quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

POEMA DE ÍTALO GURGEL



“Vou-me embora pra Pasárgada...”
(Manoel Bandeira)

 Vou-me embora, vou pro mar

Italo Gurgel

Quero as ondas do Havaí,
Coqueiros de Waikiki,
Guirlandas de Honolulu.

Quero as tintas de Gauguin
Nos pincéis do Taiti:
Seus vermelhos e amarelos,
Suas dores, seus amores.

Quero alfombras de Samoa
E a moça com ventarola
Que espanta maus olhares.

Quero em Tonga repousar
À sombra do arco-íris,
Debaixo dos girassóis
(Lá sou vizinho do rei
E seu fiel escudeiro).

Quero acordar, um domingo,
Com os ventos de Vanuatu
E os tufões de Tuvalu
Varrendo para bem longe
As bombas de Moruroa.
(Nesse dia, em revoada,
Fragatas radioativas
Pousarão na Torre Eiffel.)

Quero um voo kamikaze
Despejando serpentinas
E flores de Bougainville
Nos céus de Guadalcanal.

Quero a paz em Iwo Jima,
E o silêncio dos clarins
Nos corais de Midway.

Quero oceano pacífico
– Outra civilização –
Sem heróis, sem generais,
Espadas ou galardões.

Quero as tardes de Nauru,
As noites da Caledônia,
As tentações, os desejos,
Até os mais proibidos.

Quero amar sem reticências,
Resistências ou pudores,
Numa alcova bem singela:
Os lençóis são de cambraia
A rede de lantejoulas.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

ORAÇÃO - Medeiros e Albuquerque (1867 - 1934)



Eu sei, Senhor, que não mereço nada
mas ponho em tuas mãos humildemente
meu coração que sofre. E, resignada,
minh’alma guarda, confiante e crente.

Quando eu chegar ao termo da jornada
em que a Morte, emboscada, espera a gente,
tem pena de minh’alma amargurada,
vê que eu também sou filho – e sê clemente.

Perdoa-me, meu Deus, se eu sou culpado,
se tanto crime fiz, tanto pecado,
que hoje choro contrito, - e dá, Senhor,

que no coro glorioso, que te exalta,
no céu profundo, não se sinta a falta
de minha voz cantando o teu louvor.

Colaboração de Myrson Lima


domingo, 26 de janeiro de 2014

ENSAIO

Hermínia Lima: a pele das palavras

25.01.2014
A leitura crítica de um texto deve, antes de tudo, concentra-se nas trilhas da própria escritura
Pulsante, vigorosa, sensorial: é assim que se afigura a poesia de Hermínia Lima. Em Sangria Azul, seu primeiro livro de poemas, já celebrava a sensualidade do corpo, o amor vivido, saciado, de modo que essa poesia amorosa, sensual, retomada nos versos de Sendas do sacrário, já constitui uma marca de sua poética e, nesse novo livro de poesia, confirma sua capacidade de desnudar-se sem ser piegas, de decantar o erotismo sem ser vulgar.

Hermínia Lima é professora da Universidade de Fortaleza (Unifor), doutoranda em Línguística na Universidade Federal do Ceará (UFC). No campo da produção literária, dedica-se ao ensaio e à poesia, com proficiência, imaginação e sensibilidade 
O erotismo

Praticada, pode-se dizer, desde sempre, a poesia erótica tem belos registros em obras de poetas gregos e latinos da Antiguidade Clássica; posteriormente a exercitaram poetas da lírica medieval e provençal, do Barroco e do Arcadismo, seguidos pelos românticos e, mais tarde, pelos modernos e pós-modernos.

Embora exercitada em quase todas as épocas, a poesia do amor carnal é mais um estilo próprio de cada autor do que uma característica marcante dos movimentos literários. No Brasil, José Alcides Pinto, Hilda Hilst e Pedro Lyra são representantes do que há de melhor nesta seara.

Para Hermínia Lima , são as ‘ardências do corpo’, os desejos, fontes de inspiração. O sexo – “sentido de ser” – não é apenas leitmotiv de versos, mas a própria poesia: (Texto I)Seus versos são extremamente sensoriais, inspirados no(s) amor(es) vivido(s), degustado(s) e eternizado(s) na pele das palavras, onde ele(s) não perecem. Sim, é pela palavra que ela (re) constrói as imagens de carícias, toques, olhares e explosões de prazer que sutilmente se desenham.

Outro livro

Sendas do sacrário é incontestavelmente um livro de amor. Divididos em três partes, os poemas ilustram a mulher ativa, dona do seu corpo e do seu prazer, em busca do amor. Seu eu lírico, notadamente feminino, não reduz sua poesia a meros devaneios românticos de uma mulher. Como Hilda Hilst, ela ora celebra a posse, a carícia concreta, ora projeta, idealiza e sonha com a chegada daquele que abrirá as portas de seu santuário, como se lê em “Busca”:(Texto II)

Leitura do poema
A promessa de futuro, seguramente anunciada, mostra o poder da busca e a capacidade de transpor céus e terra pelo abraço desejado. Embora o eu lírico não seja declaradamente uma mulher, vê-se nas entrelinhas, a voz das Penélopes, claro, do nosso tempo, pois, em vez de fazer e desfazer mantas, ela “cruza fronteiras” e “cumpre a saga” enquanto aguarda seu “Odisseu”.

Sabe a hora do encontro, simbólico, nas chamas, nas águas ou entre-palavras. Esse último reserva já a possibilidade de o amor realizar-se apenas em forma de versos, como disse, na pele das palavras.

Singularidades 

Pelo elemento fogo, ela é corpo em brasa, bacante vestal nos braços do seu homem, consoante os versos: (Aquecidos, a princípio, pela mistura insólita / de vinho e chocolate, ferviam agora, / na chama dos próprios corpos / que incendiava a cama, o quarto / e ameaçava incinerar o mundo inteiro (“Joinville” p.41).
Nas águas, é sereia ardilosa, tomando posse do seu Boto (Enquanto canto / encanto. / O canto, à cata / acha, em um canto, / estrelas / e as cata / para o ato (“Sereia” p.57)) . Entre-palavras, é a mulher que seduz pelo verbo encarnado, lúcida e visionária, segura do que tem e/ou pode ter (Ah, santa e profana habilidade de tocar com as palavras! (“Divindade” p. 70).

Professora da Unifor
AÍLA SAMPAIOEspecial para o Ler

Trechos
TEXTO I 

Sobre um altar de linho, / Derramam-se os perfumes da carne /// (Poemas pulam entre pernas / e pousam cansados / na cintilante espera / do recomeço) (“Altar” p. 24)

TEXTO II
Abrirei estradas para o norte, / rasgarei a mata catando loas, /e levarei o sol para secar florestas. /// Espreitarei os vizinhos peruanos, /aprenderei os ritos dos povos bolivianos, / E cruzarei fronteiras navegando o rio Acre. /// Decifrarei dialetos de todas as tribos, / mergulharei no rito de pajelança da nação Kaxinawa, / e seguirei as águas, morada de Cobra Norato. /// Boiúna será meu guia, / pirarucus e castanhas meu alimento / pelas terras dos seringais. /// Enfim, cumprida a saga, / suspenderei a chuva, / e nua caminharei pela mata, / sorvendo a taça do Santo Daime, / enquanto espero a hora do teu abraço.

FIQUE POR DENTRO
Algumas notas sobre a autora e sua obra
Hermínia Lima é professora da Unifor, doutoranda em Linguística na Universidade Federal do Ceará, antes, lecionou Literatura Brasileira em Cursinhos e Escolas Particulares, em nossa cidade, em turmas do terceiro ano do ensino médio. De intensa produção literária, dedica-se, sobretudo, aos gêneros poesia e ensaio; neste, contribui, com textos bem elaborados e centrados rigor científico, para uma melhor compreensão das produções artísticas da pós-modernidade; na poesia, é uma das vozes renovadoras desse discurso. 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

"Todo filho é pai da morte de seu pai" - Fabrício Carpinejar

.


Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai. É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso. É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e instransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar. É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela - tudo é corredor, tudo é longe. É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios. E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz. Todo filho é pai da morte de seu pai. Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta. E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais. Uma das primeiras transformações acontece no banheiro. Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro. A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas. Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes. A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões. Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus. Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente? Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete. E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia. Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos. No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira: — Deixa que eu ajudo. Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo. Colocou o rosto de seu pai contra seu peito. Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo. Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável. Embalou o pai de um lado para o outro. Aninhou o pai. Acalmou o pai. E apenas dizia, sussurrado: — Estou aqui, estou aqui, pai! O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014


CHAMAS

                                      Derrama-se em brasas o sol morrente...
                                      Há gritos de silêncio sobre a terra,
                                      e a alma dos rios, silente, chora a vida
                                      que morre entre as pedras submersas.

                                      Pesado é o céu... E as aves agoureiras
                                      descem as asas sobre a torre da matriz,
                                      o rude bico, as penas eriçadas,
                                      o canto mudo sofrendo na garganta.

                                      No manto aflito do horizonte surgem
                                      assustadas estrelas solitárias,
                                      de brilho morno e, com olhos de surpresa,
                                      espreitam tímidas a timidez da luz.

                                      A noite segue em sua nave de mistério,
                                      a negra mão a controlar as sombras,
                                      a cabeleira densa sobre os montes
                                      e o olhar a derramar-se nos caminhos.

                                      Mas, de repente, eis um clarão, e a bruma
                                      de um círculo de prata se reveste
                                      e alteia-se elegante pelas várzeas,
                                      numa festa de luz e de saudade.

                                      Ó loira lua, lunando, lua cheia,
                                      em tuas mãos de concha e de magia
                                      aninha a noite até que uma outra aurora

                                      venha explodir-se em chamas de desejo!

(do livro "Cantos Circunstanciais)

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

FELIZ ANO NOVO - GISELDA MEDEIROS


Feliz Ano Novo!
Giselda Medeiros

O ano começa...
Uma nova luz te chegará
pela primeira aurora.
E teus sonhos serão sóis,
que hás de conservar ardendo,
sempre em chamas.
Eles te impulsionarão,
da aurora ao arrebol de cada dia
da tua vida!
A  felicidade, então, te sorrirá,
em asas e plumas,
mesmo na languescência
dos poentes...
E A LUZ!
A luz do teu sonho
virá, sempre,
pela madrugada sangrenta,
e desabrochará,
 linda e majestosa,
em pétalas!
Faça-se a Luz!

Feliz Ano Novo para você!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

ACADEMIA CEARENSE DA LÍNGUA PORTUGUESA REALIZA CONFRATERNIZAÇÃO NATALINA


O presidente da Academia Cearense da Língua Portuguesa, jornalista Vicente Alencar, reuniu seus pares, dia 20 de dezembro, às 19h30min, no anexo do restaurante do Ideal Clube, para comemorar o nascimento do Menino Jesus e, junto a esses festejos, promover a confraternização entre os sócios desse sodalício. Imbuídos desse espírito natalino, os que lá estavam puderam absorver a palavra do nosso confrade Horácio Dídimo, que nos fez refletir com a "Harmonização do poema Da Infância, de Giselda Medeiros", e do poema O Afinador de Palavras, de sua autoria, dentro de seu já conhecido estilo "As Harmonias do Pai-Nosso". Foi um momento ímpar, de muita emotividade.
O presidente leu um poema de Natal de sua autoria, seguindo-se, Regine Limaverde, Maria Luísa Bomfim e Giselda Medeiros.
Houve um momento para a música, ocasião em que o acadêmico Manoel Crisóstomo do Vale entoou em sua gaita a música "Sinos de Belém" e, em seguida, a acadêmica Maria Luísa Bomfim cantou "Natal Branco", dando, assim, ao nosso encontro toda a atmosfera do Natal, tanto que a senhora Evendine, esposa de Horácio, pediu a palavra e ressaltou que, das muitas confraternizações a que esteve presente, a única que apresentava realmente o sentido do Natal era aquela a que assistia.
Em sequência, foi feita a brincadeira do amigo secreto, com muita descontração e espírito de fraternidade.
Por último, foi servido o jantar, tudo com o requinte que é inerente ao nosso querido Ideal Clube.
Queremos agradecer ao seu diretor de Cultura José Telles e a Carlos Augusto Viana que nos proporcionaram esse aprazível encontro, inclusive, participando dele, para nossa alegria.

Agora, apresentamos algumas fotos que marcaram aquela grande noite. Confiram

O presidente Vicente Alencar, tendo ao lado sua esposa Margarida Alencar, faz a abertura do encontro


O Acadêmico Horácio Dídimo (em pé) faz a sua preleção


a Acadêmica Regine Limaverde lê o seu poema de Natal


A Acadêmica Maria Luísa Bomfim recita sua mensagem de Natal


O Acadêmico Tarcísio Cavalcante, ao lado de sua esposa, fala da importância dos seu aniversário, também, ocorrido na data do Natal de Jesus


Mãe e filha: Acadêmicas Giselda e Ana Paula Medeiros


Os Acadêmicos: Vicente Alencar, Prof. Moura,  Tarcísio Cavalcante e sua esposa


Margarida Alencar, Evendine e Horácio Dídimo


Regine Limaverde, Maria Luísa Bomfim e José Telles


Acadêmico Manoel Crisóstomo em seu momento musical


Presidente Vicente Alencar fala sobre a aquisição das três acadêmicas neste ano: Ana Paula Medeiros, Maria Luísa Bomfim e Regine Limaverde, dentre outros assuntos 


FELIZ NATAL PARA TODOS!

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

MENSAGEM DE NATAL



            Há mais de dois mil anos, nascia Jesus. Aquele que viera ensinar o exercício da Fé, da União, do Perdão, da Caridade, sobretudo, do Amor, este sentimento maior que deve prevalecer no coração da humanidade, como o bálsamo para extinguir todos os males, conforme está escrito na Primeira Epístola de Paulo Apóstolo aos Coríntios, capítulo 13: “Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria. O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece”.
            Queridos amigos, que possamos fazer, neste instante, em que nos reunimos para celebrar o Natal, uma profunda reflexão sobre estas sagradas palavras, de modo que este AMOR maior esteja sempre em nós, unindo-nos e nos fortalecendo. 

            FELIZ NATAL para todos!  

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

TEXTO INTEGRAL DA ORAÇÃO DO PAPA FRANCISCO À IMACULADA CONCEIÇÃO


Cidade do Vaticano (RV) – O Papa Francisco deixou o Vaticano esta tarde para a tradicional homenagem na Praça de Espanha, no centro de Roma, por ocasião da Solenidade da Imaculada Conceição de Maria.
Eis o texto da oração pronunciada pelo Santo Padre:

Oração à Imaculada

Virgem Santa e Imaculada,
a Ti, que és a honra do nosso povo,
e a defensora atenta da nossa cidade,
(a Ti) nos dirigimos com confiança e amor.


Tu és a Toda Bela, ó Maria!
Em Ti não há pecado.

Suscita em todos nós um renovado desejo de santidade:
brilhe na nossa palavra o esplendor da caridade,
habitem no nosso corpo pureza e castidade,
torne-se presente na nossa vida toda a beleza do Evangelho

Tu és a Toda Bela, ó Maria,
Em Ti se fez carne a Palavra de Deus.

Ajuda-nos a permanecer na escuta atenta da voz do Senhor:
nunca nos deixe indiferentes o grito dos pobres,
não nos encontre distraídos o sofrimento dos doentes e dos carecidos,
comovam-nos a solidão dos idosos e a fragilidade das crianças,
seja sempre amada e venerada por todos nós cada vida humana.

Tu és a Toda Bela, ó Maria!
Em Ti, a alegria plena da vida bem-aventurada, com Deus

Faz com que não percamos o significado do nosso caminho terreno,
ilumine os nossos dias a luz gentil da fé,
oriente os nossos passos a força consoladora da esperança,
anime o nosso coração o calor contagioso do amor
permaneçam os olhos de todos nós bem fixos em Deus, onde há a verdadeira alegria.

Amém!

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

REMEMORANDO LUSTOSA DA COSTA



Lustosa da Costa – muito mais que Jornalista
 Giselda Medeiros


              Stendhal, mestre do romance psicológico, diz-nos que “um romance é como um arco de violino. E o corpo do violino, que ressoa, é a alma do leitor”. Efetivamente, um não se completa sem o outro e, por isso, é que dizemos, após concluída a leitura de Vida, Paixão e Morte de Etelvino Soares (São Paulo: Editora Maltese, 1996), sentirmo-nos, assim, vibrando, os que perlustramos as páginas plenas de inquietação e serenidade, de realismo e ficção, de amor e ódio, páginas inesquecíveis desse romance, cujo título traz o cinzel da inteligência do jornalista Lustosa da Costa; título dado, não “pomposamente”, mas  guardando-lhe a sugestiva dimensão emocional.
              A matéria-prima de que se serviu o obreiro foi (re)buscada nos corredores tortuosos da provinciana Sobral do início do século XX. Com ela em mão, procurou (re)compor o cenário, que retratasse a sociedade  daquela época, em sua evolução dialética, a caminho da transformação. Caracterizou suas personagens, dando-lhes ações tão reais que nos é possível senti-las saltar da imobilidade do papel para a representação concreta. Assim é que no capítulo introdutório “A Execução”, mesmo ainda sem termos tomado conhecimento de seus protagonistas, eles surgem, inesperadamente, da obscuridade do passado para o palco do presente, a encenarem o ato final, diante de nossa perplexidade. Aí dá-se o choque emocional, e o leitor, ávido pelo esclarecimento do fato,  vai, página por página, inteirando-se dos conflitos e das necessidades das personagens vistas em seus desequilíbrios sociais e ontológicos.
              Na verdade, o capítulo inicial, apresentando alto teor fotográfico e documental, é a síntese reveladora do drama vivenciado pelo protagonista, verdadeira saga humana, na qual a personagem Etelvino Soares demonstra o caráter desafiador e intimorato de um homem apaixonado pelo jornalismo construtivo e justo. Em nenhum momento, sob as mais diversas pressões político-sócio-eclesiásticas, deixou-se corromper. Antes, procurou denunciar o convencionalismo da sociedade, enfatizando o contraste entre o “ser” e o “aparentar ser”, mesmo correndo riscos inevitáveis.
              Ditas estas considerações, faz-se necessário, agora, que teçamos alguns comentários (despretensiosos, é claro), com relação a alguns pontos que nos chamaram à atenção. Em primeiro lugar, o foco narrativo em terceira pessoa mostra um narrador onisciente que, no entanto, inclui-se como personagem – e isto apenas no capítulo inicial – embora disfarçadamente entre parênteses. Entendemos ser tal procedimento um recurso técnico usado pelo Autor, ou seja, o de intuir no leitor a veracidade do fato. O narrador acompanhou toda a vida e paixão de Etelvino, como mero espectador, mas não pôde calar-se diante de sua morte trágica, que é desfecho do romance. Por essa razão, o caráter documental a que nos referimos antes. Vejamos: (Enquanto vida tiver, jamais se apagará da memória dos meus tímpanos fatigados o som daquele urro feroz do moribundo que depois se vai esvaindo, esvaindo, esvaindo até se converter no doído ganir dum cachorro atropelado.). Atente-se para a construção do tempo verbal “se vai esvaindo”, em que a locução apresenta um aspecto durativo da ação expressa pelo verbo, sem que a ela seja dada uma definição na divisão geral de tempo presente, passado e futuro. É como se a cena se registrasse num tempo que vai sempre se prolongando.
              Em segundo lugar, na pele de narrador detalhista, o que se nota através da multiplicidade de informações, leva-nos o Autor a refletir sobre as condições da realidade social de um tempo em que a dominação (muito mais intensa que hoje), das oligarquias corrobora a veracidade deste pensamento do historiador A. Hauser, com que expressou a vitória do capitalismo industrial: O dinheiro é a força que domina toda a vida política e privada e (...) todos os direitos passam a exprimir-se através dele. Tudo, para ser compreendido, tem de se reduzir a um denominador comum: o dinheiro. E, em terceiro lugar, a caracterização (a nosso ver) de um romance de costumes com tendências naturalistas, quando combate, com inabalável urdidura, a Igreja, a Família, a Justiça, imergindo no mais profundo da miserável condição humana de suas personagens para daí trazer-nos temas que, mesmo recorrentes, ganham mais dramaticidade quando tratados pela pena sensível de Lustosa da Costa. Dessa maneira, ele denuncia, com argúcia, a vaidade, a futilidade, a hipocrisia, a ambição, a inveja, o adultério, o sexo, enfim, os impulsos antagônicos do ser humano. E tudo isso apresentando densidade conteudística, fluxo narrativo emergente, em que sobressai a capacidade de trabalhar as personagens em suas tramas, o que lhe confere o irrefutável pendor para a narrativa longa.
              Digna de nota é também a coerência da linguagem. Os períodos curtos, em sua grande maioria, denunciam o equilíbrio do processo criativo do Autor e o seu compromisso com o leitor, no que concerne ao entendimento da mensagem. Os diálogos guardam uma aura de autenticidade, reveladora, muitas vezes, do mundo psicológico de suas personagens. Há aí sátiras, ironias, metamorfoses de comportamentos ou, simplesmente, o desnudar-se de almas.
              Vida, Paixão e Morte de Etelvino Soares é, pois, a narração de uma luta insana, quixotesca, em que se digladiam a moral e suas pretensas autoridades, a oligarquia, o tradicionalismo conservador das famílias de estirpe, o clero, a política, a justiça, enfim, a comunidade aristocrática sobralense, que se impõe, dominadora, caricaturizada na personagem Romão Patriolino de Albuquerque. Do outro lado, a figura de Etelvino, um arraigado jornalista que nada mais queria senão combater os moinhos da injustiça e da opressão.
              Por fim, fazemos nossas as palavras do inesquecível mestre da crônica, o cearense Mílton Dias, ao prefaciar “Cartas do Beco”, em que enumera as qualidades de bom ficcionista, que é Lustosa da Costa: “estilo simples, escorreito, a prosa pura, enxuta, a que não falta um lirismo contido, o vocabulário rico, sem afetação, a palavra fácil, a plasticidade, abordando os temas mais vários, os mais graves e os mais leves com a mesma vibrante espontaneidade”. E, em seguida, arremata: “o leitor que o conhece tem a impressão de estar a ouvir-lhe a voz”.
              Pois é assim mesmo, mestre Mílton. Lendo Lustosa da Costa, sentimo-lo em cada letra, em cada frase, em cada período, em cada capítulo, em cada obra, limpo em sua integridade de homem de imprensa, e, como poucos, a conquistar o aplauso e a simpatia de seu público leitor. O humor inteligente, o cavalheirismo fazem deste jornalista de largo conceito e militância um homem perspicaz. Por isso sabe ele que é necessário reinventar a vida e para tal transpõe a objetividade do fato jornalístico em literatura. Assim, o que é ou o que foi produto de um tempo atravessará os espaços da historicidade do cotidiano e passa a ser arte vertical e transcendente: Ars longa, vita brevis.

              Desse modo, Lustosa, aceitando seu convite, entramos prazerosamente nesta saga sobralense e gostamos tanto de conviver com seus protagonistas que difícil é, agora, nossa retirada.

(in CRÍTICA REUNIDA)

domingo, 10 de novembro de 2013

POETA E POETISA - Sânzio de Azevedo


 Não é a primeira vez que abordo esse assunto, mas resolvi retomá-lo depois de uma conversa que tive há algum tempo com o amigo e poeta Jorge Tufic, oportunidade  em que ele me revelou não concordar com o costume, que grassa em nossa imprensa, de se dizer, ao falar de uma mulher que faz versos, tratar-se de “uma poeta”.
Sinésio Cabral, em trabalho de 199l, 1 após lembrar que, em Antenor Nascentes, em Silveira Bueno e na Delta Larousse (e eu acrescentaria Caldas Aulete e Koogan-Houaiss), encontra-se poetisa como feminino de poeta, adverte que em latim temos poeta (poeta) e poetria (poetisa); em francês, poète e poétesse; como, em inglês, poet e  poetess. Ao que eu acrescento, em espanhol, poeta e poetisa; em italiano, poeta e poetessa e, em alemão, Dichter e Dichterin.
 No mesmo trabalho, cita Sinésio Cabral o poeta e crítico Péricles Eugênio da Silva Ramos, o qual considerava Francisca Júlia “talvez o mais característico dos poetas parnasianos do Brasil”, dizendo em seguida que “a poetisa professou a arte pela arte”. 2
 E observa o ensaísta cearense: “Trata-se, aqui, do emprego correto de poetas (a poetisa entre poetas) e de poetisa (feminino de poeta).” 3
 José Peixoto Júnior, escritor cearense radicado em Brasília, em texto publicado numa revista dirigida por Nilto Maciel, ao referir-se a poeta e poetisa, assinalou: “O uso dos dois epítetos nunca arranhou a igualdade reinante no seio do poetismo; jamais limitou o espaço a ‘quantos bebem a água do Parnaso’; entretanto, insinuam o enquadramento do substantivo poeta na classificação morfológica do grupo ‘comum de dois’, submetendo-o ao vexame de ver-se antecedido por forma articular feminina na determinação daquela que verseja, denominando-a de ‘a poeta’.” O mesmo ensaísta sugere que o vocábulo poetisa “deve ter surgido nos estertores do Iluminismo”. 4
 O filólogo conterrâneo José Alves Fernandes me apresentou o único exemplo que vi, fora de nosso tempo, do emprego de poeta com referência a uma mulher. É do século XVII, e diz: “No fim de todas elas (...) vem hua natural de Saxônia chamada Rosuvides estremada na língua Latina & Grega, & Poeta laureada da qual diz Arnoldo (...) que foi admirável assi na prosa, como no verso.” 5
 É o caso de se imaginar o que, em nossos dias, teria levado alguns a substituir poetisa pelo equivalente masculino, tratando embora de mulher. Terá sido a palavra desgastada pela produção de tantas versejadoras sem mérito, ao longo dos anos? Não, esse argumento não procede, se pensarmos no número imenso de homens escrevendo maus poemas no Brasil, ontem, hoje e certamente amanhã...
 Embora continue julgando ser poetisa o feminino legítimo de poeta, como juíza o é de juiz, ou pintora de pintor, ainda admito que alguém se refira a uma autora de poemas chamando-a de poeta, mas desde que seja respeitado o gênero do vocábulo.
 Cecília Meireles, em “Motivo”, disse: “Não sou alegre nem sou triste: / sou poeta.” Lendo este último verso, não podemos ter certeza quanto ao fato de a autora de  Viagem aceitar a forma feminina “a poeta” (que me parece antiestética), mas, se me é lícita a lembrança de um testemunho oral, contou-me o saudoso escritor Edigar de Alencar que, ao perguntar a Cecília Meireles se ela havia escrito algum poema humorístico, teve dela esta resposta: “ – Eu sou um poeta elegíaco!” Note-se que a escritora disse “um poeta”, e não “uma poeta”.
Curioso constatar que só acontece esse atentado à gramática com o vocábulo poeta. Ninguém diz que a atriz Cacilda Becker foi “uma ator”, ou que a pintora Tarsila do Amaral foi “uma pintor”, o que equivaleria rigorosamente a “uma poeta”...
José Veríssimo, tratando de Júlia Cortines, afirmou, no começo do século XX: “esta poetisa é um poeta tão bom como nossos melhores”. 6 Claro que o crítico usou poeta para generalizar, tanto que o estudo se intitula “Uma poetisa e dois poetas”, pois fala também de Cruz e Sousa e de Luís Guimarães Filho.
 Bem outro é o caso de Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde) que, no estudo “Uma poetisa poeta”, datado de 1920, comentando a escassez do trabalho cultural das mulheres (as quais, para ele, “não se distinguem (...) por uma produção satisfatória e nem mesmo apreciável”), conclui o trabalho com esta frase: “A Sra. Maria Eugênia Celso não é uma poetisa, é um poeta, mas de alma profundamente feminina.” 7
 Parece-me estar nessa visão preconceituosa (e machista) a origem da aversão de alguns ao vocábulo poetisa. E ainda assim o crítico respeitou a gramática, pois não escreveu “uma poeta”...
Sirva-me de consolo a leitura de uma poetisa atual, que assume de maneira forte e bela sua condição de mulher que faz versos; trata-se de Elisabeth Veiga, que escreveu um poema intitulado, justamente, “Poetisa”:

Ponho a palavra batom no papel
 -- palavra de carne
 como o beijo é vermelho.

 Ponho a palavra rímel
 e os olhos se fecham sob mel negro
 dessa tinta alerta,
 e o poema se entrega entre teus dedos,
 observa
 o ócio com que o folheias:
 se tivesse pétalas voava
 suicida, de volta para o vidro de perfume.

 Mas o silêncio da rosa
 é perfeito
 quando é só:
 rosa – eternidade na mesa.
 Mas ponho a palavra terra.
 Sou origem.


 Poetisa. Não poeta. 8

(da Academia Cearense de Letras)

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

PARA REFRIGÉRIO DE NOSSA ALMA


REVELAÇÃO
Cf. Salmo 23/22
 Horácio Dídimo

  
Quando vejo a estrela azul
Brilhando por um instante
Descanso em águas tranquilas
E em pastagens verdejantes.

Minha alma se fortalece,
Minha vida se transforma,
Uma mesa é preparada
E meu cálice transborda.

Quando vejo a estrela azul
Em todo seu esplendor
Sei que tudo vai mudar,

Sei que tudo já mudou,
Que o Senhor é meu pastor
E nada me faltará.
                                             

 Música de Mauro Augusto

terça-feira, 29 de outubro de 2013

LIVROS & LIVROS

Agradecemos aos autores o envio de seus maravilhosos livros.



"(...) o poeta Pereira de Albuquerque encontra, em todos os detalhes da vida, sobejos motivos para, deles, extrair poesia. Nada lhe escapa à observação: o amor, a crítica social, a felicidade,  a educação, o (des)governo, a religião, a paz, o futebol,os falsos profetas, e tudo o mais.
Afirmar essas verdades é para ele apenas a maneira que escolheu para nos brindar com as suas redondilhas - os notáveis heptassílabos onde dá largas à sua aguçada percepção do mundo, enxergando, inclusive, o que outros não veem.
(...) Tem razão Dimas Macedo, poeta e crítico literário, quando o reputa um dos nossos melhores escritores".
(Vicente Alencar)



 "(...) Arquiteto a Posteriori reúne textos acerca de obras cuidadosamente eleitas sob o rigor da qualidade, nos quais descreve olhar e sentimento, exercendo atitude crítica pura, incólume às práticas menores dos achaques, dos desnegrimentos gratuitos e das desmerecidas lisonjas.
Assenhoreia-se, ao traçar os conceitos e considerações, da admirável benquerença que lhe merecem os amigos e os bons textos, mas não se afasta da atitude severa dedicada à análise erudita, que modestamente chama de comentário".
(Geraldo Jesuíno da Costa)




"(...) Verdade: pelas janelas invisíveis do ÚLTIMO TREM PARA PASÁRGADA, Eduardo Fontes estira, ao longe, um olhar bifronte: é o poeta obcecado pelo simples, verdadeiro e distraído pelo Belo. E o leitor vai-se enriquecendo de Poesia, de emoção e de mistério, de conhecimento e de ideias. Diga-se frutífera a mistura de imaterial e material, de emoção e razão.
Embarque, leitor, nesse último trem: você vai em companhia de 'um poeta constantemente emocionado diante da vida e dos mistérios da morte'."
(Dias da Silva)




"(...) Talentoso e culto, desliza ao sabor de diferentes estilos literários, com muita propriedade, da mesma forma como atua dentro da área médica. E agora nos traz "Isso é coisa do Pessoa - em Prosa e Verso" para nos deleitar com suas rimas inteligentes em trovas líricas ou satíricas e com a prosa gostosa, de mesa de boteco, ao som dos copos e grugrulejo das cervejas, onde somos capazes de passar horas e horas batendo papo e gargalhando sem nos lembrarmos de que existem colesterol, inflação, dieta, imposto de renda..."
(Celina Côrte Pinheiro)



"(...) Aqui, estamos diante de um compêndio de sabedoria. São poemas sob os mais variados temas. E não pense o leitor que vai encontrar versos rebuscados, herméticos. Não! São versos simples, rolados da grande correnteza da vida.
(...) Os conceitos morais, religiosos, são trabalhados pela Autora com a mesma simplicidade e leveza, por meio  de sua aguçada visão interior, a nos chamar para as suas verdades.
(...) Quem conhece Terezinha Bedê sabe de sua riqueza espiritual, de sua dignificante postura diante dos fatos imutáveis da vida. Dentro de sua visão humanizada, ela sabe (e comunga com o pensamento de Aristóteles) que a existência é uma dádiva concedida pela natureza, mas uma vida bela somente a sabedoria nos pode proporcionar."
(Giselda Medeiros)




"(...) Li a História desses povos, dessas gentes. Mas li também Camões, a Bíblia, Alencar, Machado, cordel, Moreira Campos. E me pus a escrever também. Mais para relembrar aquele povo e seus descendentes. Para recriá-los. Ou mesmo criá-los, porque talvez nada exista. O que existe é obra de arte, que é ficção. Nada é real. Quanto mais antigo mais irreal."
(Nilto Maciel)

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Luiz Felipe Pondé - Revista Literatura



Literatura como cura

Hoje quero falar de dois sintomas que marcam nossa época. O primeiro sintoma é a falação ruidosa de nosso mundo; o segundo é a ideia de que o mundo sofre porque não nos amamos e que tudo se resolveria se nos abraçássemos e parássemos de sermos gananciosos.
Fala-se demais hoje. Todos têm opinião. Até jovens de 20 anos são chamados a dar opinião sobre o mundo e a sociedade, quando mal sabem arrumar o quarto. E quando se elegem crianças de 25 anos como arautos da sociedade (adulto que faz isso, o faz, normalmente, para ter discípulos fiéis e fanáticos, ou porque é bobo mesmo), o resultado é que acaba se pensando que o mundo começou, como diz um amigo meu muito esquisito, em "Woodstock".
Quando se pensa isso, acaba-se imaginando que o problema do mundo é mesmo aprendermos que "all you need is love"... Infelizmente, a humanidade é mais complicada do que pensa nossa vã inteligência woodstockiana. Contra essa visão infantil da realidade (este é o segundo sintoma do qual falei acima), proponho a leitura da obra do grande crítico norte-americano Edmund Wilson. Vou a ele já; antes, quero voltar ao problema do ruído mais especificamente (o primeiro sintoma do qual falei acima).
Somos um grande mundo ridículo e falastrão. Decorrente dessa falação, um ruído infernal toma conta do dia a dia. O silêncio, às vezes, é um dos maiores indicativos de maturidade, não só de uma pessoa, mas de uma civilização.
Estou falando isso por conta de um breve ensaio que caiu na minha mão esses dias, parte integrante do volume "Best American Essays 2013", editado por Cheryl Strayed.
O ensaio ao qual me refiro foi escrito pela prêmio Nobel Alice Munro e chama-se "Night". Nele, a autora conta a operação que fez quando criança para tirar o apêndice e uma "coisa do tamanho de um ovo de peru". Munro compara o comportamento atual diante de casos como o dela e o comportamento de seus pais na época. A conclusão é que hoje se falaria como o diabo do risco que ela corria na época. Mas, ao contrário, pouco se falou do assunto, "respeitando o medo" sem falação. Conta Munro que, nessa época, ela dormia num beliche com sua irmã mais nova (moravam numa espécie de granja), e que numa noite olhou para a irmã e pensou em sufocá-la.
A partir daí, não conseguia mais dormir, pensando no ímpeto que tivera de matar sua irmã. Numa das manhãs seguintes a suas noites de insônia, encontrou com seu pai, todo vestido chique, saindo de casa de manhã muito cedo. Contou para ele o que pensara e o horror que sentira.
Seu pai simplesmente lhe disse que esquecesse aquilo e que essas coisas passam. Depois, adulta, lembra como o modo simples de falar do pai a acalmou profundamente. A pequena Alice nunca mais teve insônia.

Na sequência, a prêmio Nobel comenta que nunca perguntara ao pai para onde ele ia tão cedo e tão elegante. Perguntou-se se ele ia ao banco renegociar a dívida da família ou ver a mulher que amava, mas com quem não podia ficar porque amava sua família... Silêncio. Nem uma linha de rancor. Hoje, escreveriam uma tese sobre como seu pai poderia ter sido um homem desatento ou, quem sabe, infiel. Ao lembrar do seu pai no momento do reconhecimento em que recebera o prêmio, Munro pensa em como ele teria ficado orgulhoso de sua pequena filha insone.
Nessas horas, tenho saudade do passado e lamento como nos transformamos em adolescentes barulhentos que se levam demasiadamente a sério.
O segundo autor que quero comentar é Edmund Wilson, um dos últimos críticos literários, segundo Paulo Francis, a enfrentar a literatura sem se esconder atrás de grandes teorias abstratas (que se querem "concretas").
No volume editado por Francis pela Companhia das Letras em 1991, "Onze Ensaio - Literatura, Política, História", esgotado, aparece sua "visão de mundo": a história é um longo processo através do qual as civilizações se devoram, criando e destruindo, em círculos, indo para lugar nenhum. Concordo.
Pura coragem intelectual, que tanto faz falta hoje, nesta época de líderes adolescentes que creem em Woodstock como modelo de sociedade.

Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, "Contra um mundo melhor" (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".


Artigo publicado  Folha de S.Paulo