sábado, 25 de março de 2017

ANA PAULA DE MEDEIROS APRESENTA LIVRO - "DOCÊNCIA, SABERES E PRÁTICAS"


Gostaria de iniciar destacando a grande alegria que senti pelo convite que me foi feito para apresentar a obra DOCÊNCIA: SABERES E PRÁTICAS, organizada por Francisco Ari de Andrade, Alba Patrícia Passos de Sousa e Dayana Silva de Oliveira. O livro apresenta aos leitores do mundo acadêmico e amantes dos assuntos educacionais, um acervo muito interessante de artigos científicos que abordam a docência em sua dimensão teórico-prática.
Essa especificidade da obra remete-me ao pensamento de Adolfo Vasquez, o qual assevera que “A teoria em si não transforma o mundo”. Tal assertiva nos leva a refletir sobre a necessidade da ação e da existência do homem como ser ativo dotado de intenções reais e efetivas para desencadear a verdadeira transformação no mundo. É certo que o papel da teoria é de servir como embasamento, como pano de fundo em que se efetiva a prática. Sem a assimilação da teoria, a prática pode resumir-se em atividades anacrônicas e assistemáticas, não contribuindo significativamente para a real transformação da realidade.
A ontologia de Heidegger esclarece que estamos no mundo, e o mundo é mais velho que nós, e que somos capazes de dar sentido a ele, conhecê-lo e transformá-lo. É nessa lógica que entendemos o propósito dessa coletânea, que se oferece ao leitor para potencializar seus conhecimentos acerca da busca da essência do Ser professor como alguém que, transformando o outro, transforma-se a si mesmo.
O livro compõe-se de um volume com 326 páginas, graficamente bem apresentadas com editoração da CRV Editora, ano 2017. O conteúdo traz 23 artigos de professores e pesquisadores da UFC e de outras Instituições de Ensino Superior brasileiras, estudantes de graduação e de pós-graduação da UFC e professores da rede pública do Ceará e de outros estados. Apesar da ampla diversidade de perfis dos autores e da abordagem da docência nas mais variadas áreas do conhecimento, os artigos apresentam uma característica comum: a tônica do alinhamento teórico-prático na essência de cada texto.
Ao longo da leitura, o leitor encontrará reflexões sobre a interação entre a educação formal e a não formal, sobre formação de professores, evasão escolar, gestão do estágio supervisionado, juventude, currículo, educação inclusiva e educação para o desenvolvimento sustentável, além de um amplo acervo de artigos que tratam de reflexões teórico-práticas na educação infantil e no ensino fundamental com destaque para as áreas da Língua Portuguesa, Matemática, História, Ciências, Música e Religião.  
Na discussão dessas temáticas, os autores buscam reforçar que a prática docente deve ser essencialmente pedagógica. De acordo com Libanêo, “[...] o que define algo – um conceito, uma ação, uma prática como pedagógico é a direção de sentido, o rumo que se dá às práticas educativas”. Assim, o que vai, então, orientar a prática docente é a Pedagogia, a qual está bem definida nas palavras de Gaston Mialaret como “[...] uma reflexão sobre as finalidades da educação e uma análise objetiva de suas condições de existência e de funcionamento”.
A Pedagogia, assim entendida, é, portanto, a teoria norteadora da prática educativa.  Dessa forma, a prática docente deve estar orientada por uma teoria que possibilite aos alunos, mediante suas próprias forças intelectuais e práticas, o domínio de conhecimentos, habilidades e convicções, com o objetivo de promover uma leitura crítica da realidade. Desse modo, a docência se efetiva adequadamente quando tem uma pedagogia que orienta a prática para uma direção definida. Esse é um aspecto bastante presente nos artigos desta obra.
Na mesma direção dos teóricos contemporâneos, os quais recomendam que se eduque para a criticidade e a autonomia, está a essência de cada trabalho que compõe o livro. Libâneo recomenda que o trabalho docente na abordagem dos conteúdos deva ser conduzido de forma que “[...] auxilie os alunos no domínio sólido e duradouro dos conhecimentos, levando-os a ter pensamento autônomo, coragem de duvidar e interrogar a realidade e capacidade de dar respostas criativas a problemas práticos”.
              A ação docente, vista por este ângulo, remete ao seu caráter intencional e à reflexividade que é bem definida por Pérez Gómez como “a capacidade de voltar sobre si mesmo [...], de utilizar o conhecimento à medida que vai sendo produzido, para enriquecer e modificar não somente a realidade e suas representações, mas também as próprias intenções e o próprio processo de conhecer”.
É assim, no intuito de provocar essas reflexões no leitor, que a presente obra se mostra ao público! Desfrutemos, pois, sua leitura!
Muito obrigada!

                                                         Ana Paula de Medeiros Ribeiro

Faculdade de Educação – FACED/UFC

MEMÓRIA FOTOGRÁFICA










sexta-feira, 17 de março de 2017

AFFONSO TABOZA - CONSELHEIRO NATO - E SEU POEMA "A MÍSTICA DO NÁUTICO"



      A MÍSTICA DO NÁUTICO


        Algo especial dali emana:
         magia? encanto?
Não sei. Mas       
       ali um fascínio real acontece
        e a todos contagia.
       De fato,
         há viço na bela arquitetura,
brilho nas colunas, no nome, no culto à tradição;
como se dali brotasse um halo etéreo e se expandisse,
banhando o entorno de esplêndida luz.
Berço humilde, história gloriosa,
binômio que exalta e enobrece
a ação e a visão de pioneiros
e de abnegados que lhes seguiram os passos.
Código de ética não escrito
lhe rege vida,
fruto do exemplo de dirigentes
e da retidão de propósitos coletiva.
Árvore generosa,
sua sombra acolhedora
abriga e alegra, diverte e instrui,
seus frutos alimentam.
Não há  quem não se encante
com a magia que flui
desse organismo vivo e vibrante.
É bonito, é nobre,
chega a ser grandioso.
 Nossa devoção, nossa paixão, nosso orgulho,
NÁUTICO.
ETERNO.

sexta-feira, 10 de março de 2017

UM POEMA DE AFFONSO TABOZA



            ALDEIA UNIVERSAL[i]
                   Affonso Taboza

Nosso Universo é feito de aldeias,
mini, pequenas, médias e ingentes,
onde vive ou vegeta o ente humano.
Culturas e raças? Bem diferentes...

Nesse cadinho humano que é a Terra,
regem a vida as emoções pessoais,
amor e ódio, frustrações e anseios,
sentimentos de fato universais.

Peca, portanto, quem desconsidera
verdade de tamanha relevância:
Se os sentimentos dão o tom da vida,
cada aldeia tem sua importância

pois é nela que a vida acontece.
E a vida na Terra não é mais
que a soma das vidas nas aldeias,
com seus erros e acertos naturais.

Por isso, um romance ali vivido
não se anula no confim regional.
Verdade! Desde que retrate a alma,
todo romance é universal.




[i] Estes versos foram por mim escritos
a  propósito da frase de Dostoiévski:
“Se quer ser universal, cante sua aldeia”.
A frase famosa e os versos ilustram as
páginas iniciais do meu romance
Ventos da Fortuna, 2006, 356 páginas.

sexta-feira, 3 de março de 2017

LEITURA PARA QUARTA-FEIRA DE CINZAS - VIANNEY MESQUITA



“LEMBRA-TE, HOMEM, QUE ÉS PÓ”...

Vianney Mesquita*
O fraco teme a morte; o infeliz a chama; o temerário a provoca; e o sensato a espera. (BENJAMIN FRANKLIN).


É hoje um dia de igreja católica lotada, muitas vezes até por pessoas que a frequentam somente nesta data, quer por superstição, arrependimento pelos seus transportes durante o carnaval, ou mesmo as duas razões combinadas. Infelizmente, entretanto, é ressaltado o primeiro pretexto, manifesto na crendice, retratado na superstição e no fanatismo religioso.
Oportuna, porém, é a ideia de todos evocarem a leitura na Bíblia em Língua Portuguesa, onde está expressa, em Gênesis, 3:19, a divisa Lembra-te, homem, que és pó e em poeira te tornarás, quando o Criador, perpetrada a falta original, expulsou Adão do Paraíso, prescrevendo-lhe intensos trabalhos, rematados com a morte, ocasião em que o corpo - a carne – de nada mais aproveitará.
De modo diverso do ocorrente no lado oriental, a cultura do Ocidente nos infundiu a ideia de que o fim pela morte é algo terrível, embaraçoso, porquanto está disposta nos limites do impossível a admissão da nossa finitude, do termo definitivo da vida, de modo a persistirmos no raciocínio irreal e ilusório de que não se efetivará a condução da alma para a Outra Dimensão, pois a existência terrena seria sem fim.
Eis, entretanto, que balança esta “convicção”, absolutamente equivocada, ao menos uma vez por ano e no primeiro dia da Quaresma, coincidente com a Quarta-Feira de Cinzas. É quando, pois, o sacerdote da Igreja de Roma – cruzando na testa de cada um as cinzas remanescentes das palhas do Domingo de Ramos imediatamente anterior - representa Deus a nos alertar para o fato de que a Humanidade é pó e à poeira retornará em definitivo como matéria.
Então, ao modo como a Igreja procedia antes do Concílio Vaticano II, é substituída a frase latina Memento, homo, quia pulvis, es et in pulverem reverteris, igual a “Lembra-te, homem, que és pó em pó te tornarás”, podendo o celebrante dizer, alternativamente: “Arrependei-vos e crede no Evangelho”.
Esta verdade é terminante e vale para a Humanidade inteira, esteja a pessoa na velhice, quando madura, na condição de preferencial – como é da moda – com vigor na saúde e gozando de bem-estar socioeconômico, na doença e indigência, e, em particular, na juventude ou como adulta nova, em qualquer estado, se impõe que todos se deem conta de que “o reino do céu está perto”, sendo crucial que preparemos o caminho do Senhor, endireitando nossas veredas, à maneira como expresso por João Batista, a voz que clamou no deserto.
Então, no dia inaugural da Quaresma, examinemos a consciência e intentemos remover os habituais excessos, apagar as rixas com o próximo, viver mais a Palavra, ao procurar a indicação divina, a fim de que seja delineada a correção dos rumos, sem simuladas carolices nem devoções aparentes, vedadas as manifestações de atitudes, limitadas ao âmbito do edifício da igreja, porém com eficácia em todo lugar e a qualquer tempo.
 De tal maneira, experimentemos a chance de atualizar nossa Contabilidade para demonstrá-la em balanço perfeito aos órgãos de controle do Alto, com vistas a deixar nossos registros sempre limpos e nossa ficha sem rasuras nem lacunas que se façam obstáculos impeditivos do nosso intento de salvação.
Assim, completando a reticência do título, está em Gênesis, 3:19, a importantíssima divisa latina Memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris, convidando-nos a evocar a noção de que, na qualidade de corpo, somos cinzas, aquelas cruzadas hoje na testa de cada um.



*Vianney Mesquita é professor da Universidade Federal do Ceará. Acadêmico Titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa e Academia Cearense de Literatura e Jornalismo. Imortal-fundador da Arcádia Nova Palmaciana – Cadeira número um. Escritor e jornalista. Membro da Associação Internacional de Jornalistas (Bruxelas – Bélgica – U.E.).

ZENAIDE MARÇAL HOMENAGEIA, COM SONETO, GISELDA MEDEIROS PELA OUTORGA DO TÍTULO DE "PRINCESA DOS POETAS DO CEARÁ"


Templo

À Princesa dos Poetas do Ceará – Giselda Medeiros

Quando terão meus versos a beleza
que cinge teus poemas preciosos
nos quais os temas têm tal sutileza
que soam leves, ricos, primorosos?!

Quando terão meus versos o poder
de transmitir nas rimas o valor
dos lindos versos que fazes nascer
como se fora um terno ato de amor?!

Pois é assim, a amar cada palavra,
que cada linha que tua pena lavra
transmite sempre um mundo de emoções...

E penso, até, que fazes da Poesia
um grande templo em que a sabedoria
versos te dita em forma de orações!


Zenaide Marçal  (04/2002)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

UM POEMA DE GISELDA MEDEIROS - CANÇÃO DA ENTREGA



CANÇÃO DA ENTREGA


                             Deixa-me assim,
                            pequenina entre teus braços,
                            nesta paz de pedras adormecidas
                            a esperar as águas que virão
                            do teu mar.
                            Quero esta paz imensa de madrugada
                            que faz tremer meu verso,
                            mais nada.

                            Depois, o extremo...
                            Quero o fremir, o grito
                            que acenderá as luzes de poemas,
                            lírios despetalados.
                            Abrir-te-ei minha alma
                             - a corola -
                            e nela pousarás qual afoito colibri
                            na rosa
                            ao sopro da canção que te escrevi.
                            Aí seremos água e fonte

                            e asas riscando os horizontes.

(do livro "Tempo das Esperas")

ESPALHEMOS A BELEZA DA POESIA DE ARTUR EDUARDO BENEVIDES


POEMA DE CONFISSÃO

Sou teu soldado-clarim.
Tens o segredo milenar da fonte.
E sei que estás, imensamente, em mim
como a linha do azul em cima do horizonte.
Teu jogral e andarilho,
vejo a tarde a descer de teu cabelo
tocando a solidão do tombadilho
à luz do Sete-Estrelo.
De repente, qual se a força do vinho me tomasse,
percebi-te na árvore em que nasce
a tâmara da vida.
E encontro em teu olhar minha nave perdida.
Nesse olhar de albores e flamboyants,
guardando os resedás e os rios das manhãs!
Quanto o esperei, desde longínquas datas,
mas as cousas me foram bem ingratas
passando por mim quais fantasmas num espelho.
Então, como num Canto de endormir criança,
chegaste com leveza de esperança
e ficaste em mim
- ó vilancete de luz ouvido num jardim,
- ó chuvas de infância cantando sobre as telhas,
despertando o balir alegre das ovelhas!
Ai, com tua escada de estrelas me salvaste
de frios iatagãs
Com teu jeito de lã no inverno me amaste.
E vi a teus pés rosas e avelãs.
E eu, com velhas mágoas como domicílio,
ficando junto a ti, não morrerei no exílio.
(do livro POEMAS DE MESA - 2012)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

ENSAIO - POR VIANNEY MESQUITA



ESTESIA DA COMPOSIÇÃO – Professor Maurício Moreira, estilista da palavra

Vianney Mesquita*


Um monte de livros não vale um bom mestre (Provérbio chinês).

De conformidade com a taxinomia consagrada nos compêndios de versificação, como a própria denominação tenciona indicar, o verso decassilábico é aquele que encerra dez sílabas métricas, contadas do seu início até o último grupo de fonemas, e constitui, em conjunto com outras estâncias poéticas, à extensão de seu nome, o poema decassílabo ou decassilábico.
Na Poética, convém repetir por, ser oportuno, a contagem das sílabas consonadas não coincide com a dos iguais conjuntos de letras gramaticais, não apenas pelo fato de se ir até a tônica derradeira, porquanto há outros elementos a considerar – conforme evoca Sânzio de Azevedo, no seu admirável  Para uma teoria do verso (Fortaleza: Edições UFC, 1997).
De igual modo ocorre com os metagramas, palavra do léxico da Retórica – representativa do desvio da correta composição fonética vocabular, admitida em virtude da métrica e da estética poética – bem como outros elementos figurativos responsáveis, complementariamente, pela formosura da poesia.
Em virtude desta não concordância silábica da composição ordinária com a elaboração poemática em todas as suas classificações e tendências de afiliação, talvez não seja de todo inócuo refrigerar a memória do leitor para um fato de relevo.
Reporto-me ao emprego, quando da estrofação, das diversas resoluções figurais de adição, subtração e fusão silábicas, como apócopes, síncopes, sinéreses etc, antes que ele, equivocamente, ache de argumentar que o número de ictos (acentos fortes incidentes sobre determinada sílaba de um pé) está defeituoso, porém admiravelmente correto e distinto e nobre e vigoroso – conforme as qualificadas composições enfeixadas neste volume póstumo (Expressões de uma Vida Fértil) do enorme poeta e desmedida personalidade intelectual e humana que foi o Professor Maurício Moreira.
No Brasil e, quiçá, em outros pagos lusófonos, o decassíliabo é, ainda, bastante apreciado, a despeito do prestígio modal e da necessidade de atualização diacrônica das produções modernas em verso branco, aliás também exercitadas com perfeição pelo Autor comentado, em pleno fastígio do Modernismo no Brasil, alguns pares de anos após a histórica Semana da Arte Moderna, em fevereiro de 1922.
Rogo vênia ao meu leitor a fim de reproduzir, a modo de exemplo, um soneto decassilábico, oferecido a um garoto filho de um amigo, o qual, à semelhança de Bilac (este dodecassílabo, como veremos à frente), tem nome decassilábico perfeito – Lucas Vinicius de Carvalho Cruz.
FATO ALVISSAREIRO

Janeiro, dia doze deste mês,
A mãe, dona Rejane trouxe à luz,
Em decassilábico português,
Lucas Vinicius de Carvalho Cruz.

Segundo originário do casal,
Broto gentil, da união mais bela,
Pois que havia anos – bom sinal !
Houvera já surgido Rafaela.

Desta cepa de Cruz e de Carvalho,
Com o nome de Médico Evangelista,
Nasce o sarmento cuja estrela brilha.

E este garoto de elegante talho,
De Régis procedente, encerra a lista
Em arremata à festa da família.

Malgrado o citado moto modernista haja quase desterrado a forma soneto das publicações brasileiras, ao ponto de Cassiano Ricardo lobrigar nesta configuração provençal antiga o antes pandêmicoSonetococcus brasiliensis” (AZEVEDO, opus citatum) – esta grade fixa de catorze versos (dois quartetos e dois trísticos) jamais deixou de ser cultuada entre nós, tanto pela cadência, musicalidade e outros componentes estéticos de seu uso, quanto pela relativa facilidade de compô-la, hajam vistas a fixidez e a imutabilidade do seu arranjo estrófico siciliano, somente à espera de quem, com alguma inspiração e certo conhecimento do léxico – dirão alguns – lhe recheie os espaços.
Sânzio de Azevedo, em Otacílio Colares e a Coroa de Sonetos (Fortaleza: Edições UFC, 1985), remete o leitor ao também seu O Soneto Moderno (In Poesia de Todo o Tempo. Fortaleza: Edições Clã, 1970), onde se refere ao redisciplinamento poético e recuperação de antigas composições, por parte da Geração de 1945, entre as quais se encontra o soneto, conforme adiantamos há pouco, “[...] quase banido da literatura nacional, ao ponto de, em 1930, a coletânea de Andrade Murici A Nova Literatura Brasileira não abrigar um só desses poemas de forma fixa”(AZEVEDO, ID.IBIDEM), como se nota, no começo da produção de Maurício Moreira, em parte publicada no seu livro ora sob comento. Ele próprio, bem se vê, aggiornou-se, compondo peças de rara beleza modernista, como Saudade e Calor e O Ébrio, nas quais comprova, de sobejo, sua adesão ao ímpeto artístico de 1922, com insuperável aptidão plástica.
Em estudo acerca da obra do escritor piauiense Santiago Vasques Filho, Folhas Mortas. Sobral: Edições UVA, 2000), eu expressava que a ideia de “[...] regeneração dos padrões fixos, certamente aqui operada com a assistência da Geração 1945, teve efeitos em poetas mais novos [...] (MESQUITA, Vianney. Fermento na Massa do Texto.Sobral: Edições UVA, 2001), como, certamente, ocorreu com Maurício Moreira, a julgar pela manifestação de sua atualidade literária expressa nas duas composições retromencionadas, sitas na III Parte daquele volume.
A forma do redondilho maior (ou verso de arte menor, que é o setessílabo, hetero ou homorrítmico), com segurança, é a mais empregada em todas as correntes estéticas, maiormente porque esteia grande parte das composições populares do Nordeste do Brasil, não deixando, também, de ser aplicada na feitura do sonetilho – mesma grade dos demais polissilábicos, mas com apenas sete ictos em todos os seus catorze versos – e outras composições classificadas.
Certamente, logo após essas estâncias – de aplicação profusa na nossa literatura de cordel – é o decassílabo, ou verso heroico, o mais apreciado, no Brasil, em particular. Noventa e quatro sonetos nesta feitura fazem parte do volume a que se dedicam estas notas, em seleção procedida pela família do autor que, aliás, demonstrando o equilíbrio e a felicidade sem igual do seu grupo sociológico primário, a este alude, na maioria das suas cadenciadas e belíssimas composições, fato demonstrativo do aparato intelectual deste professor, que fez história em Sobral, onde viveu muito boa parte do seu tempo corporal, semeando o conhecimento e fazendo o bem aos seus circunstantes, perpetuando seu exemplo per omnia tempora.
Relativamente ao chamado verso alexandrino, com o qual Maurício Moreira brinda o leitor em catorze composições no seu livro, este se refere ao poema dodecassilábico, pelo qual, dentre outras razões, restou conhecido e popularizado o poeta parnasiano Olavo Bilac, exatamente em razão de o seu nome completo modelar um “alexandrino perfeito”, com os doze acentos deste verso – Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac – a igual do ocorrente com o menino,”decassilábico perfeito”, Lucas Vinicius de Carvalho Cruz, há pouco mencionado.
O soneto alexandrino, geralmente com cesura na sexta sílaba (como em Martins) e na décima (Bilac), indicando a divisão rítmica (hemistíquios) no caso do alexandrino clássico, pode também, por modificação procedida pelo Romantismo, trazer acento noutras sílabas.
Consoante informação de domínio público, a ideia da denominação – alexandrino – apareceu no século XII, nas canções da gesta francesa, de modo que o nome procede do título do poema, ou até da alusão ao seu autor, Alexandre de Bernay (ou de Paris), trovador, o qual estruturou a composição O Romance de Alexandre, em doze pés, dando origem aos versos com tal medida.
Conforme é dado ao consulente verificar, é admirável o veio do Autor, ao expressar-se nesta craveira compositiva, a qual solicita,  como o fazem (porém, menos) outras medidas poéticas, total império do metro e senhorio amplo do assunto a ser coberto, geralmente evocando elementos figurais das Artes, da Filosofia e das Ciências em geral e invitando fatos e feitos da História e de suas personagens, o que exige, mencionando ideia de sociólogos, como Pierre Bourdieu, v.g., o máximo de capital cultural possível.
Na Parte III, há uma seleta de composições em língua-prosa, vazadas em faustoso, porém frugal, Português, mesmo no tempo em que foram escritas, desenlaçadas da fastienta mania verborrágica, dos substantivos e verbos excessivamente enfáticos, dos adjetivos sobejantes e das circunlocuções que, via de regra, aportam no truísmo tautológico, traduzindo perfeitamente a paulificância da elocução.
Fácil é divisar, na grandiosidade estética do Professor Maurício Moreira, sua preocupação diacrônica em atualizar os valores históricos da Língua, para não mostrá-la arteriosclerótica aos seus teúdos e manteúdos culturais. Basta, por conseguinte, se ler seus escritos, do final dos anos 1930, para comprovar o zelo elocutório, o desprezo pelos modismos e o gosto estético nos seus propósitos comunicativos, o que só é possível àquele que entesourou, de estudo, as gemas valiosíssimas do preparo intelectual que preside ao mister do extraordinário docente que foi, mas cuja obra professoral contém desdobramentos e haverá de ser irradiada para todo o sempre.
    

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

APONTAMENTOS SOBRE A TROVA - ZENAIDE BRAGA MARÇAL



Apontamentos sobre a Trova
(Palestra proferida na Academia Cearense de Médicos Escritores)


  Segundo Artur Eduardo Benevides, saudoso Príncipe dos Poetas Cearenses, “na taxonomia poética trova é poesia lírica, com normas preestabelecidas e que não devem ser alteradas; vem de fontes eruditas e medievais. (...) Parece ter havido um consenso tácito sobre a consagração dos quatro versos de sete sílabas, o que deixa a trova mais forte. Ao longo do tempo foi ficando mais popular, mas não é subliteratura. Pede simplicidade, beleza e poesia. Se for muito literária, torna-se artificial”.

A Trova, quanto ao seu tamanho, inspirou muitos trovadores:

  De Ferreira Nobre:                                       
“A trova, segundo a norma                       
 da mais sábia experiência,                                              
é pequenina na forma,                                 
porém gigante na essência.”                       

De Batista Soares
“Num simples verso se prova
este mistério profundo:
na pequenez de uma trova
cabe a grandeza do mundo!...”
  
Agora vejamos algumas normas a serem observadas pelos que compõem trovas.  Estudemos as trovas seguintes:

No sertão, se a noite desce ___1° verso (A)          
e cobre o verdor dos campos,_2° verso ( B)          
a beleza permanece ________ 3° verso (A)          
no piscar dos pirilampos. ___ 4° verso ( B)          

Quando vejo teu sorriso       (A)
iluminando teu rosto            (B)
esqueço qualquer desgosto   (B)
e  antevejo o Paraíso...          (A)

Vejamos:
1 - A trova tem quatro versos (linhas);
2- Tem 7 sílabas poéticas por verso;
3- Tem rima;
4- Tem um tema – assunto principal contido na trova – (palavra)
5- Tem sentido completo.

Observemos:

 2-   A contagem das sílabas poéticas é diferente da das sílabas gramaticais.
Na metrificação poética, quando acontece o encontro de duas ou mais vogais, estas se unem formando uma só sílaba. Também precisamos saber que no verso não se contam as sílabas que vierem depois da última sílaba forte (tônica).

Ex: Noser/tão, /seanoi/tedes/ce, (contagem gramatical: 9 sílabas)
      Noser/tão, /se anoi/tedes/ce,  (contagem poética: 7 sílabas)
      E /co/bre/ over/dor/dos/cam/pos (9 sílabas)
      E / cobre o/ verdordoscam/pos (7 sílabas)

3 – Rima é igualdade de sons no final de dois ou mais versos.

Na trova acima,  desce - rima com permanece –1° e 3° versos.
                           Campos - rima com pirilampos - 2° e 4° versos. 

Disposição das rimas: ABAB, ABBA, ABCB, etc. A forma ABAB é a mais usada e aceita pela UBT- União brasileira de Trovadores, principalmente em concursos.

Exemplo de rimas de escrita diferente e sons iguais:

Sorrateiro, sem fumaça,                                 
Arrasador, inclemente,                                   
É aquele fogo que passa                                 
queimando os sonhos da gente!                     
   (Neide Rocha Portugal – PR)                           

Que eu te esqueça não me peças...
Não me obrigues a fingir
e a fazer falsas promessas
que jamais irei cumprir...
  ( Marina Bruna- SP)

4 – O tema neste caso é beleza  (dos campos).

5 – Tem sentido completo, isto é, a permanência da beleza nos campos apesar do escuro da noite.

Exemplo de trova com assunto incompleto e rima desigual:

Eu sinto ser trovadora                            
a cada hora bendita;                                 
a toda flor que descora,                            
choro com ela a desdita.                          
              ( D.N.Castro - SP)                               

Para revelar a beleza, a Trova tem como fator primordial a Poesia; não necessita de palavras rebuscadas, de difícil compreensão. O que importa é que possamos acomodar aquilo que desejamos exprimir nos limites um tanto apertados que a Trova nos oferece. Temos que captar o seu sentido como nesta trova que é uma das primeiras que fiz:

A trova é tão pequenina...
mas venço seu desafio:
dentro dela, na surdina,
sofro, choro, canto e rio!

A Trova transmite o amor, o riso, o pranto, enfim, o nosso jeito de pensar e, segundo o que expressa, tem várias classificações:
Lírica, Filosófica, Educativa, Humorística, Satírica, etc.

Não devemos complicar estudando logo no início todas as normas para a composição de uma trova perfeita. O que aqui foi explicado é suficiente para o trovador iniciante.

Algumas recomendações:

- Não é aconselhável fazer trovas de improviso.

- Antes de tudo, escolha um tema; anote possíveis rimas; tenha em mente a simplicidade; faça várias trovas sob o mesmo tema  e escolha a melhor.

Ex: Diante do tema – Perdão – fiz inicialmente duas trovas:

1-    Quero esquecer as ofensas,     
quero dar-te o meu perdão.            
É mais difícil que pensas               
perdoar de coração.                       

2 – Quem não sabe perdoar
não merece ter perdão;
é bom parar e pensar
em perdoar seu irmão...

Olhei as trovas e refleti que elas poderiam ter um pouco mais de poesia e talvez um melhor vocabulário. Assim, formulei mais duas trovas, tendo escolhido esta que mostro agora:

      O perdão é tão sublime
      que, por mais que a ofensa doa,
      põe uma paz que redime
      o coração que perdoa.

Alguns exemplos de trovas quanto à classificação:

Filosófica                                                                 
Saudade, tear sutil                                                  
que não se vê, mas se sente                                    
tecendo com fios mil                                               
o passado no presente.                                             
            Luiz G. de Arruda   
                                                   
Educativa
Sê como o mar, grandioso,
cujo esplendor estonteia,
mas, humilde e generoso,
vem bordar rendas na areia!
                 Giselda Medeiros

Lírica                                                                               
Daquele amor do passado                                      
Tu não escutas o grito                                            
Mas, o destino é traçado                                       
E eu te espero no Infinito.                                       
             César Coelho                                                         

Humorística
Uma mulata fogosa
mais quente que dez fogueiras
deixa a galera nervosa
ao balançar as cadeiras.
             Moreira Lopes

A Trova e os Trovadores

                              Canto meu canto de Amor,
                              Canto meu canto de Paz,
                              É próprio do Trovador
                              Pôr no verso o que lhe apraz...

Trovador: 

1- Designação dos poetas líricos dos séculos XII e XIII, que se expressavam na chamada língua d’Oc, falada no sul da França, especialmente na Provença. 

2- Designação dos poetas líricos portugueses que nos últimos séculos da Idade Média seguiam o estilo dos poetas provençais.

     Sabemos que na I. M. apenas os clérigos e alguns nobres tinham acesso à cultura, ao estudo das letras, e havia mesmo reis que não sabiam ler ou escrever. Os livros eram escritos à mão e, por isto mesmo, peças raras e de alto custo. A poesia era ligada à música. Os poetas cantavam seus poemas ao som de instrumentos musicais e tinham sempre como tema as Canções de Gesta – que eram poemas épicos, isto é, narrativas de feitos heróicos, das lutas sangrentas muito comuns na realidade daqueles tempos.

     No ano de 1096, Guilherme IX, Duque de Aquitânia e Conde de Poitiers, que era um dos poderosos da época, um homem cortês, sabia fazer versos, porém era reconhecidamente conquistador de mulheres. Procurando achar uma forma de chegar aos seus corações, encontrou, criando um poema onde falava de amor, da sinceridade do sentimento amoroso e da sua intensidade.  Esta forma de poema passou a ser chamada “Le trobar” na língua d’Oc que correspondia em francês ao verbo “trouver”, encontrar.  Daí, os que cantavam o “trobar”  - o Canto de Amor – passaram a ser chamados “troubadours”, isto é, aqueles que acham.

     Assim, Guilherme IX fez o primeiro  “canto cortês”, que falava de amor, na maioria das vezes de amores impossíveis, o que fazia eco nos corações apaixonados, enchendo de animação as noites nos castelos da chamada “idade das trevas”.

    Nasceu, então, a Cantiga Trovadoresca que representou o despertar da cultura leiga, desvinculada da cultura teocêntrica imposta pela Igreja.

     Hoje Guilherme IX é considerado o primeiro Trovador e o mais antigo poeta da língua d’Oc, a língua falada na Aquitânia, região que passou a pertencer à França, na região Sul, a Provença.  Na região norte, onde era falada a língua d’Oil,  os poetas  eram denominados “Trouveres”.  A Língua Romana, que era o latim vulgar falado pelo povo, originou  algumas formas regionais de falar, as quais, com o tempo, deram origem às chamadas línguas neolatinas – Português, Francês, Italiano e Espanhol.

     Não podemos desconhecer a figura de Aliénor de Aquitânia, neta e herdeira de Guilherme IX, que introduziu na Corte do reino da França quando Rainha de Luís VII e, também, na do reino da Inglaterra,quando Rainha de Henrique II Plantageneta, a cultura da língua d’Oc na qual se exprimiam os trovadores.

     Nos seus poemas o trovador cantava para a amada e pela amada, isto é, no seu canto ele fazia declarações de amor às quais ele mesmo respondia em nome dela. Os versos eram inspirados em acontecimentos da corte ou, na maioria das vezes, em romances fictícios.

     Os trovadores iam de castelo em castelo onde eram recebidos com cortesia porque, além dos seus cantos, eles eram fonte de notícias de outras cortes, naquele tempo de tão difícil comunicação. Os versos eram cantados ao som de instrumentos musicais, e aqui vale lembrar os nossos cantadores ou violeiros nordestinos.

    A Cantiga Trovadoresca, cultura dos poetas provençais, era o gênero mais popular naquela época medieval e espalhou-se além-fronteiras. Em Portugal, somente após 100 anos, no final do século XII, foi escrito o texto considerado o mais antigo canto galego-português. O movimento trovador ganhou espaço em Portugal e na Espanha e foi denominado Trovadorismo.

Tempos depois, D. Dinis, sexto rei de Portugal, o Rei poeta, promove a cultura e transforma a Corte num dos mais fecundos centros literários da Península Ibérica. Não somente incentivou os trovadores na sua corte promovendo saraus palacianos, como era, ele mesmo, um grande trovador.  A poesia, sob a forma de cantigas, foi, nessa época, a principal expressão literária de Portugal, embora tenha havido também uma pequena produção em prosa e teatro.  D. Dinis substituiu o latim pela língua vulgar portuguesa nos documentos oficiais. O Português chamado moderno surgiu somente no século XVI.

      As cantigas chegaram até nós por meio dos Cancioneiros, que eram coletâneas de poemas de vários autores.

     A literatura portuguesa exerceu grande influência sobre a literatura brasileira desde o período colonial.  A trova passou a ser cultivada a partir de 1950. O poeta J.G.de Araújo Jorge denominou Trovismo o movimento que deu lugar de destaque à trova nos meios literários brasileiros.  Em 1966, pela liderança de Luiz Otávio, foi fundada a União Brasileira de Trovadores - Nacional. O “Dia do trovador” foi fixado para 18 de julho, e São Francisco de Assis foi escolhido o patrono dos trovadores.

 A UBT de Fortaleza foi criada em 1969, em reunião que aconteceu na Casa de Juvenal Galeno, e por ela passaram trovadores da mais alta expressividade. É atualmente presidida pelo trovador e jornalista Vicente Alencar e tem como Presidente de Honra Gutemberg Liberato de Andrade.  Em suas reuniões mensais, às 10h00 do 1° sábado de cada mês,  conta com a participação de excelentes trovadores que amam verdadeiramente a trova e a fazem com maestria.
                           
                           Doce feitiço de amor
                           tem a trova, bem guardado,
                           porque todo trovador
                          é, por ela, apaixonado!

                                             Zenaide Braga Marçal – UBT-Fortaleza
                                             Fortaleza, 26 de janeiro de 2017 

Fontes de pesquisa:
La Poesie Occitane – René de Nelli
Documentos – Gutemberg Liberato de Andrade
Literature Française Pour les Nuls – Jean Joseph Julau
Panorama da Literatura Portuguesa – Roberto Cereja e Thereza Magalhães