quarta-feira, 1 de abril de 2015

APRECIAÇÃO LITEROCIENTÍFICA - pelo Professor Vianney Mesquita



VIOLÊNCIA NAS RELAÇÕES DE GÊNERO E CIDADANIA*
                  Vianney Mesquita*

Mostrai-me um homem violento que tenha  chegado a bom fim e eu o considerarei meu Mestre. (LAO-TSÉ. *Tchu, Prov. Henan – China, + ou – 600 a.a.C).

A unidade de ideias violência, gênero e cidadania, em particular na atualidade, envolve conceitos a absorver cuidados do lado de estudiosos, porquanto estes se preocupam frequentemente em explicar seus entendimentos, ao lume dos diversificados esgalhos do saber ordenado, na demanda de elucidar suas manifestações, em especial, no trato, nem todas as vezes pacífico, da vinculação social.
Investigadores de variados estratos, mormente os partícipes da reflexão sociocomportamental – Sociologia, Antropologia Social, Psicologia e saberes conexos – compuseram já, em toda a generalidade da diligência reflexiva, farta literatura concernente às mencionadas áreas do conhecimento controlado, com focagens distintas, ao ponto de não ser possível estabelecer domínio absoluto acerca de volume e extensão racional de tão avultados entendimentos.
Sucede desta maneira, é evidente, pelo fato de não se cuidar de mera temática, todavia de assuntos para cujo deslinde são requeridos do investigador máxima acuidade sindicante e depurado preparo intelectivo na senda de abrangência na qual se inscrevem os léxicons objeto destas notas, principalmente no que margeia às noções de violência, atada às ideações de gênero e caráter cidadão feminino.
Eis que a professora doutora Maria do Socorro Ferreira Osterne não sorveu a taça dessas travosas dificuldades, normalmente arrostadas pelos pesquisadores catecúmenos.
Já faz algum tempo – na contingência de revedor de suas composições valiosas para o recheio da ciência e fiel admirante dos escritos que publica – acolita-se em procissão leitora o apreciável trajeto universitário e docente da autora de Violência nas Relações de Gênero e Cidadania Femininos, razão por que é lícito certificar-se, prazerosamente, sua feição de investigadora das melhores cepas, titulada com refinamento e acurácia em distintos ambientes acadêmicos stricto sensu do Brasil.
As produções editadas carreiam sinetes pessoais, contributo de estimação à causa do saber, sem servilismos a escolas da moda, tampouco subserviência a autores de gosto e nomeada atual, pois granjeou, de motu próprio, e com demarcada responsabilidade professoral, a circunstância de investigadora com clarão interior, não adventício, sem gravitar à órbita de qualquer mentor, modus procedendi com o qual ela não simpatiza.
Ao revés, a despeito de se louvar em opiniões de valor incontestável – por cujo íntimo se movimenta sem importunação, pois se aprontou para tal – arroga-se o direito e o dever do bom pesquisador de operar saber de colheita particular, o qual incorpora descobertas, consagrando aos seus ensaios o status da excelência.
O volume que se tem o lance de anotar constitui, induvidosamente, fato auspicioso, pois aí exprime magistralmente seus contornos de escritora laureada, onde também manifesta, com nitidez meridiana, todo o alcance da sua formação acadêmica, fazendo-se, com efeito, legítima componente do alcunhado Alto Clero, com assento cativo na exigente Cúria da Academia, o que, de fato, representa mais uma glória para a inteligência de sua Pátria.


*Obs. Texto modificado das guarnições de Violência da Relação Gênero e Cidadania Femininos. Fortaleza: Edições UECE, 2008. 297p.

domingo, 29 de março de 2015

UM POEMA DE "TEMPO DAS ESPERAS"



CANÇÃO DA ESPERA
Giselda Medeiros


                            Passas.
                            Teu vulto é um oásis
                            onde quero aprender
                            o ofício das areias
                            nas longas noites
                            em que as estrelas
                            fiam fios finos
                            de fluida luz.

                            Teus passos na tarde
                            ecoam ainda
                            em minhas manhãs,
                            alvacentas e lânguidas,
                            como o marulho das vagas
                            que ficaram para trás.

                            Mas passas,
                            indiferente e lento,
                            sobre meus anseios
                            com mãos enfeitadas de adeuses
                            a romper em flores
                            de esquecimento.

                            E passas tão perto de mim
                            e tão distante!
                            Não conheces o mapa
                            de meus arquipélagos
                            nem sabes da beleza
                            de meus profundos mares
                            onde há conchas e corais
                            Talvez um dia
                            - um dia desses -
                            quando pisares as névoas
                            do meu tempo
                            e sentires pesar o teu tempo,
                            talvez, tu resolvas ficar

                            no tempo dos meus domínios...

                          (in: Tempo das Esperas)

sexta-feira, 20 de março de 2015

Para quem tem mais de 60 anos ou vai chegar lá daqui a pouco - Ivone Boechat *



Muito interessante a explanação dessa pedagoga, mestre em educação, também, escritora e conferencista  no que tange à forma de se viver a vida após os 60 anos, tanto para o homem como para a mulher.





1 - Tome posse da maturidade. A longevidade é uma bênção! Comemore! Ser maduro é um privilégio; é a última etapa da sua vida e se você acha que não soube viver as outras, não perca tempo, viva muito bem esta. Não fique falando toda hora: "estou velho". Velho é coisa enguiçada. "Idade não é pretexto para ninguém ficar velho".

2 - Perdoe a você antes de perdoar os outros. Se você falhou, pediu perdão? todos já o perdoaram e não se lembram mais. Não fique remoendo o passado... Não se importe com o julgamento dos outros.

3 - Viva com inteligência todo o seu tempo. Viva a sua vida, não a do seu marido, da sua esposa, dos filhos, dos netos, dos parentes, dos vizinhos, dos amigos... Nem viva só pra eles, viva pra você também. Isto se chama amor próprio, aquilo que você sacrificou sempre! Nunca viva em função dos outros. Faça o seu projeto de vida!

4 Coma e beba com moderação; durma o suficiente. Tenha disciplina. Fale com muita sabedoria. Discipline sua voz: nem metálica; nem baixinha; seja agradável!

5 - Poupe seus familiares e amigos das memórias do passado. Valorize só o que foi bom. Experiências caóticas, traumas, fobias, neuroses, devem ser tratadas com o psicoterapeuta.

6 - Não aborreça ninguém com o relatório das suas viagens. Elas são interessantes só pra quem viaja. Ninguém aguenta ouvir os relatórios e ver fotografias horas e horas. Comente apenas o destino e a duração da viagem, se alguém perguntar.

7 - Escolha bons médicos. Não se automedique. Não há nada mais irritante do que um idoso metido a receitar remédio pra tudo o que o outro sente.
Faça uma faxina na sua farmácia doméstica.

8 - Não arrisque cirurgias plásticas rejuvenescedoras. Elas têm prazo curto de duração. A chance de você ficar mais feio é altíssima e a de ficar mais jovem é fugaz. Faça exercícios faciais. Socorra os músculos da sua face. Tome no mínimo 8 copos de água por dia e 15min de banho de sol é indispensável.

9 - Use seu dinheiro com critério. Gaste em coisas importantes e evite economizar tanto com você. Tudo o que se economizar com você será para quem? No dia em que você morrer, vai ser uma feira de Caruaru na sua casa. Vão carregar tudo. Não darão valor a nada daquilo que você valorizou tanto: enfeites, penduricalhos, livros antigos, roupas usadas, bijuterias cafonas, ouro velho... prataria preta, troféus encardidos, placas de homenagens. Por que não doar as roupas, abrir um brechó ou dar todas as suas bugigangas?

10 - A maturidade não lhe dá o direito de ser mal educado. Nada de encher o prato na casa dos outros ou no self-service ou numa festa de casamento, falar de boca cheia é insuportável.

11 - Só masque chiclete sem testemunhas. Não corra o risco de acharem que você já está ruminando ou falando sozinha.

12 - Aposentadoria não significa ociosidade. Você deve arranjar alguma ocupação interessante e que lhe dê prazer, serve qualquer coisa ganhando ou gastando (se tiver), dinheiro.

13 - Cuidado com a nostalgia e o otimismo. Pessoas amargas e tristes são chatíssimas, as alegres demais, também. Elogie os amigos, não fique exigindo explicações de tudo. Amigo é amigo.

14 - Leia. Ainda há tempo para gostar de aprender. A maturidade pode lhe trazer sabedoria. Coloque-se no grupo sempre pronto para aprender. Não se apresente em lugar nenhum dizendo: sou muito experiente!

15 - Não acredite nas pessoas que dizem que não tem nada demais o idoso usar roupas de jovens, cuidado. Vista-se bem, mas com discrição.

16 - Seja avó do seus netos, não a mãe nem a babá. Por isso nem pense em educá-los ou comprometer todo o seu tempo com as tarefas chatas de ir buscar na escola, levar a festinhas, natação, inglês, vôlei... Só nas emergências. Cuidado com aquela disponibilidade que torna os outros irresponsáveis.

17 - Se alguém perguntar como vão seus netos, não precisa contar tuuuuuuuudo! Evite discorrer sobre a beleza rara e a inteligência excepcional deles. Cuidado com a idolatria de neto e o abandono dos filhos casados...

18 - Não seja uma sogra ou sogro chato. Nunca peça relatório de nada. Seu filho tem a família dele. Você agora é parente!Nunca, nunca, nunca mesmo, visite seus filhos sem que seja convidado. Se o filho ligar pra você, não diga: ah! lembrou finalmente da sua mãe? É melhor dizer: Deus o abençoe, meu filho.

19 -Cuidado em atender ao telefone: se a pessoa perguntar como você vai e você responder "estou levando a vida como a natureza quer"; "a vida é dura"; "estou vencendo a dureza"; você vai ver que as ligações dos amigos e dos parentes vão rarear, cada vez mais.

20 - A maturidade é o auge da vida, porque você tem idade, juízo, experiência, tempo e capacidade para se relacionar melhor com as pessoas. Então delete do seu computador mental o vírus da inveja, do orgulho, da vaidade, cobranças, coisas pequenas e frustrantes para tomar posse de tudo o que você sempre sonhou: a felicidade.


* Ivone Boechat é mestre em educação, pedagoga, conferencista e escritora. Autora do livro "Estratégias para encantar educadores na Arte de Aprender".

domingo, 8 de março de 2015

PARABÉNS A TODAS AS MULHERES




MULHER
                                                         Olavo Bilac
      
                   Na mulher, todas as perfeições da vida universal se contêm.
                  Quando menina, ainda pequenina, já a mulher tem a graça divina, dilúculo de beleza, que deixa adivinhar na claridade indecisa da madrugada o esplendor do dia que não tarda. Depois, na idade da révora, há no seu corpo a harmonia de um hino  triunfal, cântico de seiva em relâmpagos de vida. Depois, é o estio, estação fulgente, em que o feitiço ofusca e cega, sol alto, calor fecundo, apoteose da luz e da força. Depois, é o outono, sazão bendita, em que a mulher de quarenta anos tem a formosura  suave e melancólica dessas tardes longas, em que a luz ansiosa, querendo fugir e querendo ficar, demora-se no céu e na terra, e agarra-se às árvores, às nuvens, com pena de morrer... Depois é o inverno... É a sacrossanta beleza da mulher bela na velhice, uma beleza que parece imaterializar-se, espiritualizar-se sob a névoa dos cabelos brancos...
                   Divino feitiço, abençoado sejas em todas as idades, porque em todas as idades és o maior encanto e o maior consolo dos nossos olhos e das nossas almas.
                                                       
   TROVA

                                           Ser mulher é, com certeza,
                                            trazer consigo os poderes
                                            de, na aparente fraqueza,
                                           ser o mais forte dos seres  

                                                 Giselda Medeiros

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Homenagem a Ariano Suassuna

Entrevistas de arquivo e programas especiais são resgatados no portal da Rádio Cultura Brasil e celebram o escritor

Cirley Ribeiro e Felipe Tringoni
Paraibano de língua afiada e alma solidária, tesouro nacional, ícone da cultura brasileira. Entre as tantas definições, talvez a que mais tenha agradado Ariano Suassuna em vida foi ter sido chamado de "guerrilheiro cultural". O slogan, atribuído pelo jornalista José Rezende Júnior, referia-se ao trabalho do escritor ao assumir a Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco, em 1994. À frente da pasta, Suassuna levava a cultura brasileira para o centro do palco, nas famosas aulas-espetáculo, em que improvisava e explorava os recursos da commedia dell'arte. Gostava de provocar a reflexão entre os jovens universitários, a plateia preferida durante todo o período em que lecionou, dos 17 aos 65 anos.

Escritor, dramaturgo, professor e político, Ariano Suassuna se encontrava na arte: na literatura, no teatro nas artes plásticas e na música. Em 1970, fundou o Movimento Armorial, que pretendia construir uma arte erudita autenticamente brasileira, colocando em primeiro plano o universo lúdico e cultural do sertão nordestino. Na definição do próprio Suassuna, a "Arte Armorial Brasileira é aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico da literatura de cordel, a música de viola, rabeca ou pífano e as ilustrações da xilogravura". Com o Quinteto Armorial, liderado pelo compositor Antônio José Madureira, fez shows, gravou discos e levou a proposta para o exterior. Em 1996, ele retomou o projeto, rebatizado de Romançal, incorporou instrumentos tradicionais, como violão, violino, flauta e violoncelo.

Sempre valorizando a cultura nordestina, Ariano transformou o "matuto" do interior em estrela de cinema, com o sucesso da adaptação do Auto da Compadecida, com direção de Guel Arraes. Para o autor, toda grande arte é local. Nasce em determinada região e se universaliza pela boa qualidade e pela divulgação. Costumava citar frase de Tolstói para ilustrar o pensamento: "pinte bem a sua aldeia, que você será universal, mas pinte bem", em referência à qualidade necessária a todo trabalho artístico.

Membro da Academia Brasileira de Letras desde 1989, assumiu a cadeira de número 32 sucedendo Genolino Amado. Ele também se tornou membro da Academia Paraibana de Letras em 9 de outubro de 2000. No mesmo ano, ainda se tornou doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Foi tema de enredo no carnaval carioca, na escola de samba Império Serrano, no Rio de Janeiro, e na Mancha Verde, no carnaval paulista.

Em 2006 ganhou o título de doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará, mas que veio a ser entregue apenas em 10 de junho de 2010, às vésperas de completar 83 anos. Recentemente, Ariano passou por algumas capitais do País com suas aulas espetáculo e o projeto multimídia Ariano Suassuna - Arte Como Missão, realizado em homenagem ao escritor.

Dos arquivos da Cultura Brasil, você pode ouvir três ricas entrevistas de Suassuna concedidas ao programa Estúdio 1200.

Na primeira delas, ele recebe a reportagem da Rádio Cultura em sua casa no Recife. Retraído, Ariano não gostava de dar entrevistas. Como diz Inimá Simões, era "um aristocrata sertanejo". Um tanto desconfortável no início da conversa, o escritor foi se soltando e revelando seu claro raciocínio sobre questões culturais, o ofício da escrita e a mídia.

Dois anos mais tarde, na cidade de São Paulo, o então Secretário de Cultura de Pernambuco lançava seu projeto Pernambuco - Brasil com uma aula-espetáculo. "Sujeito afirmativo", como ele mesmo dizia, Suassuna expõe suas opiniões sobre políticas de cultura e manifestações artísticas brasileiras e estrangeiras sem meias palavras.

Por fim, em 1996, vinte anos depois de lançar o Movimento Armorial, Ariano Suassuna encampou o Romançal, experiência de orquestra erudita a partir do universo popular do nordeste brasileiro. Em depoimento à repórter Cirley Ribeiro também na capital paulista, o escritor detalha a proposta, fala da universalização da arte e explica porque gostava de ser identificado como "guerrilheiro cultural".Confira aqui.
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

ROSAS DA MANHÃ - GISELDA MEDEIROS




    Quando vieres
     vem de leve
     assim como a primeira estrela
     que paciente desponta
      jogando sua luz
      por entre as brumas
      consciente da importância
      de sua chegada.

      Vem com dedos de carícias
      silenciosas
      com mãos de artista
      leves
       para que não me doa
      o poema que fizeres.
                            Ou melhor
                            vem como quiseres.
                            Estarei aqui
                            em mim
                            dentre outras mulheres,
                            mas a única que te sabe
                            florir em versos.
                           
                            Mas vem como a primavera,
                            sem pressa para voltar,
                            consciente da beleza das cores
                            que em mim deixarás
                            em aveludados olores.

                            Vem como a tarde
                            que espera a noite para adormecer.
                            Quero ver-nos florir
                            em rosas de alvorada
                            quando despertarmos manhã.

                         (do livro "Tempo das Esperas)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

QUARTA-FEIRA DE CINZAS - REFLEXÃO POR VIANNEY MESQUITA

REFLEXÃO NO
INÍCIO DO
TEMPO QUARESMAL

MEMENTO, HOMO...

Vianney Mesquita*

Estou perto do dia da minha derradeira viagem, um grande salto da terra (THOMAS HOBBES.YWestport, 05.04.1588 –†Derbyshire, 04.12.1679).

Quarta-feira de cinzas é dia de igreja católica lotada, muitas vezes até por pessoas que a frequentam somente nesta data, quer em virtude de superstição, arrependimento pelos seus excessos e transportes durante o carnaval, ou mesmo as duas razões combinadas. Infelizmente, entretanto, tem ressalto o primeiro pretexto manifesto na crendice, retratado na supersticiosidade e no senso de fanatismo religioso.

Propício, todavia, radica o fato de todos evocarem a leitura na Bíblia em Língua Portuguesa, onde está expressa em Gênesis, 3:19, a divisaLembra-te, homem, que és pó e em poeira te tornarás, quando o Criador, perpetrada a falta original,expulsou Adão do Paraíso, prescrevendo-lhe intensos trabalhos, rematados com a morte, ocasião em que o corpo – a carne – de nada mais aproveitará.

De modo diverso do ocorrente na Banda oriental, a cultura do Ocidente nos infundiu a ideia de que o fim pela morte é algo terrível, embaraçoso, porquanto está disposta nos limites do impossível a admissão da nossa finitude, do exício definitivo da vida, de modo a persistirmos no raciocínio irreal e ilusório de que não se efetivará o trespasse da alma para a Outra Dimensão, pois a existência terrena seria sem termo.

Eis, todavia, que balança esta “convicção”, absolutamente equivocada, ao menos uma vez por ano e no primeiro dia da Quaresma, coincidente com a Quarta-Feira de Cinzas. É quando, pois, o padre da Igreja de Roma – cruzando na testa de cada um as cinzas remanescentes das palhas do Domingo de Ramos imediatamente anterior – representa Deus a nos alertar para o fato de que a Humanidade é pó e à poeira retornará em definitivo como matéria.

Então, ao modo como a Igreja procedia antes do Concílio Vaticano II, é substituída a frase latina Memento, homo, quia pulvis, es et in pulverem reverteris, igual a “Lembra-te, homem, que és pó em pó te tornarás”, podendo o sacerdote dizer, alternativamente: “Arrependei-vos e crede no Evangelho”.

Esta verdade é terminante e vale para a Humanidade inteira, seja na velhice, na senescência, esteja o cidadão na circunstância de “preferencial” – como é da moda – vigor, na saúde e bem-estar socioeconômico, na doença e indigência, em particular, na juventude ou nova adultidade, em qualquer estado, se impõe que todos se deem conta de que o reino do céu está perto, sendo crucial que preparemos o caminho do Senhor, endireitando nossas veredas, à maneira como expresso por João Batista, a voz que clamou no deserto.

Então, no dia inaugural da Quaresma, examinemos a consciência e tomemos tento em remover os habituais excessos, apagar as rixas com os circunstantes, viver mais a Palavra, ao procurar a indicação divina, a fim de que delineie a correção dos rumos de cada um, sem simuladas carolices nem devoções aparentes, vedadas as manifestações atitudinais, limitadas ao âmbito do edifício da igreja, porém com eficácia em todo lugar e a qualquer tempo.

De tal maneira, experimentamos a oportunidade de atualizar nossa Contabilidade para demonstrá-la em balanço perfeito aos  “órgãos de controle” do Alto, com vistas a deixar nossos registros sempre limpos e nossa ficha sem rasuras nem lacunas que possam se fazer óbices impedientes da nossa intenção salvífica.
Então, completando a reticência do título, está em Gênesis, 3:19, a importantíssima divisa latinaMemento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris, convidando-nos a evocar a noção de que, na qualidade de corpo, somos cinzas, aquelas cruzadas hoje nas cabeças de cada qual. 


*Vianney Mesquita 
 Docente da UFC 
Acadêmico Titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa  
Acadêmico Emérito-titular da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo 
Escritor e Jornalista 


(in:  academiacearensede jornalismo.blogspot.com.br

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Crônica artesanal - Myrson Lima



Crônica artesanal 

           Já eram boas seis horas da tarde quando, enfim, atingimos a fazenda Gameleira com os raios solares esbatendo-se anunciando a hora das Trindades.
                 Urubus, pousados nos sabiás do curral, crocitavam agoureiramente provocando cósmico pavor nos caboclos acocorados no pátio da casa-grande.
                 Encolhidos, encostados uns aos outros, cosiam-se às paredes chãs, enquanto ruminavam cenas prosaicas do dia, forjicavam projetos, profetizavam o tempo e narravam delongadas histórias fantásticas cheias de assombração. Com o barulho do motor, estorceram a vista em direção ao carro.
               No pátio, assomavam imponentes pindobas, ainda verdes, bordeando o grande terreiro, em contraste com a aspereza da paisagem seca, esturricada, sedenta de chuva. Desolação.
               O sol ia celeremente quebrando; ao longe, as rolinhas turturinavam e os marrecos rentes à lagoa quase seca grasnavam na claridade incerta que aos poucos se esgarçava. Ouviam-se distantes e lamuriosos os últimos mugidos do gado magro, ripado pelas costelas, de orelhas mosqueadas, entristecendo mais ainda a paisagem esturricada. As sombras das mangueiras aos poucos se avultavam tisnando a claridade evanescente. Escutavam-se o zizir das cigarras e o barulho infernal de um bando de pássaros retardatários voando apressados em busca de abrigo.
                 Na alcova, uma senhora de meia-idade, de estatura mediana, limpava o sarrento cachimbo sob a luz crua de um singelo candeeiro. O reflexo do fogo vermelho da trempe alongava-se pela cozinha, cintilando nos rostos macerados das comadres, que escrutavam a vida alheia. Pela telha vã, a luz refrangida da lua penetrava indiscreta, alvíssima, caleando as paredes.
               Com as almas já pacificadas, as mulheres, tocadas de ternura, debulhavam o terço, enquanto os homens, sentindo-se a salvo dos pavores crepusculares, espaireciam a tristura bebendo a branquinha à larga agora com histórias jocosas e lascivas.
               Lançamos um olhar largo em volta e nos recolhemos, fatigados, amolentados pelo sono. Prenunciava-se uma noite fresca de lua alta no silêncio amplo do sertão.


6/1/2015

domingo, 4 de janeiro de 2015

VALE A PENA LER: OPINIÃO - ANGELA GUTIÉRREZ - JANEIRO 2015


Um manto sobre a terra

Na antiga cidade, fechada sobre si mesma por altos e espessos muros de pedra, o menino cresce como outros meninos que não conhecem a penúria. Nada lhe falta: nem pão, nem roupa, nem teto, nem mãe, nem pai, nem subida aos montes e nem correria nos campos que bordeiam a cidade. Amável e amado, faz-se rapaz, sente a beleza das flores, a harmonia do canto dos pássaros e a graça das meninas que lhe sorriem.
Um dia, o rapaz vai à guerra e volta ensimesmado e melancólico. Guarda na memória as dores que vira e ouvira em longes terras. Para esquecer essas dores ou para comemorar a vida,  o jovem Bernadone, vestido de veludo, sai com os amigos ao anoitecer, bebe, dança, e volta para casa ao amanhecer. Vem a cavalo, em passo lento, e talvez porque se sinta farto e bem abrigado, causa-lhe espanto entrever, na luz avermelhada do  sol nascente, as silhuetas escuras de figuras encolhidas, encostadas umas às outras e coladas às paredes de sua casa. Desce do cavalo e, pela primeira vez, consegue ouvir o pedido silencioso dos seres desamparados de Assis. Na noite que parecia igual a todas as outras noites, um rapaz, em gesto que repercutiria no seu século e nos que viriam depois, desveste-se de seu próprio manto e com ele cobre o homem que tem frio. Alguns de seus amigos imitam-lhe o gesto e estendem seus mantos sobre outros homens e mulheres e crianças.
Os ouvidos do jovem, antes moucos, e seus olhos, antes cegos, ao sofrimento vizinho, passam a ouvir e a ver a fome, a dor, a vergonha dos irmãos homens e das irmãs mulheres, dos irmãos velhos e das irmãs crianças que vagam na escuridão das noites e na claridade dos dias, invisíveis e inaudíveis para os corações endurecidos das gentes.
E seu canto de amor a todos os irmãos é tão forte que atravessa séculos, quase mil anos, e chega a um homem que se despe do próprio nome e assume o nome do poverello de Assisi para convidar a humanidade a desvestir-se de  preconceitos e ostentação,  e a estender o manto da paz e da justiça sobre todos os que sofrem sem amparo sobre a terra.

                                                           Angela Gutiérrez,
                        Membro da Academia Cearense de Letras e do Instituto do Ceará


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Entrevista - Alberto Manguel – por Luiz Costa Pereira Junior


A leitura do mundo

Ensaísta argentino radicado no Canadá, Alberto Manguel lança novo livro no Brasil e diz que ler é ter memória de uma experiência antes mesmo que ela aconteça.
O leitor lê o que quer, o escritor escreve o que pode. A frase de Jorge Luis Borges é usada pelo ensaísta Alberto Manguel como um mantra: porque não se sabe como será interpretado, deve-se escrever como uma extensão da leitura.
No fim do ano, o autor argentino radicado no Canadá veio ao Brasil para a VI Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), divulgar A Biblioteca à Noite e Todos os Homens São Mentirosos (Cia. das Letras). O tema biblioteca lhe é central. Está em A História da Leitura e no Dicionário dos Lugares Imaginários, que cravaram o nome de Manguel no Brasil.
Filho de embaixador, rodou o mundo. Aos 14 anos, ia à casa de Borges ler para o autor já cego. Hoje, cita Borges "ao menos três vezes" por palestra. A citação ajuda o leitor a crer na realidade do texto e a levar a gente a sério, brinca. Agora, escreve um livro de ensaios ( O Leitor como Metáfora ) e a segunda novela, Um Amigo de Platão, sobre dois homens que travam guerra sobre a verdade. Uma fábula. Afinal, para Manguel, nada é verdadeiro, a não ser o que encontramos nos livros. (O editor foi à Fliporto a convite da organização do evento)

ENTREVISTA

Ler de fato nos melhora?

Fiz o secundário no Colégio Nacional de Buenos Aires, em meio à ditadura. Foi um professor de literatura de lá que me inspirou a escrever. Ele me fez descobrir a função humanizante da literatura, que a ficção é uma mentira que conta a verdade e a experiência dos personagens é, no fundo, a nossa experiência. Veja, os alunos desse colégio fizeram forte oposição aos militares. Pouco depois eu saí do país, mas soube que muitos de meus colegas foram denunciados, torturados e mortos. Uns vinte anos depois, voltei à Argentina para uma festa de ex-colegas. E descobri, chocado, que aquele professor era o informante dos torturadores. Ler em si mesmo não é mais que uma atividade essencial. Mas o valor do ato está dado pelo uso que fazemos da leitura.

Para Paul Virilio, o símbolo do século 20 foi o arvoredo amado por Goethe, intacto num campo nazista. Um leitor refinado comandara aquela carnificina.

Minha primeira reação foi rechaçar a literatura associada àquele professor. Mas percebi que a literatura é uma forma de manter atenção entre duas margens. Há incontáveis exemplos de leituras que conduziram a atos terríveis. O mais anedótico foi o daquele que leu O Apanhador no Campo de Centeio , do Salinger, e entendeu pela leitura que havia de matar John Lennon. Mas há leituras que permitem fazer uso da memória da experiência do mundo. Nesse caso, ler melhora nossa maneira de atuar.

Se, como você diz, sabemos que o universo não tem sentido, por que ainda lemos e escrevemos livros?

Em parte, ler é extensão de uma função biológica. Certos animais usam de camuflagem e outros criam defesas para atuar no mundo. Nossa espécie desenvolveu a imaginação, uma forma de construir o mundo antes de experimentá-lo. Se posso imaginar como é pôr a mão na boca de um tigre, sim, vou pôr a mão. A imaginação faz com que inventemos histórias para reter nossa experiência. Para conhecê-las, desenvolvemos a leitura. Lemos e escrevemos para entender a experiência antes de tê-la e para ativar nossa própria experiência, para dizer que essa é a forma que sentimos e entendemos, para que as gerações futuras possam sabê-lo.

Como foi ler para Borges?

Quando ficou cego nos anos 50 ele se deu conta de que precisava dos outros para ler. Pedia a qualquer um, pois não lhe interessava uma leitura interpretativa. Eu trabalhava numa livraria. Um dia, ele me pediu. Era uma leitura sem entonação, que interrompia para entender como o texto foi construído. Sobretudo, queria que eu lesse contos porque voltara a fazê-los, e eles viraram O Informe de Brodie [1970]. Para mim, foi uma experiência mecânica.

E a convivência com ele?

Borges tinha grande senso de humor, mas não era afetuoso no sentido pleno da palavra. Não creio que tivesse amigos. Com Bioy Casares tinha uma relação particular, mas intelectual. Era amável, mas nunca, nunca houve uma conversação pessoal, de me perguntar sobre a vida, meus interesses.

Sua obsessão pelo tema biblioteca veio de Borges?

Sim e não. Tudo meu tem influência dele. Mas meu interesse em livros e bibliotecas começou aos 4 ou 5 anos. Sempre estive rodeado de livros, e desde pequeno ordenava as obras de certa maneira. O benefício de ter conhecido Borges foi ter contato com certos autores e uma forma de pensar a leitura, mas não diria que foi a partir dele que começou meu interesse no tema.

Por que tomou a leitura como objeto de pesquisa?

Não me definiria pesquisador, mas alguém que tenta entender o que faz. Desde os meus 3 ou 4 anos, minha família viajava muito. Não contava com um lugar fixo, sempre meu. Esse lugar, para mim, foi o livro. Lembro de sentir um alívio ao chegar em casa e encontrar num livro o mesmo texto, com a mesma ilustração na mesma página. Essa foi para mim a experiência primária. Aprendi nos livros o que era a amizade, a morte, o amor, antes de conhecê-los na vida de carne e osso.

Quais os livros que considera essenciais?

Mudam todo dia. Os importantes dependem de quem somos quando os escolhemos. Em certo momento, o mais importante pode ser Alice no País das Maravilhas , esta manhã A Divina Comédia, esta tarde não sei o que será. Toda biblioteca é uma autobiografia. A minha é um conjunto de possibilidades de quem sou. Às vezes essa possibilidade coincide com certo título, me dou conta que um título é a pessoa que fui há anos e é como visitar uma memória passada.

Qual é o seu método de pesquisa?

Desordenado e amplo. Quem não sabe precisamente o que procura, busca em muitos lugares e direções, e isso faz com que a pessoa pareça erudita, mas seu trabalho nasce da ignorância mais profunda. Se queria escrever sobre Santo Agostinho, investigava tudo, pois dele nada sabia. Não tenho metodologia, mas curiosidade e uma forma de pensar distraída e associativa. Isso confere certa complexidade à produção de ensaios.

Permite criar ensaios melhores?

A novelista americana Cynthia Ozick dizia que há duas metodologias para escrever ensaios: uma é recordar o caminho sabendo aonde chegar e a outra é passear pelo bosque, ir à esquerda, à direita, e é melhor nem chegar a alguma parte. Minha tendência é a de passear, pois não tenho a mente rigorosa, mas há ensaístas de uma luminosa claridade, que sabem aonde vão desde o início. Borges, por exemplo. Não creio que se possa falar qual a melhor possibilidade. Só do que dá resultado ou não.

"Ler é extensão de uma função biológica. Certos animais usam de camuflagem e os criam defesas para atuar no mundo. Nossa espécie desenvolveu a imaginação, uma forma de construir o mundo antes de vivê-lo"
Qualquer assunto pode ser tratado dessa forma?

Há ensaios maravilhosos sobre nada. Xavier de Maistre criou [em 1794] um magistral: Viagem ao Redor do meu Quarto . Qualquer tema se presta à interrogação e talvez o ponto de partida seja este: fazer uma pergunta e chegar a uma melhor pergunta.

Como insere seus livros recentes em sua obra?

Quando comecei a escrever, eu o fiz consciente que estava escrevendo como leitor, não como um escritor. Mas nos livros que fiz não sei se há uma progressão, um aumento de complexidade ou um melhor entendimento sobre algo, mas uma abertura de perguntas.

Aonde levam essas perguntas?

Percebi, com Uma História da Leitura , que escrevia um livro com um número específico de capítulos, mas bem poderia ter cem mais. De alguma maneira, o tema da leitura abarca todas as atividades humanas e os conhecimentos possíveis. Quando Borges imaginou uma biblioteca contendo o universo, falava exatamente isso. Ao pensarmos o mundo como livro, como espaço que lemos, a leitura define todas as atividades. Não posso pensar em nenhum tema que não esteja relacionado ou incluído no tema da leitura.

Como vê o modo como é escrito o ensaio hoje?

Não há característica que defina o ensaio em um momento particular. Como gênero, muda em relação não só aos escritores como aos leitores. Um da Grécia antiga não se diferencia tematicamente de um diálogo ou poema filosófico, mas em certo momento há a intenção de tratar um tema de maneira particular, digamos em Plutarco, em Sêneca ou, nos latinos, em Cícero. Essa forma vai se definindo até Montaigne dar ao gênero a palavra "ensaio", como ideia de algo que se está provando, de se tentar algo a partir de uma voz particular. Não é que fosse a primeira vez em que foi feito, isso já existia. Mas Montaigne conscientemente diz ao leitor: "Estou num diálogo com você". Hoje, o ensaísta pode inventar técnicas ou limitar-se às já sabidas, mas faz o mesmo que todo escritor: estabelece um acordo. Não creio que haja um estilo particular no ensaio de nossa época.

Quais problemas a tecnologia coloca ao amante de livros?

A tecnologia é só uma fábrica de instrumentos que usamos de uma maneira ou outra. Quando falamos de problemas estamos na verdade falando da indústria eletrônica que leva à compra de aparatos na sua maior parte inúteis. A indústria distorce a relação entre leitor e texto, impondo instrumentos como razão para a existência do texto. Logo se inventam razões intelectuais para justificar o consumo, mas não há de fato motivo para o qual todos tenham necessidade de comunicação 24 horas todo dia, em toda parte do mundo.

A internet não é a grande biblioteca atual?
Internet não é biblioteca. É um lugar de acumulação de informação. É importante e banal. Numa sinagoga do Cairo medieval havia um tipo de depósito chamado Guenizá, onde era posto tudo o que era escrito. Porque podia conter o nome de Deus, nada era destruído... Havia cartas, documentos importantes, e listas de compras, contas, rascunhos. Com a internet há o mesmo. Em minha biblioteca, encontro a informação que quero, sei seu valor e peso. Mas na rede, em que poderia achar a mesma informação, não sei o contexto, a relação entre um texto e sua fonte.

Mas sua função de acervo não seria inegável?

Há sites úteis, mas falta curadoria. Ao se criar a biblioteca de Alexandria, que pretendia ter tudo, o problema era que nenhum leitor poderia fazer uso eficaz de tudo. O que Calímaco, um dos primeiros bibliotecários, fez foi criar catálogos racionais: "nessa temática, estas são as obras importantes". Isso criou os primeiros cânones. Mas trouxe problemas. Implicou um tipo de censura. Se digo que algo é importante, outros não entram na seleção. Toda ordem significa um tipo de exclusão. Então, quando a internet oferece as primeiras seleções não é sequer pelas razões intelectuais que pautaram Calímaco. Há um sistema mecânico, que não tem a ver com a busca intelectual.

A literatura é uma forma de vencer o esquecimento. Há o risco de, na era da internet, voltarmos a esquecer?

Num diálogo de Platão, ele conta ou inventa o mito pelo qual o deus egípcio Tot oferece ao faraó o presente da escrita. O faraó o recusa. Se o aceitasse, os homens não mais recordariam, pois a escrita recordaria por eles. Séculos de literatura mostraram que a literatura serve para fomentar a memória. A acumulação indiscriminada e o mito de que as coisas caem na rede só por um período fazem com que a internet exista só num eterno presente. A história de uma ideia se perde e não há traços nem da correspondência - a maior parte dos e-mails se perde.

Sem data e contexto, desorienta-se o leitor...

No computador, toda versão é apagada, a última é o que fica. Quando Montaigne publica seu Ensaios , leva consigo uma edição para corrigi-la em casa. Depois que morreu, em 1588, o exemplar com as correções seguiu para edição. Está na biblioteca municipal de Bordeaux. Um de seus ensaios famosos é sobre a amizade. Quando fala da amizade com [Etienne de] La Boétie, Montaigne cunhou uma frase famosa: se lhe perguntam por que o queria como amigo, não saberia responder, salvo para dizer que ele era ele e eu era eu. Na edição impressa em vida, a frase era: "Se me perguntam por que o queria, não saberia o que responder", ponto. No exemplar modificado, com tinta negra, Montaigne agregou: "Salvo para dizer que ele era ele". E logo depois, em azul, "e porque eu era eu". Temos aqui a evolução de uma das frases mais comoventes da França, sabendo que primeiro se pensou uma coisa, depois outra e em seguida uma terceira. Hoje teríamos só a frase final, ainda comovente, mas sem história.

Acompanha a literatura brasileira?

Ela parece crescer de sua própria inspiração. A norte-americana é encerrada em si mesma, não conhece o resto do mundo. A brasileira conhece, mas se inspira em si. De Machado de Assis a autores mais recentes, todos parecem inspirados por suas circunstâncias a partir de uma língua que vão criando. Vemos isso em Guimarães Rosa, um fenômeno que não conheço em nenhuma outra língua ou literatura.

Do português, o que mais lhe chama atenção?


Não falo português, que para mim é como ler através de um vidro escuro, mas há uma música, uma doçura, um sentido de que é uma língua respeitosa, que a mim encanta, em particular no uso de "você", de "senhor". Sempre me pareceu uma língua que respeita constantemente o interlocutor, coisa que não se sucede no espanhol, por exemplo, e certamente não com o inglês.