segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ANÁLISE SOCRÁTICA DOS TEMPOS ATUAIS - Frei Betto

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei:
"Não foi à aula?" Ela respondeu: "Não, tenho aula à tarde".
Comemorei: "Que bom; então, de manhã, você pode brincar, dormir até mais
tarde"

"Não", retrucou ela, "tenho tanta coisa de manhã..." "Que
tanta coisa?", perguntei. "Aulas de inglês, de balé, de pintura,
piscina", e começou a elencar seu programa de garota robotizada.
Fiquei pensando: "Que pena", a Daniela não disse: "Tenho aula de
meditação!"

Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados,
mas emocionalmente infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis
livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de
ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me
preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito.
Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: "Como estava o defunto? "Olha uma
maravilha, não tinha uma celulite!" Mas como fica a questão da
subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?
A palavra hoje é "entretenimento"; domingo, então, é o dia nacional da
imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se
apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela.
Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que
felicidade é o resultado da soma de prazeres: "Se tomar este refrigerante,
vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!" O
problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira
o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem
resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse
condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver
melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis:
amizades, autoestima, ausência de estresse.
Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as
cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil,
constrói-se um shopping Center. É curioso: a maioria dos shoppings centers
tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de
qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro
sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira
pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela
musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas
capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas
sacerdotisas.

Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar
cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no
purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno...
Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma
mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald...
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: "Estou
apenas fazendo um passeio socrático." Diante de seus olhares espantados,
explico: "Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça
percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o
assediavam, ele respondia:"

- "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser
feliz !"

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