vida que agora conheço e que sofro minuto a minuto, segundo a segundo! Não! Já não há minutos, já não há segundos! O tempo vai desaparecer. É a eternidade que reina, uma eternidade daninha, feita de mistérios! ”
O calor causticante das palavras incandescentes do poeta José Telles invadiram o quarto para apressar a decisão de quem estava prestes a se desvencilhar dos turbilhões caóticos do mundo opaco em que se encontrava, mas que, por uma razão indesvelável, ainda parecia rir das próprias agonias, e também dos nossos olhares ocio¬sos, banhados de zelo, os quais, de tanta comoção, pareciam crispá-lo de energias rígidas, deprimidas, tanto que me perguntei: “De onde ele retira forças para enfrentar as turbulências existenciais e o vazio que supomos conter na alma? Como enfrentar as ameaças alucinantes diante do inexplicável, preso ao corpo que, mesmo pálido e frágil ainda ousa o prazer de um devaneio?
Para quebrar o tédio, peguei o celular e disse: “Ouça esse música amigo Telles.” Nos primeiros acordes percebi que seus sentidos estavam bastante atentos à sintonia do repertório de Denise Emmer, musicada em elegia ao poeta Ivan Junqueira. Magdala, Aninha, Carlos Augusto e Eu, vimos que as notas musicais extraídas com suavidade das mãos delicadas da bela e exímia pianista, agiam sobre o nosso poeta como um bálsamo benigno, retirado de uma fonte inesgotável de amor, de cujo poder pacificador superou muitas vezes o da ingestão dos fármacos e das substâncias alucinógenas para conter suas dores, de cuja sensação de hilaridade produziria nas próximas horas uma felicidade ébria, absoluta, ou algo mais poderoso com o qual a vida ganharia uma conotação egocêntrica, em que todos os esforços só serviriam para acirrar o conflito da desincompatibilização carne-espírito, obviamente depois de sugerir uma paz enlanguescedora, tão frágil quanto o fio de vida que se liga às concepções mais tênues de um mundo incompreensível a um espírito generoso e circunspecto, um espírito duro e manso que permanecia atenazado na fronteira da existência por um sorriso carregado de esperanças, a requerer, de um lado, a compreensão dos amigos, e do outro, a esperada benevolência da morte.

Como nos velhos tempos em que uma ampola de Whisky inebriava os nossos sonhos, naquele quarto sufocante o poeta via os amigos inquietos, aflitos, como se cada um acalantasse o secreto desejo de vê-lo poupado na próxima agonia. Mas, apesar da náusea, ele permanecia atento a tudo, talvez porque não lhe aprazia chegar à beatitude por meios artificiais, como a beatitude dos loucos, que recebem uma calma injetável, de onde eclodem sonhos dantescos, a embriaguez misteriosa, os ideais sem nexo, até o momento em que são libertados dos sonhos sádicos das almas acrisoladas por etéreos soníferos, ou pelos mistérios que virão a possuí-los, como a aurora boreal possui a beleza de si mesma diante do esplendor de um poema contemplativo que surgirá no momento em que tudo parece se extinguir.
Nosso poeta já dormia com as suas glórias, mas no quarto onde a família estava, a noite de vigília seria longa. Quem o visse preso ao leito de morte, entendia a proibição surda que o impedia de comentar sobre o quanto é difícil a hora decisiva. Mas José Telles, um durão-crônico, mantinha-se impávido naquele instante singular, e parecia retirar da música de Denise Emmer a energia amena de uma prece benigna que brotara da alma de Ivan Junqueira, como se brotasse de um Ser majestoso que não cobra servidão aos vencidos no Armagedom.

Como num passo de lucidez, as alegrias que povoaram repentinamente os seus pensamentos, se entrelaçaram com as convicções de que é verdadeiramente amado por todos. Sua ¬consciência parecia inundada de recordações e viajava nas asas dos versos proféticos, acom¬panhando o ritmo harmonioso que invadia seu corpo, palco de uma luta horrenda, extenuada.

Naqueles instantes lentos, os acordes finais de Denise Emmer duraram uma eternidade, ao certo, a categoria mais abrangente da totalidade. “É provável que ele tenha dito para si mesmo: “Enfim, enfim, eu amei a vida e as musas, e por amá-las tanto, tornei-me o mais cortejado dentre os poetas idealinos, ou talvez um dândi sexagenário que, mesmo sofrendo, não posso ignorar o lado doce da vida. ”
Há pouco recebi a triste notícia. Levantei-me, cravei a unha e arranquei o dia 02 de junho de 2016 do calendário, para dizer ao nosso poeta, amigo e irmão de todas as horas:

“Permita uma despedida poética, meu irmão Telles, se é que tu me escutas o íntimo, já que só o íntimo é capaz de traduzir a minha melancolia diante da fatalidade, esse estranho poder que vive a nos contrariar. Como bem dissestes um dia, para espanto dos amantes do delírio, um bom POETA já tem em vista o seu último verso quando escreve a primeira estrofe. Portanto, ele pode começar seu poema pelo fim e trabalhar, quando lhe agradar, em qualquer parte. É, pois, hora de recomeçar uma nova obra pelo fim, talvez o mais lícito e não menos desejado do que um poema perfumado de flores exóticas, por onde a tua essência flui com uma potência misteriosa que se entrecruza com o imperceptível e com o que aparentemente inexiste aos olhos da ciência e da moral. Não sabemos se é essa espécie de instinto poético que nos faz considerar que a sede insaciável de viver é o que nos opõe à morte e ao ignoto.

Seria a finitude uma suposição, o nada absoluto para onde tudo converge, ou um ponto onde se perpetua a imortalidade das essências? Ide, meu poeta José Telles, semeando os teus poemas mais suaves sobre os campos férteis da imortalidade, e quem sabe, com a tua luz benfazeja e generosa, consiga desvelar para todos nós, seus amigos e admiradores, o que verdadeiramente se oculta por detrás desse panorama suprareal que a nossa pobre imaginação não consegue desvelar. Despeço-me com o coração constrito, repetindo o último poema que recitamos juntos, numa noite ébria de desassossego no Ideal Clube:


Baixa uma névoa viscosa / sobre as pálpebras da aurora. / E ali, de pé, sob a estola de um macabro sacerdote, / sagro estes ossos que, póstumos / recusam-se à própria sorte, / como a dizer-me nos olhos: a vida é maior que a morte.

terça-feira, 31 de maio de 2016

A REEDIÇÃO DELEITOSA DA LITURGIA DO CAOS - Vianney Mesquita*


G l o s a  L i t e r á r i a

A REEDIÇÃO DELEITOSA DA LITURGIA DO CAOS                                                                       

Vianney Mesquita*

As ideias inflamam umas às outras como faíscas elétricas.
(JOHANN JACOB ENGEL, filósofo tedesco. Parchim, 11.09.1741 - 26.06.1802).


          Eis que me chegou de improviso, sem qualquer recado prévio e recebido de presente da parte do acadêmico Geraldo Jesuino, a segunda edição do cânon poético, objeto da titulação deste comentário, oriundo da colheita fartamente produtiva do ecumênico escritor Dimas Macedo.
            Lavrense dos mais ilustres, ele é componente de uma admiranda fileira de conterrâneos militantes em vários terrenos da produção intelectiva, com ativo fixo de 35 livros, dos quais foram sacadas várias reedições, fato que ajuda, em passant, a se mensurar, conquanto por cima, a axiologia qualitativa dos seus bens literários de raiz.
            Sem dúvida, é apontamento favorável, registo propício à história cultural da nossa Terra, recheio novo para seus armazéns caligráficos, não somente porque se esgotara a príncipe vintenária, cujo rebento foi delivrado em 1996, mas, em especial, pelo fato de que concede ao público mais verde na seara poética o lance de se aprofundar nos pés mimosos dos seus metros brancos, insuperáveis no engenho estrófico e inexcedíveis em fascínio e entusiasmo.
            O Cantor de Estrela de Pedra (1994) e Vozes do Silêncio (2003) detém uma lista fecunda com proveitos de boa monta até hoje publicados, aliás, evento pouco comum em se referindo a escritores do Ceará e de outras unidades federadas menores. Eo ipso, atraiu imensa aleia de admiradores, mediadores de nomeada, apreciadores honestos e desinteressados, arquitetos circunspectos da palavra, os quais o acolitam, às dezenas, ao retratarem com detenção e compostura analítica os seus escritos, enricando, pro rata tempore , o romaneio crítico afortunadamente amealhado por Dimas Macedo, em sua tematicamente multímoda pilha librária, iniciada em 1978, com a vinda a público de Cor de Estrela, contando ele 22 anos de idade.
            Para unicamente demarcar o sinal de seus haveres críticos, é suficiente informar o leitor de que, somente nas guarnições da segunda edição do Liturgia do Caos (2016), tem registo a opinião alçadamente positiva em nada menos de sete juízos analíticos, expendidos por figuras da intelectualidade nacional, em cujo meio se expressam, por exemplo, José Alcides Pinto, Jorge Tufic e Antônio Justa, acrescendo-se o Prof. Dr. Roberto Pontes, também escritor cearense de renome em todos os países de glotologia lusofônica, o qual assinou matéria, inserta  na quarta capa da edição sob comento, publicada no O Pão, de 10.12.1997.
            Sobejamente me apraz a mim, consequentemente, proceder a este registro, na convicção de que o livro transmitirá, segundo fez comigo, a mais completa satisfação a consulentes afeitos à poesia de alteada qualidade, ao jeito como soem ser as do Escritor lavrense – um das dezenas que há por aqueles pagos, a quem o Criador concedeu dotes, a destra cheia, para o ofício de edificadores de textos e portadores de outros apercebimentos científicos e culturais, a for dos casos - verbi gratia e entre os constantes de um alentado catálogo - de Almir (dos Santos) Pinto, João Gonçalves de Souza, Linhares Filho, Filgueiras Lima e Batista de Lima.
            Guardo com orgulho o fato de já haver tido sob glosa o meu antepenúltimo trabalho, intitulado Nuntia Morata – Ensaios e Recensões (2014), em subida exegese positiva do Prof. Dr. Dimas Macedo, ao mesmo passo em que armazeno a felicidade de ter logrado poder comentar livros seus – e com os aprovos e aplausos – como o ocorrido com A Metáfora do Sol e Direito Constitucional, seções de meu Reservas de minha Étagére – Aproximações Literocientíficas (no prelo).
            Desta arte e a jeito de fecho, performo novamente a expressão do meu júbilo pela ocorrência da segunda edição de Liturgia do Caos, do Prof. Dr. Dimas Macedo, livro a conceder à Arte Literária coestaduana o atestado de veracidade e essência, configurado no caráter de correção (desta literatura e da pessoalidade de seu Autor), e a peculiar inseparabilidade elocutória, cujo estilo o consulente bem aprestado conhecerá desde as primeiras linhas, mesmo sem ter visto sua assinatura, no âmago de sua [...] palavra lírica, telúrica, metafíisica, erótica, mutante, conforme dicção de Jorge Tufic, n’A Crítica, de Manaus – outubro de 1996.
            Glorifique-se, por derradeiro, um dos melhores poemas da segunda edição, a repousar no tratamento gráfico magistral concedido pelo Prof. Geraldo Jesuino da Costa, aformoseando, plástica e superfluamente, a então já copada e frutuosa árvore do nada caótico volume.

            Benedicamos Domino!

quarta-feira, 18 de maio de 2016

MAGISTRAL ESSE TEXTO DE ROSEMBERG CARIRY


Mestre Aldenir - meu herói

Conheci Mestre Aldenir ainda menino. Ver a apresentação do seu reisado, nas ruas descalças da periferia e na feira do Crato, era para mim um momento do mais puro encantamento. À frente dos seus guerreiros, mais valente do que Ferrabrás e mais alumioso do que Roldão, Aldenir era o Rei Carlos Magno, comandante de uma embaixada mágica, saída das brumas do tempo, dos romances de cavalaria, dos duelos sagrados entre mouros e cristãos, nas lonjuras da península ibérica e nos desertos sem fim do Magreb. 
 
Ao som do apito do jovem Mestre Aldenir, tocavam as violas, tremiam os pandeiros, ressoavam os surdos e os maracás. As polifonias que saíam dali enchiam o mundo com o lirismo dos versos e das melodias mais simples e comoventes. Eu assistia a assombrosas pelejas e batalhas do fim do mundo. O Mateus e a Catarina eram os bobos da corte, os subversores da lei, os portadores das heresias. Depois, vinha a bicharada esquisita, do reino do encantado.
 
Nas batalhas, erguiam-se espadas ligeiras e brilhantes, entre danças, ritos e gestos milenares. Os coloridos das roupas dos brincantes, bordadas com aplicação de pequenos pedaços de espelhos, refletiam o sol e faiscavam raios de alegria, enchendo de encantamento os nossos pequenos corações.
 
Naquele tempo, a fama do Mestre Aldenir já era grande. Certa vez, ouvi falar de uma embaixada de guerreiros alagoanos que veio a pé, até Juazeiro do Norte, para cumprir duas promessas. Uma feita ao Padim Ciço, guardada em segredos de penitências. A outra era encontrar-se com o Mestre Aldenir. Aquele guerreiro alagoano não buscava a disputa da dança de espadas e nem mesmo o torneio das canções mais belas. Queria simplesmente encontrar o Mestre Aldenir e aos seus pés depositar a sua espada, consagrando-o, assim, em rito de cavalaria, “o maior mestre de reisado do mundo”. Nesse tempo, para nós, meninos, o mundo era bem pequeno, talvez fosse do tamanho do Cariri. O Mestre Aldenir ficou sendo, assim, o rei de todos nós, meninos curiosos e andarilhos do Crato-Juazeiro-Barbalha, privilegiados habitantes do Reino do Encantado.
 
Neste tempo de crises, lembro-me do Mestre Aldenir e dos seus guerreiros. Se é certo que vivemos um tempo de fascismos e crueldades profundas, sob bota do Grande Capital, maior verdade é que o coração do povo é maior do que todas as tiranias. Confio no Mestre Aldenir e no seu exército popular alumioso, no menino que fui e em todos os meninos que farão o nosso futuro Brasil. Com eles unidos, em sonho e magia, sei que não haverá derrota. Não passarão! 
 
Rosemberg Cariry
cariri.filmes@uol.com.br
Cineasta e escritor

sábado, 14 de maio de 2016

O EMARANHADO EXPEDIENTE DO CONTO E AS APTIDÕES DE GERALDO JESUÍNO



APRECIAÇÃO LITERÁRIA

                                                                             Vianney  Mesquita


              O tempo, apesar da sua velocidade, move-se lentamente para aquele cuja preocupação é vê-lo passar.  (SAMUEL JOHNSON-Crítico literário e escritor eclético inglês. 18.09.1709 -13.12.1884).


1 INTRODUÇÃO

      Lembro-me, cristalinamente - no começo das Edições UFC, produtora editorial instituída pelo Reitor Paulo Elpídio de Meneses Neto, no final dos anos 1970 - do professor Geraldo Jesuino trabalhando capas e seções editoriais, por exemplo, de Os Doze Parafusos e Dizem que os Cães Veem Coisas, procedentes de um dos maiores contistas do Mundo - Moreira Campos, entre tantos outros, glória da literatura do nosso Estado.
             E ele o fazia para muitos literatos excepcionais, bons, sofríveis e maus, demandantes da Imprensa Universitária, a fim de submeterem suas produções àquele, já então, mestre dos haveres plásticos, insuperável – exprimo sem receio - em virtude, principalmente, da simbiose necessariamente por ele estabelecida com o tema objeto da representação estética configurada no invólucro do produto.
            Tal intenta expressar o fato de GJ não se atrever, já então, como se fora mero pintor de paredes – sem o estudo procedido de adrede - a concertar a toga do livro para se mostrar devidamente caiada, no entanto, sem qualquer liame com sua proposição sob o prisma do gênero e o espectro do enredo ou do estro, somente para se desincumbir mecanicamente do seu cometimento de operador gráfico.
            Modus operandi semelhante a este, absolutamente responsável e invejavelmente praticado por GJ no curso de dezenas de anos, levou, por exemplo, Ludwig Wittgenstein, lógico e matemático do Österreich, a não atender às insistências de seu mestre, Bertrand Russel, para que publicasse as ideias do primeiro, mesmo incompletas e imperfeitas, e até sem haver este resolvido todos os entraves da Lógica, o que, aliás, nunca poderia ocorrer.
            Entrementes, algumas pessoas, dotadas da meticulosidade que sempre presidiu ao caráter e vigilância profissional de GJ – num exemplo afeito ao caso, porém com distintas compreensões noutras circunstâncias – costumeiramente legitimam sua mudez editorial, remetendo-se a Immanuel Kant, na vagarosa expectativa de que suas compreensões sejam depuradas à perfeição, sem coima de erro, aos quais, como recomenda Tagore, não cerremos a passagem, porquanto a verdade é passível de ficar de fora.
            O fato é que o começo da trilogia criticista de Kant ocorreu publicamente apenas em 1781, quando o Filósofo prussiano já contabilizava 57 anos, pois, na Crítica da Razão Pura, ele já traçara os limites em que se há de exercer a razão especulativa, quando a pessoa resulta incapaz de aportar diretamente às verdades metafísicas. Eis que, porém, a Crítica da Razão Prática, na qual encontrou, ao modo de postulados, as verdades transcendentes, às quais a pura lógica é impossível ser elevada, sucedeu somente depois, no ano de 1788.
            No remate do seu criticismo, Kant, maduro e perfeito – conforme ainda não se achava GJ – mandou a público seu tratado a respeito do belo e do sublime, na Crítica do Julgamento, em 1790 – nove anos, então, para legar à Humanidade o tão apreciado Criticismo Kantiano.

2 O CONTO, ENFIM

            Não sendo defeso alçar GJ a IK, mutatis mutandis, como alude nas guarnições de Brumas o polígrafo a mancheias Pedro Salgueiro, Geraldo Jesuino começa, e no gênero dos mais difíceis, então como um Kant aprestado, considerando-se a noção de que o exercício salutar do pensamento nos leva a transpor as estremas do egoísmo, servindo de remédio para a alma sofrida e fortalecimento multiplicado para a sadia existência.
            A deleitosa leitura de Brumas (Fortaleza: Imprece, 2016) constitui lance venturoso, em que a reflexão se volve para o espírito, intermediada pela excelente literatura ficcionista, por via da qual se expressa o conto de qualidade, conforme os ali reunidos e sem remanescer nem faltar qualquer caractere gráfico ou cogitativo. Tem curso, então, o regalo imaginante, compartido pelos leitores, na propagação das imensas possibilidades vocabulares sob os mais distintos jeitos de interpretar, concedendo azo a demonstrações nas quais nem o literato houvera refletido. Esse portento da reflexão, deferência de Deus apenas aos hominídeos do estrato intelectivo de GJ, enleia e conforta a alma, depois do ardor da faina, ao abrandar horizontalmente o khrónos vital.
            São estes, pois, principalmente em GJ, o ofício da Arte, o objeto das Letras e um de seus melhores transportes – a estória breve e integral do conto. Consoante se reconhece quando do estudo, alcance e definição das diversas feições literárias enfeixadas nas escritas, esta craveira compositiva, além de ligeira e exata, admite somente um conflito, ação singular, dispensando a ramosidade de enredos secundários e completivos, assentidos pelos romances e novelas.
            Em Brumas, a igual do que sucede nas peças dos decantados contistas – Machado de Assis, Hans-Christian Andersen, Moreira Campos, Dalton Trevisan, Ernst Theodor Wilhelm Hoffmann, Fialho de Almeida et reliqua - as estórias de GJ vinculam-se a um número reduzido de personagens, com o argumento cosido em determinada unidade de tempo. Eis a razão por que as imposições estruturais ora referidas elidem do seu exercício – ou deveriam arredar - escritores ainda abstinentes e não visitantes desta prontidão raciocinativa e expressiva, concessora, ao conto, da combinação bem dosificada dos valores de intelecção e expressão solicitados pela obra d’Arte.
            Contrariamente, porém, ao acontecido com o conto, do qual GJ restou continente até a publicação de Brumas, haja vista somente agora haver tombado sequoia tão avelhantada e em momento de muito regozijo para as seis artes coestaduanas, decerto porque desnecessário, ele não guardou parcimônia no concernente às apreciações críticas. Isto porque, há dois anos, por exemplo, escreveu monumental ensaio a respeito da obra Poesia do Brasil e do Mundo de Hoje, do imortal Rogério Bessa, de tão sublime força argumentativa ao ponto de me haver retirado de ligeira contingência ferial literária, quando levei a público o artigo intitulado “Prosa Alçadamente Professoral de Geraldo Jesuino da Costa”, na Revista da Academia Cearense da Língua Portuguesa (38:12, 2015); e, enfeixado em volume de 2014 (Como Abraços. Fortaleza: Imprece Editora), GJ publicou “Estrigas/Bandeira”, para o livro de Estrigas, denominado Bandeira, a Permanência de um Pintor, bem assim, entre outros ajuntados no mencionado compêndio (acerca do qual escrevi para a Academia Cearense de Literatura e Jornalismo a apreciação literária sob o titulo de “Pequeno no Tamanho e Grande na Conquista”), editou “Estrela, comparte de Palavra, Vida Minha, de Inez Figueiredo.
            Ao diverso de haver perfilhado, tardiamente - contudo, sem falta - a dificílima grade do conto, já em 1984 – faz 32 anos – Geraldo Jesuino da Costa procedeu ao estudo introdutório de meu volume de estreia – Sobre Livros – Aspectos da Editoração Acadêmica (Brasília: Proed-MEC; Fortaleza: Edições UFC). Neste comenos, ele já se fazia escritor maturado no estudo constante, ao conformar o mister de artífice editorial para envolver com o continente da sua criação (capas, títulos, diagramações) os conteúdos similares das produções a si confiadas. Esse exercício era desenvolvido, muita vez, nos ordinários desvãos da vida e insulado nas águas-furtadas da atividade editorial cearense, nem sempre muito tranquila em razão dos embaraços recorrentes na relação dos autores com as demais frações do complexo editorial.
            Ponto de realce sensível, liminarmente, nos contos deste livro de Geraldo Jesuino da Costa descansa na largueza de aplicação da Língua Portuguesa, sob comento na seção seguinte, pois o autor, discordantemente do modo de muitos procederem, elegeu para emprego todo o código glossológico lusitano, sem se importar com estratos, tampouco regiões, muito menos com a escolaridade dos leitores.
            Com isso, alcança mostrar suas personagens e denotar diálogos, sem se impor limites no ofício de narrador, como nos casos em que recorre, amiúde, a palavras e expressões acerca das quais alguém com juízos mais hiperbólicos poderia debitar à partida dobrada dos dialetos e até de patois, não registados no Brasil, em raro favor dessa extraordinária Língua Nacional.

3 AMPLO EMPREGO DA LÍNGUA PORTUGUESA

            No segmento “Palavras que Ensinam”, constante de Nuntia Morata – Ensaios e Recensões (Fortaleza: Expressão Gráfica, 2014, 368 pp), eu já exprimia a ideia – não custa repetir - de que as produções do autor sob glosa sucedem adversas às trivialidades próprias das elocuções terra-a-terra, fogem do sem sal e do desimportante, porquanto concedem estimação ao emprego, ricamente diversificado, de todas as classes de palavras, em especial os verbos, com as mui variadas acepções, desde os nomes às interjeições, e em suas significações plurais sob o permisso de uma língua magnificamente polissêmica e sincrítica.
            Seu estro de artista plástico, poeta e contista vai buscar, pois lhes conhece os caminhos, as acepções jungidas a cada evento, com vistas a outorgar aos seus torneios a justeza gramatical e a acomodação estilística, conferindo ao escrito o estatuto de peça literária deleitante e única, como a dizer “sou o autor”, este texto é meu”, de forma que, mesmo sem sua chancela imprimida, saberá o bom leitor o fato de que é da sua autoria o trabalho que tiver de deparar para consumir.
            GJ não aceita, não é partidário, da ideia limitante de 600 vocábulos, estremando o repertório da Língua Portuguesa, exclusivamente para facilitar a leitura por parte daquele consulente não preparado convenientemente na habilidade de recepção. Em assim procedendo, o que acrescenta o escritor ao cabedal dos recebedores? Qual o contributo novo da peça, passível de conduzir à melhoria da recepção do lado de audiências mais desprovidas? Que pedagogia exerceu o autor de uma obra com repertório tão restrito? - Evidentemente, quase nenhuma, pois prossegue instalada a mesmice, continua a usança, tem curso perene a rotina...
            Isto Geraldo Jesuino consegue denegar, quando aplica a língua na sua admiranda extensibilidade, sem, todavia, carecer mostrar-se arrogante e inalcançável sob o espectro literário, conquanto – e tal já se depreendeu – seja exigível do contingente ledor boa circunstância de leitura; e, não o sabendo, eis a ocasião para, assentado numa escrita escorreita, correta e elevada, procurar apreender significados vocabulares e identificar significações estilísticas, a fim de alcançar o nível de bom leitor, ao exceder o portal da mera condição de alfabetizado e, em consequência, habitar o estádio de pronto decodificador.
            Então, penso ser fácil verificar, mesmo o público menos atilado, os expedientes escriturais dele característicos, com vistas a conformar, a modo de estilo, as grandezas procedentes da atividade plástica que amanha e cultua às necessidades expressivas da Literatura, mesmo em se falando do gênero conto. Assim, exercita dúplice estese, a redundar em mais donaire para sua prosa e, de tal maneira, aferra sujeito a objeto da relação comunicativa, do começo ao cabo, nos dois extremos do discurso.
            No meu entendimento, resulta falaz a intenção de liberar os textos da aplicação, quando couber, de quaisquer expedientes oferecidos pela nossa Língua, a fim de deixá-los mais “leves”, sob o prisma da recepção, para leitores menos aprovisionados intelectualmente, pois a estes cumpre é buscar a apreensão dos teores, apelando para as obras lexicográficas, o exame da Gramática, compulsar manuais de estilo e demais produções de referência, a fim de evoluírem, mesmo na autodidaxia caseira, para um patamar de leitura e decodificação condizente com o atual estado d’arte do conhecimento.
            Não há de o escritor se esforçar - sem qualquer pressuposto pedagógico e abrindo mão da habilidade obtida em incessantes leituras e experimentos em laboratórios e lugares de prova, nas escolas e no recesso dos lares, com frequência, em altas horas da madrugada - para nivelar sua escrita ao rés do chão, a fim de ceder, rasteiramente, suas compreensões para quem não tenciona evoluir como bom decodificador de mensagens. Saber é muito bom, porém, aprender é penoso.
            Prezo, por demais, então, os escritos inteligentes, cultos e bem expressos, como os de GJ, porquanto denotativos de seus aviamentos intelectivos e artísticos – agora incluso a medida do conto, haja vista a ideia de que “suas palavras servem para ensinar”, conforme sobra manifesto no título do mencionado segmento do Nuntia Morata.

4 EM REMATE

            O fato é que, jamais a desoras, a fim de regozijar seus pares e enriquecer nossos haveres librários com numismas de real valor, nos chegou Brumas, ditado por Machado de Assis a GJ (Dimas Macedo), coberto dos atributos peculiares ao custoso expediente do conto, porteira fechada a muito escrevinhador no tentame de lograr, debalde, transpô-la, porquanto barrado pelas travas e arames farpados do seu cercado exigente. Só quem o adentra, pois, é a pessoa apropriada das preciosas gemas conquistadas no exercício diuturno, anual e decenal da atividade artística, sadia e correta, divisada e instantemente prescrita pela Teoria da Literatura.
            A leitura atentiva de Brumas, em primeira vez, visou à compreensão dos seus entrechos, como parte exploratória das pretensões autorais, conforme sucede com quaisquer gêneros que se procure descodificar para apreensão dos enredos, advindo, porém, na sequência, a tarefa de esquadrinhar sua axiologia estética em aspectos particulares.
            Acontece como a quem vê – e vi - de inopino e chofre, os boticellis, ghirlandaios, rafaéis e michelangellos do teto da Igreja Sistina, ou mesmo, e.g., as indizíveis peças esculturais do d’Orsay, como A Menina Chorando (Albert Bartholome), Liberdade (Fredéric-Auguste Bartholdi) e Leão Sentado (Antoine-Louis Barye); e, no Prado, as belezas sem superação plástica dos velazquez, el grecos, goyas e boschs.
            Primeiro, vem a estupefação – queda-se pasmado com tanta estesia integral. Instala-se, a posteriori, a investigação dos detalhes, quando as belezas se vão, num crescendo, se ostentando, numa asa, em um pé, uma pata, um rosto, sorrisos; e em tanto que o consulente tencione procurar.
            Desse modo me achei, desde a prima revista de Brumas, quando já houvera alcançado seu argumento. Senti-me tanto inebriado com os ali entrevistos grossos de Archangello Corelli e Tomaso Albinoni – a interação de dois violinos e um violoncelo com os demais da orquestra - bem assim extasiado ante a audição, no livro registada, dos agudos de um stradivarius de Enrico Toselli, particularmente na Serenata, ouvida pela primeira vez no começo dos ’60, via amplificadora dos padres piamartinos, na Igreja de Nazaré, Fortaleza-CE.

            Quanta satisfação! Tanto enleio!

domingo, 17 de abril de 2016

LEIA UM CONTO DE ANA PAULA MEDEIROS



CONTO DE UMA NOITE DE ABRIL

Ana Paula de Medeiros Ribeiro

Os ponteiros pareciam passear vagarosamente sob o vidro do relógio de pulso, enquanto ela aguardava a definição do lugar do encontro.
Há poucas horas, havia recebido um convite para jantar. Deveria estar feliz, mas uma avalanche de emoções escorregava-lhe pela espinha. Há dias, o relacionamento não estava muito bem. Existia algo, uma energia forte, contrária à dos amantes, que se espalhava como uma erva daninha. Uma sombra pairava sobre os dois, amornando a euforia do amor. Ela sabia que estava por vir mais um daqueles momentos de contabilidade... Contas de coisas que ela fizera e o desagradou. Contas postas friamente sobre a mesa de jantar. Era sal na sobremesa...
Finalmente, chegou a mensagem com o local e hora do encontro. Ela levantou-se da cama e foi se banhar. Deixou, por longos instantes, a água escorrer pelo seu corpo e sumir através do ralo. Parecia que a água levava embora um pouco de sua desilusão... Respirou fundo e recompôs-se. Perfumou-se e vestiu uma roupa nova, como era de costume nos encontros que tinha com ele. E foi. Chegou cedo e explorou o lugar. Havia um jardim grande com muitas plantas e luminárias. Sentou-se e, ao recordar alguns momentos, percebeu o quanto o amava e o admirava e se orgulhava de ser... ser... ser o quê?... Não conseguiu se definir em relação ao que era para ele. Levantou-se e andou inquieta por entre as mesas vazias do jardim até que o avistou entrando pelo portão. Seu coração disparou e um soluço inesperado lhe aparecera naquela hora. Ele aproximou-se e a cumprimentou formalmente. Era um homem de poucas palavras, mas de muitos pensamentos. Ela queria pular em seus braços, morder sua orelha e dizer: olá, meu amor! Mas, o jeito sisudo e grave, com o qual ele a recebeu, embargou a ebulição dos gestos que ela desejava fazer naquela hora.
Foram ao salão e se assentaram. Havia uma dormência nela e uma estranha tranquilidade nele. Ele examinou o cardápio, solicitou sugestões e fez o pedido ao garçom. Enquanto isso, ela sofria silenciosamente... Até que, depois de um longo suspiro, ele iniciou a conversa. A sensação que ela tinha era que as palavras dele a aprisionavam em uma caverna escura e a faziam ficar lá: triste e acuada. Recebeu tudo de peito aberto. Nunca teve escudos, trincheiras, abrigos de defesa. E tinha um grave defeito: total inabilidade para brigar e contra argumentar em situações que envolviam seus afetos.
Ele lhe disse coisas que chegaram nela como um tsunami. Ela chorou muito e foi embora só. Ele não a quis. Sequer lhe retribuiu o abraço na despedida. Permaneceu inflexível como um carvalho na tempestade.
Naquela noite, ao chegar em casa, enquanto tremia acometida por uma febre emocional, ela ouviu aquela mesma sombra, que pairava sobre os dois, dar muitas gargalhadas. Depois dali, ela mergulhou num torturante vazio que lhe roubou o viço e o doce da vida. Não há mais tâmaras nem damascos nas manhãs de domingo.