
segunda-feira, 29 de novembro de 2021
O PORTUGUÊS QUE TODO MUNDO FALA E O GRAMATIQUÊS - Myrson Lima
segunda-feira, 13 de setembro de 2021
EU SOU AQUELE QUE COME AS FLORES DO ANIVERSÁRIO - Crônica de Túlio Monteiro
quarta-feira, 8 de setembro de 2021
Apreciação Literocientífica
SOB O ESPECTRO DE FUNDO E QUANTO AO PRISMA DA FORMA*
[Releitura]
Vianney Mesquita
Quanto mais lemos, tanto mais nos instruímos, e quanto mais meditamos, tanto mais estamos em condição de afirmar que nada sabemos. [Francois-Marie Arouet -VOLTAIRE. Paris, 21.11.1694/30.05.1778 ].
Sempre nutri e conservei particular afeição pelo ofício-arte da Enfermagem, com suas vinculações estritas aos diversos ramalhos das Ciências da Saúde. Na decorrência de misteres profissionais e acadêmicos, desde largo ciclo temporal, travo incessante contato com os agentes desta nobre carreira, nomeadamente no âmbito da Universidade, na posição de consultor para assuntos linguísticos, gramaticais, semânticos e estilísticos, em produções de sua colheita, como peças científicas stricto sensu.
Nessa relação simbiôntica, aprendi cedo a lhes apreciar o esforço exitoso de pesquisas, com subido potencial metodológico, resultados esclarecedores e aplicação prática imediata, numa expressão categórica do acompanhamento do estado d’arte desta atividade sublime por eles abraçada.
Conquanto não perfilhem temas do meu trato universitário, muita vez – como sucede agora – sou conduzido a escoliar a respeito de trabalhos de sua lavra, especialmente quando editam livros, quase sempre provenientes de textos-base dos seus relatórios finais de mestrado e doutorado. Evidentemente, como o “sapateiro não deve ir além das sandálias” [Ne sutor ultra crepidam], cinjo-me, de ordinário, a analisar, tão-só, a propriedade de termos e dicções, como disse, certa vez, Gilberto Freyre, na qualidade de “mero mata-mosquito da ordem gramatical”.
Vez por outra, entretanto, o afouto sapateiro de Plínio, o Antigo [Caio Plínio Segundo], acha de querer ultrapassar o calçado mostrado na pintura de Apeles de Cós e adentrar matéria avessa à sua intimidade, submetendo-se ao risco de laborar no engano.
Como, entretanto, a temática de ordem geral – penso – não é território reservado de ninguém, vale a parêmia escolástica consoante a qual o exame da Ciência não tem por objeto o saber particular – totum individuatum ineffabile est – ou seja, o todo individualizado é inexprimível, de modo a inexistir, em tese, o conhecimento privado.
Assim, sob esta razão (talvez) evasiva, penetro astuciosa e perigosamente outros saberes, não sem o cuidado de me liberar de tautologias e expressar heresias, no senso popular do termo, haja vista o terreno sempre movediço das temáticas não dominadas por quem, sem tir-te nem guar-te, com a maior sem-cerimônia científica, tenta comunicar-se em seara estrangeira.
Ao levar em conta, porém, o preparo insuficiente de escrevinhador deserdado de mais alargado saber ecumênico, sou continente nos meus comentários, parcimonioso nos rasantes por teores a este estranhos, de sorte a ser bem-sucedido nessas pequenas empresas a mim cometidas pelas inexcedíveis atenções de meus consulentes, às quais, humildemente, acedo.
Todos esses arrodeios e ambages serviram de aprestar o canteiro da obra, a fim de expressar o fato de O Cuidado à Família em Atenção Primária, livro da Prof.a Dra. Lígia Barros Costa, docente da Universidade Federal do Ceará, membra atuante da fina-flor da Enfermagem no País, representar a oportunidade de o leitor abeberar-se de conhecimentos bem meditados a respeito do cuidado à saúde da família, na relação elastecida de refleti-la e cuidá-la, objetivando, não só, a ausência de doenças, como também a higidez e o bem-estar, entendimento hodierno de saúde.
Sobre ser o compêndio bem escrito, tanto sob o espectro de fundo quanto jungido ao prisma da forma, diviso o maior proveito deste volume no ato de fazer convergir a chamada communis intellectus ao saber unificado parcialmente, este provindo da anterior como vertente natural da Ciência, não devendo o pesquisador, por hipótese alguma, fazer pouco caso de seu valor e serventia.
A tarefa de relacionar os dois hemisférios de saberes procedida pela Autora objetiva – creio, com sucesso – valorizar, às derradeiras consequências, o ato de conceder atenção à família, de maneira afastada do biologicismo de ontem, praticado agora, sistêmica e holisticamente, privilegiando todas as instâncias da vida com o concurso desse grupo sociológico primário configurado na família.
*COSTA, Lígia Barros Costa. O Cuidado da Família em Atenção Primária. Fortaleza: Edições UFC, 2008. 14
sábado, 21 de agosto de 2021
Para os que amam amar o amor:
BUSCA
Giselda Medeiros
Hoje quero tocar-te,
alcançar as dunas que circundam
a alvura de tuas praias.
Hoje queria ter
dedos insubmissos,
sentinelas destas mãos
que comandam a feroz audácia
de gestos indormidos.
Queria alongar-te pelo dorso manso
a inquietude de desejos secretos
até sentires a quentura gritante
da minha insaciável busca.
Sinto o tempo de amar,
o tempo de entrega.
Entanto, os meus olhos já se enublam
como um sol poente
nas águas sofridas de um rio.
E minha alma, cisne arisco,
já se inclina ante a miragem
do fogo de teus olhos.
Hoje queria tocar-te a superfície,
cadeia enervada de emoções.
Mas, que adianta!
Hoje é apenas um momento...
E o momento é breve como o canto
que te canto.
Depois... Somente a praia submersa
que se inclina
e o sol, pedaços de ânsias afogadas
na mansitude azul das águas.
terça-feira, 3 de agosto de 2021
Graciliano Ramos sob a visão de Túlio Monteiro
A INTERTEXTUALIDADE EM “CAETÉS”, DE GRACILIANO RAMOS – UMA ANÁLISE CRÍTICA DE TÚLIO MONTEIRO
A fórmula do escritor onisciente e das personagens sem “vida própria” tornou-se desgastada no final do século 19. Este estreitamento formal começou a ser descartado, àquela época, por autores do porte de Dostoievski, Maupassand, Tolstoi e Flaubert, para citar apenas alguns. No Brasil, Machado de Assis, com Dom Casmurro, foi quem primeiro rompeu com os moldes ditados pelas correntes seguidoras do Realismo-Naturalismo, tornando-se ele, o precursor do que viria a ser chamado de moderno romance brasileiro.
Os romances, que até então eram narrados em 3ª pessoa, passaram a ser narrados em 1ª pessoa, dando as suas personagens a possibilidade de adquirirem “pensamentos próprios” e de expressarem seus sentimentos e opiniões sobre o ambiente em que se encontram inseridas. A maioria das obras surgidas durante a corrente Modernista não visava mais somente o mero entretenimento de seus leitores – objetivo maior do romance romântico – nem tampouco buscavam atingir o cunho excessivamente reformista da escola Realista-Naturalista. Objetivavam, sim, o aprofundamento do “eu” humano, dando ao leitor uma visão dura, porém extremamente verdadeira do mundo que o cercava, correspondendo isto à mundividência macroscópica e total do universo que os romancistas de então tinham como meta. Uma constante procura pela verossimilhança e consequentemente uma maior aproximação entre o enredo e a vida real, eram também fatores preponderantes aos que se aventuraram escrever sob a ótica Modernista.
E foi bebendo desta fonte, que Graciliano Ramos escreveu Caetés, em 1933. Romance inaugural de uma carreira literária impecável, há que se perdoar a imaturidade do autor quando da feitura desta obra específica. Livro de linguagem simples, porém enxuta, Caetés nada mais foi que um laboratório, um experimento de Graciliano para seus romances posteriores, estes sim, verdadeiras obras-primas da Literatura brasileira, como bem afirma Antônio Cândido, na introdução de seu Ficção e Confissão: “O romancista doloroso e profundo de São Bernardo e Angústia ainda é, aqui, praticante aliás magistral de fórmulas básicas da técnica do romance”[1].
Pouco afeito que sempre foi às descrições intermináveis, já em Caetés Graciliano Ramos nos dá provas de sua imensa capacidade de muito dizer em um curtíssimo número de linhas. Econômico, sim, mas nem por isso pobre em qualidades literárias, o autor brinda seus leitores com descrições que, apesar de extremamente breves, são profundamente ricas em conteúdo, movimento e plástica. Um excelente exemplo disto é a descrição que o autor faz de Marta Varejão, moça rica e de coração livre para amar, com a qual João Valério, em determinado ponto do romance, pensou em se casar. Note-se o uso sequencial de adjetivos, um artifício muito usado por Graciliano em todos os seus romances para descrever de forma rápida, porém bastante eficiente, as personagens por ele criadas:
“Realmente não era feia, com aquele rostinho moreno, grandes olhos pretos, boca vermelha de beiços carnudos, cabelos tenebrosos, mãos de mulher que vive a rezar. E alta, airosa, simpática, sim senhor, ótima fêmea.” [2]
De excessiva simplicidade só mesmo a estrutura fechada, com começo, meio e fim bem delineados e as passagens desnecessariamente óbvias que vez por outra surgem no corpo de Caetés. Fora isto, o romance inicial de Graciliano já permite ao leitor mais apurado, perceber os primeiros traços da genialidade que este alagoano traria à luz em suas obras posteriores. O livro discorre sobre uma história de amor proibido que se passa na pequena cidade de Palmeira dos Índios, interior do estado de Alagoas, nos anos trinta do século 20. Nela, João Valério, guarda-livros de uma empresa de comércio, apaixona-se por Luísa Teixeira, a jovem esposa de seu chefe, Adrião Teixeira, homem abastado, mas já de idade avançada e saúde um tanto quanto imperfeita. A trama se desenrola sem muitas novidades até seu desfecho final, quando Adrião, ao receber uma carta anônima, descobre ter sido traído por sua mulher e por aquele que tratava como um filho desde que passou a trabalhar em seu comércio. O suicídio do velho e o arrependimento tardio de Luísa, que não mais pretende levar adiante seu relacionamento com João Valério, dão tintas finais ao romance.
Wilson Martins, na sua excelente apreciação crítica inserida na 13ª edição de Caetés, comenta que Graciliano Ramos, ao escrever este romance, expôs toda a influência absorvida em Eça de Queirós, mais especificamente das leituras que fez d’A Ilustre Casa de Ramires e d’O Primo Basílio. Muito bem observado, mas, sem querer sermos pretensiosos, cremos ter o crítico esquecido de acrescentar ao seu comentário, a gritante semelhança que há entre Caetés e Dom Casmurro, de Machado de Assis. O triângulo amoroso entre João Valério, Luísa e Adrião em nada difere do existente entre Escobar, Capitu e Bentinho, à exceção de que, ao final da história, Escobar não se suicida, nem Luísa dá à luz um filho bastardo. Fica pois, claro, ter Graciliano lido e intertextualizado Machado de Assis, fato que em nada desabona sua obra de estreia no campo da ficção literária.
Contudo, nem só de pequenos defeitos e algumas redundâncias é feito Caetés. Seu corpus já abriga traços da genialidade de Graciliano Ramos que, como já dissemos, só viria à tona em seus futuros romances. Uma prova cabal disso é o metaromance inserido ao longo de toda a trama. O Caetés que João Valério tenta a duras penas terminar, nada mais é que um intratexto do livro que o abriga, levando o leitor mais atento a constantemente formular perguntas do tipo: Seria João Valério o próprio Graciliano? Teria sido Luísa uma grande paixão proibida do autor? É Caetés uma autobiografia? Teria Graciliano Ramos lido A Normalista, de Adolfo Caminha? Quem sabe?!
Outra prova do excelente uso que o autor faz das técnicas que, em 1969, a crítica búlgaro-francesa Júlia Kristeva, partindo das noções de Dialogismo definidas pelos formalistas russos Mikhail Backtin e Tinianov, fundamentaria e denominaria como Técnicas de Intertextualidade, é a clara alusão que o autor João Valério faz a Iracema, de José de Alencar. Vejamos:
Daí passei para Iracema, da Iracema para o meu romance, que ia naufragando com os restos do bergatim de D. Pêro. Não era mal tentar salvá-lo, agora que, com o armazém fechado, eu podia dispor da tarde inteira. Decidi-me antes que o entusiasmo esfriasse. [3]
E João Valério – suponha-se Graciliano Ramos – vai mais fundo ainda em suas intertextualizações. Tendo pouco conhecimento da história de nossa colonização e sem muita imaginação para compor as personagens de seu romance, João Valério utiliza-se das pessoas que o cercam cotidianamente para gerar os selvagens que habitam seu Caetés:
Continuei suando, escrevi dez tiras salpicadas de maracajás, igaçabas, penas de araras, cestas, redes de caroá, jiraus, cabaças, arcos e tacapes. Dei pedaços de Adrião Teixeira ao pajé: o beiço caído, a perna claudicante, os olhos embaçados; para completá-lo emprestei-lhe as orelhas de padre Atanásio… Sou incapaz de saber o que se passa na alma de um antropófago. Dos indivíduos das minhas relações o que tem parecença moral com o antropófago é o Miranda, mas o Miranda é inteligente, não serve para caeté. Conheço também o Pedro Antônio e o Balbino, índios. Moram aqui ao pé da cidade, na Cafurna, onde aldeia deles. São dois pobres degenerados, bebem como raposa e não comem gente. O que me convinham eram canibais autênticos e disso já não há. Em falta melhor, aproveitei os remanescentes dos brutos da Cafurna, tirei-lhes os farrapos com que se cobrem, embebedei-os, besuntei-os à pressa, agucei-lhes os dentes incisivos. Matei alguns brancos, pendurei-os em galhos de árvores e esfolei-os com a ajuda do Balbino. Depois entreguei-os às velhas, entre as quais meti a D. Engrácia, nua e medonha, toda listrada de preto, os seios bambos, os cabelos em desordem, suja e de pés de pato. [4]
O Caetés de Graciliano Ramos é assim: o romance inaugural de um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Redundante, cercado de influências claras, raso, um tanto instável e escrito por um homem “tão prevenido e mesmo tão desconfiado”, como bem afirmou o poeta Augusto Frederico Schmidt. Porém, se é de bom tom levar-se em conta a imaturidade de qualquer autor que se inicia no mundo literário, o que se dizer do primeiro livro de um escritor do porte de Graciliano Ramos? De qualquer forma, Caetés é uma obra agradável de se ler. De enredo leve e já possuindo pinceladas de uma ampla visão sociológica da realidade e do profundo questionamento crítico-social que caracterizaram e permearam os romances nascidos durante a geração de 30, Caetés é leitura indispensável aos que desejam penetrar no fantástico mundo ficcional do alagoano Graciliano Ramos, a fim de desvendarem um dos mais vastos universos literários de nosso País.
[1] CÂNDIDO. Antônio. Ficção e Confissão. SP, Editora 3D. sem data, p.12.
[2] RAMOS, Graciliano. Caetés. SP, Editora Record, 13ª edição, 1977, p. 36.
[3] RAMOS, Graciliano. Op. Cit. p. 99.
[4] RAMOS, Graciliano. Id. Ib. p.100.
BIOGRAFIA
Túlio Monteiro – Escritor, biógrafo, historiador e crítico literário. Graduado em Letras pela Universidade Federal do Ceará – UFC. Grau de Especialização em Literatura e Investigação Literária, também pela Universidade Federal do Ceará – UFC, com a monografia: Intertextualidade e Fluxo da Consciência na Obra de Graciliano Ramos – Orientadora: Professora Doutora Vera Lúcia Albuquerque de Moraes.
Autor dos livros
Agosto em Plenilúnio – Poesias – 1995 – Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará.
Lopes Filho e a Padaria Espiritual – 2000 – Biografia – Coleção Terra Bárbara – Edições Demócrito Rocha – Jornal O Povo.
Sinhá D’Amora, Primeira-Dama das Artes Plásticas do Brasil – Biografia – 2002 – Coleção Terra Bárbara – Edições Demócrito Rocha – Jornal O Povo.
Antologia de Contos Cearenses – 2004 – Organizador – Coleção Terra da Luz – Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará – UFC, em parceria com a Fundação de Esportes, Cultura e Turismo de Fortaleza – FUNCET – Prefeitura Municipal de Fortaleza – Ceará.
Dois dedos de prosa com Graciliano Ramos – Contos – 2006 – Coleção Literatura Hoje – Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará – UFC.
Sonhos e Vitórias – A História de João Gonçalves Primo – Biografia – 2007 – Em parceria com o Poeta, Escritor, Historiador e Biógrafo Juarez Leitão – Premius Editora.
Cajueiro Botador – Infanto-Juvenil – 2008 – Coleção Paic – Secretaria de Educação do do Estado do Ceará – SEDUC – Governo do Estado do Ceará.
Participação na Coletânea 100 Sonetos de 100 Poetas – com o soneto E há pó de Estrelas pelas estradas – Editada pelo Instituto Horácio Dídimo – 2019 – Vencedora do Troféu Literatura 2020, da XIII bienal do Livro do Ceará – Prêmio concedido pela ZL Books.
Premiação
Vencedor do 2.º Prêmio Ideal Clube de Literatura – A Hora e a Vez dos Nossos Cronistas – Com a crônica “Dois dedos de prosa com Graciliano Ramos” – Fortaleza – Ceará – 1999.
Assessoria Técnica e Cotejamento do Texto Original
24º Cine Ceará – Prêmio de Melhor Produção Cearense para o curta-metragem “Joaquim Bralhador”, adaptação do conto homônimo do livro Joaquinho Gato, do escritor cearense Juarez Barroso – Dirigido pelo cineasta Márcio Câmara – 2014.
terça-feira, 8 de setembro de 2020
O LEGADO POÉTICO DE GISELDA MEDEIROS - NEIDE AZEVEDO
O LEGADO POÉTICO DE GISELDA MEDEIROS
A poesia é mistério, solidão e descoberta. Presente em qualquer aurora, ela nos arrebata, prende, fascina. Conosco voa, plana, ou esconde-se. Nos cantos mais sutis das nossas almas, ou até mesmo numa porta fatigada de esperas. Estampa-se no sorriso do vento, na insensatez do tempo ou nos confins dos nossos braços cheios de abraços.
Assim, envolta na túnica do sonho, testemunha da saudade, da dor ou do recolhimento, Giselda Medeiros lega à sua imensa legião de leitores, essa obra de singular beleza, onde tudo converge ao essencial. Incrustada numa ânfora morna de sol; pronta aos nossos olhos ávidos de sabê-la.
Afirma Voltaire que o esplendor da relva só pode mesmo ser percebido pelo poeta. Os outros pisam nela.
Pelo prisma de sua farta imaginação poética, a escritora intui a filigrana da metáfora, transformando o que poder-se-ia tomar como lugar comum, numa cortina aberta às conjecturas, certezas, solidões, esperanças, silêncios e caminhos. Esses, por vezes tortuosos, inalcançáveis, vazios...
“Há muito estou aqui / no meio deste tempo sem história / cansa-me procurar a saída / nesses vales úmidos de espanto”. Ante a indefinição, o medo, o inconcluso, só resta à poeta adormecer. Para quem sabe, achar uma saída... E, nessa sublimação, exclama: “Adormecer, adormecer – é o que me resta, / para sonhar com tuas mãos se abrindo em flores”.
No poema visões a simbiose da escritora com o eu lírico forma-se em movimentos alternados de aproximação e distância. Isso, Giselda mostra num percurso solitário e indiviso, compondo em miragens uma fragilidade infinda: “Há pássaros engaiolados em teus olhos / nos meus há liberdade de nuvens em travessia”. “Tudo em ti é mito; / tudo em mim é poesia / tuas mãos não derramam brindes; / minhas mãos derramam estrelas”.
Já em nuvem de sândalo a poeta canta o canto inaugural das tardes, prometendo ao amado seu cálido perfume de mulher. Aqui, o erotismo é sutil; posto sabermos que sua poesia jamais tombará sob o peso do grotesco. “Eu serei para ti a amada e a amante. / descerei ao pomar de teus anseios, / feito fruta colhida entre tuas heras”.
Há beleza em tudo que se move; Ânfora de Sol é beleza em movimento. “O ardente desejo de amanhecer-me aurora / cresce, expande-se, alastra-se em vigílias, / enquanto só a melancolia amanhece em minhas pálpebras.”
Giselda Medeiros é multifacetada em versos. E sua poesia é indissociável do canto, da dança, da cor e do lamento: “tu cantas, poeta, / a amargura da vida / com a mesma singeleza com que choras / o amor sonhado, encravado nas estrelas”. “Para ti / a nota o ritmo / na simbiose da canção / de amor que cantas”. “ah, deixem-me cantar minha canção / na dor silenciosa dos espinhos, / porquanto a aurora ainda é paisagem em mim!”
Ânfora de Sol é tudo isso. A reflexão existencial sobre o amor e seus contornos. A memória percorrendo lenta as sendas do impreciso. Ou a explosão da luz totalizando os êxtases!
Giselda Medeiros seguirá, certamente, o seu caminho; encantada e conclusiva sobre a pujança de se saber poeta. Nós, seus leitores, inclinamo-nos reverentes ao seu verso.
segunda-feira, 17 de agosto de 2020
ENSAIO DO POETA DIEGO MENDES SOUSA
CARLOS NEJAR E AS COPAS ALTAS DO ABSOLUTO





