sexta-feira, 19 de maio de 2017

VIANNEY MESQUITA


   SONETO VAI, SONETILHO VEM
  
                                                           Vianney Mesquita*

             Sentimental é o homem que vê um valor absurdo em tudo e não sabe o preço exato de nada. (OSCAR Fingal O’Flahertie Wills  WILDE. Dublin, 16.10.1854; Paris, 30.11.1900).


  
             Obtive de Cima a mercê de haver conhecido e privado, por muitos anos, da  companhia e benquerença do magistrado, homem de letras e linguista Dr. Sinésio Lustosa Cabral Sobrinho, natural de Várzea Alegre-CE (22.05.1915), autor de qualidade incontendível, cujas obras fazem eco em todo o País, pois docente de língua portuguesa de alçados recursos, poeta inventivo e, em especial,  pessoa de fina educação e esmerada urbanidade.

            O Dr. Sinésio Cabral exerceu a Presidência da Academia Cearense da Língua Portuguesa de 03.03 1984 a 03.03. 1986, tendo ocupado a Cátedra número 03, patroneada pelo filólogo e etnógrafo carioca Antenor Nascentes. Ele editou por quase quarenta anos o Mensageiro da Poesia, ao lume com absoluta regularidade, até seu trânsito para a Dimensão Etérea, em 10 de maio de 2012, às portas dos 97 anos.

            Mencionado periódico –  cujo teor privilegiava poemas e comentários analíticos – chegava aos consulentes sem nenhum custo, pois as despesas de produção gráfica e editorial, bem assim os dispêndios de postagem, corriam a expensas dele, numa louvável peleja para que não afracasse a prática do metro no nosso meio.

            Enviei-lhe, certa vez, algumas colaborações, a primeira das quais foi publicada no número 209, relativo a abril de 2004, registada na coluna Recebemos e Agradecemos. Aqui a reproduzo – o soneto que foi, como também o faço  com o sonetilho de resposta – ambos publicados no meu Arquiteto a Posteriori – Apreciações Críticas (Fortaleza: Imprensa Universitária da UFC, 2013).



                                    BILHETE


                        Sinésio amigo, muito boa tarde,
                        Neste nubloso mês de fevereiro.
                        A Graça Inata eternamente o guarde
                        E a todo o contingente seu herdeiro.

                        Assinta, por favor, ficar ciente:
                        Grande afeição eu por você sustento,
                        Porquanto este mundo é carecente
                        De benquerer e paz – da vida o alento.

                        Precisamos, também, neste comenos,
                        Agricultemos traços bem amenos
                        Para não amargarmos a desdita.

                        De sua atenção na expectativa,
                        Aguardo uma resposta positiva
                        Com os amplexos do Vianney Mesquita.


            A resposta ao Bilhete excele em qualidade poética e graça na técnica da versificação. Diverso de mim, ao aplicar o decassilábico do pé português, ele se firmou no sonetilho, composição não obrigada ao rigorismo canônico no tocante às rimas das quadras e trísticos.

            Feito, então, excelso poeta, obediente às medidas, aprestou a consonância métrica das estâncias, aplicando o verso redondilho maior – ou de arte menor – isto é, com sete acentos (ictos), semelhante ao da escrita de cordel nordestina, fazendo consoar nas quadras o primo verso da primeira estrofe com o quarto desta e o secundário e quaternário da segunda.

            Consociou, entrementes, o segundo verso da primeira estância com o quarto desta e o secundário e o quarto versos da segunda.

            Já nos tercetos, rimou o primeiro do trístico número um com o terceiro deste e o segundo do último; e o segundo pé do primeiro com o primo e o terceiro do outro conjunto de três versos. Com efeito, nas quadras, aplicou ABAB-ABAB, ao passo que nos trísticos utilizou-se da craveira compositiva ABABAB.

            Como desfecho destas notas, onde descansa a saudade da enorme pessoa que foi Sinésio Lustosa Cabral Sobrinho, comprovemos seu estro e apreciemos o quinau a este escrevente, em castigo pelo mau soneto Bilhete.




                                    S O N E T I L H O


                        Meu caro Vianney Mesquita,
                        Em seu bilhete ouço a voz
                        De quem não quer que a desdita
                        Projete sombra entre nós.

                        E sobre a afeição descrita,
                        Ao dizê-la tanto a sós,
                        No papel me trouxe escrita
                        Bem oito dias após.

                        Dando conta do recado,
                        Em sonetilho, afinal,
                        Relembro: bem-humorado,

                        Sim, no apê residencial,
                        Com meu abraço apertado
                        Do irmão. Sinésio Cabral.


quarta-feira, 10 de maio de 2017

SETE, NOVO LIVRO DE POEMAS DE JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO



"Sete" é o novo livro de poemas de José Inácio Vieira de Melo. Publicado pela editora 7Letras, a obra, que é permeada pela mística que envolve o número 7, tem lançamento marcado em Fortaleza para 25 de maio (quinta-feira), no Bar Outras Palavras, Rua Ana Bilhar, 1470, Varjota, às 19:30 h.

Durante o lançamento, será apresentado pelo escritor o recital "JIVM pintando o SETE".

Com o livro "Sete" José Inácio foi o vencedor, na categoria melhor autor, do Prêmio QUEM 2015. Ele esteve na cerimônia de entrega dos prêmios realizada no Grand Mercure Rio de Janeiro Riocenter na noite de terça-feira (22/03/2016).

Como o próprio título indica, "Sete" é o sétimo livro de José Inácio. Está dividido em sete capítulos, que, por sua vez, estão divididos em sete partes, e cada parte, divididas em sete estrofes.

O livro conta com apresentação do ficcionista e dramaturgo Ronaldo Correia de Brito e dos poetas Salgado Maranhão e Thiago de Mello. A fotografia é do mineiro Ricardo Prado e as capas e ilustrações são da artista plástica pernambucana Hallina Beltrão. Outra peculiaridade do "Sete" é que ele tem três capas diferentes.

A obra de JIVM tem alcançado considerável reconhecimento de público e tem merecido a atenção de grandes nomes da literatura de língua portuguesa – como Affonso Romano de Sant’Anna, Ruy Espinheira Filho, Fernando Py, Casimiro de Brito e Gonçalo M. Tavares, assim como dos saudosos Lêdo Ivo, Moacir Scliar e Hélio Pólvora.

José Inácio Vieira de Melo (1968), alagoano radicado na Bahia, é poeta, jornalista e produtor cultural. Publicou os livros Códigos do silêncio (2000), Decifração de abismos (2002), A terceira romaria (2005), A infância do Centauro (2007), Roseiral (2010), Pedra Só (2012) e as antologia 50 poemas escolhidos pelo autor (2011) e O galope de Ulisses (2014), esta última organizada pelo poeta e ensaísta Igor Fagundes, que defendeu tese de doutorado, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, na qual a obra de JIVM comparece como parte de uma dramaturgia mítico-filosófica. 

Livro: Sete
Autor: José Inácio Vieira de Melo
Capas e ilustrações: Hallina Beltrão
Fotogafia: Ricardo Prado
Editora: 7Letras

Páginas: 108
Preço: R$ 35,00

Contatos: 
José Inácio Vieira de Melo
(73) 8845 5399 / (73) 3526 1936

terça-feira, 9 de maio de 2017

Crítico espanhol defende reconhecimento de Machado de Assis fora do Brasil


Sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras, Maura está no Cairo para a conferência 'O autor e suas máscaras: uma aproximação de Cervantes e Machado de Assis', no Instituto Cervantes, e afirma que, fora de suas fronteiras, o escritor brasileiro "é um grande desconhecido". Em sua opinião, até mesmo no Brasil os estudos sobre Machado de Assis "não refletiram bem" sua faceta de grande crítico do sistema de sua época e da escravidão.



Para ele, o cronista e poeta teve que recorrer à ironia para falar "na surdina" de um tema que não podia ser encarado abertamente por ele ser neto de escravos. Um exemplo disso é Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Segundo Maura, a verdadeira intenção do autor é "colocar o dedo na ferida" da sociedade e para isso se serve de uma sutil alegoria para denunciar que o morto é o próprio Brasil.

A escolha do nome do protagonista, que coincide com o início do nome do país, "não é à toa" para um alguém tão "inteligente e cuidadoso com a linguagem" quanto era Machado de Assis. De acordo com ele, "a crítica brasileira foge" desta interpretação porque "não é fácil aceitar que seu país é um país morto ou esteve morto".

Maura defende que as obras que o romancista e dramaturgo escreveu depois de Memórias Póstumas, como Dom Casmurro ouQuincas Borba, são dos livros "mais importantes de sua geração, não apenas do Brasil, mas de todo o mundo".

Segundo ele, alguns autores de língua espanhola, como Jorge Edwards, Julián Ríos e Carlos Fuentes, destacaram a importância de Machado de Assis, mas o mestre brasileiro ainda carece do merecido reconhecimento mundial.


Antonio Maura (Bilbao, 1953) es licenciado en Filosofía y en periodismo, y es doctor en Filología Románica por la Universidad Complutense de Madrid con la primera tesis defendida en España sobre un escritor brasileño, 'El discurso narrativo de Clarice Lispector' (octubre, 1997).

Entre 2005 y 2009 fue director de la Cátedra de Estudios Brasileños en la Universidad Complutense de Madrid. Además fue profesor visitante en la Universidad Federal de Ceará (Brasil) y director de la Casa de Cultura Hispánica en dicha Universidad (1982-85).

quarta-feira, 3 de maio de 2017

J. UDINE HOMENAGEIA O INESQUECÍVEL BELCHIOR



Em 26 de outubro de 2016, há, portanto, sete meses, foi o aniversário de 70 anos de Belchior. Então, eu fiz este singelo poema em sua homenagem.

IMPROVISO PARA BELCHIOR.
( No dia dos seus 70 anos de idade)

“Por onde andas, Belchior?”
O que deu na tua telha,
Ó fugidio cantor,
Nossa tresmalhada ovelha!
Faz seis anos que partiste,
Que abandonaste a canção,
A deixar o Brasil triste,
Com teu mudo violão!
Fica no ar o suspense:
Por que Belchior foi embora
Da sua terra cearense,
E da Sobral, sua aurora?...
Que crise existencial
Te arrasta mundo afora?
O que há com teu astral
Que a tua vida descora?
Por que abandonaste tudo:
Família, filhos, e a canção?
Por que estás calado e mudo
A vagar na contramão?
Volta, velho Belchior,
O Ceará te espera
Para te ofertar o melhor
Ao calor da primavera!
És, agora, setentão.
E hoje é teu aniversário...
Mas em vazia canção
Face teu triste fadário.
És latino americano,
Bom rapaz do interior...
Por que este vagar insano,
Meu conterrâneo, Belchior?
Volta com a tua canção,
Belas letras, em poesia,
Com o teu disco “Alucinação”
Para a nossa áurea alegria!
Volta! És astro da canção!
Hás de brilhar em astral
Para o Brasil, para a nação,
E para a tua Sobral!
“Por onde andas, Belchior?”
O que deu na tua telha,
Ó fugidio cantor,
Nossa tresmalhada ovelha!
J. Udine – 26-10-2016.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

LANÇAMENTO DE "O SAGRADO NO OLHAR FEMININO"



Graça Roriz Fonteles, da Academia Fortalezense de Letras, lançará mais uma pérola da nossa literatura. Trata-se do livro "O Sagrado no Olhar Feminino", com lançamento pela Editora Mackenzie, em São Paulo.

A autora fará, em seguida, um outro lançamento, aqui, em Fortaleza. Todos estamos ansiosos para ter em mão essa sua mais recente obra.

Confira o convite.


CONVITE


domingo, 23 de abril de 2017

ENSAIO DE VIANNEY MESQUITA



A GENTE NO LUGAR DE EU, NÓS, SE, NINGUÉM ETC.
Efeito Síncrono-Diacrônico, Desleixo Elocutório ou Emprego Inocente?*

Vianney Mesquita**


                                            A língua é uma cidade para cuja construção cada ente humano contribuiu com uma pedra. (EMERSON, Ralph Waldo). (1985-v2, p. 295).


RESUMO. Procura-se demonstrar e critica-se a aplicação fenomenicamente exagerada, no Brasil, em todos os quadrantes de fala e nalguns de escrita, do sestro frasal A Gente, fora de sua acepção coloquial. Em pesquisa direta, foram eleitos e ouvidos, em uma capital de Estado do NE brasileiro (março-2017), quatro grupos mensageiros de propagação coletiva – uma emissora de rádio comercial e uma radiodifusora acadêmica, duas de TV, sendo uma de Universidade, acessados por via eletrônica; e, em Fortaleza-CE, uma homilia de Missa da Igreja Católica Romana. Em 131 minutos de audiência dos segmentos investigados, detectaram-se 90 emissões de A Gente, das quais 81 com aplicação incorreta e poucos substitutivos do conjunto vocabular sob exame - Eu, Nós Se e Ninguém - ressaltando-se o fato de a emissora radiofônica universitária não haver emitido, uma vez só, a dição ora estudada com o aguardado e necessário apuro. Restaram investigadas as possíveis razões dessa assiduidade elocutória, superabundante e maléfica, com probabilidade de assento em efeito sincrônico-diacrônico (antes do experimento efetivado) e/ou incúria e ingenuidade idiomática. Concluiu-se pelo absoluto descuido em relação às regras da Língua Portuguesa, nomeadamente na ambiência culta e nos veículos para difusão maciça, levemente amortecido pela inocência dos falantes/escreventes, por míngua de escolaridade. Não há, também, tirante melhor juízo, efeito sincrônico-diacrônico, mas mero desatendimento às normas específicas.
Palavras-chave: A Gente; Língua Portuguesa; Exagero Elocutório; Sincronia-Diacronia; Emprego Ingênuo.
Key-words: Us; (We; The Persons); Portuguese Language; Eloquent Exaggeration; Synchrony-Diacrony; Naive Aplication.




*A fim de demonstrar a desrazão do costume sobrante e antiestético, até mesmo com vistas a lhe evidenciar a desnecessidade, não se recorreu, em nenhuma ocasião deste ensaio, ao termo QUE em qualquer uma de suas taxinomias como classe de palavra.

SUMÁRIO. 1. Notações Introdutórias. 2. Ingenuidade na Proposição de A Gente; 3. Produto das Audiências. 4. Empregos de A Gente; 5. Sincronia-Diacronia; 6. Negligência e Impropriedade na Exposição Ideativa. 7. À Maneira de Encerramento. Referências Bibliográficas.


1 NOTAÇÕES INTRODUTÓRIAS

    Diversamente de outras investigações, sujeitas por correta orientação da Metodologia Científica às regras desta porção do saber preceituado, este experimento esgueira-se um pouco dos compreendimentos de tal ordenação (MARTINHO RODRIGUES, 2007), ao trazer, antes mesmo das discussões alusivas ao temário debatido, os resultados de uma demanda pessoal, reservada e de moção própria, portanto, deseixada de exigência universitária, tampouco efetivada, em atendimento remunerado, a uma contratação de serviço por parte de alguém.
A decisão de ao texto aportar, como de bate-pronto, os indicadores resultantes de uma audição de cinco segmentos, expostos a algumas linhas descendentes e próximas daqui, decorre da facilidade ofertada pela sua exposição antecipada de versar sobre assuntos de grande proveito para a Língua Portuguesa. Estes têm marcha na afixação inadequada e viciosa de palavras desconfiguradas de intenção denotativa e locuções esdrúxulas, nos momentos propícios dos discursos vocal e escrito, neste passo, peculiarizando o aproveitamento impróprio e corrompido – reexprime-se – da dição A Gente, sem prejuízo, todavia, das menções a variadas extravagâncias e idiotismos temporários insculpidos nos repertórios contemporâneos.
     Fere-se a sua temática, trazendo-se o propósito inaugural configurado em dinamismo, no prisma de sua conformação expressiva no Português, a qual descansa na conjunção de energias a animarem o ser humano, sendo característica daquele ou daquilo forte, viril, ativo, diligente e vital, passível de empreender mudanças pro rata tempore, no entanto, sem o ferrete do vício nem a mácula da desobediência aos ditames linguísticos.
    Figurativamente, em mediato sentido, a concepção repousa no comportamento de pessoas dotadas de espírito empreendedor, portadoras de força, vontade e poder de ação, como, exempli gratia, acontece com as ações ordinariamente dinâmicas das grandes potências estatais, receptoras dessas qualidades advindas dos próprios compatrícios, solidificadores dos seus status como nações de porte supremo.
    Ato continuo, ajusta-se a ideia, esta vinculada à Filosofia, de reflexão adequada a certos sistemas argumentativos, fazendo afluir o “movimento, a impermanência ou o devir como a realidade originária do universo, fonte criadora e princípio explicativo da matéria” (HOUAISS; SALLES VILLAR, 2005:1043), bem assim de tudo a se achegar à imobilidade.
    Desse jeito, valendo-se da significação oferecida por dinamismo, intenta-se denotar a noção de o sistema glotológico lusitano, cujos falantes estão em dez países, experimentar as transformações temporais divisadas pelos linguistas, insertas nas depreensões de sincronia-diacronia, mais à frente tocadas de leve, como, verbi gratia, parece acontecer com o termo estranja, localizado da segunda linha do sétimo parágrafo da unidade 5 - SINCRONIA-DIACRONIA - ali invitado, pensadamente, para trazer à colação, pois já não mais ortografado na linguagem atual, ou, se o é, tal inscrição hoje se afigura pouco comum, por haver sido, talvez, esse vocábulo deslembrado pelo fenômeno síncrono/diacrônico, na acepção de estrangeiro.

    Aproveita informar, por ter asado pretexto, os países onde o Português é falado como língua geral, salvante os territórios de Macau (China) e Goa (Índia), onde se o pratica, entretanto sem o estatuto de código oficial de exercício universal: Portugal, Guiné-Bissau, Angola, Cabo Verde, Brasil, Timor Leste, São Tomé e Príncipe e Guiné Equatorial.
    Outro giro conducente desta experimentação, subseguido à movimentação espaçotemporal a presidir as atividades vitais do bípede pensante (FERNANDES, 1999), são as diuturnas forças modificadoras do status quo ante, atinentes à negligência operada contra a Língua Portuguesa por parte de setores da sociedade, em especial a de naturalidade brasílica.
     Ligada ao caso sob escólio, esta é uma ocorrência adulterina redutora de seu vigor, como o registrado no pé bilaquiano relativo à tuba de alto clangor, lira singela (MURICI,1946), respeitável organização semiológica oriunda de matrizes lácicas, com misturas adventícias arábicas, anglo-saxônicas, germânicas, orientais e de outras e muitas procedências, em razão de contingências históricas ligadas ao transato de Portugal como antiga nação dominadora, com atuação em várias partes do Mundo, desde as supernavegações e aquisições territoriais de enorme significação, para subsequente rebatimento no Brasil, um de seus últimos grandes locus de conquista.
    Impõe-se, por apropriado, reportar-se ao influxo linguístico, impresso no vocabulário ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) no Brasil, demarcado pelos movimentos imigratórios – incluindo, evidentemente, as recepções latinas (italianos, espanhóis, franceses et reliqua) - de árabes, japoneses, chineses, coreanos, alemães, escandinavos, turcos, sírios, palestinos, africanos em geral, filipinos e de tantas outras procedências, assentadas, em número mais considerável, no Estado de São Paulo e nas três unidades federadas da Região Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul).
    Entende-se, ainda, ser preciso fazer referência (pois subterfúgios bastantes para deslustrar a Flor do Lácio) às tolices e invenções desarrazoadas da Rede Mundial de Computadores, às quais o intelectual coestaduano Ítalo Gurgel (GURGEL, 2016) chamou, em publicação recente, O Lero-lero da Internet.
    Ali o autor aludiu, em alteado domínio de exame, aos estrangeirismos – uns aceitos, pois recepcionáveis pelo Português, por não haver marcação lexicográfica da substância admitida, enquanto outros merecem reprovação, vedando-se seu exercício, por efeito dos malefícios passíveis de trazer dano à notável codificação glossológica lusitânica. A propósito, na atualidade, esta acontece de ser bem desrespeitada no âmago de suas prescrições, com censurável irresponsabilidade (e esta resulta grave e vergonhosa), no recinto de universidades e institutos de planeamento literário e científico nacionais, nos meios brasileiros de propagação coletiva, como jornal, rádio, televisão, magazines e outros suportes de comunicação maciça, concorrendo, efetivamente, para subtrair a retidão e a plasticidade de um sistema de expressão lingual tão bem aprestado.
    Efetivamente, um dos juízos a pretender conformar os motivos condutores deste relato de pesquisa pausa na circunstância de as pessoas aplicarem vozes e expressões equívocas e inadequadas, com inexata acepção verbal, deslizes na aposição de regras, como imposição de plurais, escorregos de regência verbo-nominal e concordância adjetiva e substantiva, colocação pronominal e toda sorte de desacertos, por negligência e falta de empenho para exercitar esmeradamente as normatizações da Língua e as orientações de elocução, harmonizando, pois, regra, estilo e razões argumentativas.
    Por efetivo, esta sondagem diligencia no senso de fazer evidente a existência de um sem-número de escorregos por demais toscos praticados a desfavor do sistema discursivo vocal e redacional da Professora Doutora Ana Paula Medeiros (Academia Cearense da Língua Portuguesa), significativo da insuficiente prontidão perceptiva de quem os comete, intenção esta acolitada pela indicação da desconveniência de exercê-los. Segundo adiantado há pouco, a inquisição radica na ouvida de circunstantes de cinco ambientes de trato transmissor oral para audiência coletiva, no tentame de se confirmar o suposto de aplicação, generalizada e quase totalmente estropiada, do moto principal deste escrito conformado na conjunção do artigo-substantivo A Gente.
    Em continuidade, desenvolver-se-ão notações relativas ao assinalamento inocente do idioma, eo ipso, por pessoas desprovidas de aviamentos intelectivos formais, maiormente a respeito do uso, à revelia da ambiência corretiva, sítio de utilização restrita da dição objeto de exame.

2 INGENUIDADE NA PROPOSIÇÃO DE A GENTE

    Tocado de leve este argumento no preâmbulo da corrente notação, exibe-se relevante sua abordagem, hajam vistas a imensa conjunção de pessoas sem a escolaridade à altura de realizar a cisão do falso em contraposição ao verdadeiro, pretexto de peso para o sucedimento das bobices e dislates de oralidade e verbalização em texto, transportados para a configuração gráfica.
    Muita vez, a pletora de cabeçadas verbais (da qual é parte A Gente, apontada multiplicadamente neste artigo, se verifica sob a mais absoluta e perdoável inocência de quem as perpetra, pois à míngua de informações escolares e à insuficiência da autodidaxia doméstica. Isto, sem embaraço, dimana da persistência, no País, do elevado indicador de analfabetismo (isto é, de pessoas desprovidas do mínimo de prontidão para ler, escrever e contar), quando confrontado aos Estados de igual perfil de Nação, ora no perpasse de uma crise moral sem antecedentes (2017), com reverberação, principalmente, nas searas da Educação e da Saúde.
    Aqueles responsáveis por essa conjunção de procedimentos estão fora das universidades, não atuam nos meios de propagação massiva, tampouco nas escolas elementares e secundárias, nem nas igrejas de quaisquer confissões, muito menos na literatura. Por isso passam ao largo da presumida reprimenda insertada nesta matéria, até porque os retrocitados procederes têm curso, via de regra, nas conversas informais, de contorno grupal e familiar, exatamente como aparece miudamente aproveitado o padrão ideacional contido em A Gente, a recepcionar a conceição de ingenuidade linguística argumentada no parágrafo imediatamente anterior.
     De consonância com os conceitos emitidos a tal respeito, postados nas considerações de fechamento do corrente escrito, as noções ínsitas a dinamismo, desleixo e utilização inocente podem ou não figurar como justificação para a usança inadequada, nos discursos verbais, tanto orais como escritos, de A Gente, quase eliminando o Se e reduzindo o Eu, o Nós e o Ninguém, outras reservas nas manifestações expressadas em condutores de informes plurais – rádio, televisão, revistas, jornais, folhas virtuais – palestras científicas, respostas a questionários, homilias católicas e de outros credos, discursos políticos, trechos de falas em novelas e entrevistas etc. Tal desiderato de influência está reservado ao módulo das Considerações Finais, onde são trazidos os arrazoamentos a rematarem as alegações de ordem geral exibidos no transcurso de todo este caderno.
     Jungida ao arquétipo do vocábulo dinamismo, tenciona-se, também, fomentar um lábil exame da sincronia-diacronia, em seus aspectos históricos e autorais, sem a presunção de fazer conchegar aditamento algum de inovação ao assunto, até pela grande possibilidade de a atuação síncrono-diacrônica não influir para a constante aparição de incorreções tão teimosas quanto desregradas, conforme assenta na sucedida com A Gente.
    Na sucessão, proceder-se-á, nos moldes metodológicos de uma perquisição simples, bibliográfica (GIL, 2008) e com audiência direta, sem intuito universitário e de vontade espontânea do investigador, ao exame dos motivos de uso, repetidamente abusivo, da unidade ideativa A Gente, exprimindo o agenciador indeterminado, como equivalente a Eu, Nós, Se, Nós, Ninguém et coetera, em todos os quadrantes de fala e, não só, também de acordo com o manifesto em uma de suas significações nas obras lexicográficas, numa contextura verbal somente de âmbito familial, conforme o exemplo trazido por esta vertente: A Gente não o lia, porque não tínhamos vagar (PRADO E SILVA; LOURENÇO FILHO; MARINS, 1979).

3 PRODUTO DAS AUDIÊNCIAS

    Visando a materializar o objetivo deste escrito, assentado em demonstrar o exercício equívoco e reiterado dos pontos ideacionais sob glosa, já se encaminham os resultados de uma busca pessoal, recolhida somente em cinco audições de matéria oral, conforme explicado à frente, com o total de vezes dos termos emitidos, em locais distintos, quatro numa capital estadual nordestina e apenas uma em Fortaleza- CE, em uma igreja de confissão Católica, Apostólica e Romana.
    Importa fazer remissão ao fato de terem sido inclusos na demanda os referenciais básicos da Bioética, expressos em autonomia, não-maleficência, beneficência, justiça e equidade, nos termos da Resolução número 466/2012, do Conselho Nacional de Saúde – MS-Brasil (BRASIL-MS-CNS, 2012), atualizando a de número 196/96.
     Consolidou-se a audição de 131 minutos, com A Gente empregada em 90 oportunidades, sendo três usos no âmbito preconizado pelos regramentos da Língua Portuguesa – nos dez minutos de jornal radiofônico, em entrevistas com pessoas do povo do subúrbio, de escolaridade mínima depreendida, a respeito de segurança nos bairros da capital sob arguição.
     Em acréscimo, seis também restaram certas, apreendidas em dois grupos de sujeitos, não cabendo indicar os exemplos, porquanto está implícita a contextura do recesso pessoal e da contingência de fala em colóquio, duas no programa científico da rádio acadêmica e quatro na homilia da Missa católica, perfazendo nove, como pode ser divisado no Quadro, localizado posteriormente.
    Eis expressas três respostas certas, com exclusividade, para o programa de radiofusão jornalística (nove foram as emissões corretas):
    - “A Gente fica preso e os marginal solto”. (Assim);

    - “A Polícia, envés de proteger A Gente, dá é uma de bandido”. (Assim). E

     - “No bairro do J., é todo tempo os menor butano a faca no pescoço da gente”. (Assim).
   
    Dita procura envolveu, como pode ser visto na ilustração a seguir, os prazos, sujeitos e número de ocorrências da dição A Gente:

a)    dez minutos de um jornal radiofônico – 14 ensejos;

b)    20 minutos de um telejornal – 13 registos (12 repetições);

c)    30 minutos de um programa de variedades do ensino, pesquisa e extensão de uma TV universitária – proferida 22 vezes;

d)    60 minutos de um programa científico-acadêmico, numa estação de rádio universitária – 19 marcações (18 reiterações); e

e)    11 minutos da homilia de uma Missa da Igreja Católica, Apostólica e Romana – 22 ocorrências.

    Verificaram-se, com apontamentos no Diário de Campo, as audiências, respectivamente, nos dias a-18, b-19, c-21, d-17 e e-22 de março de 2017.

    Os indicativos do experimento estão consolidados no Quadro sequente.



Audiência do Emprego de A Gente em Cinco Segmentos de Fala
Março de 2017

SEGMENTO
TEMPO
TOTAL EMISSÕES
APLICAÇÕES
OUTRAS APLICAÇÕES CORRETAS
CORRETAS
INCORRETAS
EU
NÓS
SE
NINGUÉM
Jornal Radiofônico
10 min
14
03
11
-
-
-
-
Telejornal
20 min
13
-
13
01
-
02
-
TV Universitária
30 min
22
-
22
02
07
-
-
Rádio Acadêmica
60 min
19
02
17
-
28
07
-
Homilia (Missa)
11 min
22
04
18
02
08
03
06
T O T A L
131 min
90
09
81
05
43
12
06
Fonte: Elaboração própria. Dados da Pesquisa.


    Conforme se inferiu dos indicadores extraídos dos 90 registos ocorridos nos 131min das cinco audiências, 81 utilizações de A Gente sobejaram ao largo da prescrição das regras, ao determinarem o emprego, privativamente, no círculo familiar, em apontamento na ilustração, sobrando apenas nove sucessos de uso certo.
    De relevância capital, bem se analisa, é o ato de se envolverem programações de duas emissoras de tv e duas de rádio - quatro programas - sendo dois televisivos e dois radiofônicos, dois de perfil científico (um de rádio e um de televisão), inclusivamente na seara de elevados estudos, como mestrados e doutorados, enquanto o outro par, de radiofusão e tv difusora, de teor jornalístico, na contextura dos quais também é requerida correção de linguagem, no circuito da manifestação à grande audiência, dentro dos preceitos técnicos para emissão e recepção de matéria com perfil comunicacional de escopo universal.

    Impõe-se relatar, por oportuno e relativamente necessário, a ausência, dos discursos do emitente radiofônico não universitário, de Eu, Nós, Se e Ninguém para substituir A Gente no decurso dos dez minutos de sua edição, auscultada pela minipesquisa, pois a preferência, em cem por cento dos casos, foi por A Gente (14 ocorrências), três havidas como corretas (falas de entrevistados) e 11 incorretas (discurso do locutor, reproduzindo o redator).

    Entrementes, no telejornal, além das 12 reproduções (isto é, 13 ocasiões, todas defeituosas), a recepção foi de apenas um Eu e dois Ses, sem registro de Ninguém, tampouco de Nós, enquanto no programa televisivo universitário, transpondo o A Gente (22, todas com aplicação equívoca), verificaram-se o Eu em duas passagens, o Nós em sete, sem, contudo, suceder marca de Se, muito menos de Ninguém.

    Na rádio acadêmica, na audiência anotada, não houve Eu, mas aconteceram os substitutivos Nós em 28 passagens e Se em sete, entre 19 A Gente (duas corretas e 17 erradas) e nada do substituto Ninguém.

    Com pertinência à prédica religiosa, esta foi discorrida por um sacerdote católico, de elevada formação intelectual e indiscutível preparo teológico, dotado de esmerada habilidade retórica - sucessos, aliás, já não corriqueiros na atualidade, em relação à clerezia católico-romana.
   
    Dirigiu-se a uma audiência qualificada sob o espectro da instrução formal, todavia sem a observância dos ditames destinados às transmissões verbais (orais e grafadas) para uma oitiva de fiéis de igual confissão, porém, desconhecidos entre si, tal qual se cuidasse de uma aula magna com centenas de assistentes, estado requisitante dos bona da norma culta, a igual dos projetos informativo/científicos das viaturas de informação comunitária, feitos o rádio e a televisão.

    De tal maneira, todas as ocorrências de A Gente, além de pronunciadas duas vezes por minuto (em 11min, 22 frequências), resultaram desobedientes às determinações do discurso no qual há de ser manifesta a Língua Portuguesa, como, certamente, na ocasião descrita. Foram observados, entretanto, dois aparecimentos de Eu, oito de Nós, três de Se e seis de Ninguém (os quais bem poderiam haver substituído A Gente), no concertamento, contudo, de 11 minutos em exposição clara, perfeitamente decodificável, vazada em português escorreito, disposta – repete-se – com requinte oratório pouco comum  hoje, em dia, nas práticas sacerdotais católico-tridentinas.

              Esta míni investigação, sob o ponto de visão metodológico, resulta em demanda direta de audiência por via de observação pessoal, quantiqualitativa e (repete-se) de escolha voluntária do ensaísta e sem propósito acadêmico, também arrimada em consultas livrescas, mormente dicionários e gramáticas, por motivações óbvias.


4 EMPREGOS DE A GENTE


    Quantas vezes A Gente, em busca da ventura
    Procede tal e qual o avozinho infeliz:
    Em vão, por toda parte os óculos procura
    Tendo-os na ponta do nariz.

    (MÁRIO de Miranda QUINTANA. Alegrete, 30 de julho de 1906. Porto Alegre, 05       de maio de 1994). (DELLA NINA, 1985).


    Como divisado na diligência investigativa direta apontada no segmento propedêutico destes comentos, diga-se, sem tenção maior, na audiência a cinco procedências procuradas pela pesquisa, em 131 minutos de oitiva, A Gente sobrou revelada em 90 anotações, das quais apenas nove podem, com rigor, ser apostas nas estremas do aceitável de praxe correta, pois inseridas no pressuposto anotado linhas adiante, origem acreditada na literatura atinente ao tema, o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, 1979, malgrado perfazer 38 anos de sua editoração, faixa insuficiente, salvante melhor raciocínio, para ser acertado pelos tentáculos da taxionomia saussureana - sincronia-diacronia.

    Fenômenos de extraordinária, malsã e ligeira manifestação, as excentricidades elocutórias são teimosas e abrangentes na sua capacidade de compreender a massa, de tomá-la como parceira, em cada estrato comunitário, não importando o patamar cultural onde a audiência está assente.

    Eis o motivo pelo qual A Gente, agora sob exame, parece ser a mais influente e prestigiosa força linguageira em atuação, pelo menos na observação autoral ora explícita, e, sobretudo, se transposta através dos meios para transferência massiva a uma multidão disposta e receptiva, em tese, à absorção de seus teores, pois nesses media deposita crença quase inabalável.

     Sem tir-te nem guar-te, tampouco acanhamento de se confessar, embora provido todo o cuidado, uma vez por outra, se descobre enredado nessa trama aracnídea envolvente e possante, da qual, inadvertidamente se utiliza (somente nos ensejos de fala), enquanto se a rejeita e desaconselha, por estar A Gente avessa, na maioria dos casos, aos cânones linguísticos, aos quais estão sujeitos os produtores de escritos - acadêmicos, em específico.

    Apanha-se, ab initio, no clássico Dicionário Escolar Latino-Português, do lexicólogo, docente de Latim e filólogo carioca Ernesto Faria Junior (Rio de Janeiro, 23.05.1906; 14.03.1962), o sequente extrato:


    Gens, -is, subs. F.1 – Sent. Próprio: 1 Gente (conjunto de pessoas [as quais] pelos       varões se ligam a um antepassado comum, varão e livre) (T. Liv. 38, 58, 2). II = Daí,      por extensão: 2) Família, descendência, raça (Sal. B. Jug. 95, 3). 3) Povo, nação (Cíc.       Rep.3, 7). III – Sent. Poético: 4) Descendente, filho (Verg. En. 10, 228). No pl. gentes, -  Ium, subs. F. pl.: 5) As nações estrangeiras (em oposição aos romanos (Tac. Germ.           33).  (1994, p. 239).


    Já no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (HOUAISS; SALLES VILLAR, p.1443), as informações resultam mais explícitas, com maiores opções de sentidos, conforme vêm. São trazidas, porém, tão-só, algumas significações, até incluir aquela de ordem coloquial, justificativa de A Gente aposta licitamente sob a visão do ordenamento lexicográfico (a derradeira acepção, sublinhada).


    Gente s.f. (s XIII ch. Fich. VPM) 1multidão de pessoas; povo (toda aquela gente    aguarda atendimento há três horas) 2 os habitantes de uma região, país etc; povo (a        gente da roça) (a gente brasileira) 3 o gênero humano, a humanidade 4 número indeterminado de pessoas (havia pouca gente no comício) (tem gente em casa?) 5 B grupo de pessoas [com] o mesmo perfil, interesses, profissão etc. (aquela gente era  muito alternativa para o seu gosto (A gente do mundo empresarial) 6 a família (a minha gente foi passar fora o fim de semana) [...] [...] 10 MIL força armada [...]  a. g. 1 a pessoa [a falar]; eu 2 a pessoa [a falar] em nome de si própria e de outro (s); nós (a gente resolveu se mudar para o campo.[...].  [...]. (Sublinhou-se).

    O Dicionário (há momentos prefalado), entre outros entendimentos, também destaca o extremo terminal imposto no fragmento citado – interrompido com reticências - na acepção 10 do excerto imediatamente acima, todavia, chamando o leitor a tomar tento para a indispensabilidade do contexto privativo, com vistas a se empregar A Gente, porquanto, [...] Na linguagem familiar, precedido do artigo a, exprime o agente indeterminado, equivalendo a se, nós etc., conforme está, neste comenos, na sentença reeditada: “A Gente (com realce) não os lia porque não tínhamos vagar”.
   
    Por consequência, exclusivamente em tal condição, resta admitida a locução A Gente, de molde a esta sobrar defesa aos falantes e escrevedores desvestidos desta determinação normativa, segundo são os casos de professores, produtores de conhecimento mediante obras editadas, jornalistas e agenciadores de informação ao mundo da coletividade.

    Em época nenhuma, foi tão solta, exageradamente desobedecida e desobrigada, a normatização exigível de um idioma, como a ocorrente na quadra fluente com o Português do Brasil, afastando-o da “normal” de linguagem culta, em decorrência de toda uma conjunção de nódoas procedentes dos mais disparatados cacoetes, de todas as nações de erros imagináveis, alguns dos quais aqui se prestaram como exemplo dos ditos destrambelhos. Estes, seguramente, caso prosperem com a robustez ora ensaiada, subtrairão, em futuro mais remoto, ou até em futuro bem acostado, a riqueza, a limpidez e o fulgor de uma língua opulenta, naturalmente esmerada na sua plasticidade e favorecida de uma impressionante polissemia, oferente de ilimitadas possibilidades de composição em todos os gêneros.

    Com a palavra os mentores e adeptos de sua admirável estesia – os silogeus de língua, cultura e arte – para não deixarem tombar paulatinamente, ex-vi de tão inadvertidos enteados, esta gigantesca, velha e operosa sequoia, na qual [...] Camões chorou no exílio amargo o gênio sem ventura e o amor sem brilho.
                                

    5 SINCRONIA-DIACRONIA


    Com o centenário de publicação, ocorrido em 2016, da obra póstuma Course de Linguistique Génerale, subscrito pelo estudioso suíço Ferdinand de Saussure (Genebra, 26.11.1857; Morges, 22.12.1913), organizado por pupilos seus (indicados adiante), também fez centúria o ramalho de saber ordenado, a Linguística, cuja continuidade científica foi operada por esse intelectual helvético, hoje com milhares de seguidores em diversas partes do Mundo, no Ocidente e Oriente.
                                                                                                                                                         
    Em especial, isto sucedeu em virtude da edição do mencionado compêndio, à luz editorial de ex-alunos, arrimados em apontamentos de aula, após três anos do passamento de seu principal, e, hoje, conquanto todo esse lapso transcorrido, se reserva como a publicação mais importante da área, uma espécie de “Monumento às Ciências Humanas”.

     Essa produção, editada em muitas línguas e sucessivas edições e reimpressões, veio a público sob a organização de Charles Bally e Albert Sechehaye, com a colaboração de Albert Riedlinger, e representa um paradigma desta seara sistematizada do conhecimento, ainda ensaiando posição no concerto das ciências semióticas, como seu mais relevante esgalho. Essa procura pela posição definitiva - impõe-se exprimir - acontece no âmbito da normalidade, haja vista o curto período de desenvolvimento científico desde Saussure (cem anos), faixa de duração inepta para o assento e estabelecimento sistematizado e definitivo de um conjunto de saberes.

    A Linguística, decerto, representa o ramo mais preeminente da Semiologia, a Teoria Geral das Representações, a qual inclui os signos sob a totalidade de configurações por estes assumidas, imprimindo ênfase, especificamente, na propriedade de conversão mútua entre os sistemas significantes.
    Tem por objeto: i) a linguagem do ser humano, no concernente aos modos fonético, sintático, semântico, morfológico, psicológico e social; ii) as línguas havidas como estruturas; iii) procedência e evolução das línguas; e iv) as taxionomias em grupos, conforme a estrutura ou de acordo com as famílias, segundo o critério – tipológico ou genético. (SAUSSURE et alii, 2006).

    Este ramo da ordenação científica experimenta diversas subdivisões, como, e.g., Aplicada, Comparada, Chomskyana, Funcional, Gerativo-Transformacional, Geral, Funcional, Histórica – dentre outras – particularizando-se, no caso deste miúdo experimento, a classificação da Sincronia-Diacronia, à qual serão dirigidas as ligeiríssimas referências deste mero empenho investigativo, porquanto as fragmentações taxinômicas susoditas deixam de ser objeto de exame aqui, por não refletirem os proveitos esperados da minipesquisa então relatoriada.

    Na inteligência repetida de autores a mancheias, tanto do Brasil quanto da estranja (aplicação propositada, pois muito pouco vista no ecúmeno de escrita da Língua Portuguesa), tendo sempre por lastro deduções originárias do Linguista genebrino, à Linguística de feição diacrônica compete descrever uma língua ou um segmento desta, incluindo as transformações por via das quais transitou, incorporando tais mudanças ao uso do código estudado no instante de aproveitamento corrente (IBIDEM).

     Isto tem curso, também, conforme repisado até o momento, com o Idioma Lusitano, motivo pelo qual, neste passo, a tenção é sugerir se o exercício exagerado de A Gente  decorre (certamente, disto não deflui), nos escritos e na oralidade brasileiros de hoje, do dinamismo oferecido pela sincronia-diacronia indigitadas por Saussure e seus seguidores na publicação, editada por primeiro e em impressão crítica preparada por Louis-Jean Calvet para as Edições Payot (Paris, julho-1916).

    Nesse mister, a diacronia é opósita a sincronia, uma das chamadas Dicotomias Saussureanas, conforme ocorrem de ser, também, como definido pelo Semiólogo genebrino, outras bifurcações, mencionadas logo à frente. No seu compêndio post mortem, aqui multicitado, o Autor não emprega a unidade nocional dicotomia, de étimo heleno, representativa de “repartido igualmente”. Há, porém, oito compreensões para substanciar as percepções saussureanas, configurados em Diacronia-Sincronia, Língua-Fala, Significante-Significado e Paradigma-Sintagma, dos quais somente são adiante comentados Diacronia-Sincronia e Língua-Fala.

    Ratifica-se, a modo de informação complementar ao leitor, confirmatória da lembrança armazenada desta verdade e ora repescada em nascente credora de fé (LELLO & LELLO, 1993), a notícia de o surgimento da Ciência Linguística se haver dado no apagar do século XVIII, com a descoberta do sânscrito (significa perfeito), antiga língua dos Brâmanes, ainda hoje a verbalização do primitivo Indostão. De efeito, não foi Ferdinand de Saussure seu principal, consoante restará suplementado.

    Anteriormente a Ferdinand de Saussure, era empregado o método histórico-comparativo, ao qual ele deu o nome diacronia. O exame diacrônico ocupa-se das transformações impostas à língua ao compasso do total durável, enquanto a sincronia examina os códigos glotológicos em certo período. Com amparo no par dicotômico diacronia-sincronia, o Neogramático genebrês delimitou a diferença entre fatos sincrônicos e diacrônicos. No caso, os primeiros demarcam ciclo de regularidade linguística e, no mesmo passo, o evento diacrônico perfaz o conjunto sucessivo do fenômeno sincrônico.
   
    Outra lição originária do Linguista suíço de Genebra dormita nas ideações de langue e parole (a dicotomia língua-fala), pois, para ele, a língua é de comunidade, oposta a fala, de caráter individual. Entrementes, a langue é sistemática, estruturada signicamente, tal não ocorrendo com a parole, como já expresso, de aspecto particular. A língua, contrariamente, representa um indicador social e a pessoa se utiliza dela para operar a fala, podendo uma ser estudada separadamente da outra.
   
    Como passada complementária - e pede-se até escusa pelos parênteses - no entanto, não é de todo ocioso participar ao contingente ledor o informe de a região do sul asiático antes mencionada, o Indostão, atualmente, coincidir com os Estados – todos independizados – de Índia (Capital Nova Delhi), Paquistão (Islamabad), Bangladesh (Daca) e Butão (Timfu), bem como os arquipélagos-entes estatais soberanos de Sri-Lanka [antigo Ceilão, a antiquíssima Taprobana) capitais Colombo (executiva) e Kotte (administrativa e legislativa)] e Maldivas ( capital:Male).

    No retorno do fio à meada, e sem a aspiração descabida de desenvolver um epocal enredo da Ciência do especialista Avram Noam Chomsky (East Oak Lake, 07.12.1928 – 89 anos), o Pai da Linguística Moderna, evidenciam-se no seu escorço historial, indicado na fonte imediatamente acima referenciada e da qual se procedeu à leitura livre e com muitos acréscimos, três conjunturas:

    1 foi revelado o nome de Franz Bopp, docente de Filologia e Sânscrito da Universidade de Berlim [Mogúncia (ou Mainz), 1791; Berlim, 1867], compositor da primeira gramática comparada das codificações indo-europeias. Representa o intervalo indicativo de criação dessa vertente do saber ordenado;

    2 reconheceu-se a figura de August Schleicher, teólogo, filósofo e linguista oriental, doutor em Linguística pela Universidade de Bonn (Meningen, 19.01.1821; Iena, 06.12.1868- 47 anos). Escreveu o Compendium (1861-2), na contextura do qual cuidou de reconstituir, com relativo sucesso, a língua-mãe ariana ou indo-europeia. Este foi um período de maior exigência, pois impendia explicar as distinções linguais depois de verificadas as semelhanças; e,

     3 com efeito, foi a vez de Ferdinand de Saussure, alinhado a outros estudiosos, de quem se indicam ligeiros traços biográficos e, a modo de remate das notações respeitantes à Ciência de José Alves Fernandes (Aracoiaba-CE, 21.10.1930; Fortaleza, 17.05.2012), indigitam-se os  dividendos, até a atualidade, das decisões de ensaios empreendidos por este pugilo de notáveis compositores, a propagarem por todo o Globo a ainda centenária e, por isso, novel Ciência dos Signos.

    Segue-se, pois, com breves notícias biográficas e de domínio público, a relação do grupo de neogramáticos da aleia de Ferdinand de Saussure, à disposição, de a quem convier mencionar, em inumeráveis sítios da Rede Mundial de Computadores e em produções não virtuais, em suporte de papel, do recheio das boas bibliotecas.
   
    Henri Joseph Abel Bergoigne – Vimy, 31 de agosto de 1938; La Grave, 06 de agosto de 1888. Orientalista francês. Filólogo e tradutor, professor da Universidade de Sorbonne, especialista em língua e literatura sânscrita.

    Hermann Osthoff – Unna, 18 de abril de 1847; Heidelberg, 7 de maio de 1909. Linguista e filólogo tudesco, membro da Escola Neogramática, influenciadora do indo-europeísmo.

    Pierre Antoine Louis Havet – Paris, 06 de janeiro de 1849; Rochecorbon, 26 de janeiro de 1925. Professor do Colégio de França, latinista e helenista, experto em poesia grega e latina.

    Friedrick Karl Brugmann – Wiesbaden, 16 de março de 1849; Leipzig, 29 de junho de 1919, linguista e neogramático de renome. Escreveu, com Hermann Osthoff, Investigações Morfológicas.

    Archibald Henry Sayce – Gloucester (Gloucestershire), 25 de setembro de 1845; Bath (Somerset), 4 de dezembro de 1933. Este linguista e neogramático grão-britano foi estudioso da língua assíria e dos hieróglifos asiáticos. Filologista comparativo e egiptólogo, foi professor de Assiriologia da Universidade de Oxford-Inglaterra, de 1891 a 1919. Escreveu Gramática Elementar com Silabário Completo e Livro de Leitura Progressiva da Língua Assíria, mais, entre outros trabalhos de vulto, a Introdução à Ciência da Linguagem.

    Como resultado dos seus experimentos, foram estabelecidos alguns princípios, ainda hoje observados, com acréscimos e algumas subtrações, em virtude da própria sincro-diacronia das línguas, ao modo de exprimir vindo na sequência.

    1 As leis fonéticas são absolutas para vogais e consoantes.

    2 Os casos nos quais as leis fonéticas parecem não ter explicação sobram clarificados sempre pela ação da analogia.

    3 A analogia renova e enriquece as línguas.

    4 O Sânscrito não é o representante mais puro da língua-mãe indo-europeia. (IBIDEM, v.2, 73).


6 NEGLIGÊNCIA E IMPROPRIEDADE NA EXPOSIÇÃO IDEATIVA


    Há dezenas de anos inserto no ofício de efetuar revistas de textos acadêmicos, peças literárias e escritos outros dispostos a publicação, confronta-se superabundante rol de deslizes gramaticais, sentenças desprovidas de relato coerente, enganos de razão, redundâncias, aplicações inadequadas das classes gramaticais – seguramente todas, do artigo às interjeições e locuções interjetivas – e uma junção imensa de invencionices, manias e chavões, a empanarem a fulgência da Língua Portuguesa.
     Esse ror de registros vocabulares disparatados, em sua maior parte, tem curso na esfera da Academia, fato lamentável e desabonador da escola elementar e média do Brasil, a qual, em tese, não aprestou o escolar como deveria, comportou-se com frouxidão no respeitante à imprescindibilidade da aprendizagem e de sua aplicação prática, bem assim (des)favoreceu os estudantes terminais com um diploma corrompido pela falsidade de sua certificação, e inócuo, a não ser do ponto de vista legal (ilegal), pela broca de uma ministração acadêmica descometida da indispensável e obrigatória responsabilidade.
    Os (des) favorecidos com tal certificado, porque não logram aprovação no exame vago do ENEM, nem nos concursos vestibulares das escolas melhores, terminam matriculados nas miríades de faculdades (“dificuldades”) e programas a distância, instalados em “cada esquina”, principalmente, das cidades maiores do País.

    Armazenam-se centenas de exemplares de “pérolas” extraídas (concertadas e consertadas durante a revista) de teses de doutorado, dissertações de mestrado, trabalhos de docência-livre, relatórios de pesquisa, memoriais para concurso de professor-titular, livros didáticos e peças assemelhadas, os quais, uma vez reunidos, formariam um volumoso in folio, tal resulta o seu total, lance, porém, não desanimador da vontade de se oferecer, como protótipos, uma meia dúzia de modelos tão desconformes.

    Além dos teimosos e indefectíveis de repente a (à) nível de, processo, questão, enquanto (“eu, enquanto pessoa ...) impacto, impactar, transparente, de ponta, a partir, ferramenta, diferentes isto, diferentes isso, diferentes aquilo, extratos sociais  - este encontrado não apenas três ou quatro vezes em textos até de sociólogos - e muitas muletas de cabeça dura e desparafusadas do discurso verbal, ainda persistem, no Ceará (Estado onde se atua), bem menos, em virtude da ação dos revisores, alguns dos quais excessivamente exigentes e até demasiado cáusticos.

    Alguns desavisados entendem essa função desacertada como significativa de status, pois denotativos de estarem em contato estreito com a lexicografia praticada pela Academia – e nos grandes centros – em dia com a linguagem exercida em universidades e institutos de pesquisa.

    Como se não fosse suficiente o estreitamento vocabular, por falta de conhecimento do léxicon português, esses modismos, frases feitas, chavões e mais e mais asneiras do discurso, maiormente o do âmbito instituições de ensino superior, são substanciosos em suas recalcitrâncias e concorrem, em um crescendo, para depauperar a vernaculidade nacional, pois dições desprovidas de significante e ocas de significado, “sepulcros caiados” da elegância terminológica.
   
    Em disputa acirrada com A Gente – fora da demarcação normal, na familiaridade, no colóquio – são acrescidos os “gerundismos”, na oralidade como no texto verbal escrito – “amanhã, vou estar telefonando para o senhor”; “posso estar trazendo um cafezinho?”; o senhor está querendo um café, uma água?”; e os “participioismos”: “ele tem comparecido diariamente”, em vez de comparece ... ; (“eu sempre tenho observado  (“eu de sobra, pois o verbo conjugado já denota a pessoa), no lugar de observo ... etc. etc.

    Para não encompridar demais a seção e a modo de seu fecho, citam-se as redundâncias, manifestações vocabulares defeituosamente sobejas, as quais pelejam, palmo a palmo, com as deformações insertas em um escrito por má pontuação, sinalização diacrítica imperfeita, desconveniências de conteúdo ortográfico, concordância e regência nominais e verbais, entre a considerável quantidade de delitos gramaticais e ilícitos estilísticos perpetrados contra o Português. Este mau vezo representa indicação liminar de descrédito do bom leitor em relação ao seu autor.

    Adstrita ao escrevinhador despercebido de predicados redacionais ou descuidoso no trato da mensagem, redundância significa, na fala e na escrita, nomeadamente literárias, a descabida insistência na apropriação de assertos antecipadamente enunciados ou tacitamente sensíveis na oração, quer na significação inerente à própria palavra ou mesmo em complemento enganoso e desnecessário a manifestações idiomáticas cujo sentido já se completara.

    Recolhem-se, pois os casos de sorriso nos lábios, sobrevivente vivo, belonave de guerra, gato  felino, pássaro alado, lágrimas nos olhos, encarar de frente, cadáver do defunto morto e elefante de tromba, encontradiços em vários textos, consignas de falas e mensagens de media diversificados, pois as unidades sob exemplo já armazenam nos próprios núcleos a intenção buscada, sem a necessidade de reforço de significação, dando azo, feiosa e equivocadamente, a danos na estesia textual e agravos à lógica da escritura. Em passant, uma das “pérolas” – pássaro alado – foi recolhida de tradução feita por um estudante de doutorado em Física, inserida numa seção do livro Leçons de Mécanique Céleste, de Jules Henri Poincaré.


7 À MANEIRA DE ENCERRAMENTO


    No Brasil, ambiente de acontecimento destas notas, quem lê jornais, periódicos, escritos de teor investigativo-metodológico e assiste a qualquer transmissor de informações maciças, oral e auditivo-visual, bem como a conversas de pessoas e grupos em quaisquer circunstâncias, pode divisar a exorbitância fenomenal, de deixar pasmado aquele mais cuidadoso do trato verbal, na recorrência à unidade de ideia sob exame – A Gente – ao modo como está registado no módulo 3 desta investigação.

    Distante de se ambicionar, manu militari, impingir um ensinamento inflexível e no limite do fundamentalismo, o objeto desta chamada de atenção, contrária e modestamente, exprime-se somente no fito de conduzir o leitor a atentar para a imperfeição da maioria das aplicações desse expediente idiomático. Tal pensamento visa, tão-só, a preservar a normatização da Língua Portuguesa, gravada de tanta estesia e riqueza expressional, procedida por estudiosos de nomeada em todas as suas ramificações disciplinares, em Portugal e no Brasil. Estas são nações onde a população utente, oral e ortograficamente, é maior, enquanto os dois países figuram como lugares de longo decurso analítico no referente à história, evolução e determinações principiológicas desse primoroso idioma, cujos usufrutuários do sistema suplantam, em medida censitária estimada para 2017, o quantitativo de 221 milhões e 532 mil falantes-escreventes – estando a Nação Lusa com pouco mais de quatro por cento desse total (10.270.000), detendo, a seu turno, o Estado Brasileiro os outros mais de noventa e cinco por cento (211.262.000).  

    De tal maneira, bem se alcança pelas anotações da audiência aos cinco segmentos pinçados para ouvida, claramente indicativas de tão sucessivas tachas linguísticas, o aferro empobrecedor ao móvel deste curto experimento, o qual sobra transgressor, como é notório na Seção 4 desta monografia (EMPREGOS DE A GENTE), quando as pessoas em maioria recorrem indevidamente à dita unidade para cobrir todas as acepções de Gente, expendidas pelas obras lexicográficas mencionadas nas Referências bibliográficas destes conceitos, os quais, conforme já antecipado, encerram pouca ou nenhuma presunção.

    Os falantes e escreventes assim o fazem, como se todas as significações de Gente fossem – e não o são - substitutas de Eu, Nós, Se, Ninguém e demais vocábulos suplentes, restando, pois, defeso o recurso a A Gente, a não ser em se cuidando de conversação orografada de aspecto coloquial, consoante resulta, exempli gratia, das respostas de ouvintes do Jornal Radiofônico constantes da seção Produto das Audiências, uma das quais (se repete) é: “A Gente fica preso e os marginal solto”. (Sic).

    Frequente e reiteradamente, se ouve um jornalista de televisão - aqui pelo autor entendido como em um momento não familiar (seja dito), pois um programa de tal quilate reclama língua de cultura - ao ler o roteiro de sua narração, assim falar: “A Gente vai agora a São Paulo, para saber a previsão do tempo, com M.J.C.[...]”.

    De tal molde, parece lícito se debitar, em parte, o mau vezo de A Gente ao descaso ou mesmo intento exercitado, de estudo, para transgredir determinações gramaticais, distantes das gramatiquices, em prejuízo da pureza e da elegância, de acordo com o visto na leitura do quadro explicativo das cinco audiências, inclusas duas transmissoras universitárias, de radioemissão e teledifusão, fato deveras desalentador.

    Também, de acordo com percepção relatada antecipadamente, entende-se desprovida de juízo verossímil a possibilidade de A Gente, quase sempre, tomar os lugares de Eu, Nós, Se, Ninguém etc., atendo-se o fato às compreensões da dicotomia síncrono-diacrônica, denotativa do dinamismo das línguas, referido com rapidez no começo destas opiniões.
   
     Por consequente, resulta descabido, consoante sobeja patente nesse trecho do artigo (5 – SINCRONIA-DIACRONIA), e ainda por sensível insuficiência de motivos, contabilizar o descomedimento de servir-se equivocamente de A Gente à conta da taxionomia há mais de cem anos operada por Ferdinand de Saussure e seus adeptos-continuadores.

    A modo de fechamento sintético desses comentários desafetados, sem a jactância da palavra derradeira e inquestionável, bem ao reboque dos padrões fundamentalistas, declara-se receptivo, portanto, a outras discussões, afigurando-se racional, entretanto, se oferecer resposta à indagação do título, vazada nos argumentos manifestos no curso de todo este escrito: na aplicação hiperbólica e absolutamente generalizada de A Gente na fala-escrita atual, não há efeito síncrono-diacrônico, existindo, todavia, emprego  ingênuo e desleixo idiomático, em virtude da inobservância, muita vez proposital, das uniformizações e regramentos lexicais.

    Pelo latíssimo e geometricamente evolutivo espectro de uso desconforme e universal da expressão comentada - pessoas, meios de propagação coletiva, discurso universitário etc. - não há de se esconder o temor de se haver travado uma batalha perdida.

Desventuradamente ...!
   
             

REFERÊNCIAS


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